Gente de Guerreiro
Mapeamento dos grupos de Guerreiros ativos e inativos em Alagoas
Inscrito no Livro de Registro do Patrimônio Cultural de Alagoas, na Categoria III – Fontes de expressão musicais, plásticas, cênicas e lúdicas, desde 2019, o Guerreiro é um folguedo genuinamente alagoano, cuja origem remonta aos anos 1930 e se relaciona diretamente com o Reisado. Registros do folclorista Pedro Teixeira indicam que, durante a festa do centenário de Viçosa, em 1931, ocorreu uma transformação importante na configuração do folguedo, quando o Reisado passou a incorporar novos elementos, dando origem ao que hoje se reconhece como Guerreiro.
Ao longo do tempo, a manifestação foi se constituindo como uma expressão autônoma, resultado da incorporação e reorganização de elementos de diferentes folguedos, como Caboclinhos, Chegança, Pastoril, Fandango e Bumba-meu-boi, além de cantigas e repentes desenvolvidos pelos próprios mestres. Esse processo deu forma a uma prática cultural que reúne música, dança, teatro e religiosidade, estruturando-se como uma das expressões mais representativas da cultura popular alagoana.
O reconhecimento do Guerreiro como expressão cultural singular ocorreu ainda nas primeiras décadas de sua consolidação. A manifestação foi mencionada por Arthur Ramos, em 1935, na obra Folk-lore do Brasil, e posteriormente registrada por estudiosos como Théo Brandão, José Aloísio Vilela e Luís da Câmara Cascudo, que contribuíram para afirmar sua identidade no campo dos estudos sobre cultura popular. Impulsionado por eventos e pela circulação de mestres e brincantes, o Guerreiro expandiu sua presença no estado, dando origem a diversos grupos e trajetórias marcantes, como as de Venâncio, Benon, Juvenal Leonardo, Jayme, José de Laurentino, Arthur Morais, Juvenal Domingos, Nivaldo Abdias e Sebastião da Viçosa, entre outros.
Em sua formação tradicional, o Guerreiro apresenta uma estrutura complexa, com mais de 30 personagens, e se destaca pela riqueza de suas encenações, que combinam canto, coreografias, versos e elementos dramáticos. Tradicionalmente vinculado ao ciclo natalino, o auto é realizado entre o período do Natal e o Dia de Reis, reunindo referências religiosas e simbólicas relacionadas ao nascimento do menino Jesus e à visita dos Três Reis Magos.
Desenvolvido tanto em áreas rurais quanto em contextos urbanos, o Guerreiro se consolidou a partir da atuação de mestres fundadores responsáveis por organizar grupos, criar repertórios, definir figurinos, estabelecer personagens e transmitir os saberes associados à brincadeira. Essa transmissão ocorre, em grande parte, de forma oral e vivencial, no interior das famílias e das comunidades, garantindo a continuidade da prática ao longo das gerações.
Apesar do reconhecimento institucional conquistado em 2019, o Guerreiro enfrenta, na atualidade, um cenário de fragilização. Relatos de mestres, brincantes e pesquisadores apontam que a manifestação viveu um período de maior vitalidade em décadas anteriores, quando havia maior número de grupos em atividade, lideranças consolidadas e produção contínua de músicas e apresentações em seus formatos completos.
Nos últimos anos, observa-se uma redução significativa dessas condições. A perda de mestres e lideranças centrais, o baixo engajamento das novas gerações e as dificuldades de manutenção dos grupos têm impactado diretamente a continuidade da prática. Como consequência, as apresentações tornaram-se menos frequentes e, em muitos casos, ocorrem em formatos reduzidos, com tempo e estrutura incompatíveis com a duração tradicional do Guerreiro.
Outro aspecto relevante é a diminuição na criação de novas peças musicais, elemento fundamental para a renovação do repertório. Soma-se a isso o envelhecimento dos brincantes ainda em atividade, o que limita a execução de determinados personagens e coreografias.
Nesse contexto, estabelece-se uma situação de atenção. O Guerreiro alcançou reconhecimento como patrimônio cultural ao mesmo tempo em que enfrenta desafios concretos para sua continuidade. Esse cenário evidencia a importância de iniciativas voltadas ao registro, à documentação e ao mapeamento dos grupos e de seus protagonistas, contribuindo para a preservação da memória e para o fortalecimento das condições de permanência dessa manifestação cultural em Alagoas.

Identidade visual do Gente de Guerreiro
A identidade visual do projeto Gente de Guerreiro, assinada pelo designer Adnael Silva, foi desenvolvida a partir da síntese entre pessoas, território e tradição, princípios que orientam a proposta de pesquisa.
A composição parte de elementos associados ao Guerreiro alagoano, como o chapéu e as fitas, utilizados de forma não literal, como referência à estética e ao movimento do folguedo. As fitas assumem também a função de traçados, sugerindo os fluxos culturais e a ideia de cartografia presente no projeto.
O uso do mapa insere o território como elemento estruturante da identidade, indicando o recorte espacial da pesquisa. Inicialmente centrado em bairros tradicionais de Maceió, o projeto, desde sua criação, já previa expansão para o estado de Alagoas, aspecto também incorporado à construção visual.
A tipografia adota traços orgânicos e firmes, em diálogo com o universo da cultura popular, sem recorrer a soluções caricatas. O conjunto busca expressar pertencimento, memória e continuidade, alinhando-se à proposta de documentar e valorizar a tradição de Guerreiro.

Gente de Guerreiro – Cartografia Cultural e Memórias dos Grupos Tradicionais de Bebedouro e Chã da Jaqueira
Pesquisa em andamento
Inicialmente presente em áreas rurais, o Guerreiro expandiu-se ao longo do século XX e consolidou presença em diferentes regiões de Alagoas, alcançando a capital. Em Maceió, bairros como Chã da Jaqueira e Chã de Bebedouro tornaram-se importantes centros dessa tradição, reunindo mestres e grupos responsáveis pela continuidade da prática.
É nesse contexto que se insere o projeto Gente de Guerreiro – Cartografia Cultural e Memórias dos Grupos Tradicionais de Bebedouro e Chã da Jaqueira, contemplado no Ciclo 1 da Política Nacional Aldir Blanc, do Governo Federal, operacionalizada pela Prefeitura de Maceió, por meio da Secretaria Municipal de Cultura e Economia Criativa (SEMCE). A proposta tem como foco mapear, documentar e valorizar a presença do Guerreiro nesses dois territórios, investigando tanto os grupos em atividade quanto aqueles já extintos, desde que vinculados a essas localidades.
O território é compreendido como espaço de construção de sentidos, onde se inscrevem práticas culturais, memórias e relações sociais, configurando-se como um campo de experiências que reúne trajetórias individuais e coletivas. A pesquisa adota, a partir dessa perspectiva, uma abordagem de cartografia cultural crítica e participativa, combinando mapeamento territorial e narrativas comunitárias.
A partir da construção de mapas coletivos, da identificação de espaços de práticas culturais e da escuta de mestres, brincantes e pesquisadores, o projeto reúne diferentes formas de registro, incluindo entrevistas e documentação fotográfica e audiovisual. A elaboração de cartografia digital, com a incorporação de dados históricos e sociais, amplia essa leitura ao considerar não apenas os territórios físicos, mas também suas dimensões simbólicas e afetivas. Também estão previstas ações de diálogo com estudantes dos dois bairros mencionados na pesquisa.

Gente de Guerreiro – Mapeamento dos Grupos Ativos em Alagoas
Projeto aprovado pelo Edital do Ciclo 2 da PNAB ( Governo de Alagoas)
Presente em diversas regiões do estado, o Guerreiro ocupa lugar central na cultura popular alagoana. Em reconhecimento à sua relevância histórica, simbólica e social, foi inscrito, em 2019, no Livro de Registro do Patrimônio Cultural Imaterial de Alagoas, na Categoria III – Fontes de expressões musicais, plásticas, cênicas e lúdicas.
O projeto Gente de Guerreiro – Mapeamento dos Grupos Ativos em Alagoas, aprovado no Ciclo 2 da Política Nacional Aldir Blanc e operacionalizado no estado pela Secretaria de Estado da Cultura e Economia Criativa (Secult), encontra-se em fase de habilitação, com previsão de início em maio de 2026. A proposta consiste em uma pesquisa de caráter cultural e patrimonial voltada ao levantamento, à documentação e à organização de informações sobre os grupos de Guerreiro atualmente em atividade em Alagoas, com foco em regiões do interior. A iniciativa relaciona o mapeamento dos grupos ativos à memória de mestres e linhagens e à cartografia dos territórios onde essa manifestação cultural se mantém e se transforma, considerando suas dinâmicas culturais e contextos regionais.
Apesar do reconhecimento institucional do Guerreiro como patrimônio imaterial, não existe atualmente um cadastro público sistematizado que reúna informações atualizadas sobre os grupos em atividade, suas localizações, vínculos territoriais, mestres responsáveis e processos de transmissão cultural. Essa lacuna dificulta tanto a formulação de políticas públicas quanto a valorização e a salvaguarda da manifestação em escala regional.
Ao produzir um mapeamento atualizado dos grupos de Guerreiro em atividade, o projeto contribui diretamente para a formulação, o monitoramento e o aprimoramento de políticas públicas de salvaguarda do patrimônio cultural imaterial em âmbito estadual. Os dados sistematizados poderão subsidiar futuras ações de reconhecimento, apoio e fomento aos grupos, além de servir como base para pesquisadores, gestores culturais e para as próprias comunidades detentoras da tradição.
No que se refere à presença atual do Guerreiro em Alagoas, levantamentos parciais e referências dispersas indicam a existência de grupos em atividade, sobretudo em municípios do interior. Esses dados, contudo, não são definitivos, uma vez que não há um inventário oficial atualizado por região administrativa. Soma-se a isso a dinâmica própria dos grupos tradicionais, marcada por períodos de maior ou menor atividade, reconfigurações internas e transmissões familiares ou comunitárias.
A pesquisa parte da compreensão de que os dados disponíveis são parciais e que o mapeamento proposto poderá ampliar, atualizar e qualificar o conhecimento sobre a presença e a distribuição territorial do Guerreiro em Alagoas, tendo como meta a identificação e a documentação de, pelo menos, dez grupos ativos.
Cabe destacar que a equipe do projeto já se encontra em fase de pesquisa, ainda não divulgada, dedicada ao mapeamento e à documentação de grupos de Guerreiro em bairros tradicionais de Maceió, como Bebedouro e Chã da Jaqueira. Esse trabalho tem servido como base metodológica e experiência de campo para a presente proposta. Por essa razão, a pesquisa estadual não contempla o município de Maceió, concentrando-se em grupos situados em outras regiões de Alagoas, assegurando a complementaridade entre as investigações e evitando sobreposição de escopo.
O projeto será desenvolvido a partir de uma abordagem de cartografia cultural, combinando pesquisa documental, entrevistas com mestres e integrantes dos grupos, registros fotográficos e a organização de informações territoriais. Como parte do compromisso de devolutiva social, prevê-se a realização da ação Gente de Guerreiro nas escolas, com atividades de mediação cultural e educação patrimonial em escola pública do interior do estado.
Ao sistematizar dados dispersos e produzir um conjunto organizado de informações, o projeto contribui para a salvaguarda do patrimônio cultural imaterial, fortalece o reconhecimento dos grupos e de seus detentores de saberes e cria uma base de referência acessível para pesquisadores, gestores culturais e comunidades envolvidas, valorizando a diversidade territorial do Guerreiro em Alagoas.
