A trajetória do Guerreiro Vencedor Alagoano é marcada por deslocamentos territoriais, mudanças de liderança e sucessivos esforços para manter o grupo em atividade. Ao longo de décadas, o grupo circulou entre diferentes bairros de Maceió, reuniu mestres, rainhas, músicos e brincantes de várias gerações e construiu uma história profundamente ligada ao Vergel do Lago, à Chã da Jaqueira e à Chã de Bebedouro. Essa trajetória foi possível graças ao compromisso de pessoas que, em diferentes momentos, assumiram a responsabilidade de conduzir o folguedo e preservar os saberes do Guerreiro alagoano.
O Guerreiro entre territórios e lideranças
Natural de Mata Grande, José Tenório dos Santos trabalhou como pedreiro e teve os primeiros contatos com o Reisado ainda jovem, na cidade de Princesa, na Paraíba, onde dançava ao lado do irmão Luiz Tenório. Ao chegar a Maceió e conhecer o Guerreiro, identificou diversas semelhanças entre os dois folguedos e logo se encantou pela manifestação.

Sempre em parceria com o irmão, organizou inicialmente o Guerreiro Mocidade das Alagoas e, posteriormente, criou o Guerreiro Vencedor Alagoano. O grupo iniciou suas atividades no Vergel do Lago e rapidamente se destacou pelo grande número de participantes e pela intensa circulação durante o período natalino. As apresentações atraíam moradores e admiradores por onde passavam, transformando o Guerreiro em uma referência cultural nos territórios que ocupava.
As lembranças de José Tenório revelam as dificuldades de manter um grupo de Guerreiro em atividade. Ele dizia que nunca teve ajuda ou incentivo institucional e que, sempre que mudava de endereço, tratava imediatamente de reorganizar o grupo. “Nunca tive ajuda de ninguém, nem incentivo, só do meu irmão que sempre me acompanhou, dos filhos e de alguns amigos. Quando mudava de endereço, de bairro, chegava e já tratava de formar outro Guerreiro, com o mesmo sucesso, o mesmo esplendor. ” Foi nesse contexto que se aproximou de Juvenal Leonardo, que mais tarde se tornaria uma das principais referências do Vencedor Alagoano.

Natural de Anadia e criado em Pilar, Juvenal conheceu o Guerreiro ainda criança ao acompanhar os ensaios do mestre Artur José, conhecido como Artur Bozó. Aos dez anos confeccionou o primeiro chapéu utilizando talo de palmeira e casca de bananeira e iniciou sua trajetória como Mateu. Mais tarde tornou-se Bandeirinha e, aos 22 anos, já casado e morando em Coqueiro Seco, organizou seu primeiro grupo de Guerreiro como me’stre. Posteriormente mudou-se para Maceió, onde ampliou sua experiência junto a outros grupos e passou a ser reconhecido pela elegância, pela voz forte, pela habilidade de improvisar versos e pela maneira respeitosa e disciplinada com que conduzia os ensaios e apresentações.
A parceria entre José Tenório, Mestre Juvenal e o sargento Wilson marcou uma das fases mais lembradas do Vencedor Alagoano. Instalado no Vergel do Lago, o grupo realizava ensaios aos sábados na sede do sargento Wilson e reunia um expressivo número de brincantes. Os ensaios também se transformavam em momentos de convivência e fortalecimento dos vínculos entre os participantes.
Com a saúde debilitada, o sargento Wilson precisou encerrar as atividades desenvolvidas naquele núcleo. O Guerreiro Vencedor Alagoano passou então por um processo de reorganização e estabeleceu uma nova fase de atuação na Chã da Jaqueira e em Chã de Bebedouro. Foi nesse período que o grupo ampliou sua rede de relações e fortaleceu os laços com outros mestres e brincantes da cultura popular.

Maria Flor tornou-se uma das grandes marcas do Vencedor Alagoano. Depois de integrar o grupo do mestre Jorge Ferreira, foi convidada por José Tenório para assumir o posto de rainha do grupo, permanecendo aproximadamente 25 anos no Vencedor Alagoano. Pequena na estatura, mas grandiosa na presença cênica, era lembrada pela alegria, pela simpatia e pela vaidade. Utilizava roupas reluzentes, muitos anéis, pulseiras e colares e fazia questão de investir em figurinos ricos em brilho e detalhes dourados.
Para Josefina Novaes, o Vencedor Alagoano tinha dois grandes destaques, Mestre Juvenal Leonardo e Maria Flor, cuja presença e beleza chamavam atenção em todas as apresentações. Nesse período, o grupo alcançou uma estrutura expressiva. As memórias dos participantes indicam que o Vencedor Alagoano chegou a reunir aproximadamente 30 integrantes entre mestre, contramestres, músicos, rainha e brincantes dos cordões. As apresentações incluíam personagens e entremeios como Lobisomem, Doido, Sereia, Estrela de Ouro, Lira e Caboclinho, além de um amplo repertório de peças cantadas e improvisadas que enriqueciam o caráter dramático e festivo do folguedo.
As lembranças de antigos participantes também revelam que o grupo ocupou diferentes espaços de ensaio em Maceió. São mencionadas sedes provisórias e locais de encontro no Alto do Céu, em Bebedouro, na Ponta Grossa, na região da Guarda Municipal, na Chã da Jaqueira e no Conjunto Virgem dos Pobres. Essas constantes reorganizações revelam o esforço coletivo de mestres e brincantes para manter o grupo em atividade.
Nos anos seguintes, o estado de saúde de José Tenório passou a limitar sua participação nas atividades do Guerreiro, fazendo com que Mestre Juvenal assumisse gradativamente maiores responsabilidades na condução do grupo. Maria Gonçalves, esposa de José Tenório, acompanhou de perto essa transição e preservou lembranças importantes desse período.
“Meu marido tinha um Guerreiro chamado Vencedor Alagoano e contratava os mestres para cantar, entre eles o seu Juvenal. Eu tinha muita amizade com ele, nos dias de Guerreiro ele vinha muito aqui em casa. Era um mestre muito bacana, tinha uma voz boa, mestrava bonito e dançava com aquelas pernas grandes.” Maria recorda que a relação entre os dois era de amizade, confiança e admiração mútua. “Meu marido sempre dizia: ‘No tempo que eu for embora, cuide do meu Guerreiro’. Quando Tenório adoeceu, o grupo ficou sob os cuidados de Juvenal, e ele cuidou.” Maria também se recorda da beleza das apresentações e da circulação alcançada pelo grupo. “As apresentações eram em vários lugares, tanto aqui no bairro da Chã da Jaqueira como em outras cidades. O Guerreiro já foi até para Recife. As apresentações eram muito boas, muito lindas mesmo.“

Após assumir definitivamente a condução do grupo, Mestre Juvenal reorganizou as atividades do Vencedor Alagoano e conduziu uma nova etapa de sua trajetória. Foi então que o Guerreiro retornou ao Vergel do Lago, onde voltou a estabelecer sua base de atuação. Sob sua liderança, o grupo ampliou sua circulação e fortaleceu sua posição entre os mais importantes grupos.
Reconhecimento, formação e legado
As apresentações ultrapassaram os limites do estado. O grupo realizou viagens para Brasília, participou de apresentações em Salvador e em Pernambuco, e esteve presente em inúmeros municípios alagoanos. Também integrou ações promovidas pela Associação dos Folguedos Populares de Alagoas e participou de diversas edições do projeto Giro dos Folguedos, desenvolvido pela Fundação Municipal de Ação Cultural de Maceió.
Outro importante legado do grupo foi sua atuação em projetos educativos. Mestre Juvenal e Maria Flor participaram do projeto Mestre vai à Escola, dada Secretaria de Estado da Educação, atuando como agentes culturais e criando o Guerreiro das Artes no Núcleo de Expressões Artísticas do CEPA. A iniciativa aproximou estudantes do universo do Guerreiro e contribuiu para a transmissão dos saberes da cultura popular.



O Vencedor Alagoano também foi espaço de formação e convivência para diversos brincantes e músicos. Entre eles estavam Anadeje Morais, que integrou o grupo ainda criança quando o Guerreiro estava sediado no Vergel do Lago; João Tributino, que participou do grupo coordenado por José Tenório e mestrado por Juvenal Leonardo; e Petrúcio Odilon da Silva, zabumbeiro e compositor de peças de Guerreiro que acompanhou o grupo em diversas apresentações. A presença desses e de outros participantes revela a capacidade do Vencedor Alagoano de reunir pessoas de diferentes territórios e gerações em torno da preservação do folguedo.
A relevância do Vencedor Alagoano também pode ser percebida pelos reconhecimentos concedidos a algumas de suas principais lideranças. Em 2005, Mestre Juvenal Leonardo foi reconhecido como Patrimônio Vivo de Alagoas. Quatro anos depois, em 2009, Maria Flor também recebeu o título de Patrimônio Vivo, em reconhecimento à sua longa trajetória como rainha de Guerreiro. No mesmo ano, José Tenório foi agraciado com o Prêmio Mestra Isabel, concedido pelo Ministério da Cultura a importantes representantes das tradições populares brasileiras. Os reconhecimentos recebidos por seus integrantes refletem a importância que o Vencedor Alagoano conquistou na preservação, na transmissão e na valorização do Guerreiro em Alagoas.

Mestre Juvenal permaneceu à frente do Vencedor Alagoano até os últimos anos de vida. Com problemas respiratórios e de circulação, passou a residir em Arapiraca, onde permaneceu sob os cuidados da família. Faleceu em 23 de agosto de 2015, aos 81 anos, deixando uma das trajetórias mais marcantes do Guerreiro alagoano.
Após sua morte, ainda houve uma tentativa de dar continuidade ao Vencedor Alagoano. Sua viúva, Maria Dolores, assumiu a responsabilidade de manter o grupo em atividade e contou com a colaboração do contramestre Lourenço, que também se empenhou em preservar as apresentações e reunir os brincantes remanescentes. Apesar dos esforços, as dificuldades para renovar o quadro de integrantes e as sucessivas perdas de suas lideranças fragilizaram o grupo. Poucos meses após o falecimento de Mestre Juvenal, o contramestre Lourenço também morreu. Tempos depois, Maria Dolores faleceu, encerrando mais uma tentativa de manter vivo o Guerreiro Vencedor Alagoano.
A trajetória do Guerreiro Vencedor Alagoano permanece, contudo, como uma das mais significativas da cultura popular de Alagoas. Construído a partir de sucessivas reorganizações e de uma forte rede de solidariedade entre mestres e brincantes, o grupo transformou o Vergel do Lago, a Chã da Jaqueira e Chã de Bebedouro em territórios de memória, circulação e transmissão dos saberes, deixando um legado que ultrapassa a existência material do próprio folguedo.
Percurso territorial
| Fundação: Segunda metade do século XX |
| Fundador: José Tenório dos Santos |
| Territórios de atuação: Vergel do Lago, Chã da Jaqueira e Chã de Bebedouro, |
| Principais lideranças: José Tenório dos Santos, Mestre Juvenal Leonardo e Maria Flor dos Santos |
| Primeira fase: Organização do grupo no Vergel do Lago, com ensaios realizados na sede do sargento Wilson |
| Segunda fase: reorganização do Guerreiro na Chã da Jaqueira e em Chã de Bebedouro, período de fortalecimento das relações com outros mestres e grupos de cultura popular |
| Terceira fase: Retorno ao Vergel do Lago sob a condução de Mestre Juvenal Leonardo, após o afastamento de José Tenório por questões de saúde |
| Locais de ensaio e encontro: Sede do sargento Wilson, Alto do Céu, Ponta Grossa, região da Guarda Municipal, Chã da Jaqueira, Chã de Bebedouro e Conjunto Virgem dos Pobres |
| Espaços de apresentação: Bairros de Maceió, municípios do interior de Alagoas e eventos promovidos pela Associação dos Folguedos Populares de Alagoas e pela Fundação Municipal de Ação Cultural |
| Circulação interestadual: Cidades de Pernambuco, Salvador e Brasília |
| Projetos educativos: Participação no projeto Mestre vai à Escola e criação do Guerreiro das Artes no Núcleo de Expressões Artísticas do CEPA |
| Reconhecimentos: Mestre Juvenal Leonardo (Patrimônio Vivo de Alagoas, 2005), Maria Flor dos Santos (Patrimônio Vivo de Alagoas, 2009) e José Tenório dos Santos (Prêmio Mestra Isabel, 2009) |
| Tentativa de continuidade: Após o falecimento de Mestre Juvenal, o grupo foi mantido por Maria Dolores e pelo contramestre Lourenço |
| Situação atual: Atividades encerradas |
Créditos da reportagem
Equipe de pesquisa: Iranei Barreto, Nicollas Serafim, Josefina Novaes
Texto: Iranei Barreto
Identidade Visual: Jack Sá
*Texto em constante atualização. A proposta do projeto Gente de Guerreiro é criar um arquivo que reúna o maior número possível de informações sobre os grupos de Guerreiro, ativos e inativos, existentes no estado de Alagoas.
* PNAB MACEIÓ – O projeto “Gente de Guerreiro” é realizado com recursos do Ciclo 1 da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB), operacionalizados pela Prefeitura de Maceió, por meio da Secretaria Municipal de Cultura e Economia Criativa (SEMCE).

