Leão Devorador: Sob coroas e chapéus, a força da mulher no Guerreiro

O Guerreiro Leão Devorador ocupa um lugar de destaque na história da cultura popular alagoana. Fundado em 1988, no bairro da Chã da Jaqueira, em Maceió, o grupo nasceu da iniciativa de duas importantes referências do Guerreiro em Alagoas, a Mestra Maria Vitória da Silva e o Mestre Djalma José de Oliveira, conhecido como Mestre Jayme. Ao longo de mais de três décadas de existência, o Leão Devorador tornou-se um dos grupos mais

reconhecidos do estado, levando o nome da Chã da Jaqueira para diferentes cidades brasileiras e formando gerações de brincantes que encontraram no Guerreiro um espaço de pertencimento, aprendizagem e preservação da memória coletiva.

Inauguração da sede do Guerreiro Leão Devorador | Foto: Acervo da Asfopal

A trajetória do Guerreiro Leão Devorador está diretamente ligada à vida de Mestra Vitória e de sua família. Mestra Vitória nasceu em 2 de novembro de 1938, no município de Viçosa, em Alagoas. Era filha de Jacinto Marques da Silva e de Maria Francisca dos Santos e teve os primeiros contatos com o Guerreiro ainda na infância. Aos oito anos de idade, já participava das brincadeiras ao lado dos familiares. Ao se mudar para Maceió e fixar residência na Chã da Jaqueira, passou a integrar o Guerreiro Vencedor Alagoano, coordenado por José Tenório. Nesse ambiente, conviveu com importantes mestres da tradição, entre eles o mestre Juvenal Leonardo, e construiu laços de amizade e aprendizagem que contribuíram decisivamente para sua formação como brincante e mestra de Guerreiro. Foi também nesse período que conheceu a Rainha Maria Flor, uma de suas melhores amigas e uma importante referência na brincadeira. Mesmo depois de criar e assumir a condução de seu próprio Guerreiro, Mestra Vitória mantinha os vínculos com outros grupos e mestres. Sempre que surgia uma oportunidade, participava de apresentações de Guerreiros como o São Pedro Alagoano, o Vencedor Alagoano e o Campeão do Trenado, fortalecendo as relações de amizade, troca de conhecimentos e colaboração que faziam parte da dinâmica do folguedo.

Mestra Vitória e Mestra Maria Flor | Foto: Acervo Asfopal

A criação do Guerreiro Leão Devorador contou com o incentivo do compadre e amigo Mestre Jayme. Nascido em 2 de maio de 1939, em Belo Jardim, Pernambuco, Djalma José de Oliveira iniciou sua trajetória no Guerreiro aos 13 anos de idade, aprendendo com mestres como Francisco Jupi, João Inácio, de Atalaia, e Ismerita, de Murici. Considerado um profundo conhecedor da brincadeira, destacava-se pela memória, pelo improviso e pelo domínio das diversas partes do Guerreiro. Mestre Jayme costumava dizer: “Não tenho preguiça de nada, muito menos de cantar, sou bom na rima, no improviso e na memória. Não tem uma peça que eu já tenha cantado que tenha esquecido”. Durante muitos anos, atuou como mestre do Leão Devorador, tornando-se um dos principais responsáveis pela condução artística do grupo.

Desde sua fundação, o Leão Devorador enfrentou inúmeros desafios. Os ensaios eram realizados na calçada da residência de Mestra Vitória, aproveitando a iluminação dos postes da rua. Os recursos eram escassos e o apoio institucional praticamente inexistente.

Em depoimento à pesquisadora Josefina Novaes, Mestra Vitória recordou as dificuldades enfrentadas para manter o Leão Devorador em atividade. “Sempre foi muito difícil manter o grupo. Os ensaios eram na calçada, aproveitando a luz do poste. A pouca ajuda, quando vinha, era por parte do professor Ranilson, através da Asfopal, mas ele também não tinha muito apoio.

Mesmo diante das limitações, Mestra Vitória persistiu na manutenção do grupo, investindo recursos próprios na compra de fitas, tecidos e adereços necessários para a confecção dos figurinos e chapéus. Os primeiros chapéus do Guerreiro foram produzidos por seu marido e, posteriormente, confeccionados por Mestre Jayme, que também se destacava pelo cuidado com a indumentária e pela elaboração de chapéus em forma de igreja, uma das características mais emblemáticas do Guerreiro alagoano.

Na Travessa Florestal, onde funcionava a sede do Leão Devorador, Mestra Vitória transformou o local em espaço de encontro, ensaio e transmissão de saberes. Foi naquele pequeno território da Chã da Jaqueira que diferentes gerações de brincantes aprenderam cantorias, personagens e embaixadas do Guerreiro, convertendo a rua em um importante lugar de memória da cultura popular alagoana.

Mestra Vitória e o protagonismo feminino no Guerreiro

Um dos aspectos mais marcantes da trajetória de Mestra Vitória foi sua atuação como Índio Peri. Reconhecida como a única mulher em Alagoas a interpretar esse personagem, considerado uma das figuras centrais e mais vigorosas do Guerreiro, conquistou admiração e respeito por sua desenvoltura cênica e pela intensidade de suas apresentações. O Índio Peri exige força física, domínio corporal e capacidade de interpretação, pois participa das partes dramáticas e das tradicionais lutas de espadas presentes no espetáculo. “Dançar de Índio Peri é muito importante, é uma figura muito forte e muito animada, além do traje que é muito bonito. É uma parte de drama do Guerreiro”, afirmava.

Grupo “A Parte” | Foto: Da internet

Vitória também integrou o grupo “A Parte”, iniciativa dedicada à divulgação e à pesquisa do Guerreiro alagoano, que reunia pesquisadores, folcloristas e mestres da cultura popular. Ao lado de nomes como Catarina Labouré, Sebastian, Telma César e Mestre Verdelinho, participou de ações de difusão do folguedo e integrou o projeto “Sonora Brasil”, promovido pelo Sesc. Durante aproximadamente quarenta dias, percorreu diferentes regiões do país, apresentando o Guerreiro para públicos diversos. A experiência teve grande significado pessoal para a mestra, que utilizou parte dos recursos recebidos para realizar melhorias em sua residência na Chã da Jaqueira.

Ao longo dos anos, o Leão Devorador alcançou amplo reconhecimento, ultrapassando os limites da Chã da Jaqueira e de Maceió. O grupo realizou apresentações em diversas cidades do interior de Alagoas e também em capitais brasileiras, entre elas Salvador, Recife, Fortaleza e São Paulo. A circulação do grupo permitiu que diferentes públicos conhecessem as características do Guerreiro alagoano, marcado pela riqueza das indumentárias, pela musicalidade, pelos personagens e pelas coreografias que combinam teatro, dança e música. O Leão Devorador tornou-se, assim, um importante representante da cultura popular de Alagoas em diferentes contextos de apresentação e intercâmbio cultural.

O reconhecimento institucional de sua trajetória ocorreu em 2007, quando Mestra Vitória passou a integrar o Registro do Patrimônio Vivo de Alagoas, honraria destinada a mestres e mestras que dedicaram suas vidas à preservação das tradições culturais do estado. No ano seguinte, o grupo foi contemplado com o Prêmio Culturas Populares Humberto Maracanã, conquista que possibilitou a inauguração de uma sede própria para o Leão Devorador. Ao comentar a importância daquela conquista, Mestra Vitória declarou: “A inauguração dessa sede me fez muito feliz, foi o dia mais alegre da minha vida, já posso morrer em paz”, revelando o significado daquele espaço construído após décadas de dedicação ao Guerreiro. Poucos meses depois, em 9 de dezembro de 2008, faleceu em decorrência de complicações de saúde, deixando uma profunda lacuna na cultura popular alagoana.

Mestra Vitória | Foto: Celso Brandã/ Acervo de Gustavo Quintella

Anadeje e a missão de manter vivo o Leão Devorador

Após a morte da Mestra Vitória, a condução do Guerreiro Leão Devorador passou para sua filha, Anadeje Morais. Nascida em 25 de setembro de 1955, em Matriz de Camaragibe, Alagoas, Anadeje cresceu acompanhando a mãe nos ensaios, apresentações e viagens dos grupos de Guerreiro. “Aos quatro anos já dançava no guerreiro do mestre Jorge Ferreira, na Chã da Jaqueira, depois no guerreiro Vencedor Alagoano, do mestre Juvenal Leonardo, quando ainda era no bairro do Vergel do Lago, e no guerreiro do mestre Adelmo, em Rio Largo e na Branca de Atalaia, sempre levada por minha mãe que também dançava”, relembrou em entrevista. Com a fundação do Leão Devorador, passou a integrar definitivamente o grupo, desempenhando papéis como Rainha e Lira.

Depois do falecimento da mãe, em 2008, assumiu a responsabilidade de conduzir ensaios e apresentações, lutando para manter vivo o legado herdado. Recebeu, em 2011, o título de Patrimônio Vivo de Alagoas, em reconhecimento ao trabalho e à persistência diante das dificuldades para sustentar o folguedo. “Com a chegada desse incentivo, poderei continuar com o guerreiro. Estava ficando difícil, pensei várias vezes em desistir, mas com o primeiro pagamento, providenciarei novas roupas e restaurarei as apresentações”, dizia na época, esperançosa.

Ao assumir a coordenação do Guerreiro, Anadeje encontrou um cenário muito diferente daquele vivido nas décadas anteriores. Além das limitações financeiras, enfrentou o desafio de manter um folguedo que depende da participação de numerosos personagens e do conhecimento específico de suas partes. Em entrevistas, relatava a dificuldade de encontrar pessoas

Mestra Anadeje | Foto: Acervo da Asfopal

dispostas a aprender a brincadeira e assumir papéis como rainha, embaixadores, Índio Peri, Lira, Estrelas, Mateus e palhaços. A redução do número de brincantes comprometia os ensaios e as apresentações e revelava um dos principais desafios enfrentados pelos grupos tradicionais de Guerreiro na contemporaneidade. Tornava-se cada vez mais difícil renovar o quadro de participantes e assegurar a transmissão dos saberes às novas gerações.

As memórias preservadas pelos brincantes e familiares revelam a importância do Leão Devorador para a vida cultural da Chã da Jaqueira. Ao recordar o período em que integrou o grupo, a brincante Solange Leite destacou a intensa movimentação que o Guerreiro mantinha na comunidade e as constantes apresentações realizadas pelo grupo. “Eu passei muito tempo dançando no Guerreiro da dona Vitória. A gente sempre ensaiava aos sábados e no domingo já se apresentava, até mesmo aqui na Chã da Jaqueira. Era muita gente naquele tempo, muitas figuras, era muito bom, aproveitei tanto aqueles momentos. Fomos até para Fortaleza com o grupo dela. Era muito animado, muita gente chegava para olhar o Guerreiro dançando. Todo mundo aplaudia, achava bonito. Eu não perdia um”. Ao refletir sobre a situação atual do folguedo na comunidade, lamenta que “praticamente, a cultura do Guerreiro aqui acabou.

As lembranças de Carlos Alberto, neto de Mestra Vitória e filho de Anadeje Morais, também ajudam a compreender a dimensão humana dessas duas mestras e a relação afetiva construída em torno do Guerreiro Leão Devorador. “A convivência com minha vó era maravilhosa, minha vó era tudo para mim. O único neto que ela confiava era eu, e me levava para todo canto”. Segundo ele, foi Mestra Vitória quem o incentivou a ingressar na brincadeira. “Ela foi quem me incentivou a começar a brincar como caboclinho. Eu era pequeno e queria ser embaixador, mas o chapéu era muito grande para mim. Aí passei para vassalo, depois embaixador e entremeio”. Carlos também recorda a intensa movimentação que o grupo mantinha na Chã da Jaqueira. “Quando ela estava viva, lá na Chã da Jaqueira era muito movimentado. Nos apresentávamos na sede, em frente às igrejas, sempre com muita gente, e era maravilhoso. Viajávamos bastante, de dezembro a janeiro, durante as festas de Natal, e fomos para várias cidades do interior”. Ao falar sobre as apresentações da avó, Carlos não esconde a emoção. “Era maravilhoso vê-la se apresentando. Tem coisas que eu não sei explicar direito, fico até emocionado. Minha vó era muito sorridente, só vivia rindo. Em vida ela foi muito respeitada, em todo canto que chegava o pessoal abraçava, tirava foto com ela”.

Mesmo antes de adoecer, Anadeje já sentia o peso de levar adiante o folguedo em meio ao desinteresse dos mais jovens e à falta de novos integrantes. O grupo, que já reunira cerca de trinta brincantes de diferentes idades, foi perdendo integrantes até que as apresentações se tornaram cada vez mais raras. “A última vez que a gente se apresentou, se não me engano, foi lá no Centro, no calçadão do comércio. Depois disso, o Guerreiro encerrou suas atividades”, relembra Carlos.

Mestra Anadeje ao lado da homenagem a sua mãe, Mestra Vitória | Foto: Acervo da família
 
#PraCegoVer: A imagem mostra Mestra Anadeje em pé, usando blusa vermelha, calça preta e um colar com medalhão colorido. Ao seu lado há um grande painel com a fotografia da Mestra Vitória vestida com traje de Guerreiro e usando um imponente chapéu ornamentado com contas coloridas. Mestra Vitória está posicionada diante de uma das laterais do painel, em um ambiente interno de paredes claras.

Com o falecimento de Anadeje Morais, em 2 de março de 2023, aos 67 anos de idade, encerrou-se também a trajetória de um dos mais importantes grupos de Guerreiro de Alagoas. Criado em meio a dificuldades financeiras, sustentado pela dedicação de seus mestres e alimentado pelo envolvimento da comunidade da Chã da Jaqueira, o Leão Devorador tornou-se uma referência do Guerreiro alagoano. Embora as apresentações tenham cessado, permanecem as memórias de Mestra Vitória, Mestre Jayme e Anadeje Morais, os ensinamentos transmitidos aos brincantes e o legado de resistência de uma tradição que marcou profundamente a história da cultura popular de Alagoas.

Percurso territorial
Fundação: 1988
Território: Chã da Jaqueira, Maceió (AL)
Mestres: Mestra Vitória, Mestre Jayme e Anadeje Morais
Local dos ensaios: calçada da residência de Mestra Vitória e na sede
Sede do grupo: Travessa Florestal, Chã da Jaqueira
Espaços de apresentação: igrejas, espaços comunitários da Chã da Jaqueira, Centro de Maceió e cidades do interior de Alagoas
Circulação: Salvador, Recife, Fortaleza e São Paulo
Situação atual: Atividades encerradas

Créditos da reportagem

Equipe de pesquisa:  Iranei Barreto, Nicollas Serafim, Josefina Novaes

Texto: Iranei Barreto

Identidade Visual: Jack Sá

Créditos das imagens: Da internet


*Texto em constante atualização. A proposta do projeto Gente de Guerreiro é criar um arquivo que reúna o maior número possível de informações sobre os grupos de Guerreiro, ativos e inativos, existentes no estado de Alagoas.

* PNAB MACEIÓ – O projeto “Gente de Guerreiro” é realizado com recursos do Ciclo 1 da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB), operacionalizados pela Prefeitura de Maceió, por meio da Secretaria Municipal de Cultura e Economia Criativa (SEMCE).

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