O Guerreiro São Pedro Alagoano demonstra como as manifestações da cultura popular dependem do compromisso de mestres, famílias e comunidades que se recusam a deixar desaparecer os conhecimentos recebidos de gerações anteriores. Criado em 1998 por Mestre Juvenal Domingos e Maria José da Conceição, o grupo foi se constituindo a partir do envolvimento de crianças, jovens, adultos e idosos, tornando-se um espaço de convivência, aprendizado e transmissão das práticas ligadas ao Guerreiro alagoano.

A origem do grupo está diretamente relacionada à Chã da Jaqueira, território onde Mestre Juvenal residia e desenvolveu grande parte de suas atividades culturais. Foi nesse bairro que estabeleceu vínculos com os moradores, reuniu participantes de diferentes idades e organizou as bases que permitiram a criação do Guerreiro São Pedro Alagoano. Posteriormente, as ações também passaram a ocorrer no Conjunto Luiz Pedro I, no bairro Petrópolis, onde o grupo segue desenvolvendo seu trabalho. Desde sua criação, o Guerreiro mantém sua atuação entre esses dois territórios de Maceió.
A história do grupo pode ser compreendida em duas fases principais. A primeira está ligada à atuação de Mestre Juvenal Domingos e Maria José da Conceição, responsáveis pela fundação, organização e manutenção do Guerreiro. A segunda corresponde ao período atual, iniciado sob a condução de Mestra Marlene, que assumiu a responsabilidade de dar seguimento às atividades do grupo após o falecimento de Maria e o adoecimento de Juvenal.
Mestre Juvenal Domingos e a criação do grupo
Reconhecido como Patrimônio Vivo de Alagoas em 2010, Mestre Juvenal Domingos já acumulava uma ampla experiência com o Guerreiro antes da criação do São Pedro Alagoano. Ao longo de décadas, construiu conhecimentos sobre cantigas, embaixadas, personagens, figurinos e formas de organização do folguedo, tornando-se uma referência para diferentes gerações de brincantes.

Nascido em 25 de novembro de 1936, no município de São Luís do Quitunde, Juvenal Domingos teve contato com as manifestações populares ainda na infância. Após perder a mãe muito cedo, foi morar na região da Usina Utinga Leão, onde passou a acompanhar apresentações de Guerreiro e demonstrou interesse pelas cantigas e pelos personagens do folguedo. Sua formação ocorreu ao lado de importantes nomes do Guerreiro alagoano. Aprendeu com o mestre Amaro Batista, posteriormente com a mestra Joana Gajuru e também com os mestres Jorge Ferreira e Benon, referências que contribuíram para a ampliação de seus conhecimentos e para a formação como mestre.
Em 1998, ao lado de sua esposa, Maria José da Conceição, Mestre Juvenal criou o Guerreiro São Pedro Alagoano. O grupo nasceu da dedicação do casal à cultura popular e do desejo de manter em atividade uma manifestação que fazia parte de suas vidas.
Sob sua condução, o grupo ultrapassou os limites de Maceió e realizou apresentações em diversas cidades alagoanas e em outros estados brasileiros, entre eles Piauí, Pernambuco e Ceará, além de Brasília. Essa circulação permitiu apresentar a singularidade do Guerreiro alagoano a diferentes públicos e ampliar o reconhecimento do trabalho realizado pelo São Pedro Alagoano.



Além das apresentações, o grupo também se constituía como um espaço de convivência e aprendizado. Os ensaios, realizados semanalmente, eram marcados pela animação e costumavam reunir um grande número de moradores, visitantes e pessoas curiosas em conhecer o Guerreiro. Nesse ambiente de encontros e trocas, os brincantes aprendiam as peças, os movimentos e a dinâmica do folguedo pela observação, pela repetição e pela convivência com os integrantes mais experientes. Assim, o Guerreiro São Pedro Alagoano foi se tornando um importante espaço de transmissão de conhecimentos, de fortalecimento dos vínculos comunitários e de construção de pertencimento.
Maria José da Conceição e o amor pelo Guerreiro
Ao lado de Mestre Juvenal esteve Maria José da Conceição, personagem fundamental na história do grupo. Nascida em 19 de setembro de 1941, em Capela, Maria também iniciou sua relação com o Guerreiro ainda na infância. Aos seis anos de idade, começou a dançar com Mestre Cícero Serafim e, desde então, manteve uma ligação profunda com o folguedo. Mesmo morando em diferentes lugares, Maria nunca se afastou completamente dessa manifestação. “Cada lugar que eu ia morar procurava logo um Guerreiro, ou na mesma cidade ou perto, para não parar de dançar.”

Depois de residir em diversos municípios e enfrentar problemas de saúde, chegou a Rio Largo, onde recebeu orientação médica para realizar exercícios físicos. Foi nesse contexto que o folguedo voltou a ocupar um lugar importante em sua vida. Junto com vizinhas e com Mestra Sebastiana dos Santos, participou da formação do Guerreiro Alegria de Viver, ligado à Secretaria Municipal de Assistência Social de Rio Largo.
Posteriormente, reencontrou Mestre Juvenal Domingos. A partir desse encontro, sua vida pessoal e seu percurso na cultura popular passaram a se entrelaçar ainda mais. Ao recordar esse momento, Maria afirmava: “Já trabalhei e já sofri muito nesta vida, mas tudo isso já passou, agora sou feliz. No Guerreiro encontrei a alegria de viver e o meu grande amor, Juvenal.”
No Guerreiro São Pedro Alagoano, Maria formava com Juvenal o casal de Mestre e Rainha. Sua atuação, porém, ia além da personagem que representava. Participava da organização das atividades, contribuía com os preparativos, incentivava os brincantes e ajudava a manter o grupo sempre pronto para as apresentações. Para ela, o folguedo representava alegria, pertencimento e continuidade.
Em 2007, o São Pedro Alagoano recebeu o Prêmio de Cultura Popular Mestre Duda 100 anos de Frevo, concedido pelo Ministério da Cultura. A premiação foi importante para a renovação de parte das indumentárias e para a compra de materiais necessários ao grupo. “Foi uma alegria imensa. Compramos fitas, tecidos, sapatos e adereços para o Guerreiro brilhar ainda mais”, disse Maria.
Maria José faleceu em 1º de outubro de 2009. Sua morte deixou uma lacuna profunda no grupo. Depois de sua partida, Mestre Juvenal continuou ligado ao Guerreiro, mas sua saúde foi se agravando, abrindo caminho para uma nova etapa na história do São Pedro Alagoano.
Mestra Marlene e o reencontro com o Guerreiro
A continuidade do Guerreiro São Pedro Alagoano está diretamente ligada à atuação de Maria Helena da Silva, conhecida como Mestra Marlene. Sua relação com o folguedo, contudo, antecede a aproximação com Mestre Juvenal e Dona Maria. Ainda criança, aos nove anos de idade, participou de um grupo na Fazenda Areinha, em São Luís do Quitunde. Naquele período, integrou um Guerreiro conduzido pelos mestres Antônio Rita e José Norato, seu tio. O grupo reunia mais de trinta participantes e foi ali que teve seus primeiros contatos com as peças, os personagens e a dinâmica das apresentações.
Com a mudança de residência, o casamento e a criação dos sete filhos, afastou-se do folguedo. Apesar disso, as lembranças da infância permaneceram vivas. As músicas, as encenações e o ambiente de convivência construído em torno das apresentações continuaram presentes em sua memória.

Anos depois, ao passar a residir na Chã da Jaqueira, reencontrou o Guerreiro por intermédio de Mestre Juvenal e de Dona Maria. Naquele momento, o grupo já realizava ensaios regulares e reunia participantes de diferentes idades. Inicialmente, Marlene acompanhava as atividades como espectadora. Gostava de assistir aos encontros e aguardava a chegada dos sábados para acompanhar os ensaios.
Embora desejasse participar, não retornou imediatamente ao folguedo. Segundo ela, seu marido não queria que dançasse. Foi Dona Maria quem passou a insistir para que integrasse o grupo. Diante das sucessivas tentativas e da mediação de Mestre Juvenal, acabou aceitando o convite. O retorno marcou o início de uma nova etapa em sua vida. Durante aproximadamente dez anos, participou das atividades do grupo e estreitou os laços com o casal. “Eu conheci Juvenal aqui no Conjunto, já com quase sessenta anos. Ele e dona Maria me convidaram para ser Estrela de Ouro. Depois chamaram meu marido, Juvenal Argemiro, para tocar sanfona. Desde então, viramos uma família dentro do Guerreiro”, recorda Marlene.
Com o agravamento do estado de saúde de Dona Maria, a relação entre as duas ganhou um significado ainda mais profundo. Durante uma visita ao hospital, Maria José fez um pedido que marcaria definitivamente a vida de Marlene: “Cuide do meu Guerreiro junto com Juvenal. Só você dentro da minha sede pode tomar conta do meu Guerreiro.” Em seguida, reforçou: “Só não deixe o meu Guerreiro cair. De jeito nenhum.” Pouco tempo depois, Dona Maria faleceu.
A perda da companheira abalou profundamente Mestre Juvenal. Segundo Marlene, os dois eram inseparáveis. Em sinal de luto, o grupo permaneceu durante algum tempo sem realizar apresentações. Foi nesse período que o mestre voltou a conversar com Marlene sobre a continuidade do São Pedro Alagoano.
Em um gesto carregado de simbolismo, abriu o guarda-roupa onde estavam guardados os figurinos e mostrou-lhe uma grande caixa contendo roupas e adereços do grupo. Então afirmou: “Tudo é seu. O meu Guerreiro e de Maria, tudo é seu para você tomar conta.” Marlene relembra que se sentiu insegura diante da responsabilidade. Acreditava que outras pessoas poderiam assumir a condução do grupo. Entretanto, Mestre Juvenal foi categórico: “Ninguém. Só você.”

Pouco tempo depois, decidiu que ela também ocuparia o lugar de Dona Maria como rainha do Guerreiro. Levou-a ao centro da cidade, comprou um vestido, um par de sapatos de lantejoulas e encomendou uma coroa. No dia em que colocou a peça em sua cabeça, Marlene recorda que chorou.
A coroação simbolizava uma responsabilidade que ultrapassava a guarda dos figurinos e a realização das apresentações. Cabia-lhe reunir os participantes, cuidar das indumentárias, reorganizar as atividades e enfrentar as dificuldades materiais que acompanham a existência dos folguedos populares.
Mesmo após entregar o grupo, Mestre Juvenal continuou acompanhando as atividades enquanto sua saúde permitiu. Posteriormente, retornou à Chã da Jaqueira, onde permaneceu em tratamento. Marlene passou a visitá-lo com regularidade. Em uma dessas visitas, levou um CD com gravações do Guerreiro. A emoção do mestre foi tão intensa que ela precisou interromper a reprodução. Mestre Juvenal faleceu em 24 de março de 2020, aos 84 anos.
A casa de Mestra Marlene como ateliê e lugar de memória
Após a morte de Mestre Juvenal e a desativação da antiga sede da Chã da Jaqueira, surgiu o desafio de encontrar um local para manter o grupo em funcionamento. Sem dispor de terreno ou espaço próprio, Marlene decidiu transformar sua própria residência em sede do Guerreiro São Pedro Alagoano. Com o apoio da família, removeu paredes, reorganizou os ambientes e criou condições para a realização de ensaios e pequenas apresentações. A casa passou a funcionar simultaneamente como residência familiar e espaço de salvaguarda do folguedo.
Sob sua condução, o Guerreiro passou por diversas transformações. Novos figurinos foram confeccionados, chapéus e adereços foram refeitos, instrumentos musicais foram adquiridos e o acervo ganhou melhores condições de conservação. Marlene reorganizou os espaços de armazenamento, adquiriu móveis para guardar as indumentárias e investiu recursos próprios na manutenção do grupo.
A composição do Guerreiro também foi sendo renovada. Atualmente, o grupo reúne 23 integrantes entre crianças, jovens e adultos. Parte significativa é formada por membros da própria família de Marlene, além de participantes oriundos do Vergel do Lago, Chã da Jaqueira, Feirinha do Tabuleiro, Jacintinho e do próprio Petrópolis. Essa rede de relações familiares e comunitárias tem sido fundamental para a continuidade do São Pedro Alagoano.





Entre as novas gerações destaca-se a participação de sua neta, Nicole Vitória. Ainda criança, demonstrou interesse em integrar o grupo e realizou sua primeira apresentação nas proximidades do Museu Théo Brandão. Desde então, cresceu acompanhando os ensaios e as apresentações e passou a incentivar a participação de outras crianças. Para Marlene, a presença da neta representa a esperança de continuidade do Guerreiro nas próximas gerações.
A continuidade do grupo e os desafios de sua preservação
Desde 2014, Marlene passou a responder pela condução do Guerreiro São Pedro Alagoano. Assumir o grupo significou enfrentar uma série de desafios. Após a morte de Maria José e o adoecimento de Mestre Juvenal, o grupo poderia ter encerrado suas atividades, como ocorreu com tantos outros folguedos em Alagoas. Sua continuidade só foi possível pela insistência de Marlene, pelo apoio dos integrantes e pelo compromisso coletivo de não deixar o folguedo desaparecer.
Um dos principais desafios foi manter o grupo unido. Muitos participantes já eram idosos, outros tinham dificuldades de deslocamento, e a presença de crianças e jovens exigia estímulo constante. Como em outros grupos tradicionais, a renovação do quadro de integrantes tornou-se uma das maiores preocupações.
Ao longo dos anos, o grupo também enfrentou perdas significativas. Muitos antigos participantes faleceram e outros deixaram de frequentar as atividades em razão da idade, de problemas de saúde ou de mudanças de residência. Apesar disso, o Guerreiro permaneceu ativo e incorporou novos integrantes, ampliando a presença de crianças e adolescentes nos ensaios e apresentações.
As dificuldades financeiras continuam sendo outro importante desafio. Durante muitos anos, não houve apoio sistemático para a manutenção das atividades e apenas mais recentemente o grupo passou a acessar editais e programas de incentivo.
Em 2019, o Guerreiro São Pedro Alagoano foi contemplado por edital da Fundação Municipal de Ação Cultural de Maceió destinado à renovação de figurinos de grupos de folguedos. O recurso foi importante, embora insuficiente para atender todas as necessidades do grupo, permitindo a aquisição de materiais e a renovação de parte das indumentárias.
A questão do transporte também permanece como um obstáculo. Alguns integrantes residem em outras localidades e precisam se deslocar até Maceió para participar dos ensaios e apresentações. Segundo Marlene, em determinadas ocasiões, o próprio brincante custeia a ida, enquanto ela assume as despesas do retorno para casa.


Entre os apoios recebidos, Marlene destaca a colaboração da Braskem, que possibilitou a aquisição de uma nova sanfona, de guarda-roupas para armazenamento dos figurinos e de outros equipamentos necessários às atividades. Ela também menciona recursos obtidos por meio de editais e premiações, que contribuíram para a compra de tecidos e materiais utilizados na manutenção do grupo.
Embora tenha passado por períodos de redução das atividades em razão de problemas de saúde de integrantes e dificuldades financeiras, o Guerreiro São Pedro Alagoano permanece em funcionamento. Marlene reuniu antigos participantes, convidou novas pessoas e manteve o grupo em circulação. Ao recordar esse percurso, relembra que muitos duvidaram da continuidade do folguedo: “Teve gente que disse: esse não vai pra frente não. Aí hoje em dia meu Guerreiro está muito bonito, muito lindo. ” Por fim, ela afirma que permanece determinada a cumprir a promessa feita a Dona Maria e a Mestre Juvenal: “O pedido que o velho Juvenal deixou para mim eu não acabo ele. Só se eu for também”.
Percurso territorial
| Fundação: 1998 |
| Fundadores: Mestre Juvenal Domingos e Maria José da Conceição |
| Mestra atual: Mestra Marlene |
| Início da liderança de Marlene: 2014 |
| Território de memória de Mestre Juvenal: Rua do Arame/Travessa do Arame, Chã da Jaqueira, Maceió |
| Território atual de referência: Conjunto Luiz Pedro I, Petrópolis, Maceió |
| Espaços de ensaio: Residência de Mestra Marlene |
| Número de integrantes: 23 brincantes |
| Faixa etária dos integrantes: De 5 a 90 anos |
| Principais desafios: Transporte, renovação de figurinos, manutenção financeira, mobilização de brincantes e participação de jovens |
| Situação atual: Grupo em atividade |
Créditos da reportagem
Equipe de pesquisa: Iranei Barreto, Nicollas Serafim, Josefina Novaes
Texto: Iranei Barreto
Identidade Visual: Jack Sá
*Texto em constante atualização. A proposta do projeto Gente de Guerreiro é criar um arquivo que reúna o maior número possível de informações sobre os grupos de Guerreiro, ativos e inativos, existentes no estado de Alagoas.
* PNAB MACEIÓ – O projeto “Gente de Guerreiro” é realizado com recursos do Ciclo 1 da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB), operacionalizados pela Prefeitura de Maceió, por meio da Secretaria Municipal de Cultura e Economia Criativa (SEMCE).

