Guerreiro Barreira Pesada: percursos e retomadas

O Guerreiro Barreira Pesada está associado às memórias do Mestre Zé Pequeno, morador da Chã de Bebedouro, em Maceió. Embora sejam escassas as informações sobre sua trajetória e sobre o período de formação do grupo, os depoimentos reunidos durante a pesquisa permitem compreender que seu Guerreiro ocupou um lugar importante na vida de diferentes brincantes e se transformou em um espaço de formação para integrantes das famílias Melo e Bomfim, duas linhagens profundamente vinculadas ao Guerreiro em Alagoas.

Mestre Nivaldo Abdias Bomfim | Foto: Acervo da família

Filha de Mestre Nivaldo Abdias e de Dona Creuza, Mestra Iraci Bomfim cresceu completamente inserida no universo dos folguedos populares. Antes mesmo de seu nascimento, seu pai já cantava no Reisado da Mestra Zefa Bispo, em Palmeira dos Índios, e, ao longo da vida, passou por diferentes grupos de Guerreiro, entre eles os da Fazenda Porangaba, de Joana Gajuru, de Adelmo Vieira, de João Inácio e do próprio Mestre Zé Pequeno. Desde a infância, Iraci acompanhava as andanças do pai pelos diferentes grupos em que ele atuava e, observando os mestres e os demais brincantes, foi aprendendo as peças, as figuras e os modos de organização do folguedo. “Para onde ele ia eu estava junto. Foi assim que conheci muitos mestres e acompanhei toda a vida dele”, recordou Iraci.

Sua própria trajetória começou ainda na infância. Aos quatro anos de idade, já dançava Guerreiro e, aos oito, participava do grupo de sua madrinha de batismo, Mestra Joana Gajuru. Com o passar dos anos, desempenhou várias figuras do Guerreiro e ampliou seus conhecimentos sobre o folguedo, em um aprendizado construído pela convivência com mestres e brincantes de diferentes localidades.

Ao mudar-se para Maceió, a família passou a residir na Chã de Bebedouro. Foi nesse período que Iraci passou a brincar no Guerreiro de Mestre Zé Pequeno, ocupando o posto de Rainha. Em 1988, ela e o marido, Ailton Melo, adquiriram de Mestre Zé Pequeno o Guerreiro Barreira Pesada e convidaram seu pai, Mestre Nivaldo Abdias, para assumir a função de mestre, permanecendo ela própria como Rainha e dona do grupo. O Guerreiro já era conhecido como Barreira Pesada e manteve essa denominação sob os cuidados das famílias Melo e Bomfim, iniciando uma nova etapa de sua trajetória.

Desde então, o Barreira Pesada constituiu-se como um espaço de convivência, aprendizagem e transmissão de saberes. Nivaldo Abdias assumiu a função de mestre, enquanto Iraci permanecia como dona do Guerreiro e Rainha do grupo. Filhos, genros, netos e outros parentes distribuíam-se entre as diversas figuras e atividades necessárias à manutenção do folguedo. O envolvimento das famílias Melo e Bomfim também se estendia à confecção de chapéus, figurinos, bordados e adereços, transformando o grupo em um verdadeiro núcleo de formação e continuidade do Guerreiro. “Casei e tive meus filhos aqui em Maceió e todos eles eram dentro do Guerreiro e agora tenho neta e bisneta, também dentro do nosso Guerreiro. O que eu sei eu vou passando pra eles”, disse Mestra Iraci.

Ailton de Melo | Foto: Imagem do programa Balançando o Ganzá, da TVE
Ailton Melo e a família Bomfim. | Foto: Imagem do programa Balançando o Ganzá, da TVE
Foto: Acervo da família
#PraCegoVer: Em um ambiente com paredes azuis, músicos e integrantes do Guerreiro Barreira Pesada participam de uma apresentação. À esquerda, um homem toca sanfona e outro toca tambor. À direita, Mestre Nivaldo Abdias, de camisa amarela e chapéu preto canta ao microfone. Ao fundo, brincantes usam trajes coloridos, fitas e grandes chapéus ornamentados característicos do folguedo.

As apresentações seguiam uma dinâmica que hoje se tornou cada vez mais rara. Durante o período natalino, o Barreira Pesada saía em longas caravanas pelo interior de Alagoas. Cidades, sítios e povoados tornavam-se destinos de jornadas que podiam durar semanas ou até meses. Muitas vezes, os brincantes partiam sem contratos definidos, dependendo da acolhida das comunidades e do apoio de prefeitos, vereadores e moradores. As apresentações aconteciam em praças, escolas e espaços comunitários, enquanto os integrantes se arranchavam em locais cedidos pelas próprias comunidades.

As viagens exigiam persistência e capacidade de mobilização. “Papai e eu sofríamos, de cidade em cidade, de sítio em sítio, de prefeitura em prefeitura, recebendo muitos ‘nãos’. A gente fazia uma lista, pegava um caderno e saía de porta em porta pra conseguir algo”, recorda Mestra Iraci. Em muitos momentos, a família precisava buscar alimentação, hospedagem e recursos para manter em circulação um grupo que chegava a reunir 27 brincantes.

Em depoimento concedido ao Professor Ranilson França no programa Balançando o Ganzá, da TV Educativa, Ailton Melo também lembrou que nasceu em uma família inteiramente vinculada ao Guerreiro. “Eu fui nascido dentro do Guerreiro”, afirmou. Segundo ele, pai, mãe, madrinha e padrasto participavam do folguedo em diferentes funções, fazendo com que crescesse completamente inserido nesse ambiente. Após a morte dos familiares, permaneceu ligado ao Guerreiro.

Processos de ativação

Em determinado momento, Mestra Iraci mudou-se para Girau do Ponciano e levou o Barreira Pesada para sua nova morada. A separação geográfica levou Mestre Nivaldo Abdias a formar o Guerreiro Campeão do Trenado, possibilitando que continuasse exercendo o ofício de mestre em Maceió. Apesar da existência de grupos distintos, os vínculos entre seus integrantes permaneceram estreitos e o apoio mútuo continuou fazendo parte da dinâmica das famílias.

Ailton Bomfim | Foto: Iranei Barreto

“Quando a gente se mudou pra Girau do Ponciano, meu avô fundou o Campeão do Trenado e nós ficamos com o Barreira Pesada. Mas quando a gente se juntava, a amizade sempre prevalecia e um ajudava o outro”, recordou Ailton Melo (Ailtinho). Segundo ele, a presença da família no universo do Guerreiro vai além desses dois grupos. “Nossa família é quase toda presente em Guerreiro. Além desses dois grupos, tem o da minha tia chamado Treme Terra de Arapiraca e o da minha irmã Maria Cícera, que é o Campeão de Alagoas”, declarou.

Após o adoecimento e falecimento de seu pai, os enfeites do Barreira Pesada foram vendidos e o grupo deixou de atuar por um período. Anos mais tarde, Ailtinho decidiu retomar a tradição. “Quando o meu pai adoeceu e faleceu, minha vó vendeu os enfeites para o pessoal de Anadia. E quando é agora eu invento de refazer os enfeites tudo de novo e pegar o mesmo nome, o Barreira Pesada”, comenta.

Ao recordar a trajetória do grupo, Ailtinho também explicou a origem do nome Barreira Pesada. “O nome Barreira Pesada veio de onde a gente morava lá no Alto da Boa Vista, uma barreira chamada Ranca Toco“, afirmou, relacionando a identidade do grupo ao território onde as famílias Melo e Bomfim construíram parte significativa de sua trajetória.

Atualmente, o grupo permanece em processo de reorganização. Não dispõe de um espaço permanente para ensaios e seus integrantes costumam se reunir apenas no período das apresentações. “Hoje mesmo não temos lugar para ensaiar. Então a gente só se reúne mesmo já para a viagem. No dia 22 ou 23 eu já começo a juntar o pessoal pra no dia 24 de dezembro a gente ir pro sertão”, declarou Ailtinho.

Esse processo, entretanto, não está livre de desafios. “Hoje em dia também temos dificuldades em encontrar pessoas que queiram seguir nessa vida. A maioria das mulheres, quando casa, os maridos não deixam mais elas viajarem com o Guerreiro. A cada ano a gente vai perdendo duas, três mulheres”, afirmou. Apesar disso, a família continua sendo a principal base de sustentação do grupo. Atualmente, o Barreira Pesada reúne cerca de 25 brincantes. “A maioria é da família. Sou eu, minha mãe, minha esposa e minha filha, que praticamente já nasceu dentro do Guerreiro. A família Bonfim praticamente toda é atuante nos Guerreiros”, declarou.

A preservação do Barreira Pesada também passa pela manutenção de seu repertório musical e dos conhecimentos transmitidos pelos mestres mais antigos. “As peças cantadas nós também fazemos, e pegamos ainda dos mestres mais antigos as peças mais tradicionais”, declarou, filho do casal. Além das peças, o grupo também preserva conhecimentos relacionados à confecção dos trajes e à preparação das figuras. “Os figurinos, como saiote, bolero e as roupas das figuras, a gente também costura”, disse.

Mestra Iraci ao lado do filho, Ailton Bomfim, da neta Júlia e da nora Jessica | Foto: Iranei Barreto

Ailtinho também domina os conhecimentos relacionados aos entremeios do Guerreiro. “Eu inclusive recebi o título de mestre de entremeios, que é como são chamadas as figuras do Guerreiro. E já fui chamado para ensinar essa arte também”, afirmou. A manutenção do Barreira Pesada não se restringe às apresentações. Ela envolve um conjunto de saberes relacionados à memória, à criação das peças, à confecção dos figurinos e à formação de novos brincantes.

Embora ainda enfrente dificuldades para reunir um elenco permanente e manter uma rotina regular de ensaios e apresentações, o Guerreiro Barreira Pesada permanece em processo de ativação. Sua trajetória demonstra que a permanência do Guerreiro nem sempre depende de estruturas formais e contínuas, mas da capacidade de diferentes gerações de preservar memórias, restaurar enfeites, transmitir conhecimentos e renovar compromissos com a cultura popular. “Dançar Guerreiro é a minha vida. Só deixo quando morrer e quero ser enterrada trajada de Rainha, com coroa e tudo”, afirmou Mestra Iraci. Nesse sentido, os caminhos percorridos pelo Barreira Pesada continuam sendo, sobretudo, os caminhos da própria tradição.

Percurso territorial
Origem do grupo: Mestre Zé Pequeno
Denominação: Guerreiro Barreira Pesada
Território de origem: Chã de Bebedouro, Maceió (AL)
Mestre proprietário: Mestre Zé Pequeno
Novos proprietários e ano: Em1988, Mestra Iraci Bonfim e Ailton Melo adquiriram o grupo de Mestre Zé Pequeno
Mestre do grupo após a aquisição: Mestre Nivaldo Abdias
Território de atuação da família: Alto da Boa Vista, área conhecida como Ranca Toco, entre a Chã de Bebedouro e a Chã da Jaqueira, Maceió (AL)
Figura de Rainha e dona do Guerreiro: Mestra Iraci Bonfim
Espaços de apresentação: Praças, escolas, espaços comunitários, sítios e povoados do interior de Alagoas
Circulação: Municípios do agreste e do sertão alagoano, com longas viagens durante o ciclo natalino
Deslocamento territorial: Transferência do grupo para Girau do Ponciano (AL), acompanhando a mudança de residência da família
Processo de descontinuidade: Venda dos enfeites após o falecimento de Ailton Melo
Processo de retomada: Reconstituição dos enfeites e reorganização do grupo por Ailton Melo Filho (Ailtinho)
Território atual: Chã de Bebedouro, Maceió (AL)
Composição atual: Cerca de 25 brincantes, reunindo integrantes das famílias Melo e Bonfim e outros participantes da comunidade
Situação atual: Grupo em processo de ativação, com saídas no período natalino e reorganização gradual de suas atividades.

Créditos da reportagem

Equipe de pesquisa:  Iranei Barreto, Nicollas Serafim, Josefina Novaes

Texto: Iranei Barreto

Identidade Visual: Jack Sá


*Texto em constante atualização. A proposta do projeto Gente de Guerreiro é criar um arquivo que reúna o maior número possível de informações sobre os grupos de Guerreiro, ativos e inativos, existentes no estado de Alagoas.

* PNAB MACEIÓ – O projeto “Gente de Guerreiro” é realizado com recursos do Ciclo 1 da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB), operacionalizados pela Prefeitura de Maceió, por meio da Secretaria Municipal de Cultura e Economia Criativa (SEMCE).

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