Dossiê Fotografia Alagoana Fotografia

 As histórias visuais de Ricardo Lêdo e Ailton Cruz

5ª edição - Dossiê Aqui Acolá Fotografia Alagoana

Além da amizade e o fato de serem colegas de trabalho, os fotógrafos e fotojornalistas Ricardo Lêdo e Ailton Cruz comungam do gosto pelas histórias, conversas e pelas viagens. Tudo isso regado, é claro, pela fotografia. O Aqui Acolá conversou com eles para a 5ª edição do Dossiê Fotografia Alagoana, destacando suas intensas trajetórias pelo mundo afora com as câmeras em punho e a sensibilidade no olhar.

Ricardo Lêdo

Ricardo Lêdo

Ricardo Lêdo é alagoano e iniciou sua história com a fotografia muito cedo. Influenciado pelo pai, um entusiasta das imagens, começou a brincar com a luz, o olhar e a câmera desde criança. “Ele sempre teve máquina em casa e a gente brincava com ele”, lembra. “Morávamos em Penedo e uma das coisas que ele me mostrou numa tarde era como a água do rio mudava de cor pela posição do sol”.

Falta d'água!
Falta d’água! Foto: Ricardo Lêdo
Vicolo
Vicolo. Foto: Ricardo Lêdo
Pirenópolis - GO
Pirenópolis – GO. Foto: Ricardo Lêdo
Domingo de carnaval - Pirenópolis GO. Foto: Ricardo Lêdo
Domingo de carnaval – Pirenópolis GO. Foto: Ricardo Lêdo
Iemanjá é a rainha dos oceanos e a mãe de todos os orixás.
Iemanjá é a rainha dos oceanos e a mãe de todos os orixás. Foto: Ricardo Lêdo

À medida que foi crescendo, a fotografia foi saindo um pouco do foco de sua vida. Morou um tempo fora de Alagoas, passou a trabalhar e se dedicar a outras coisas até que voltou sua curiosidade às fotos em 1994, de onde não parou mais de estudar, ver e produzir. “Digo que não sou fotógrafo, sou um curioso porque acho a fotografia muito difícil. É muito complicado estar na hora e no ponto certo para captar aquilo que você quer”. Porém, esse sentimento proporcionou a ele uma liberdade para exercitar e registrar o seu próprio olhar nas cenas onde ele aponta suas lentes.

Eu fotografo o que eu vejo, e não o que está lá. Com isso eu vou buscando criar formas e coisas que eu vejo e sinto na hora, e que nem todo mundo vê daquele jeito”.

Aqui Acolá - Ricardo LÊDO - Vagando (1)
Da série “Vagando”, de Ricardo Lêdo
Aqui Acolá - Ricardo LÊDO - Vagando (3)
Da série “Vagando”, de Ricardo Lêdo
Aqui Acolá - Ricardo LÊDO - Vagando (4)
Da série “Vagando”, de Ricardo Lêdo
Aqui Acolá - Ricardo Ledo. (33)
Foto: Ricardo Lêdo

Ricardo é um autodidata solitário, mas aplicado. “Procuro ler absolutamente tudo sobre fotografia. Também me preocupo muito com a estética, como harmonizar uma imagem”. Fotojornalista, ele aproveita as pautas do dia a dia para pinçar em meio aos cenários banais cotidianos “uma beleza que se esconda dentro do caos”.

Segundo ele, com as facilidades de equipamentos, inclusive os celulares, as possibilidades fotográficas se ampliaram infinitamente. Ele destaca figuras importantes para a construção de seu repertório fotográfico como Evandro Teixeira, Celso Brandão, Walter Firmo e Cartier-Bresson.

Sua fotografia tem várias linhas de trabalho. Além do fotojornalismo, Lêdo tem uma pesquisa muito importante com os folguedos populares de Alagoas, com a arquitetura e com os mestres artesãos de todo o estado. “Fiz vários trabalhos nessa linha de pesquisa, com projetos de livro e tudo. Mas uma coisa que mais instiga a minha fotografia é essa solidão de ir pra rua com a câmera, sem ideias”. Amante da estrada, muitos de seus ensaios fotográficos nascem de suas viagens. “Saio vagando com a máquina e aparece tanta coisa”, revela.

Zumira Dantas - Arapiraca, AL
Da publicação “Mestres Artesãos de Alagoas. Zumira Dantas – Arapiraca. Foto: Ricardo Lêdo
Chapeleiro - Chapéu de couro
Da publicação “Mestres Artesãos de Alagoas. Chapeleiro – Chapéu de couro
Seleiro
Da publicação “Mestres Artesãos de Alagoas. Seleiro de Palmeira dos Índios, José Vieira.  Foto: Ricardo Lêdo
Ferreiro - Luiz Teles
Da publicação “Mestres Artesãos de Alagoas. Ferreiro Luiz Teles. Foto: Ricardo Lêdo

“Também gosto muito de foto aérea, porque de cima você vê de um jeito novo, com formas diferentes. Um exemplo foi em 2010 quando estava em Santana do Mundaú cobrindo a grande cheia que devastou várias cidades do interior. Quando eu fiquei num plano mais alto eu vi a cidade toda destruída formando o mapa do Brasil”.

Suas fotos também já circularam pelo Brasil afora através de exposições coletivas desde 1995, em Recife. Em 2005 foi escolhido para participar do FotoRio, sob a curadoria de Milton Guran e também da coletiva Interlatinidades, em Niterói-RJ. Belém e Salvador também já acolheram suas imagens, e mais recentemente, participou da exposição Horizontes na Pinacoteca Universitária em Maceió.

Este slideshow necessita de JavaScript.

Também desenvolveu duas mostras individuais, ambas sob a curadoria de Delson Uchôa. “4 Ventos” em 2004 no Museu Théo Brandão e “Relevo: o que é relevante?” em 2011, na Pinacoteca.

Atualmente, ele vem desenvolvendo o projeto de um livro que sairá, possivelmente em 2018. “São 80 fotos e é essa é minha grande meta, porque eu já ilustrei dezenas de livros, já saí em revistas no Brasil e no mundo, mas o meu ainda não tenho”, afirma. “Pra o futuro eu não espero nada. Só peço que eu tenha um olho bom pra continuar fotografando”.

Ailton Cruz

Reporter fotográfico

Natural do bairro da Utinga Leão, na cidade de Rio Largo, o fotógrafo Ailton Cruz revela que sempre foi fascinado pelo mundo da fotografia. Ainda menino, animava-se quando seu José Flor, o fotógrafo da família, ia a sua casa todo mês para registrar o crescimento de seus irmãos e seus pais, costume antigo das famílias do interior nordestino.

Já adolescente, começou a praticar a fotografia com a ajuda dos amigos e tendo como cenário as paisagens da Utinga. “Até que convenci meu pai a comprar minha primeira máquina de um americano que trabalhava lá na usina”, diz ele.

“Então juntei meus amigos todos embaixo de uma marquise pra tirar a primeira foto, já colorida. Mandei revelar no Panamá (porque aqui ainda não tinha laboratório colorido) e quando ela chegou, mais de um mês depois, quem tava embaixo da marquise ficou tudo escuro e quem tava fora ficou tudo branco, estourado”, lembra sorrindo.

Igreja - Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Preto
Centro de São Paulo. Foto: Ailton Cruz
Estação Luz
Estacão da Luz. Foto: Ailton Cruz
Estação Luz
Estacão da Luz. Foto: Ailton Cruz

Mas Ailton era esperto e tudo que fazia, anotava. E assim passou a fazer vários testes com a máquina, uma Foca Francesa. Com 16 anos, já tirava as fotos de casamentos, formaturas, batizados e aniversários da região. E no início dos anos 80, passou a trabalhar em um laboratório Colofon e Kodak, em Maceió, a convite do gerente que se surpreendeu com as fotos que mandava revelar.

Sua entrada no fotojornalismo nacional aconteceu por volta de 1989, a convite da Revista Veja. Mas, desde 1976 atua na imprensa alagoana. Nos anos 90 também prestou serviços ao Estadão, Folha de São Paulo e O Jornal, hoje atua na Gazeta de Alagoas e continua colaborando com veículos de grande circulação. Formou-se em Jornalismo pelo Cesmac e fez um curso de extensão em Antropologia Visual pela Universidade Federal de Alagoas.

CRAVADO NA PAREDE
Teatro Municipal de São Paulo. Foto: Ailton Cruz
Espelhado
Teatro Municipal de São Paulo. Foto: Ailton Cruz
Visita ao Presidio - Paulo Câmara - PE
Presidio Feminino. Foto: Ailton Cruz

Vivendo a fotografia como ofício e paixão, Ailton sempre busca se atualizar e estuda diariamente. “Todo ano estou em São Paulo para ir a congressos, feiras, cursos. Com essas câmeras novas você tem que aprender sempre”. E nas horas de folgas, está sempre com a câmera. “Gosto de fotografar tudo. E com carinho”. Sebastião Salgado é uma de suas grandes referências de composição visual. “Aqui temos muitos fotógrafos excelentes como esses dois meninos novos que são muito bons, Jonathan Lins e Felipe Brasil”.

Humilde, bom de papo e prestativo, Ailton Cruz está sempre fazendo amigos e buscando histórias para retratar com suas imagens. É também presidente e fundador da Associação dos Repórteres Fotográficos e Cinematográficos no Estado de Alagoas, que tem como objetivo valorizar e defender os profissionais alagoanos.

Foto: Ailton Cruz
Praia do Guga- Barra de São Miguel. Foto: Ailton Cruz
BaÌa de Luanda a Noite Carnaval em Luanda - 2009
Chicala – Luanda. Foto: Ailton Cruz
Praia de Santiago Carnaval em Luanda - 2009
Praia de Santiago, em Angola. Foto: Ailton Cruz

Como tema de seu TCC, Ailton acompanhou e registrou com imagens as histórias da antiga Vila dos Pescadores ou Favela do Jaraguá em Maceió, usando filme em P&B de 3200 ISO de alta sensibilidade. Uma quebra de paradigmas por causa do horário. “Eu ia todo sábado, de meio-dia às 4 da tarde durante 12 anos na favela para conversar com as pessoas e tirar fotos. Muitas em preto e branco e em filme ainda”.

A partir deste projeto, ele foi parar em Angola em 2008 para desenvolver um trabalho para o primeiro jornal de economia do país. Lá também fez a cobertura do Papa Bento XVI. Do período e das experiências vividas por ele no país africano, desenvolveu a exposição Angola– Viajando com os olhos. “Foi uma experiência muito legal. Era pra eu passar 3 meses e acabei ficando por um ano. Até detido na Embaixada Americana eu fiquei por ter tirado uma foto da embaixada”, lembra.

Este slideshow necessita de JavaScript.

Birrada – como é conhecido pelos amigos – já tem planos para seu trabalho seguinte. “A minha próxima exposição vai ser com esse trabalho na Favela do Jaraguá. É um trabalho que nenhuma foto foi divulgada ainda e eu tenho muito carinho por ele”, diz ele.

“Além disso, quero continuar caminhando e fotografando. Onde tiver fotografia eu quero estar no meio”.

Ailton Cruz participou do livro “O Melhor do Fotojornalismo Brasileiro“,  em seis edições.


Endereço eletrônico

Ricardo Ledo – Facebook: facebook.com/ricardo.ledo.5 | Instagram: @ricardoledo | Site: http://ricardoledo35.wixsite.com/ledo

Ailton Cruz -Facebook: facebook.com/ailtoncruz53  |  Instagram: @ailtoncruz53 | Blog: http://blogdobirrada.blogspot.com.br


*Foto da capa: Da série “Vagando”, de Ricardo Lêdo

Confira também:

1ª edição –  A poesia das formas em preto e branco de Luísa Patury e Tony Admond

2ª edição – A simbiose fotográfica de Jorge Vieira e Thiago Sobral

3ª edição –  João Facchinetti e Alberto Lima – Multiplicando a fotografia em Alagoas

4ª edição – João Dionísio e Cláudia Leite – experiências visuais antropológicas com perspectiva documental

 

5 comentários

  1. Parabéns, Nicollas, pela iniciativa. Parabéns aos queridos Ricardo Ledo e Ailton Cruz pela trajetória ‘retratada’ no texto e pelo belo trabalho fotográfico que aprendi a apreciar nos anos de jornalismo que caminhamos juntos.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: