Pierre Chalita abre a 2ª temporada do Arquitetura da Criação

A segunda temporada da série Arquitetura da criação inicia destacando o trabalho de Pierre Chalita. Mais de quinze anos após sua morte, o pintor volta a ocupar o centro da cena artística alagoana. A exposição “Pierre Chalita”, em cartaz na recém-reaberta Pinacoteca da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) apresenta ao público a potência estética de sua produção, como também propõe um reencontro entre diferentes gerações a um dos nomes mais influentes das artes visuais em Alagoas.

Pierre Chalita | Foto: Da internet

A mostra abriu as portas no mês de maio e fica em cartaz até 21 de agosto, marcando a reabertura do equipamento cultural após um período de reforma. A exposição também reafirma o papel da Pinacoteca como espaço de preservação, pesquisa e difusão da arte visual no estado. A curadoria da exposição, assinada pela museóloga Hildênia Oliveira, partiu justamente da necessidade de construir uma narrativa capaz de apresentar ao público a força criativa de Pierre, revelando diferentes facetas de sua produção artística.

Para ela, a escolha de Chalita para inaugurar essa nova fase do espaço foi resultado de um longo processo de reflexão. “Desde a reforma da Pinacoteca que alguns nomes surgiram nas pesquisas, mas o de Chalita voltava o tempo inteiro pela grandiosidade da obra, pelo artista que foi e pela forma completamente singular com que representava a condição humana”, explica ela. O recorte evidencia o pintor consagrado e um criador inquieto, cuja pesquisa visual transitava entre diferentes temas e experimentações estéticas.

Para o diretor da Pinacoteca da Ufal, Victor Sarmento, o nome de Chalita foi escolhido de forma natural. “Quem é o grande nome da arte contemporânea alagoana? É Pierre Chalita. Foi diretor da Pinacoteca, foi professor, é uma referência”, destaca. Segundo ele, além da relevância histórica, a exposição surge em um momento de renovação dos esforços de preservação e valorização do acervo do artista através de sua fundação.

Pierre Chalita foi pintor, professor, colecionador e incentivador das artes na cidade de Maceió. Contudo, o artista construiu uma trajetória que ultrapassou fronteiras geográficas e estéticas. Para Hildênia, Chalita foi, acima de tudo, um grande mestre. “Hoje, depois de dois anos imersa em sua obra, vejo quase uma marca, um carimbo de Chalita em muitos artistas alagoanos, inclusive alguns artistas de projeção nacional e internacional. Pierre foi um grande multiplicador e incentivador das artes plásticas em Alagoas“, afirma.

Exposição “Pierre Clalita” reabre a Pinacoteca da UFAL | Foto: Aqui Acolá Arte/ Nicollas Serafim

Nascido em Maceió, filho de imigrantes libaneses, Chalita buscou formação e aperfeiçoamento artístico na Europa, especialmente na Espanha e na França. Essa experiência internacional ampliou seu repertório e transformou profundamente sua produção. “Ele deixa de ser um artista provinciano e ganha o mundo. Essa saída para a Europa amplia seu olhar e traz para sua obra uma inquietude muito própria. Sua pintura não é apenas contemplativa, ela provoca, inquieta e convida à reflexão“, reflete a curadora.

A exposição apresenta um recorte construído a partir de três grandes núcleos presentes na trajetória do artista, as séries Baile, Paraíso e Brasil 500 Anos. Diferentemente de outros artistas que delimitam suas fases por períodos cronológicos, Chalita desenvolveu essas coleções ao longo de décadas, revisitando temas e aprofundando questões estéticas durante toda a vida. Segundo Hildênia, uma das perguntas centrais da curadoria da exposição era “quem é Pierre Chalita para um jovem de vinte anos?”.

A resposta levou à construção de uma exposição que não se restringe às pinturas. Retratos do artista homenageado realizados por Dydha Lyra e Solange Chalita foram incorporados à mostra para aproximar o público de sua figura humana. “Queríamos apresentar Pierre para quem não o conheceu e, ao mesmo tempo, reacender a memória daqueles que conviveram com ele. Fazia mais de quinze anos que não havia uma exposição dedicada exclusivamente a um artista dessa grandeza”, destaca ela.

Além de homenagear uma trajetória consolidada, a mostra busca aproximar a obra de Chalita das novas gerações. “A nossa ideia é aproximar o Chalita e que ele inspire novos e jovens artistas, um cidadão comum. A obra dele impacta visualmente muito. Ela é profunda, gera uma reflexão intensa, colorida, grandiosa”, afirma Victor. Para ele, esse é justamente um dos objetivos fundamentais dos museus. “O papel do museu vai muito além de expor. É preservar a memória, cuidar do acervo e fazer com que isso fique para as futuras gerações, garantir que essas histórias continuem acessíveis ao público.”

Percorrer a exposição é mergulhar em uma obra marcada pela intensidade das cores, pelo movimento e pela liberdade criativa. Nas palavras da curadora, trata-se de “um furacão colorido“. “Se você permanece muito tempo diante das obras, sente-se dentro de um turbilhão. Um turbilhão que fala sobre sexualidade, liberdade, humanidade e sobre a necessidade de romper com certos provincianismos“. A representação do corpo humano ocupa lugar central em sua produção. Em especial nas séries Baile e Paraíso, Chalita apresenta figuras desnudas que ultrapassam qualquer leitura meramente sensual. “Na obra de Chalita, o corpo deixa de ser sexualizado para se tornar expressão de liberdade. E os corpos de Chalita são geralmente masculinos. Eu vejo ali um ser humano livre, dono de suas escolhas e de sua existência”, analisa Hildênia.

Outro destaque da mostra é a série Brasil 500 Anos, composta originalmente por 22 telas em grandes dimensões produzidas em torno das comemorações dos quinhentos anos do país. Nas obras, o artista revisitou, à época, temas ainda urgentes atualmente, como a violência contra povos originários, a imigração, a religiosidade e a democracia brasileira.

Entre os visitantes da exposição esteve o artista visual Rosivaldo Reis, que teve Pierre Chalita como professor e referência em sua formação. Ao reencontrar as obras do mestre, Rosivaldo reviveu memórias pessoais e a dimensão pedagógica exercida por Chalita sobre toda uma geração de artistas. “Foi uma grande ideia da Pinacoteca a abertura dessa exposição porque dá a oportunidade da sociedade alagoana e brasileira de revisitar a obra de Chalita e valorizar cada vez mais essa figura que tanto merece”.

Para além do ensino de técnicas, Pierre estimulava a busca por uma linguagem própria, incentivando seus alunos a experimentarem e expandirem seus horizontes criativos, deixando um legado que permanece vivo na produção artística contemporânea do estado. “Chalita marcou a arte alagoana, tanto em termos de talento quanto na convivência. Muitos artistas de hoje que conviveram com ele absorveram o conhecimento que ele passou para nós. Eu sou uma testemunha disso”, diz Rosivaldo.

Segundo ele, sua chácara era um ambiente muito lúdico. “Pierre transmitia essa ideia da segurança, do conhecimento, da convivência. Esse é o papel verdadeiramente da arte, da convivência pacífica e harmoniosa em tudo”, diz ele. “Ele deixou esse marco, não só no conhecimento, como também nas suas obras físicas, que são grandiosas”, analisa Rosivaldo.

A exposição traz Pierre Chalita novamente para o olhar do público, resgatando a trajetória de um dos maiores artistas alagoanos do século XX e mostrando que sua obra continua pulsando, inquietando e dialogando com questões profundamente contemporâneas. “Suas obras, sempre atuais, abordam temas essenciais da condição humana”, afirma Hildênia. “Contestação, rebeldia, erotismo, angústia e amor. Enfim, elementos que as universalizam.”

A reabertura da Pinacoteca Universitária representa a retomada de um importante equipamento público de arte e cultura para a sociedade maceioense e alagoana. “A Pinacoteca renovada é um grande presente para Alagoas. É um espaço público, gratuito, aberto à sociedade, que convida ao encontro, ao deleite e à reflexão. E reabrir esse espaço com Pierre Chalita significa reafirmar a importância da arte produzida em Alagoas”, conclui Hildênia.


Material extra

Para quem quer conhecer um pouco mais sobre Pierre Chalita, selecionamos alguns documentários que ajudam a percorrer sua trajetória, sua obra e seu legado. Confira abaixo:

“A Sede e a Fonte” (1979) | Direção de Celso Brandão

Documentário “Chalita, o homem, o artista e a obra”, desenvolvido no âmbito de uma pesquisa da UFAL

Cafofo da Notícia Walmar Buarque | Entrevista com Pierre Chalita


Equipe de Reportagem:

Entrevista: Iranei Barreto

Gravação e texto: Nicollas Serafim

Revisão, edição de vídeo e texto: Iranei Barreto

Créditos das imagens: Iranei Barreto, Nicollas Serafim e acervo pessoal do artista

Descubra mais sobre

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo