E-book Gente de Guerreiro documenta a história dos grupos tradicionais de Guerreiro da Chã de Bebedouro e da Chã da Jaqueira

Publicação gratuita marca a conclusão da primeira etapa do projeto Gente de Guerreiro e amplia o acesso a uma pesquisa dedicada à memória de um dos mais importantes folguedos da cultura popular alagoana

As ruas da Chã de Bebedouro e da Chã da Jaqueira já foram tomadas pelo som das sanfonas, dos pandeiros e das vozes que anunciavam a chegada do Guerreiro. Durante o ciclo natalino, moradores se reuniam nas calçadas para acompanhar ensaios e apresentações que seguiam pela madrugada. Crianças aprendiam observando os mais velhos. Mestres organizavam personagens, afinavam instrumentos, ensinavam novas peças e preparavam figurinos confeccionados pelas próprias famílias. O Guerreiro fazia parte do cotidiano desses bairros e ajudou a construir parte da identidade cultural de Maceió.

Grande parte dessa história permaneceu, durante décadas, preservada apenas na memória de mestres, brincantes e familiares. Com o falecimento de importantes lideranças e o encerramento de diversos grupos tradicionais, muitos desses conhecimentos passaram a correr o risco de desaparecer. Foi desse entendimento que nasceu o projeto Gente de Guerreiro – Cartografia Cultural e Memórias dos Grupos Tradicionais de Chã de Bebedouro e Chã da Jaqueira, cuja primeira etapa resulta no lançamento de um e-book gratuito dedicado ao registro dessa trajetória.

A publicação reúne informações históricas, fotografias, documentos, entrevistas e depoimentos que documentam a atuação de oito grupos tradicionais de Guerreiro que fizeram da Chã de Bebedouro e da Chã da Jaqueira territórios de referência para essa manifestação cultural em Alagoas. Em 92 páginas, o leitor acompanha a formação dos grupos, conhece seus mestres, compreende seus percursos e identifica as redes familiares e comunitárias responsáveis pela transmissão dos saberes associados ao folguedo.

Um folguedo que nasceu em Alagoas

O Guerreiro ocupa um lugar singular entre as manifestações da cultura popular brasileira. Diferentemente de outros folguedos difundidos em diversos estados, sua formação ocorreu em território alagoano, resultado da reorganização de elementos presentes em brincadeiras tradicionais do Nordeste, como o Reisado, a Chegança, o Pastoril, os Caboclinhos, o Fandango e o Bumba-meu-boi.

Foto: José Medeiros/Revista O Cruzeiro | Acervo do Museu Théo Brandão

Nas primeiras décadas do século XX, essas referências foram sendo transformadas pelos próprios mestres, que desenvolveram uma estrutura própria para a brincadeira. Novos personagens passaram a integrar as apresentações, repertórios musicais foram criados, coreografias ganharam características particulares e os figurinos assumiram uma identidade visual que, hoje, distingue imediatamente o Guerreiro de qualquer outra manifestação popular brasileira.

Os registros mais antigos situam esse processo de transformação nas primeiras décadas do século XX. O folclorista Pedro Teixeira aponta que, durante as comemorações do centenário de Viçosa, em 1931, grupos de Reisado passaram a incorporar novos elementos às apresentações, dando origem ao que posteriormente seria reconhecido como Guerreiro.

Poucos anos depois, a manifestação já despertava o interesse de pesquisadores dedicados ao estudo da cultura popular brasileira. Arthur Ramos registrou o Guerreiro em Folk-lore do Brasil, publicado em 1935. Nas décadas seguintes, estudiosos como Théo Brandão, José Aloísio Vilela e Luís da Câmara Cascudo também documentaram sua presença, contribuindo para ampliar o reconhecimento do Guerreiro como uma das expressões culturais mais importantes de Alagoas.

Tradicionalmente apresentado entre o Natal e o Dia de Reis, o Guerreiro reúne referências religiosas relacionadas ao nascimento do menino Jesus e à visita dos Três Reis Magos, incorporando música, poesia, teatro, dança e encenações em uma estrutura que pode reunir mais de trinta personagens. Cada apresentação mobiliza um amplo conjunto de conhecimentos transmitidos de forma oral entre mestres e brincantes, envolvendo canto, interpretação, execução musical, confecção de figurinos, produção de adereços e domínio de um vasto repertório de peças.

Ao longo do século XX, a circulação de mestres por diferentes municípios contribuiu para ampliar a presença do Guerreiro em Alagoas. Lideranças como Mestre Adelmo Vieira, Zé Anjo, Mestre Benon, Mestre Juvenal Leonardo, Mestre Arthur Morais, Mestre Juvenal Domingos, Mestre Nivaldo Abdias, Mestra Vitória, Mestra Joana Gajuru e Mestre Sebastião da Viçosa, entre tantos outros, desempenharam papel decisivo na formação de novos grupos e na continuidade dessa tradição.

Foto: José Medeiros/Revista O Cruzeiro | Acervo do Museu Théo Brandão
Foto: José Medeiros/Revista O Cruzeiro | Acervo do Museu Théo Brandão

Em 2019, o Guerreiro foi inscrito no Livro de Registro do Patrimônio Cultural de Alagoas, na Categoria III – Fontes de Expressão Musicais, Plásticas, Cênicas e Lúdicas. O reconhecimento oficial representa uma importante conquista para a salvaguarda da manifestação. Entretanto, mestres, pesquisadores e brincantes observam que esse reconhecimento ocorre justamente em um período marcado pela redução do número de grupos, pelo envelhecimento de seus integrantes e pela perda de importantes referências da cultura popular alagoana.

Chã de Bebedouro e Chã da Jaqueira: territórios onde o Guerreiro criou raízes

Compreender a história do Guerreiro em Alagoas passa, necessariamente, pela Chã de Bebedouro e pela Chã da Jaqueira. Durante boa parte do século XX, esses bairros concentraram alguns dos mais importantes grupos da capital e se transformaram em espaços privilegiados de criação, transmissão e continuidade da manifestação.

Durante décadas, ensaios movimentavam ruas, calçadas e sedes comunitárias. À medida que a noite chegava, moradores se reuniam para acompanhar a entrada dos personagens, ouvir as cantorias e assistir aos mestres conduzindo apresentações que podiam durar horas. Não era necessário esperar pelo período natalino para perceber a presença do Guerreiro. Os preparativos ocupavam boa parte do ano e envolviam um trabalho coletivo que mobilizava famílias inteiras.

Nas casas dos mestres eram confeccionados chapéus, restaurados figurinos, organizados instrumentos e preparados os adereços utilizados nas apresentações. Filhos, netos, irmãos, sobrinhos e vizinhos participavam das atividades, aprendendo desde cedo os cantos, os personagens e o funcionamento da brincadeira. A transmissão dos conhecimentos ocorria pela convivência diária, pela observação e pela participação direta, muito antes de qualquer registro escrito.

Essa convivência permanente fez com que o Guerreiro extrapolasse a condição de espetáculo. Tornou-se um espaço de encontro, sociabilidade e pertencimento. Os ensaios eram aguardados pelos moradores como momentos de lazer coletivo. Crianças acompanhavam os brincantes pelas ruas, jovens iniciavam sua participação no folguedo e adultos colaboravam na organização dos grupos. Mesmo quem não integrava diretamente as apresentações mantinha vínculos afetivos com o folguedo e reconhecia os mestres como importantes referências da comunidade.

A intensa circulação de brincantes entre diferentes grupos também marcou a história desses bairros. Era comum que um mesmo participante atuasse em mais de um Guerreiro ao longo da vida, acompanhando mestres distintos ou assumindo novos personagens conforme adquiria experiência. Essa dinâmica favoreceu a circulação de repertórios, formas de cantar, modos de confeccionar figurinos e conhecimentos que, compartilhados continuamente, fortaleceram a manifestação e ampliaram sua capacidade de renovação.

A pesquisa identificou que Chã de Bebedouro e Chã da Jaqueira funcionaram como verdadeiros centros irradiadores do Guerreiro alagoano. Muitos mestres iniciaram sua trajetória nesses bairros e, posteriormente, levaram seus conhecimentos para outras regiões de Maceió e para diferentes municípios do estado. Cada deslocamento representava também a criação de novos grupos, a formação de novos brincantes e o surgimento de novas redes de transmissão de saberes. Os percursos reconstruídos ao longo da pesquisa demonstram que a expansão do Guerreiro não ocorreu por meio de instituições formais, mas pela atuação direta dos próprios mestres. Quando mudavam de bairro ou de cidade, levavam consigo seus repertórios, personagens, instrumentos, figurinos e conhecimentos acumulados durante anos de convivência com a brincadeira. Em cada novo território reorganizavam grupos, reuniam moradores e iniciavam um novo ciclo de formação.

Mestra Vitória e Mestra Maria Flor | Foto: Da internet

Essa dinâmica ajuda a compreender a recorrência de determinadas famílias na história do Guerreiro. A transmissão dos conhecimentos esteve fortemente associada aos vínculos familiares e comunitários. Pais, filhos, irmãos, netos e outros parentes participavam dos grupos, compartilhando repertórios, personagens e modos de fazer construídos pela convivência cotidiana. Essas redes de transmissão desempenharam papel decisivo na continuidade do Guerreiro em diferentes gerações.

Foi nesse ambiente que surgiram ou se fortaleceram grupos que marcaram a história do Guerreiro em Maceió, entre eles Leão Devorador, Treme-Terra de Alagoas, Santa Isabel, Campeão de Alagoas, Vencedor Alagoano, São Pedro Alagoano, Campeão do Trenado e Barreira Pesada. Cada um desenvolveu características próprias, reuniu diferentes mestres e formou dezenas de brincantes, fortalecendo a importância da Chã de Bebedouro e da Chã da Jaqueira como referências dessa manifestação cultural em Alagoas.

Oito grupos, diferentes trajetórias e um patrimônio comum

A primeira edição da pesquisa realizada pelo projeto Gente de Guerreiro documenta a trajetória de oito grupos que marcaram a história da Chã de Bebedouro e da Chã da Jaqueira. Embora cada um tenha desenvolvido características próprias, todos contribuíram para formar mestres, revelar brincantes e fortalecer uma das manifestações culturais mais importantes de Alagoas.

Sede do Guerreiro Leão Devorador | Foto: Acervo Asfopal

Entre eles está o Leão Devorador, grupo conduzido pela Mestra Vitória, uma das personalidades mais importantes da cultura popular alagoana. Reconhecida como Patrimônio Vivo de Alagoas, ela desafiou convenções ao interpretar o personagem Índio Peri, tradicionalmente representado por homens, tornando-se a única mulher conhecida a assumir esse papel no estado. Sua trajetória é prova da capacidade do Guerreiro de incorporar diferentes experiências sem perder suas referências tradicionais.

Outro capítulo é dedicado ao Treme-Terra de Alagoas, grupo associado à trajetória de Mestre Benon, uma das maiores referências do folguedo em Maceió. Conhecido pelo domínio do repertório e pela dedicação à brincadeira, Mestre Benon manteve o grupo em atividade durante décadas e formou diversos brincantes. Após um período de interrupção, o Treme-Terra voltou a ser apresentado por iniciativa do Mestre Peitika, demonstrando que a retomada também faz parte da história do Guerreiro.

A publicação também recupera a trajetória do Santa Isabel, grupo criado na década de 1990 por Pedro Lins e Mestre Arthur Morais. Embora tenha encerrado suas atividades, permanece presente na memória de antigos brincantes e contribuiu para ampliar a presença do Guerreiro na região.

Mestre Arthur Morais do Guerreiro Santa Isabel | Foto: Acervo da Secult

O Campeão de Alagoas, organizado por Mestre Jorge Ferreira, ocupa posição de destaque na pesquisa por sua importância na formação de brincantes que, posteriormente, se tornariam referências da cultura popular alagoana. Entre eles estão Mestre Juvenal Leonardo, Mestra Anadeje Morais, Maria Flor e Mestre André Joaquim, todos reconhecidos por suas contribuições à continuidade do folguedo.

Também integra o e-book o Vencedor Alagoano, grupo ligado às trajetórias de Mestre José Tenório e Mestre Juvenal Leonardo. A pesquisa mostra como esse Guerreiro participou da formação de importantes lideranças e manteve intensa circulação de brincantes entre diferentes grupos, característica recorrente na história da manifestação.

Entre os grupos que permanecem em atividade destaca-se o São Pedro Alagoano, atualmente conduzido pela Mestra Marlene. A manutenção de uma sede e a realização de encontros periódicos transformaram o grupo em uma das principais referências contemporâneas do Guerreiro em Maceió, mantendo vivos processos de transmissão de conhecimentos que desapareceram em muitos outros núcleos.

Outro capítulo é dedicado ao Campeão do Trenado, cuja história está profundamente associada ao Mestre Nivaldo Abdias Bonfim e à sua família. Ao longo de décadas, o grupo tornou-se um espaço de formação para diferentes gerações de brincantes. Atualmente, essa tradição encontra continuidade por meio dos familiares do mestre, demonstrando como o Guerreiro permanece vinculado às relações familiares e comunitárias que historicamente sustentaram sua existência.

A publicação apresenta ainda a trajetória do Barreira Pesada, inicialmente conduzido por Mestre Zé Pequeno. Anos depois, o grupo foi adquirido por Mestra Iraci Bomfim e Ailton de Melo, passando por um processo de reorganização que culminou, mais recentemente, em sua retomada pelas novas gerações da família. Sua história demonstra que a continuidade do Guerreiro também ganha força com a retomada de grupos que, mesmo após períodos de interrupção, voltam a ocupar espaço na vida cultural alagoana.

Embora apresentem percursos distintos, esses oito grupos revelam aspectos comuns. Todos nasceram do esforço de mestres que, mesmo enfrentando limitações econômicas, dedicaram tempo, trabalho e recursos próprios para manter seus Guerreiros em atividade. Eram responsáveis por criar peças, confeccionar figurinos, restaurar chapéus, organizar ensaios, reunir brincantes e preservar repertórios transmitidos oralmente ao longo de décadas.

Entre o reconhecimento e o risco de desaparecimento

Em 2019, o Guerreiro foi inscrito no Livro de Registro do Patrimônio Cultural de Alagoas, na Categoria III – Fontes de Expressão Musicais, Plásticas, Cênicas e Lúdicas. O reconhecimento oficial representa um importante marco para a história da manifestação e reconhece sua relevância para a identidade cultural alagoana. Entretanto, a pesquisa revela um cenário que merece atenção, ao mesmo tempo em que o Guerreiro conquista reconhecimento institucional, enfrenta desafios concretos para assegurar sua continuidade.

Os depoimentos reunidos ao longo do projeto convergem para uma mesma percepção. Mestres, brincantes e familiares recordam um período em que havia maior número de grupos em atividade, ensaios frequentes, apresentações longas, intensa produção de novas peças e participação constante das comunidades. As ruas da Chã de Bebedouro e da Chã da Jaqueira eram ocupadas pelos ensaios, os bairros conviviam diariamente com o folguedo e diferentes gerações aprendiam umas com as outras por meio da prática cotidiana.

Esse cenário foi se transformando gradativamente. O falecimento de importantes mestres interrompeu processos de transmissão construídos ao longo de décadas. Com eles desapareceram repertórios, formas particulares de cantar, conhecimentos sobre personagens, modos de confeccionar figurinos e experiências que dificilmente podem ser recuperadas apenas por registros escritos. Cada mestre levava consigo uma maneira própria de organizar o Guerreiro, resultado de anos de convivência com a brincadeira e de uma produção artística construída pela oralidade.

A pesquisa também identifica uma redução significativa no número de grupos em atividade. Muitos encerraram suas apresentações após a morte de seus fundadores. Em outros casos, as sedes deixaram de existir, os acervos foram dispersos e parte dos figurinos e adereços acabou perdida com o passar do tempo. O desaparecimento desses espaços significa o enfraquecimento de ambientes de convivência onde se aprendia a brincar, a cantar, a tocar e a compreender a complexa estrutura do Guerreiro.

Outro aspecto observado diz respeito à renovação dos brincantes. Historicamente, o ingresso de crianças e jovens ocorria de forma natural, dentro das próprias famílias e comunidades. A convivência permanente com os grupos permitia que novos participantes assimilassem repertórios e personagens desde muito cedo. Atualmente, esse processo tornou-se mais difícil. A redução dos ensaios, a ausência de sedes permanentes e as mudanças nas dinâmicas sociais diminuíram as oportunidades de formação de novas gerações.

Nicole, neta de Mestra Marlene do Guerreiro São Pedro Alagoano | Foto: Tayná Almeida

A pesquisa aponta ainda para a diminuição da produção de novas peças, elemento fundamental para a vitalidade do Guerreiro. Tradicionalmente, os mestres exerciam também o papel de compositores, criando músicas que ampliavam os repertórios e renovavam as apresentações. Com a redução do número dessas lideranças, esse processo criativo tornou-se menos frequente, limitando a capacidade de renovação da manifestação.

As próprias apresentações passaram por mudanças. O Guerreiro é reconhecido pela riqueza de seus personagens, pela diversidade de suas peças e pela duração de suas encenações. Reunir todos esses elementos exige planejamento, ensaios frequentes e um número significativo de brincantes. Em muitos casos, os grupos que permanecem em atividade enfrentam dificuldades para manter essa estrutura completa, recorrendo a apresentações reduzidas para garantir a continuidade da brincadeira.

Apesar desse cenário, a pesquisa também identifica importantes iniciativas de resistência. Grupos que permanecem em atividade, mestres que continuam formando brincantes e processos de retomada demonstram que o Guerreiro segue presente na vida cultural alagoana. Essas experiências demonstram que a continuidade da manifestação depende de políticas públicas, da valorização dos mestres, do fortalecimento dos grupos e da criação de condições para que os processos de transmissão de conhecimentos voltem a ocupar lugar central nas comunidades.

E-book Gente de Guerreiro – Cartografia Cultural e Memórias dos Grupos Tradicionais de Chã de Bebedouro e Chã da Jaqueira.

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