A trajetória da artista alagoana Vanessa Acioly é marcada por uma relação profunda com a terra, não apenas como matéria, mas como memória, ancestralidade e linguagem. Suas obras transitam entre pintura, bordado, escultura e instalações, sempre guiadas por um processo intuitivo. Ao combinar textura, cor e organicidade, Vanessa consegue criar uma visualidade que se aproxima tanto da arte popular quanto de discursos contemporâneos. Seus trabalhos são destaques da série especial do Blog Aqui Acolá Arte “Arquitetura da criação”.

Entre as falésias alagoanas, o barro ribeirinho de Penedo às margens do São Francisco e as memórias levadas para Portugal, Vanessa Acioly construiu uma linguagem que tem na terra sua tinta mais profunda, ou uma tinta de memória, como ela mesmo define. Suas obras, realizadas sobre suportes como madeira, palha e linho, revelam uma pesquisa que nasce do encontro com os pigmentos naturais e das experiências vividas desde a infância.
“Eu comecei a entender o que era matéria em Penedo, quando tinha seis ou sete anos”, relembra ela. Foi naquele cenário “o calçamento, as igrejas suntuosas, a simplicidade sofisticada das pessoas” que ela descobriu a potência estética das coisas. As feirinhas ribeirinhas, onde povos indígenas e quilombolas vendiam utensílios de barro, foram seus primeiros mergulhos no fazer manual. “Eu era fascinada por aquelas panelas, pratos e xícaras. Era tudo muito natural”, relembra. Para ela, seu trabalho artístico atual nasce antes mesmo de existir como pesquisa, ele surge da infância, da vivência cotidiana nas feiras ribeirinhas, da observação silenciosa das mãos que moldavam panelas, travessas, potes e panelinhas de barro na beira do Rio São Francisco.
Anos depois, já vivendo em Portugal, percebeu que carregava consigo uma imagem sólida da terra natal. O filé alagoano, as cooperativas de rendeiras, as texturas barrentas de Penedo, a estética do cotidiano, tudo reapareceu com força. “Eu queria parir aquilo que estava gestando durante toda a vida”, diz ela. A busca pela matéria se intensificou no mestrado, quando foi incentivada a explorar pigmentos naturais. Nesse período, ela buscava uma pintura que escapasse da rigidez da tela, algo que transbordasse e que fosse mais matéria do que imagem.
Foi nesse contexto que encontrou, quase por acaso, os pigmentos naturais. Um professor apresentou-lhe a possibilidade de trabalhar com terras e óxidos, prática ancestral que percorre séculos. “Inicialmente eu não utilizava a terra enquanto tinta, enquanto pigmento”, revela Vanessa. “Eu a utilizava enquanto matéria para dar essa textura. Então, eu pintava a terra”.
A primeira experiência veio do Rio Douro, cujas terras e águas despertaram nela um eco imediato do São Francisco. Primeiro, usou a terra como textura. “Eu não tinha me dado conta de que poderia ser uma tinta natural. E aquilo então explodiu minha cabeça”. De volta ao Brasil, e sobretudo à terra alagoana, Vanessa encontrou o que chama de potência, mistério e sagrado. “Existe algo inexplicável nessa terra. É sublime”. Mas a virada conceitual aconteceu quando ela passou a enxergar a terra não apenas como textura ou tinta, mas como linguagem. Ali se instaurou a certeza de que sua pintura seria tridimensional, ampliada para além da superfície.






Na perspectiva da artista, a terra carrega memória e ancestralidade. “É a sabedoria das plantas que morreram ali, dos animais, das pessoas que habitaram aquele lugar. A terra se move, guarda tudo. É uma tinta de memória.” Essa compreensão também se conecta às vivências ribeirinhas e ao território nordestino. “Estar na terra onde cresci é sagrado. Cada cor, cada textura nasceu de populações que viveram, peneiraram, cultivaram e morreram ali.”
Embora tenha passado por áreas como Direito e Design, ela reconhece que tudo foi necessário para alimentar seu olhar e sua bagagem. Do Direito, herdou a filosofia, a leitura, a sensibilidade para observar o outro. Do Design, o reencontro com o gesto criativo e com a manualidade que reacenderia a possibilidade de viver da arte.
A artista rejeita métodos rígidos e trabalha movida por fluidez. Coletar a terra já é parte da obra. “O trabalho começa quando saio de casa para colher a cor. O encontro com a terra é uma comunicação livre.” Segundo ela, nada é rápido. “Não existe uma predeterminação de como determinada obra vai ser. Ela acontece naturalmente, como tudo na minha vida”, diz Vanessa. “Eu deixo as coisas muito livres para irem acontecendo”.
Muitas obras passam meses ou anos esperando o momento de voltar às suas mãos. “É uma gestação completa”, analisa. “A terra é a grande mãe. É onde a gente habita. É o que ensina e o que guarda.” O trabalho de Vanessa é muito pensado para a matéria.
“Quando eu vou criar um trabalho na madeira, ele flui de uma maneira. Na palha, já é outra história. São outros tipos de pincéis, de aglutinantes que eu utilizo na tinta”, afirma. “Ele vai depender de que suporte eu estou utilizando. Geralmente, quando eu crio trabalhos em madeira, eu pinto vários ao mesmo tempo”. E segundo a artista, cada obra demora em média um ano para ficar pronta.






Suas obras também abraçam o bordado. “Mas ele não é nenhum bordado estudado. É um bordado intuitivo mesmo, errado. Eu gosto muito dessa coisa do erro, do torto, do dito não belo”, revela. “Dessa coisa que não é tão característica do belo na arte. Então, eu vou muito para a experimentação e para a tentativa e erro”. Ao se permitir errar, Vanessa acaba acertando no conceito e no resultado que idealizou para suas obras. “Eu faço muito disso a minha própria linguagem. E a experimentação e a criação de séries ou de obras acontecem tudo ao mesmo tempo”.
“Eu vejo muito essas minhas obras comparando, por exemplo, com a técnica de repetição do filé, de bordado, que a bordadeira rendeu a passar horas ali, às vezes conversando com outras, às vezes sozinha, só com seus pensamentos”, interpreta-se Vanessa. “É uma oração, uma meditação. E eu acredito que é meio assim o meu trabalho”.
Segundo a artista, nunca existe um ponto fixo. Uma nova série pode nascer de um suporte, de uma cor encontrada na estrada, de uma terra recolhida ao acaso. As séries se distinguem pelas geografias e pelas águas que as compõem. As obras de sua última exposição individual “Mergulho no Seco” reúnem tintas de Maceió, Portugal e Chapada Diamantina. A mostra aconteceu de setembro a dezembro de 2024 no Arquivo Público de Alagoas e foi uma pesquisa árdua, com muitos deslocamentos e experimentação, mas segundo ela o desafio foi peça chave para a estruturação e realização da exposição.
“O desafio do olhar, de você encarar alguma coisa que para muitas pessoas não era possível, uma coisa que talvez nunca tenha sido vista por muitas pessoas, uma pintura com terra, ou a utilização de suportes não convencionais para a pintura”, lembra. Ela afirma a felicidade que foi realizar a primeira exposição institucional em Maceió e a troca com os visitantes presente no Arquivo Público. “Eu tinha aquela coisa muito rígida da pintura clássica, da pintura tradicional da tinta a óleo. Então é um desafio muito grande para as pessoas aceitarem que existe uma pessoa, uma mulher, que está pintando com tinta de terra, nos suportes enormes e aquela coisa de repente se transformar em exposição”.
Contudo, seu trabalho além da terra é composto por água. “Eu coleto água aqui da Praia da Barra, que também vivi muito na infância e vejo como ela age na tinta. Tem também essa pesquisa com a água do lugar. As primeiras experiências foram de Portugal, com a água daquele lugar. E aí eu vou fazendo essa distinção dessa maneira”, afirma. Com isso, a coleta dos materiais e a pesquisa acontecem juntas. “Geralmente eu coleto uma quantidade grande de terras e vou separando, fazendo o preparo das tintas e já vou testando tudo ao mesmo tempo. Às vezes eu testo no próprio suporte que vou utilizar. E a coisa já vai acontecendo. Catalogo as cores, as texturas, de onde foi, que aglutinante eu utilizei, a quantidade”. Para Vanessa, a pesquisa é principalmente sobre a cor e a textura.
Suas obras atualmente possuem grandes dimensões e têm a particularidade de poderem ser contempladas de ambos os lados. “Se esse trabalho estivesse preso em uma parede não iria comunicar tudo que ele tem para comunicar. Então, eu penso muito na obra enquanto instalação, por isso que está totalmente fincada no chão”, explica.
“Ela é mais baixa, exige que o espectador se movimente para poder vê-la por inteiro. Se abaixe, se levante. Movimente o corpo. É esse movimento que simula um pouco do movimento do percurso, do caminho que eu faço. Do próprio caminho que eu faço para encontrar a Terra”, confirma. “É o encontro com você mesmo, o encontro interno de cada um. E isso exige um movimento de entrega, uma permissão e também esse movimento. Essa vontade e também curiosidade”.
Para ela, seu caminho na arte contemporânea está sendo trilhado de maneira inicial, porém firme. “Acho que, na verdade, eu estou entendendo e me percebendo agora nesse universo, estou desbravando o momento. A partir dessa exposição me abriram muitas portas, e estou conhecendo muitas pessoas desse universo que eu não conhecia”.




As referências de Vanessa são muitas. “Maria Lira Marques é uma artista mineira incrível, Marlene Costa de Almeida lá de João Pessoal é sensacional. Kelton Campos Fausto que é um artista paulista também é incrível, um jovem artista. E tem também outras referências que definiram o meu caminho enquanto artista e quanto à estética da pesquisa como Agnes Martin, que nasceu no Canadá, mas migrou para os Estados Unidos jovem. Ela é uma artista que estudou o abstrato muito profundamente e ela trabalhava sobre a inocência, é incrível o trabalho dela, sou completamente fascinada”, revela. “Ana Mendieta é outra referência de pessoa e artista que falava muito dessa terra mãe. E as demais referências somos nós mesmas, as rendeiras com que eu convivi, as nossas bordadeiras do Pontal. As nossas mulheres que trabalham com barro como Dona Irinéia, Sil de Capela são grandes referências para mim. Nós temos mestres incríveis aqui. Essas mulheres que me rodeiam também, minha mãe, minhas tias, minha filha. Essas mulheres que são essa força, essa própria ancestralidade”.
Para o futuro ela pretende dar continuidade ao trabalho que vem desenvolvendo. “Já é um grande desafio. E, principalmente, investigar mais profundamente sobre as cores da terra, sobre novos aglutinantes, entender também os suportes e cada vez mais, essas matérias telúricas”, prevê Vanessa. “E continuar trabalhando. Aquela rotina de pesquisa é árdua, principalmente fazer a sua própria tinta é um trabalho muito demorado. Quero continuar tendo saúde e coragem para dar continuidade à pesquisa”. Em suas mãos, as terras e as telas se amalgamam e se convertem em estruturas densas, expressivas e por vezes delicadas, mas sem deixar de lado a força tão comum e intrínseca do feminino.
Vídeo no Instagram – Parte I da entrevista
Equipe de Reportagem:
Entrevista: Iranei Barreto
Gravação e texto: Nicollas Serafim
Revisão e edição de vídeo : Iranei Barreto
Créditos das imagens: Iranei Barreto e acervo pessoal da artista
*Reportagem viabilizada com recursos da Lei Aldir Blanc, operacionalizada em Alagoas pelo Governo do Estado, por meio da Secretaria de Estado da Cultura e da Economia Criativa (Secult)












