O artista alagoano Lula Nogueira construiu sua trajetória a partir da curiosidade, da memória afetiva e de uma relação contínua com a natureza, a cultura popular e o imaginário espiritual. Reconhecido como um dos nomes emblemáticos da arte naïf em Alagoas, sua produção reúne experiências vividas entre cidades, pessoas, leituras, objetos e afetos, organizadas na pintura como narrativas visuais marcadas por cores quentes e múltiplos sentidos. Ao transformar esse repertório em imagem, o artista constrói cenas que articulam cotidiano, imaginação e espiritualidade. Lula Nogueira é o destaque da 5ª edição da série especial do Blog Aqui Acolá Arte, Arquitetura da criação.

Nascido em uma família tradicional, Lula cresceu entre histórias do interior alagoano e visitas a cidades antigas, onde observava ruas, rituais religiosos, plantas, bichos e cenas rurais que mais tarde se tornariam parte de sua bagagem imagética. Quando criança, já gostava de retratar as cenas e paisagens do interior que presenciava em Viçosa e Branquinha. Estudando com grandes figuras da arte como Vânia Lima, Pierre Chalita, Lourenço Peixoto, Maria Amélia Vieira e Maria Tereza Vieira, ele consolidou a formação artística ainda na adolescência. “Só que aí comecei a querer pintar outras coisas também. Desenho, aquarela, papel”, relembra.
“Os três anos que eu estudei com a Vânia Lima na adolescência foram muito importantes porque me despertou para o desenho e a pintura”, diz Lula. “Estudei um pouco de música, estudei piano quando era jovem. Depois estudei inglês e francês e acho que tudo isso vai adquirindo coisas e conhecimentos que acrescentam à pintura”, reflete. “Tudo vai acrescentando um pouco à sua bagagem e ao seu repertório”.
Apesar de ter cursado Engenharia, nunca abandonou a pintura. Ao longo da vida montou a galeria de arte Graffitti, conviveu com artistas de diversas vertentes, participou de coletivos e grupos de experimentação e, ao longo dos anos, transitou por Recife, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Maceió, acumulando vivências que ecoam até hoje em seus cadernos e telas.
Lula conta que sua relação com a arte naïf surgiu naturalmente, ainda criança. As primeiras pinturas já tinham forte caráter regional, influenciadas pela visualidade de Olinda, pelas cores do barroco e pelos artistas que admirava como Fernando Lopes. O estilo naïf pode ser traduzido como arte ingênua, primitiva ou popular, ou seja, não-acadêmica, uma arte pura.
“Mesmo quando experimentei outras linguagens, a essência naïf nunca saiu. É minha desde cedo”, afirma ele. A paleta de cores sempre quente, com amarelos e laranjas, revela esse vínculo com a brasilidade visual, especialmente com Tarsila do Amaral e Portinari, segundo o próprio artista. “Aquela paleta de Tarsila tinha muito a ver comigo”, diz. Ao longo dos anos, suas cores também refletiram fases de vida, momentos mais escuros após perdas familiares, e logo após retomadas vibrantes em períodos de expansão e movimento.
Segundo conta Lula, grande parte das obras nasce primeiro de sua observação do mundo cotidiano, cujas inspirações ele repassa para um caderno que ele descreve como um “diário espiritual”. Ali registra frases, poesias, rabiscos, símbolos, consultas ao I-Ching ou ao tarô, além de acontecimentos do dia a dia. Esses apontamentos servem como esboços emocionais que mais tarde se convertem em telas.





“Às vezes é uma palavra, às vezes uma situação que estou vivendo. Eu escrevo e desenho ali e aquilo vira um quadro.” A prática artística meticulosa, muitas vezes com várias telas sendo trabalhadas simultaneamente, também faz parte de seu ritual criativo. Há momentos de recolhimento, outros de abertura, e a obra amadurece conforme o artista. “São histórias familiares ou histórias pitorescas que eu escuto e resgato”, diz ele. “Daí aquela história vai para o caderno, no caderno vira um esboço e depois vão surgindo outros desdobramentos como as telas”, revela Lula.
Um dos traços mais marcantes de sua produção é o uso de objetos triviais, materiais reciclados e elementos coletados ao longo da vida como recortes antigos, partituras, botões, portas, janelas, luminárias, revistas, objetos familiares e peças garimpadas em brechós. “Colecionar é tornar algo visível”, cita ele, lembrando o filósofo alemão Walter Benjamin. “É ver beleza nas coisas e querer trazer para mostrar.”
A partir de então foram aparecendo em seus trabalhos novos materiais. “Biombos, almofadas, retábulos, sempre reutilizando objetos diversos como novos suportes. Assim como as colagens foram sendo incluídas no trabalho, o que dava mais vida às telas”, analisa Lula.
Memória afetiva e trajetória
A cultura alagoana está presente em seu trabalho de maneira intuitiva e natural. As memórias familiares, as vivências com avós e bisavós, histórias políticas e sociais do estado e cenas de Maceió e do interior compõem seu repertório. Lula conviveu com figuras lendárias da cena cultural maceioense como Linda Mascarenhas e Romeu Loureiro, além de ter atuado no Conselho Estadual de Cultura, experiências que reforçaram seu interesse pelo patrimônio.





Na década de 1990, após seu retorno de Minas Gerais, Lula começou a estreitar sua amizade, bem como seus laços profissionais com Tânia de Maya Pedrosa, grande amiga e incentivadora. “A gente fez livro, exposições coletivas, o Projeto Arte Alagoas, levamos artistas alagoanos para o Rio de Janeiro, lançamos catálogos e muita coisa mais”, relata. “Foi nessa época que o Beto Leão veio de São Paulo, que era um amigo meu, uma pessoa muito querida e talentosa. Ele veio ser secretário de cultura em 1999 e eu comecei a trabalhar com o Beto e com a Tânia, lá no Conselho de Cultura”.
“Foi um momento muito legal da minha vida, convivi com várias pessoas, grandes alagoanos. Na época, esse conselho reunia as pessoas de várias áreas, e havia muito congraçamento. Cada área de cultura prestigiava outra”, relembra. Lula atuou no Conselho até 2005. “Muitas coisas que pintei em Maceió desapareceram. Com isso, as telas viraram registro histórico sem que eu soubesse.”
Refúgio natural
Vivendo há alguns anos no povoado da Massagueira em Marechal Deodoro, encontrou ali uma relação íntima com a natureza e também um espelho de suas memórias antigas. A comunidade e o ambiente natural, literalmente incrustado numa ilha no meio da lagoa Mundaú, segundo ele, reduziram o estresse e ampliaram sua capacidade de contemplação. “A natureza acalma a mente. É uma forma de respirar. Percebi que para produzir melhor, eu gostaria muito de voltar a conviver com a natureza. Foi uma opção acertada.”
Com exposições no Rio, em Minas e em Alagoas, Lula alcançou reconhecimento ao longo do tempo, com obras expostas em hotéis, galerias e instituições. Segundo ele, o painel criado para o Aeroporto Zumbi dos Palmares tornou-se um de seus trabalhos mais fotografados.
Hoje, entre livros, objetos antigos, plantas e quadros acumulados ao longo da vida, Lula segue pintando aos poucos, restaurando obras, organizando seu acervo e refletindo sobre novas formas de se comunicar com o público. “Somos muitos em nós mesmos”, reflete.






“Meu trabalho é isso. Memória, natureza, espiritualidade, histórias e a vontade de tornar tudo visível. Uma coisa que a gente admira na cidade, seja do povo ou da própria história, tornar visível para outros. A sensibilidade é uma coisa que merece ser preservada a nível físico, a nível material, homenagear as pessoas que foram importantes para mim, que me ensinaram muita coisa também.”
“Eu sinto que pinto não só pelo trabalho, a arte me ajuda muito a me comunicar. Seja numa rede social, seja numa exposição, seja numa divulgação de alguma coisa. É uma relação com os outros, é uma forma de falar, de participar e também estar ali”, desabafa. Em um mundo acelerado, Lula Nogueira encontra na natureza, na cor e na arte uma forma de existir com leveza e profundidade, preservando aquilo que viveu e compartilhando através de suas obras aquilo que ainda permeia sua mente artística inquieta.








Vídeo no Instagram – Parte I da entrevista
Equipe de Reportagem:
Entrevista: Iranei Barreto
Gravação e texto: Nicollas Serafim
Revisão, edição de vídeo e texto: Iranei Barreto
Créditos das imagens: Iranei Barreto e acervo pessoal do artista
*Reportagem viabilizada com recursos da Lei Aldir Blanc, operacionalizada em Alagoas pelo Governo do Estado, por meio da Secretaria de Estado da Cultura e da Economia Criativa (Secult)

