Quem percorre o Litoral Sul de Alagoas dificilmente passa pelo povoado da Massagueira, em Marechal Deodoro, sem fazer uma parada estratégica. Às margens da AL-101 Sul, o doce em quadros exposto nas bancas anuncia uma iguaria e um saber-fazer ancestral que atravessa gerações e hoje é reconhecido oficialmente como Patrimônio Cultural Imaterial de Alagoas.
As Cocadas da Massagueira receberam o título em agosto de 2021, após aprovação unânime do Conselho Estadual de Cultura, com registro publicado no Diário Oficial do Estado por meio da Secretaria de Estado da Cultura e Economia Criativa (Secult). O reconhecimento inscreveu o modo de fazer do doce no Livro de Registro do Patrimônio Cultural de Alagoas – Categoria I “Saberes”. Feitas basicamente de coco e açúcar, as cocadas da Massagueira se diferenciam pelo formato em quadros e pela técnica artesanal transmitida no cotidiano da comunidade. O doce integra o imaginário coletivo de moradores, viajantes e turistas, funcionando como marcador cultural da região metropolitana ao sul de Maceió.




O estudo que embasou o reconhecimento foi coordenado pela arquiteta Josemary Ferrare, no âmbito do Projeto de Educação Patrimonial de Marechal Deodoro. O dossiê destacou a singularidade do modo de produção e a forte apropriação cultural do doce pela comunidade local.
“Levados pela singularidade do modo de fazer dos doces de coco em quadros, denominados ‘cocadas’ na área da Massagueira, e pela percepção da sua apropriação entre a comunidade mais local e pelo reconhecimento enquanto referência cultural em todo o município, e até além dele, optou-se pela construção de um dossiê que assim o registrasse”, aponta um trecho da pesquisa.
O reconhecimento legitima um conhecimento coletivo, construído no fazer cotidiano das cocadeiras, mulheres que transformaram o doce em sustento e identidade própria da região.
Maria José trabalha com cocadas há cerca de 15 anos. Sem tradição familiar no ofício, ela começou a aprender observando outras cocadeiras depois de chegar à Massagueira desempregada vinda do município de Arapiraca. “Faço para vender por conta própria. Não é uma tradição da minha família, mas é uma tradição da cidade”, explica. Hoje, ela mesma produz e vende, oferecendo cocadas em diferentes tamanhos e preços, com cerca de 20 sabores. As mais procuradas são a tradicional, coco queimado, leite condensado, castanha e amendoim.



“A gente tem cocada de vários tamanhos e preços: tem a de oito reais, a de dez, e a cocadinha menor, que custa R$ 2,50. Em sabores, são cerca de 20. As que mais saem são a tradicional, a de coco queimado, a de leite condensado, castanha e amendoim. Também saem bastante maracujá e abacaxi.”
O reconhecimento institucional ganhou ainda mais força com a aprovação do Projeto de Lei nº 489/2023, na Assembleia Legislativa de Alagoas, em novembro de 2023. De autoria do deputado Alexandre Ayres (MDB), a proposta transforma o título em lei estadual, garantindo medidas permanentes de proteção e incentivo ao patrimônio.
Entre as diretrizes previstas estão a autorização para que o Poder Executivo promova estudos históricos e ações voltadas ao resgate cultural das cocadeiras da Massagueira, consolidando o doce como referência oficial do estado.
Se o reconhecimento simbólico fortalece a tradição, a infraestrutura veio para garantir dignidade e segurança. Inaugurado em 2019, o espaço Cocada Cultura mudou a realidade das cocadeiras, que antes trabalhavam em barracas improvisadas à beira da rodovia, expostas a acidentes e à insegurança.
Localizado às margens da AL-101 Sul, o equipamento conta com 38 boxes, sendo 30 destinados às cocadeiras e oito às artesãs, além de estacionamento para ônibus de turismo e um palco para apresentações culturais. O espaço funciona diariamente, das 9h às 17h, e recebe centenas de visitantes ao longo de todo o ano.
“Antes, a gente vendia ali na pista, não tinha esse espaço ainda. Depois que a prefeitura construiu o Cocada Cultura, cada uma ficou com seu box e ficou melhor para trabalhar. Para algumas pessoas vende mais, para outras menos, mas graças a Deus a gente vende.”


Além da cocada tradicional, o visitante encontra variações como coco queimado, doce de leite, leite condensado, goiaba, maracujá e amendoim. O espaço também abriga a venda de broas, brasileiras, suspiros e doces reaproveitados, resultado de capacitações realizadas em parceria com o Sebrae Alagoas.
Segundo Maria José, a criação do espaço Cocada Cultura trouxe mais organização e melhores condições de trabalho, embora as vendas variem entre as produtoras. O público principal é formado por turistas, especialmente em períodos de festas e alta temporada. Maria José também destaca que, após o reconhecimento das cocadas como patrimônio imaterial, o alcance do produto aumentou, com encomendas enviadas inclusive para fora do estado.
A Prefeitura de Marechal Deodoro também investiu na organização da categoria, com a criação da Associação de Cocadeiras da Massagueira, cursos de padronização, capacitação e idiomas, atendimento e reaproveitamento de alimentos, além da inclusão do Cocada Cultura nas rotas dos receptivos turísticos do Litoral Sul. “Aqui existe uma associação das cocadeiras, mas cada uma produz o seu próprio material”, diz Maria José. O espaço, que inicialmente seria chamado de Drive da Cocada, ganhou o nome atual após consulta às próprias cocadeiras, que reconheceram na palavra “cultura” a força simbólica do doce na história do município. Com todas essas ações de valorização, as cocadas da Massagueira continuam cumprindo um papel que vai além do paladar ao contar histórias de trabalho feminino, de saberes transmitidos sem livros e de geração em geração. Além de se perpetuar como resistência econômica e pertencimento territorial.


Agora protegidas por lei e reconhecidas como patrimônio, as cocadas seguem sendo produzidas e habitando os paladares e imaginários de quem passa pela Massagueira.
Texto: Nicollas Serafim
Revisão e edição: Iranei Barreto
Apoio: Diana Mota
Crédito das imagens: Aqui Acolá Arte /Iranei Barreto
*Reportagem viabilizada com recursos da Lei Aldir Blanc, operacionalizada em Alagoas pelo Governo do Estado, por meio da Secretaria de Estado da Cultura e da Economia Criativa (Secult).

