Igreja Nossa Senhora Mãe dos Homens no contexto histórico e paisagístico de Coqueiro Seco

Erguida no alto de um morro, com vista direta para a Lagoa Mundaú, a Igreja Nossa Senhora Mãe dos Homens é um dos marcos mais expressivos do patrimônio material de Alagoas. Situada no município de Coqueiro Seco, a edificação reúne valores históricos, arquitetônicos, artísticos, religiosos e paisagísticos fundamentais para a compreensão da formação cultural e simbólica da Lagoa Mundaú. Desde o período colonial, sua presença estabelece uma relação direta entre fé, território e modos de vida associados às águas, especialmente aqueles ligados à pesca artesanal.

O edifício se destaca como referência visual para quem navega ou trabalha na lagoa, atuando historicamente como ponto de orientação, proteção espiritual e marco fundador do núcleo urbano. A partir desse eixo, o crescimento de Coqueiro Seco passou a se organizar, promovendo o deslocamento gradual da ocupação humana das margens da lagoa para áreas mais altas e seguras.

Igreja Nossa Senhora Mãe dos Homens | Foto: Aqui Acolá Arte / Iranei Barreto


É nesse contexto que a Igreja Nossa Senhora Mãe dos Homens integra a série Tesouros de Alagoas – Patrimônio Material, que revisita espaços e conjuntos arquitetônicos capazes de revelar aspectos da formação cultural, histórica e simbólica do estado, tomando o patrimônio edificado como chave de leitura do território, de suas permanências e de suas relações com a paisagem e a vida comunitária.


Origem e construção


A Igreja Nossa Senhora Mãe dos Homens começou a ser construída em 1790, quando Coqueiro Seco ainda integrava a Capitania de Pernambuco. A obra foi conduzida pelo padre Bernardo José Cabral, com autorização do bispo de Olinda, Dom Diogo de Jesus Jardim, que permitiu tanto o início da construção quanto a celebração de missas no local. A edificação foi concluída nos primeiros anos do século XIX, após um processo prolongado de consolidação.


Registros históricos indicam que a construção foi viabilizada por meio da doação de terras por moradores locais e pela participação ativa da comunidade, formada majoritariamente por pescadores e suas famílias. Esse envolvimento coletivo revela a importância da igreja como empreendimento comunitário, sustentado pela fé e pela organização social de um território profundamente marcado pela Lagoa Mundaú, que à época desempenhava papel central na economia, no abastecimento alimentar e na circulação de pessoas e mercadorias.

Igreja Nossa Senhora Mãe dos Homens | Foto: Iphan
Foto: Iphan


Antes mesmo da conclusão da obra, a devoção já estava plenamente estabelecida. Desde 1791, a igreja abriga a imagem de Nossa Senhora Mãe dos Homens, esculpida em madeira dourada, com cerca de 1,40 metro de altura. A imagem representa Maria segurando o Menino Jesus e abençoando os fiéis, tornando-se, desde então, objeto central de devoção na região. Esse dado evidencia que o culto antecede a finalização arquitetônica do templo e reforça o papel da religiosidade como elemento estruturante da vida social e simbólica de Coqueiro Seco.

Consolidação religiosa e registros históricos


Diversos documentos ajudam a compreender a progressiva consolidação religiosa, simbólica e institucional da Igreja Nossa Senhora Mãe dos Homens ao longo do final do século XVIII e início do século XIX. Um dos primeiros marcos desse processo foi a autorização concedida pelo bispo Dom Diogo de Jesus Jardim, legitimando o uso litúrgico da capela ainda em fase de construção.


Em 1792, durante visita pastoral, há registro da permissão para o sepultamento de pessoas no interior da capela, prática comum no contexto colonial brasileiro. O visitador Sampaio autorizou esses enterros, o que indica que o edifício já funcionava plenamente como espaço sagrado, abrigando não apenas celebrações religiosas, mas também ritos funerários ligados à memória coletiva da comunidade. Esses sepultamentos, realizados sob o piso ou em áreas internas do templo, indicam a centralidade da igreja na organização religiosa e social da comunidade, conforme os costumes do período colonial.


Em 1801, o visitador Saldanha, com base em informações fornecidas pelo vigário da freguesia, Manoel José Cabral, concedeu autorização para o uso do tabernáculo com o Santíssimo Sacramento. Esse ato representou um avanço significativo na hierarquia litúrgica do espaço, indicando que a igreja reunia condições formais para a guarda da Eucaristia e para a realização plena dos ritos sacramentais.


Outro registro relevante data de 1805, quando o Núncio Apostólico em Lisboa concedeu 100 dias de indulgências aos fiéis que rezassem a Salve-Rainha na capela. A concessão de indulgências revela que a devoção à Nossa Senhora Mãe dos Homens em Coqueiro Seco ultrapassou os limites locais, alcançando reconhecimento em instâncias superiores da Igreja Católica.


Em 1806, foi doado um terreno com a finalidade específica de garantir a manutenção da iluminação do sacrário, sob a administração de Ignacio Antônio de Abreu Peixoto. Essa doação comprova a existência de uma organização material voltada à sustentação do culto, demonstrando como a preservação do espaço sagrado dependia diretamente do envolvimento de benfeitores e da comunidade.


Arquitetura e fé


Do ponto de vista arquitetônico, a Igreja Nossa Senhora Mãe dos Homens se destaca pela articulação entre elementos do rococó e do neoclassicismo, solução pouco frequente em templos do interior nordestino do período colonial. Essa convivência de estilos resulta do longo tempo de construção, marcado pela incorporação gradual de referências estéticas ao longo do processo de consolidação do edifício.

Detalhe da fachada | Foto: Iphan
Detalhe da fachada com azulejos portugueses | Foto: Aqui Acolá Arte / Iranei Barreto
Lateral da Igreja Nossa Senhora Mãe dos Homens | Foto: Aqui Acolá Arte / Iranei Barreto
Detalhe da lateral | Foto: Aqui Acolá Arte / Iranei Barreto


A fachada apresenta azulejos portugueses com padrão floral e o uso de embrechados, técnica decorativa que emprega fragmentos de cerâmica, conchas e pedras. Esse recurso estabelece um diálogo direto com o ambiente lagunar, incorporando à arquitetura elementos simbólicos associados à paisagem e aos modos de vida ligados às águas.


Internamente, a igreja conserva importantes elementos artísticos entalhados em madeira, como retábulos, púlpitos, pia batismal e tribunas em estilo rococó. O conjunto revela unidade formal e delicadeza ornamental, características marcantes da arte sacra do período. Apesar das perdas parciais provocadas pelo desabamento do telhado em 1949, parte significativa desse acervo foi preservada e reintegrada ao longo de processos de restauração, permanecendo como testemunho da qualidade artística e da complexidade do programa decorativo original do templo.


No centro da composição litúrgica encontra-se o altar-mor, onde o sacrário, confeccionado em madeira moldurada e dourada, está disposto sobre a parte média da banqueta. Sua localização reforça a centralidade da Eucaristia no espaço sagrado, seguindo padrões da arte sacra colonial, nos quais o douramento confere solenidade e hierarquia simbólica ao conjunto.

Foto: Aqui Acolá Arte / Iranei Barreto
Foto: Aqui Acolá Arte / Iranei Barreto
Foto: Aqui Acolá Arte / Iranei Barreto


A imagem da padroeira ocupa lugar central no altar-mor, abrigada em oratório igualmente moldurado e dourado. No ápice desse conjunto, destaca-se o símbolo do Divino Espírito Santo, que coroa a composição e organiza verticalmente o espaço litúrgico, articulando altar e imagem segundo a hierarquia simbólica da arte sacra.


Esse arranjo simbólico e formal confere ao interior da igreja uma forte unidade visual e teológica, na qual arte e fé se apresentam de forma indissociável, traduzindo crenças, práticas religiosas e valores comunitários preservados ao longo do tempo.

Devoção e festividades


A devoção a Nossa Senhora Mãe dos Homens possui raízes profundas na comunidade de Coqueiro Seco. A padroeira é celebrada anualmente com missas, procissões e festejos religiosos, especialmente em torno do dia 26 de janeiro, data em que a cidade realiza comemorações litúrgicas e culturais em sua homenagem.


Essas celebrações combinam práticas de fé com expressões socioculturais locais, atraindo fiéis não apenas de Coqueiro Seco, mas também de municípios vizinhos da Região Metropolitana de Maceió. As festividades reforçam o papel da igreja como espaço de sociabilidade, encontro comunitário e reafirmação de identidades construídas em torno da religiosidade e da relação com a lagoa.

O conjunto de valores históricos, arquitetônicos, artísticos, paisagísticos e simbólicos da Igreja Nossa Senhora Mãe dos Homens foi reconhecido oficialmente em 2024, quando o bem recebeu o tombamento definitivo pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). A decisão resultou de estudos técnicos que consideraram não apenas a edificação em si, mas também sua inserção no território, sua relação com a paisagem da Lagoa Mundaú e o papel desempenhado na formação urbana e social de Coqueiro Seco.

Tombamento


Antes do tombamento definitivo, a igreja já havia sido objeto de ações de reconhecimento e preservação em âmbito federal. Em 2011, o imóvel recebeu tombamento provisório, etapa fundamental para a realização de estudos técnicos voltados à proteção do bem e à delimitação de seu valor cultural. Esse procedimento permitiu aprofundar análises históricas, arquitetônicas e paisagísticas, além de estabelecer diretrizes preliminares para a conservação do edifício e de seu entorno.


Em decorrência desse processo, entre 2021 e 2022 foram investidos aproximadamente R$ 2,9 milhões em obras de restauração, com apoio federal. As intervenções tiveram como foco a recuperação de sistemas estruturais fragilizados, a conservação do conjunto artístico e a reintegração de elementos arquitetônicos afetados pela ação do tempo e por danos acumulados ao longo do século XX. As ações também buscaram revitalizar o patrimônio, garantindo melhores condições de uso, segurança e fruição para a comunidade e para os visitantes.


O tombamento definitivo incluiu a inscrição da igreja em dois livros do tombo do Iphan: o Livro do Tombo das Belas Artes, que reconhece seu valor estético, artístico e arquitetônico, e o Livro do Tombo Arqueológico, Etnográfico e Paisagístico, que assegura a proteção do entorno imediato e da paisagem cultural associada. Essa dupla inscrição evidencia a compreensão do bem como um conjunto indissociável, no qual arquitetura, natureza e modos de vida se entrelaçam.


O processo de tombamento considerou ainda a implantação estratégica da igreja em posição elevada, sua ampla visibilidade no contexto lagunar e o papel do edifício como referência territorial para a população local. O reconhecimento ultrapassa a dimensão material do templo, incorporando valores imateriais relacionados à memória coletiva, às práticas religiosas e às relações simbólicas construídas ao longo de mais de dois séculos.


Também foi contemplada a proteção do chamado ambiente cultural, conceito que amplia o olhar sobre o patrimônio e impede intervenções que comprometam sua leitura histórica e paisagística. A partir do tombamento, qualquer modificação no entorno da igreja passa a ser analisada segundo critérios técnicos, assegurando a preservação das visuais, das relações de escala e da ambiência que caracterizam o sítio histórico.


O reconhecimento federal insere a Igreja Nossa Senhora Mãe dos Homens no conjunto de bens tombados que narram a ocupação colonial do litoral e das regiões lagunares do Nordeste, reforçando a importância de Coqueiro Seco no panorama do patrimônio cultural brasileiro. Trata-se de um tombamento que valoriza não apenas a excepcionalidade formal do edifício, mas também a permanência de usos, práticas e significados ainda presentes no cotidiano da comunidade.

Foto: Aqui Acolá Arte / Iranei Barreto


Ao assegurar proteção legal, o tombamento amplia as possibilidades de acesso a políticas públicas de preservação, restauração e educação patrimonial. Ele fortalece iniciativas de conservação preventiva, fomenta ações educativas voltadas à população local e estimula a valorização do patrimônio como recurso cultural e identitário, e não apenas como objeto monumental.


Restaurada em etapas recentes, a igreja permanece como espaço vivo de devoção, celebração e sociabilidade. O tombamento, nesse sentido, não cristaliza o edifício no passado, mas reconhece sua continuidade histórica, reafirmando seu papel como testemunho material da formação de Coqueiro Seco e como um dos bens que ajudam a compreender, a partir do patrimônio edificado, a diversidade cultural, territorial e simbólica de Alagoas.


Igreja Nossa Senhora Mãe dos Homens

Missas dominicais: 09:00 e às 19:00

Secretaria Paroquial: De segunda a sexta, das 14h30 às 18h30

Mais informações: 82. 9991 4863

Instagram: @paroquiamaedoshomenscs


Equipe de Reportagem:

Texto, Revisão e Edição: Iranei Barreto

Apoio: Nicollas Serafim

Créditos das imagens: Aqui Acolá Arte/ Iranei Barreto, Iphan e Acervo da Paroquia Nossa Senhora Mãe dos Homens


*Reportagem viabilizada com recursos da Lei Aldir Blanc, operacionalizada em Alagoas pelo Governo do Estado, por meio da Secretaria de Estado da Cultura e da Economia Criativa (Secult).

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