Paulo Caldas, o domador de traços

Na quarta edição da série de matérias especiais “Arquitetura da Criação”, o Blog Aqui Acolá Arte destaca os processos do artista visual Paulo Caldas, que abre as portas de seu universo onde cada traço carrega um sopro de intuição. Do menino que enchia cadernos com rabiscos ao artista que hoje atravessa madrugadas escrevendo e desenhando em cabaças, papéis, telas e outros materiais, sua trajetória é guiada por uma espiritualidade artística sutil e constante.

Foto: Aqui Acolá Arte/ Iranei Barreto

Conhecido pela produção durável e por um método intuitivo marcado por elementos espirituais, Paulo Caldas construiu um espaço em sua casa onde viver e criar se confundem e os diferentes materiais se tornam suportes para sua imaginação poética. Guiado por uma forte espiritualidade e por uma relação quase orgânica com o ato da criação, ele transformou o desenho e a escrita em práticas cotidianas e linguagens centrais de sua trajetória.

A relação de Paulo com o desenho começou ainda na infância. “Eu percebi que ia ser artista porque eu era ruim de estudo. Eu detestava ir para a escola”, lembra. “Eu era o engraçado das turmas. Minha mãe dizia que o meu boletim parecia um pastoril, com nota vermelha e azul”, brinca. “Era o professor dando aula e eu rabiscando, nisso eu percebia que o meu negócio era fazer desenho”. Dessa época, seus cadernos de escola eram repletos de desenhos. “Quando eu fui descobrindo essas coisas, eu me perguntava o que eu iria fazer da vida. Eu não quero ser engenheiro, eu não quero ser médico. Eu não quero ser político. Única coisa que eu sei fazer é arte”.

Com a vida adulta, ele criou um mundo particular, surreal e multiartístico incluindo o desenho, a pintura, a poesia e a música. A inspiração chega como um espírito, um santo, uma voz falando-lhe aos ouvidos. E o processo de criação atropela suas diferentes linguagens. Um acidente com a tela que esteja pintando pode lhe despertar a vontade de escrever, seja uma poesia ou uma música.

“As primeiras imagens que me despertaram foram de pássaros, sempre tive alguma uma coisa com pássaros”, relembra. “Com o tempo, percebi que aqueles pássaros me levavam para as nuvens, para o céu, para o espírito. Então eu precisava criar alguma coisa que me trouxesse para a Terra e comecei a fazer cavalos”.

Através disso, Paulo foi viajando entre o céu e a terra, misturando os elementos e animais representativos dessas questões. “Foram as duas imagens que começaram. Depois vieram flores, borboletas, peixes”. Suas referências e inspirações iniciais incluem nomes do surrealismo como Salvador Dalí e René Magritte. “Aquelas trabalhos fantásticos me chamavam muito a atenção. Aí eu entrei nesse negócio e faço isso até hoje”, revela.

Suas obras costumam nascer no meio da noite e são trabalhadas por vezes no outro dia. “Adoro trabalhar de madrugada. Fico aqui na rede rabiscando, escrevendo até que vai me dando sono. Mas quando eu boto a cabeça no travesseiro, parece que a inspiração desce”, confessa ele. “Aí eu levanto e tenho que trabalhar, isso vem em palavras e imagens. Eu não sou espírita, mas eu sinto que eu tenho uma afinidade muito boa com a espiritualidade”.

Seus olhos captam além do mundo exterior. “Se eu fechar os olhos vem um mundo, uma imagem na minha cabeça, e falas também. Às vezes eu tenho até medo, eu vejo com os olhos fechados” revela. “Tanto que eu tenho um plano de escrever um livro chamado Sonhos Acordados. Porque eu estou acordado e eu entro em acordo com a espiritualidade”.

Além dos animais e seus significados, o trabalho de Paulo Caldas também dialoga com as cores e manifestações populares do Nordeste. “Pelas cores, pela forma como essas manifestações se manifestam. Eu vejo as cores e o movimento de um guerreiro, de um bumba-meu-boi, por exemplo. Vejo o movimento daquilo e vou criando de cima disso”, afirma.

Ateliê de Paulo Caldas | Foto: Aqui Acolá Arte/ Iranei Barreto

Ateliê de Paulo Caldas | Foto: Aqui Acolá Arte/ Iranei Barreto

Ele conta que após refletir sobre as decorações de Natal que são expostas em nosso cotidiano, percebeu que o nosso Natal era totalmente diferente. “O Natal da gente não é esse. Nosso Natal tem praia, tem sol, tem picolé, essas coisas assim. Aí eu pensei, vou escrever um trabalho a respeito disso. Cheguei em casa e escrevi um poema, Cordão Nordeste, descrevendo como é o Natal da gente”, diz ele. Depois do poema, vieram as inspirações para as ilustrações das palavras. “Desengatou tudo e eu comecei a fazer um trabalho voltado para as crianças, com as figuras do guerreiro, do pastoril, um trabalho bem colorido. Daí o pessoal vendo me chamava para eu ir para as escolas e desenvolver isso com as crianças, foi um trabalho muito bom”.

Contudo, segundo Paulo o início de sua criação sempre vem através do traço. “Vou levando esse traço e ele vai crescendo e acontecendo. De uma forma suave eu vou trabalhando com ele, brincando com ele, rindo com ele e vou fazendo. Domando o meu traço”, analisa. O momento da finalização da obra também é bastante pessoal e intrínseco da percepção do artista. “É uma coisa muito interessante, porque a gente vai fazendo, mas chega uma hora que eu sei que ela está pronta. Eu trabalho com a espiritualidade, ela está comigo, eu não estou sozinho”, revela ele. “Eu não quero ser mensageiro de coisa nenhuma, mas eu sinto que tem mensagens que vêm a mim para que eu passe isso para as pessoas através do que eu sei, que é a arte”.

Tanto que as inspirações e transpirações de Paulo vão acontecendo e ele se deixa levar, surpreendendo o próprio artista.

“Muita gente diz que acha bonito e se surpreende, mas a primeira pessoa que se surpreende sou eu, porque eu não esperava que eu fosse fazer aquilo. Aí de repente eu estou fazendo”, brinca. “Inclusive se eu fizer um negócio e sair errado, em cima daquele erro eu crio. Então eu penso, é porque não tinha que ser como eu queria. Era para ser como a espiritualidade queria.”

Foto: Acervo do artista
Foto: Acervo do artista
Foto: Acervo do artista
Foto: Acervo do artista

Seus materiais são diversificados, frutos de toda a sua trajetória artística onde a experimentação foi fluindo. “Por exemplo, eu sou bom no papel, no MDF, eucatex. Eu vou fazendo as coisas de acordo com o que vai aparecendo, como na cerâmica, faço pintura em cabaça. São suportes que eu domino”. Muito embora, ele analisa que atualmente o desenho vem tomando conta de suas produções. “Hoje em dia eu adoro desenhar, gosto mais do que pintar mesmo”.

Sua produção constante já fez com que ele expusesse 3 mostras ao mesmo tempo. Em 2016, ocupou o térreo do Complexo Cultural do Teatro Deodoro com “Rio Afogado”, em parceria com o fotógrafo Jorge Vieira, já o primeiro andar expôs as obras de “O lado invisível do ser”, no qual através de pequenos recortes do cotidiano como uma folha no chão, uma mancha na parede, um gomo de laranja são suficientes para despertar a criatividade. “Eu vejo uma mancha, fotografo aquela mancha e em cima dela eu faço um desenho”. E na mesma época, o Sesc abrigava “Marina e a Flora de Lá”, exposição que fez dos desenhos feitos em grafite e nanquim sobre papel linho, tendo como mote a filha caçula Marina.

Fiz essas três exposições lá, ao todo com 110 quadros ao mesmo tempo e não vendi nada”, desabafa. “Aí me deu uma desanimada, sabe? Passei um bom tempo sem produzir. Desde então, eu venho fazendo as minhas coisas para mim, sem pretensão nenhuma de expor”. Sua última mostra foi realizada em agosto de 2025 no Museu Palácio Floriano Peixoto (Mupa) juntamente com outros artistas como Adriana Jardim, Salles Tenório, Laís Lima, Marta Arruda e Tânia de Maya Pedrosa. A exposição chamada “Na Alegria dos Folguedos, o Colorido dos Encontros” teve curadoria de Persivaldo Figueirôa e como mote estrutural o Dia do Folclore.

Mesmo assim, Paulo Caldas sabe a importância de suas obras e de seu futuro legado. “Não vou dizer que eu faço o trabalho pra mim mesmo, porque eu faço querendo deixar esse legado. Eu sei que quando eu for embora esse trabalho vai ficar aí, sei que eu vou deixar isso pra alguém”, diz ele.


Vídeo no Instagram – Parte I da entrevista


Equipe de Reportagem:

Entrevista: Iranei Barreto

Gravação e texto: Nicollas Serafim

Revisão, edição de vídeo e texto: Iranei Barreto

Créditos das imagens: Iranei Barreto e acervo pessoal do artista


*Reportagem viabilizada com recursos da Lei Aldir Blanc, operacionalizada em Alagoas pelo Governo do Estado, por meio da Secretaria de Estado da Cultura e da Economia Criativa (Secult)

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