Entre as linhas coloridas e os nós delicados feitos por mãos de diversas gerações, o Bordado Filé se afirma como uma das mais fortes expressões do Patrimônio Cultural Imaterial de Alagoas. Reconhecido oficialmente como bem cultural do estado em 2014, o Filé carrega não apenas beleza estética, mas também história, identidade territorial e a sobrevivência econômica de centenas de famílias que vivem no entorno das lagoas Mundaú e Manguaba.
O Filé é uma das marcas mais emblemáticas do artesanato alagoano e tem origem diretamente ligada ao complexo estuarino Mundaú-Manguaba, onde estão seus principais núcleos de produção que são os bairros do Pontal da Barra e Riacho Doce, em Maceió, e o município de Marechal Deodoro, localizado na região metropolitana da capital. Também há produção significativa em Pilar, Coqueiro Seco, Santa Luzia do Norte e Satuba.
O pedido de registro do Bordado Filé foi encaminhado à Secretaria de Estado da Cultura e Economia Criativa (Secult) no dia 4 de julho de 2011, por iniciativa de sete cooperativas e associações de bordadeiras alagoanas, contando ainda com o apoio do Sebrae e da Universidade Federal de Alagoas (Ufal). A solicitação foi acompanhada da elaboração de um estudo técnico exigido pela Lei nº 7.285/2011, que trata da salvaguarda de bens culturais imateriais.

O dossiê que incorporou robustez no pedido foi produzido pelo Laboratório da Cidade e do Contemporâneo (LACC), núcleo de pesquisa do Instituto de Ciências Sociais (ICS) da Ufal, sob a coordenação do professor e antropólogo Bruno César Cavalcanti, o qual destacou que a relação entre o bordado e a pesca é essencial para entender o Filé, que se desenvolveu exatamente onde a pesca era central para a sobrevivência das famílias. O estudo reuniu documentação histórica, registros dos modos de fazer, dados sobre a produção e comercialização do Filé, além de propostas de salvaguarda, reconhecendo o bordado como prática cultural profundamente enraizada no território lagunar de Maceió.
O nome Filé vem do francês filet, que significa “rede”, uma referência direta à base do bordado, feita a partir de uma rede semelhante às utilizadas na pesca nas lagoas e no mar. A técnica teria chegado ao Brasil no período colonial, trazida por europeus, especialmente portugueses e italianos, e foi incorporada pelas comunidades pesqueiras locais, sobretudo pelas mulheres.
Uma dessas guardiãs é Ivonete Santos dos Anjos, a Mestra Nete, nascida em 1940, criada no Pontal da Barra e reconhecida como Mestra do Patrimônio Vivo de Alagoas em 2022. Filha de pescador e de bordadeira, ela cresceu entre redes de pesca e redes de filé. “Eu comecei com seis anos”, relembra. “Meu pai fazia rede de pesca e eu ajudava. Chorava para ele me ensinar a fazer a rede de filé. Até que ele viu minha vontade e me ensinou.”


Sem acesso prolongado à escola formal, Mestra Nete aprendeu observando. Via as vizinhas bordarem à noite, escondida atrás da cortina de pano do quarto. “Por isso que eu digo que eu nasci pra isso”, afirma. Aos 12 anos, já era profissional. Trabalhou em grandes teares, virou noites bordando e começou a viver exclusivamente do filé. “Eu criei meus filhos com o filé e com a pesca do maçunim. Foi trabalho duro, mas foi ele que me deu tudo.”
O processo de confecção começa com a produção da rede-base, feita manualmente com linha resistente e uma agulha tradicionalmente confeccionada a partir da madeira da jenipaparana, hoje cada vez mais rara. A dimensão da malha é definida por uma palheta de bambu. Após pronta, a rede é engomada e esticada em um tear de madeira.
Sobre essa base, a filezeira borda com linhas coloridas, preenchendo os espaços com pontos feitos de memória, sem risco ou desenho prévio. É justamente essa característica que diferencia o filé de outras rendas, como a de bilros. Os pontos têm nomes poéticos e populares, como jasmim, besouro, olho-de-pombo, rosa, girassol, três Marias, casa de noca, aranha, dente-de-cão, entre muitos outros.
Originalmente, o Filé era produzido em branco ou com poucas cores, obtidas por corantes naturais. Com o tempo, passou a incorporar uma variedade vibrante, que hoje é uma de suas principais marcas. “As cores do Filé refletem a tropicalidade presente nas casas, nos barcos e nas manifestações culturais como o maracatu, o coco e o guerreiro”, destaca o Instituto do Bordado Filé de Alagoas (Inbordal).


Ao longo da vida, Nete não apenas preservou a técnica, como também a reinventou. Criou novos pontos, desenhos figurativos, toalhas redondas, inovação que inicialmente foram alvo de críticas. “Chamaram minha toalha de ‘beiju’, porque era redonda. Depois venderam tudo e vieram pedir pra eu ensinar”, lembra rindo.
Ela criou cenas inteiras em filé. Desde marinheiros, barcos, âncoras, pássaros, jacarés, iniciais bordadas letra por letra. “Tudo que eu vejo na minha mente, eu faço. Primeiro imagino, depois vou alinhavando.” O talento de Mestra Nete atravessou fronteiras. Durante mais de três décadas, ela percorreu feiras de artesanato pelo Brasil e pelo exterior, levando o filé alagoano a países como Argentina, Uruguai, Bolívia, Chile e Costa Rica.
Mais do que um bem simbólico, o bordado filé é uma importante fonte de renda para a população do complexo lagunar. Em Maceió, centenas de filezeiras estão registradas, e muitas famílias dependem diretamente da atividade para complementar ou garantir sua subsistência. Mestra Nete é uma das figuras centrais desse reconhecimento. Além do título de Patrimônio Vivo, ela se orgulha de ter ensinado o ofício a filhas, filhos, netas e bisnetas. “Todas sabem fazer. Dei estudo aos meus filhos com o filé.”




Apesar do reconhecimento, Mestra Nete aponta as dificuldades enfrentadas hoje pelas artesãs do Pontal da Barra, especialmente a diminuição do turismo no bairro. “Às vezes a gente passa cinco, seis dias sem vender nada. Quando vende, é 20 reais. Isso não paga nem a energia.” Ainda assim, ela segue firme, sustentada pela fé, pelo orgulho da profissão e pela certeza do valor do filé. “Eu sou rendeira, sou pescadora, sou marisqueira. E me orgulho disso.”
Com a diminuição da pesca, agravada pela poluição e pelo assoreamento das lagoas, o bordado passou a ter peso ainda maior na economia local. A organização coletiva das artesãs foi fundamental para a valorização do filé. Com apoio do Sebrae, elas criaram o Inbordal, que liderou o processo de reconhecimento da Indicação Geográfica de Procedência (IG) concedida pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI). O selo garante a origem, a qualidade e a autenticidade do filé produzido na região Mundaú-Manguaba.









Colorido, delicado e profundamente ligado ao território, o Bordado Filé segue presente nas calçadas do Pontal e nos teares das rendeiras, sendo tecido como memória viva de Alagoas nas mãos de mulheres como Mestra Nete, que transformaram resistência em arte e trabalho em patrimônio.
Além do reconhecimento oficial, o registro como patrimônio cultural imaterial prevê ações de perpetuação e proteção dessa forma de arte, como oficinas, transmissões de saberes e estímulo à produção tradicional. Parte desse trabalho envolve jovens e estudantes de escolas públicas, garantindo que o conhecimento não se perca com o tempo.
Texto: Nicollas Serafim
Revisão e edição: Iranei Barreto
Crédito das imagens: Aqui Acolá Arte /Iranei Barreto
*Reportagem viabilizada com recursos da Lei Aldir Blanc, operacionalizada em Alagoas pelo Governo do Estado, por meio da Secretaria de Estado da Cultura e da Economia Criativa (Secult).

