A expansão da vida de Eva Le Campion através da arte

A série especial do Blog Aqui Acolá Arte “Arquitetura da criação” investiga o processo criativo da artista visual maceioense Eva Le Campion. Seu trabalho transforma o olhar intuitivo sobre o mundo em uma arte profundamente conectada à terra, à água e à condição humana. Eva construiu uma linguagem em que arte, natureza e espiritualidade se confundem. Das areias que desenham artérias na praia, do barro que molda o humano e o animal e das águas que revelam as conexões entre os indivíduos e a natureza.

Foto: Aqui Acolá Arte / Iranei Barreto
LEGENDA PARA CEGO VER

Os olhos de Eva parecem capturar o invisível. Expandem-se para o mundo ao seu redor no intuito de absorver as nuances sociais e ambientais, e depois contraem-se quando transporta o que viu para suas obras. Herdeira de uma linhagem artística, sobrinha de Pierre Chalita, figura histórica da pintura alagoana, Eva descobriu cedo o dom que a acompanharia por toda a vida. Ainda criança, desenhou o busto de Dom Pedro na escola e ganhou o “zero mais feliz” da sua vida, quando a professora duvidou que fosse obra sua. De lá para cá, ela fez da arte seu modo de existir e ver o mundo. Da argila ancestral e primitiva ao acrílico contemporâneo, suas obras dialogam com o barro, com a água e com as feridas do mundo social atual. Entre suas telas e esculturas, construiu uma trajetória artística que se ancora na observação da natureza e na busca por sentido em meio ao caos.

Ela lembra com carinho do episódio na escola. “Eu chorava e ria”, brinca. “Porque para mim foi o zero mais bonito que eu já vi na minha vida. Depois disso eu não parei mais de desenhar”. Aos 14 anos entrou para a escola de arte de seu tio Pierre Chalita. “Durante três anos, eu estudei só desenho. A sua estrutura, sua geometria, aprendendo a relação entre claro e escuro. Passando pela natureza morta, perspectiva, ponto de fuga”. Eva relata que toda essa preparação foi importante para seu repertório do ofício artístico. “Isso é para você refinar a mão, torná-la virtuosa, para conseguir desenhar o mundo à sua volta. E, dentro do desenho você também estuda as variações de traços e vai migrando suavemente para as aguadas, que é o início da pintura onde você vai usar as cores primárias”.

Após o início conturbado com a tinta a óleo, em razão da intensa toxicidade do material, Eva Le Campion descobriu a tinta acrílica. “Foi quando eu conheci, na década de 1980, a técnica do Delson Uchôa em acrílico, que ele já havia trabalhando no Rio de Janeiro”. Ela lembra que a princípio se dedicava a pintar paisagens abstratas. “Eu sempre gostei muito de pintar água, o mar. Existem alguns trabalhos antigos a óleo onde eu pinto o mar. Mas, significativamente, o primeiro trabalho voltado para a questão ambiental foi na década de 90, quando eu fiz um trabalho na Cruz Vermelha”, destaca.

“Eu montei um projeto em que eu participei do resgate de 400 crianças que foram retiradas do antigo lixão, que estavam em situação de risco. Conheci as Olarias de Satuba, que faziam tijolos e conheci o Muquém lá em União dos Palmares”, relembra. “Então eu levei esse projeto de montar uma Cerâmica para a Cruz Vermelha brasileira, isso na década de 90, eu já estava mergulhada na área social”. Para ela foi importante trazer o barro como a primeira questão popular e ancestral, voltando sua mão na matéria bruta do barro.

Nesse período e através dessas peças surgiu a sua exposição chamada “Barro Oco”. “Em comemoração aos 40 anos da Pinacoteca, eu fui convidada para fazer esse trabalho, no qual tinha a filosofia de levar três punhados de barro para uma pessoa, conhecida ou não, brincar de formas”. Ela lembra que recebeu críticas pela mostra. “Na verdade, a exposição era um diálogo com o outro. E as pessoas que participaram estavam também dialogando com o barro, com a terra, com eles mesmos. E comigo e com as lendas. Porque a arte é dialógica, a vida é dialógica, é uma troca”, analisa.

Foto: Acervo da artista
Foto: Acervo da artista
Foto: Acervo da artista
Foto: Acervo da artista
Foto: Acervo da artista

Segundo ela, o ofício de pintor é profundamente ligado à função de captar as sutilezas em que o indivíduo está inserido. “Você só sente, capta e transfere. E foi aí que eu comecei a me voltar para essa questão ambiental”, reflete. Outra exposição bastante enraizada na questão social foi “Moira”, realizada em 2015 também na Pinacoteca. “Ela foi reflexo de um trabalho meu com os dependentes químicos e também com menores infratores. Eu cheguei a escrever algumas histórias, alguns textos da vida de cada um na exposição”. A mostra também trazia esculturas, e as telas eram feitas em tapetes e panos de chão em que Eva tecia em tintas as histórias escutadas por ela.

Eva revela que seu processo criativo sempre começa, a princípio, pela observação do mundo em que vive.“Todas as aflições que eu sinto ao meu redor, a arte vem transformá-las em luz, e devolver para a minha comunidade aquilo talvez que ela gostaria, que ela precisa ver”, desabafa a artista.

Com isso, seu processo vem primeiramente do campo intuitivo para depois transfigurar-se no racional. “Eu primeiro sinto, e depois eu raciocino. Pesquiso na literatura, algo que possa me ajudar a construir o trabalho plástico, que é a pintura”, diz. “Eu estou sentindo isso, e eu sei que esse sentimento não é só meu. Ele está em muita gente. A arte tem esse poder de dialogar, de criar essa vivência.

O poder da arte é simbólico, a mente humana sobrevive porque ela simboliza. Nós temos a necessidade de entender e simbolizar o que a gente está vivendo. É uma necessidade mesmo. Se eu não pintasse, talvez eu fosse uma pessoa não muito saudável. Eu tenho necessidade de pintar”.

Foto: Acervo da artista
Foto: Acervo da artista
Foto: Acervo da artista
Foto: Acervo da artista
Foto: Acervo da artista
Foto: Acervo da artista
Foto: Acervo da artista

A pintura de Eva se propõe a captar a realidade, porque segundo ela, as pessoas precisam se ver e enxergar na arte que consome. Em sua trajetória já utilizou suportes como o papel, cerâmica, mas ela afirma que sempre volta para as telas. “E onde eu tenho mais afinidade, e é mais econômico para mim”, diz. “Minhas cores são suaves, dependendo do que eu estou tratando. A paleta de cores tem muito a ver com o desenho”.

Hoje, Eva continua a criar sua arte como quem reza  experimentando o desenho, a pintura e a fotografia como pontes entre o humano e o divino. A arte de Eva além de extensão de seu olhar e de sua própria vida é também forma de oração.

O poder da arte é exatamente entrar nessa esfera que não é apenas o ‘logos’. É algo quântico. E eu digo que o maior artista é Deus. Eu sempre digo que me inspiro nele. Eu só imito e copio Deus”.


Vídeo no Instagram – Parte I da entrevista


Equipe de Reportagem:

Texto: Nicollas Serafim

Entrevista: Nicollas Serafim e Iranei Barreto

Edição de vídeo e texto: Iranei Barreto

Gravação : Iranei Barreto

Créditos das imagens: Acervo pessoal da artista e Iranei Barreto


*Reportagem viabilizada com recursos da Lei Aldir Blanc, operacionalizada em Alagoas pelo Governo do Estado, por meio da Secretaria de Estado da Cultura e da Economia Criativa (Secult).

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