O Território como fundamento na obra de Delson Uchôa

A obra de Delson Uchôa nasce de um território profundamente humano. Médico de formação e artista por destino, ele enxerga as duas áreas como campos de conhecimento que se encontram na curiosidade e no desejo de compreender o mundo. Na pintura, assim como na medicina, ele busca aquilo que o move desde sempre, a dimensão humana das coisas, as perguntas sobre existência, corpo, luz e matéria. O artista maceioense é assunto do 2º episódio da série Arquitetura da Criação.

Delson nunca se afastou de Maceió ou do Nordeste em sua produção. Para ele, localização não é apenas geografia, mas um fundamento estético. Cor, luz e estridência cultural se tornam matéria-prima essencial. A paisagem luminosa do cinto tropical, as memórias da cidade, as referências afetivas do território, tudo atravessa a superfície dos seus trabalhos.

Foto: Aqui Acolá Arte/ Iranei Barreto
LEGENDA PARA CEGO VER

Seu encontro com a arte começou ainda estudante de medicina, quando colecionava fascículos de Mestres da Pintura e mergulhava na obra de grandes nomes. O passo seguinte veio no ateliê de Pierre Chalita, experiência que ele descreve como formação sensível, um aprendizado para enriquecer o olhar e a vida. Depois da graduação, Delson viveu um ano em Paris. Lá, encontrou a obra de Joaquim Torres Garcia e, com ela, a certeza de que queria falar da América do Sul, do Brasil, do Nordeste.

Sua inspiração nasce dele mesmo. O artista se define como confessional, alguém que trabalha a partir do que viveu, do que aprendeu e do que compõe sua curiosidade. Por isso, diz que sua obra fala do próprio corpo e se estende para o corpo da região onde vive.

O período recente da pandemia e do isolamento reforçou sua imersão no trabalho. Ele conta que essa fase o colocou em estado permanente de criação, pintando sozinho, reduzindo formatos, reorganizando o ateliê, deixando que o acaso e a matéria o guiassem. Foi um tempo de impacto profundo, em que a cultura brasileira era atacada e a arte perseguida. Nesse contexto, ele retornou a uma experiência essencial da liberdade completa dentro do seu espaço de criação.

A variedade de suportes que usa surge dessa convivência com o entorno. Plásticos, lonas, cobertores, fibras vegetais e até utensílios domésticos, tudo que faz parte de seu cotidiano pode se transformar em pintura. Os materiais ganham corpo, textura e presença.

O acaso é parceiro constante. Delson não se apega ao controle absoluto. Valoriza o que escapa. A tinta que corre, o pigmento que reage, o suporte que se dobra. Os imprevistos ampliam sentidos e abrem novas direções. Sua produção se organiza em famílias, convivendo entre si como parentes de gerações diferentes, séries que acompanham diferentes momentos e podem ser retomadas muitos anos depois.

O tempo para ele é um componente fundamental. Ele trabalha diariamente, como um operário da arte, e cada pintura segue seu ritmo podendo ser retomada anos depois, mudar de título, renascer em outro contexto. Por isso, diz que suas obras só terminam quando são vendidas, até lá, permanecem vivas.

A luz é ponto central em sua pesquisa. Ele diz que seria impossível pintar como pinta em outra região do mundo. A luz tropical oferece nuances que vão da alegria da manhã à dureza do meio-dia e à saudade da tarde. Mais do que iluminar, ela revela a matéria. Delson busca uma intimidade com a luz e chega a adjetivá-la, como quem conversa com uma entidade. Também investigou a luz interna da miração, estudando o ayahuasca durante três anos. Esse mergulho o levou ao uso de pigmentos iridescentes e fluorescentes, que permitem trabalhar uma “luz-cor”, algo que transcende o espectro solar.

A cor, em sua obra, é viva e concreta. Uchôa se interessa pelo volume do traço, pela espessura da linha, pelo corpo do pigmento. Um exemplo dessa busca é a “Bobina de Fazer Pintura”, escultura de 56 metros de corda de sisal pintada, que funciona como linha, desenho e pintura ao mesmo tempo. A materialidade da cor e do gesto se tornam centrais, aproximando arte e corpo.

Sua pesquisa transita por suportes, materiais, luzes, técnicas e geografias. Mas permanece fiel a ideia de uma pintura pensante, capaz de aproximar artista e espectador. Em algumas exposições, ele convida o público a tocar as obras, porque acredita que a arte está mais perto do cotidiano do que imaginamos.

“Pintura Vingada” – Museu do Estado de Pernambuco | Foto: Acervo do Artista
“Pintura Vingada” – Museu do Estado de Pernambuco | Foto: Acervo do Artista

O termo “pintura vingada”, título de uma de suas exposições, carrega dois sentidos para Delson, vingada como amadurecida, como fruto que chega ao ponto e vingada como resposta à recorrente profecia da morte da pintura. Para ele, a pintura nunca morreu e nunca morrerá. Só seria ameaçada por maus pintores, porque a arte é filha do homem e neta de Deus, é irresoluta e infinita. Cada solução encontrada no ateliê abre outra pergunta, outro problema, outra porta.

Delson segue produzindo como quem respira, movido pela certeza de que a pintura acompanha sua própria vida, começa com ele e terminará quando ele desaparecer. Até lá, seguirá perseguindo luzes, cores e matérias que falam de sua origem, seu tempo e seu entorno.

Foto: Da internet
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Foto: Acervo do Artista
Foto: Acervo do Artista
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Vídeo no Instagram – Parte I da entrevista


Equipe de Reportagem:

Texto, Revisão e Edição de vídeo: Iranei Barreto

Gravação : Nicollas Serafim

Créditos das imagens: Iranei Barreto, Acervo do artista e da Internet


*Reportagem viabilizada com recursos da Lei Aldir Blanc, operacionalizada em Alagoas pelo Governo do Estado, por meio da Secretaria de Estado da Cultura e da Economia Criativa (Secult).

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