Achiles Escobar e o pioneirismo na relação entre arte e sustentabilidade em Alagoas

Paranaense de nascimento, o artista visual Achiles Escobar chegou em Maceió em 1986 e foi um dos que abriram caminhos para que o reaproveitamento de materiais deixasse de ser necessidade ou economia e passasse a ser visto como estética, conceito e arte. No bairro histórico de Jaraguá, seu ateliê Tendão de Achiles foi por mais de duas décadas um núcleo vivo de experimentação, ensino, criação coletiva e afirmação da cultura popular. Esta matéria faz parte da série especial “Re-Arte”, que destaca artistas que ressignificam materiais e expandem a arte sustentável em Alagoas, e destaca postumamente a importância do trabalho de Achiles, que nos deixou em 2022, na atuação e perpetuação da arte sustentável no estado.

Foto: Acervo do artista

 “Eu sou um guerreiro”, dizia ele. “Sei que a minha arte atinge o calcanhar das pessoas. Quando eu atingir a mente… vai ser complicado”. A frase, em referência à mitologia grega, traduzia exatamente sua obra, provocadora, expansiva, cheia de vida e de questionamento. Achiles nasceu em Cambará no interior paranaense em 1966. “Lá tive dois professores, um alemão e uma austríaca, que me orientaram durante o período de sete anos, até os meus 14 anos, com pintura e artes plásticas”, dizia ele. “Depois passei quatro anos no Liceu de Artes e Ofício da cidade de São Paulo fazendo escultura em madeira, desenhos artísticos e pintura”.

Achiles sabia que era referência no Jaraguá, seu ateliê ficava nos fundos do mercado público do bairro e de lá conseguiu expandir sua arte e sua filosofia de vida para várias direções. Morar no ateliê era parte de sua própria obra. As paredes eram tomadas por objetos, cores, manequins, instrumentos, bonecos gigantes, recortes, máscaras e materiais descartados que aguardavam destino.

“Todo mundo acha que eu sou anormal, porque o ateliê não tem nada de normal. Mas acho que isso é o comportamento do artista”, dizia ele. Essa loucura artística, como ele mesmo definia, era um polo central de criação multilinguagem. Ali se fazia de tudo, desde papel machê, bordado, bonecos e máscaras de carnaval, instrumentos rudimentares, cenários, figurinos, teatro de rua e pesquisas sobre cultura popular. Mais que um ateliê, o Tendão de Achiles era uma escola.

Para quem conviveu com Achiles, a força estava no olhar. A escultora e amiga Marta Arruda recorda “A facilidade que ele tinha para, ao olhar para um material, já saber o que fazer. Era automático”. O também amigo, parceiro de exposições e artista visual Persivaldo Figueirôa se impressionava. “Achiles conseguia transformar tudo que encontrava no caminho em arte. O descartado em suas mãos tinha outro e belo destino”, lembra. “Ao meu ver, ele era um visionário, sempre via muito potencial nos mais diversos materiais”, revela Marta.

Foto: Acervo do artista
Foto: Acervo do artista
Foto: Acervo do artista

Foto: Acervo do artista

Agélio Novaes em entrevista para “Arquitetura da criação”, outra série do Blog Aqui Acolá Arte, afirma que também ficava impactado com o trabalho de Achiles.

Ele pegava um lixo e eu ficava pensando o que ele ia fazer com aquilo. No outro dia, chegava em sua casa e lá estava a coisa mais linda do mundo, eu ficava impressionado com aquela humildade dele”, diz Agélio. “Ele era uma pessoa maravilhosa. Alguns o achavam chato, mas ele era chato com as pessoas chatas. Era uma pessoa muito legal e de uma criatividade impressionante”.

Achiles tinha um modo particular de pensar o mundo. “Trabalhamos com tudo que é do reciclado, qualquer resíduo de lixo a gente consegue transformar”, dizia ele. “Somos artistas e pesquisadores”. Segundo Persivaldo, o papel machê foi a principal marca do trabalho de Escobar. Achiles modelava o papel como quem molda barro, criando volumes, personagens, estruturas e identidades. Mas era impossível limitá-lo a um único material, “Eram botões, fitas, rendas, bonecos, carrinhos, cerâmicas, latas, cabeceiras de cama, tudo entrava na composição”, lembra Marta.

Ele não escondia o reciclado, e sim o revelava”, explica Persivaldo. “Era encantador ver como ele costurava esses objetos como quem borda. Já nos primeiros contatos eu me impressionei com a mistura de coisas, o colorido que dava vida à sua arte já era intrigante. A revida que ele dava ao transformar o papel era muito poético.” Para Persivaldo, trabalhar com o reciclado para Achiles partia de uma curiosidade inicialmente estética. “Em seguida, tinha esse conceito da política ambiental que remete a refletir sobre a vida do planeta e a contribuição enquanto artista. Achiles tinha essa visão de mundo”.

Foto: Acervo do artista
Foto: Acervo do artista
Foto: Acervo do artista
Foto: Acervo do artista
Foto: Acervo do artista
Foto: Acervo do artista

Essa estética da abundância se tornaria sua assinatura, através das cores em explosão, volumes generosos e texturas variadas que contavam histórias. Era arte popular com tradição, fantasia e brincadeira. “Independente do material, o resultado era sempre fantástico. Ele harmonizava tudo”, recorda a amiga Marta.

A relação de Achiles com a cultura popular alagoana como o Guerreiro, o Reisado e as figuras míticas das tradições nordestinas atravessavam toda a sua obra. Ele enxergava nesses personagens um imenso potencial narrativo e buscava reinventá-los. Em seus trabalhos, esses personagens ganhavam novas camadas simbólicas através do reaproveitamento, como por meio de espelhos, sobras, ferragens e tecidos descartados. “Seus Bois de Carnaval e as figuras do Mateus são construídos totalmente com reaproveitamento”, lembra Persivaldo. “O colorido, as formas, volumes e texturas criavam a identidade de seu trabalho, cujo colorido é sua maior referência”.

Na Travessa Cristóvão Colombo, o ateliê Tendão de Aquiles funcionava como um centro de formação contínua. Crianças, jovens, adultos e artistas encontravam ali não apenas técnicas, mas um modo de olhar. E muitos saíam de lá artistas completos e independentes. Persivaldo lembra que o uso de materiais recicláveis permitia democratizar as oficinas. “Barateava tudo e despertava o olhar para o reaproveitamento. Em projetos sociais, isso fez toda diferença”. Marta destacou a abrangência de seus ensinamentos.

“Ele deixou discípulos em vários municípios. Diversificou o trabalho de muitos artistas.” Persivaldo destaca a dedicação de Achiles em repassar seu conhecimento de arte e sustentabilidade. “Nos eventos onde ele era oficineiro, seus ensinamentos e sua arte inspiraram e fazia refletir como poder reutilizar diversos elementos, até então despercebidos”.

“Como sou um artista multilinguagem, eles já pegaram também a minha vertente, praticamente fazem quase tudo que engloba arte”, dizia Achiles. “Quando aparece algo novo, a gente vai para as pesquisas”. Segundo ele, além de artista, os frequentadores do Tendão de Achiles também eram pesquisadores. Em seu ateliê eram feitos trabalhos com o papel machê, grafismo bordado e muitas peças alternativas. “Nós trabalhamos com tudo o que for do reciclado, o resíduo de lixo a gente consegue transformar”, afirmava. “Trabalhamos também com bonecos gigantes para eventos como Carnaval, São João, cenários de teatro”. Essa visão para as festas populares do Nordeste fez com que Achiles também fosse parte do impulso de revitalização do carnaval maceioense, principalmente pela criação do bloco Jaraguá é o Bicho. “Nesse bloco de carnaval os meninos se manifestam em todos os sentidos, já que também fabricamos os instrumentos”.

Marta recorda da série de Achiles chamada “As Damas”. “Os manequins da sua última exposição para mim, em termos de expressão artística, composição e finalização das obras, são incríveis”, destaca. “O uso de uma cabeceira de cama para a construção de um belo mosaico. Tem também uma tela em que o destaque são semáforos, que passou a ser muito significativa para mim”. Para Persivaldo, Achiles era uma mistura de artista da cor e da moda. “Ele aplicava de botões a latinhas, criando verdadeiros bordados, tanto que seu trabalho transitava pelas mais variadas vertentes, e essa mistura e volume se tornou sua marca, e por mais que parecesse excessivo, ao final, tudo se comunicava diante desse universo das linguagens”.

Foto: Acervo do artista
Foto: Acervo do artista
Foto: Acervo do artista
Foto: Acervo do artista
Foto: Acervo do artista

Hoje, o nome de Achiles é impossível de dissociar da arte sustentável alagoana. “Acredito que Escobar inovou em não esconder as coisas descartadas, ao contrário, suas peças traziam o encantamento exatamente pela maneira como ele aplicava os objetos em suas obras”, diz Persivaldo.

“Sua arte sempre foi questionadora, instigante, isso me motivou a querer conhecer melhor esse universo e também comecei a utilizar todo e qualquer material em meu trabalho. Ele mostrou a possibilidade de reutilizar o que seria descartado transformando em arte”, analisa. “Acredito que isso se replicou em nosso meio. Eu bebi dessa fonte partindo para minhas próprias interferências”.

Seu impacto é visível na produção contemporânea, nas oficinas que continuam a surgir, na pesquisa sobre cultura popular e na estética de artistas que beberam de sua fonte. “A arte gera preconceito, mas ela permite liberdade. Ela conta a história do nosso povo. Não faz mal , a arte faz muito bem”, afirmava ele. Para Achiles, nada estava condenado ao lixo quando se ainda consegue enxergar vida. “A arte de reciclar sempre vai ter Achiles Escobar como referência em Alagoas. Ele criou esse conceito com personalidade e seu trabalho é inovador, é uma arte viva, colorida e o eterniza nesse universo”, conclui Persivaldo.


Equipe de Reportagem

Texto: Nicollas Serafim

Revisão e edição: Iranei Barreto

Créditos das imagens: Acervo Pessoal do artista, Hugo Taques/ Cortesia, Da internet


*Reportagem viabilizada com recursos da Lei Aldir Blanc e operacionalizada em Alagoas pelo Governo do Estado, por meio da Secretaria de Estado da Cultura e da Economia Criativa (Secult)

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