Os mestres Antônio de Dedé e Fernando da Ilha do Ferro, reconhecidos pela Lei do Patrimônio Vivo de Alagoas e referências no trabalho em madeira, projetaram a arte popular alagoana para novos horizontes. Suas peças alcançaram museus e galerias no Brasil e no exterior. Mesmo após o falecimento, seguem presentes em mostras e espaços culturais, como a recente exposição “Brasil: Arte Popular”, montada no Farol Santander, em São Paulo, que apresentou obras de artistas de 21 estados.
Ambos integram coleções importantes de arte popular, reforçando a relevância de suas produções no cenário artístico nacional e internacional. Além disso, suas trajetórias seguem sendo preservadas em equipamentos culturais instalados em suas cidades, fortalecendo a memória e o legado de cada um. Em Lagoa da Canoa, o Memorial Antônio de Dedé, inaugurado em 2017, preserva a memória do mestre artesão e reúne ferramentas de trabalho, livros, fotografias, obras e peças produzidas por alguns de seus filhos.
Na Ilha do Ferro, em Pão de Açúcar, o Espaço de Memória Artesão Fernando Rodrigues dos Santos, também inaugurado em 2017, mantém viva a trajetória de Mestre Fernando e ampliou seu escopo para incluir o artesanato, as visualidades e as práticas culturais do povoado, fortalecendo a identidade local. Esses espaços asseguram que a presença e a contribuição desses mestres permaneçam vivas na cultura e no imaginário alagoano.
Antônio de Dedé

Santos, animais, figuras míticas e personagens do imaginário afro-brasileiro povoavam o universo criativo de Antônio de Dedé (1953–2017), mestre artesão de Lagoa da Canoa que se tornou um dos nomes mais expressivos da arte popular alagoana. Suas esculturas, reconhecidas pelas formas longilíneas, cores vibrantes e forte presença dramática, conquistaram espaço em importantes coleções e instituições culturais no Brasil e no exterior.
Filho de agricultores, Antônio demonstrou talento desde cedo, fabricando brinquedos na infância e modelando figuras de barro na adolescência, em uma olaria local. Autodidata, encontrou na madeira sua principal linguagem, especialmente no cedro e na jaqueira, criando peças que uniam vigor, delicadeza e intensa expressividade. Por muitos anos, conciliou o trabalho na lavoura com a produção artística, esculpindo no quintal de casa enquanto criava, com Maria Aparecida, e seus nove filhos.








A projeção de sua obra ganhou força nos anos 2000, a partir da relação com galeristas e colecionadores que ampliaram o alcance de suas esculturas. Sua participação no projeto Teimosia da Imaginação, no Instituto Tomie Ohtake, e na exposição Histoire de Voir, da Fundação Cartier, marcou definitivamente sua inserção no cenário nacional e internacional. Em 2012, recebeu o Prêmio Culturas Populares do Ministério da Cultura e, em 2015, foi reconhecido como Patrimônio Vivo de Alagoas.
Antônio de Dedé faleceu em 2017, aos 63 anos, deixando um legado que segue vivo no trabalho dos filhos, que aprenderam a esculpir observando o pai e continuam expandindo a tradição familiar. Suas obras permanecem presentes em exposições no Brasil e no exterior. Seu legado se mantém pela força de sua criação e pela continuidade de sua família, que preserva e renova a poética visual construída pelo mestre ao longo de sua vida.








Memorial Antônio de Dedé
Lagoa da Canoa – AL
Sua projeção em Lagoa da Canoa ocorreu anos depois, quando compradores ligados à arte popular passaram a adquirir e difundir suas esculturas. A partir daí seu trabalho e, mais tarde, o de seus filhos ganhou espaço, consolidando a família como referência de inventividade na arte popular do município.
Esse reconhecimento externo provocou um movimento importante na própria cidade. O Memorial Antônio de Dedé representa mais do que um espaço expositivo. Ele simboliza o reconhecimento, em sua terra natal, de um artista que por muito tempo permaneceu fora dos holofotes, apesar da valorização crescente de sua obra no Brasil e no exterior. Instalado no centro de Lagoa da Canoa, tornou-se, desde 2017, um ponto de referência da arte popular e um lugar de memória dedicado à sua trajetória.
















Segundo o curador Paulo Gomes, responsável pela montagem, o memorial foi pensado para valorizar a arte de Dedé dentro da própria comunidade, permitindo que moradores reconheçam a importância do mestre e se orgulhem de alguém que, por vezes, era mais celebrado fora do que dentro da cidade. Ao reunir esculturas, ferramentas, fotografias e documentos, o espaço cria uma relação de proximidade afetiva entre público e artista.
O memorial também reforça o legado familiar, peças produzidas pelos filhos integram o acervo, mostrando que a tradição permanece viva e em transformação. É um testemunho de continuidade, de uma arte que não se encerra no passado, mas segue inspirando novas gerações.

A inauguração foi celebrada como um resgate simbólico. Reconhecer, valorizar e dar visibilidade a um homem que, apesar de ter vivido no anonimato de sua cidade por muitos anos, deixou uma contribuição marcante para a cultura popular alagoana e brasileira.
Fernando Rodrigues

Recentemente, a Ilha do Ferro ganhou a atenção da mídia ao aparecer em uma questão do Enem. Mas você sabe quem colocou a Ilha do Ferro na rota das artes?A projeção do povoado no mapa da arte popular brasileira começou graças ao trabalho de Fernando Rodrigues dos Santos (1928–2009), o Mestre Fernando da Ilha do Ferro. Também conhecido como Seu Madruga, por lembrar o personagem do seriado Chaves, ele foi o grande responsável por transformar o pequeno povoado de Pão de Açúcar em um dos mais importantes núcleos de criação artesanal do país.
Antes de se dedicar à madeira, Fernando vivia da venda de tamancos. Foi ao esculpir pequenos animais e figuras humanas com galhos secos que descobriu sua vocação. Aos 40 anos, criou sua primeira grande peça, uma espreguiçadeira. A virada definitiva veio quando uma árvore derrubada pela instalação da rede elétrica virou matéria-prima para os bancos que fez para o bar do filho. A partir daí sua produção ganhou forma, personalidade e reconhecimento.
Ele dominava madeiras como mulungu e imburana, transformando troncos, raízes e galhos secos em móveis que pareciam escultura. Criava cadeiras de três ou cinco pernas e batizava cada peça com nomes inventados, revelando imaginação e humor. Mesmo sem alfabetização formal, registrou histórias do povoado no manuscrito que deu origem ao livro “Um Jeito de Olhar”.








Seu talento chamou a atenção de Celso Brandão e Carmem Lúcia Dantas nos anos 1980, o que ampliou a visibilidade da comunidade. A partir daí, Fernando expôs em importantes instituições como a mostra Brésil, Arts Populaires no Grand Palais, em Paris, o Museu Oscar Niemeyer em Curitiba, a Casa Cor São Paulo e museus da Paraíba. Peças suas chegaram também à Art-Madrid, na Espanha, e a exposições de referência em São Paulo. Em Alagoas, foi reconhecido como Patrimônio Vivo em 2007.
A influência de Fernando ultrapassou sua própria produção. Ele incentivou familiares e vizinhos a aprender o ofício, abrindo caminho para que o artesanato em madeira se tornasse a principal fonte de renda da comunidade. Hoje, o ateliê Boca do Vento, primeiro da Ilha, mantém viva sua tradição, reunindo cerca de 13 artesãos, entre eles a primeira mulher do povoado a se dedicar ao trabalho, sua neta Camille.
Para a família e para toda a Ilha do Ferro, Fernando deixou um legado de criação, memória e pertencimento. Foi ele quem inaugurou um modo de fazer que colocou o povoado no mapa das artes populares brasileiras.





Espaço de Memória Artesão Fernando Rodrigues dos Santos
Ilha do Ferro – Pão de Açúcar – AL
O Espaço de Memória Artesão Fernando Rodrigues dos Santos, localizado na comunidade da Ilha do Ferro é hoje uma das principais referências de preservação da cultura popular do Baixo São Francisco. Idealizado pelo professor Jairo Campos e vinculado ao Núcleo de Pesquisa em Literatura e Artes Visuais (NUPLAV) da UNEAL, o espaço de Memória nasceu com a missão de manter viva a obra e a trajetória de Mestre Fernando, mas ampliou sua atuação para valorizar o artesanato, os modos de fazer e as linguagens artísticas desenvolvidas no povoado.
A obra teve investimentos na ordem de R$ 20 mil da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Alagoas (Fapeal), com contrapartida de R$ 15 mil da Universidade, por meio de Auxílios ao Pesquisador. O prédio foi doado pela Prefeitura de Pão de Açúcar, através da lei municipal nº. 456, de 13 de outubro de 2015. O projeto contou com a colaboração do arquiteto Rafael Brandão, da museóloga Carmen Lúcia Dantas, do curador Paulo Gomes e o apoio da Galeria Karandash.





O acervo reúne peças produzidas por artesãos da Ilha do Ferro, incluindo esculturas em madeira, bancos, cadeiras e móveis que seguem a linguagem estética desenvolvida por Mestre Fernando, marcada pela valorização das formas naturais de troncos, galhos e raízes da caatinga. Também integram o museu bonecas de pano e bordados tradicionais como boa-noite, redendê, ponto cheio e labirinto, representando a diversidade de ofícios cultivados no povoado. Parte da coleção evidencia a importância de Fernando Rodrigues como pioneiro do artesanato em madeira na região, responsável por transformar a produção local em referência nacional e por inspirar gerações de artesãos.
O museu funciona como um ponto permanente de cultura, resultado da Resolução nº 09/2016 do Conselho Superior da UNEAL, e integra o Núcleo de Pesquisa em Literatura e Artes Visuais (NUPLAV). Aberto diariamente, das 8h às 12h e das 13h às 17h, o espaço mantém todas as atividades gratuitas e acolhe moradores, visitantes e pesquisadores.
Reconhecido pelo Governo Federal como Ponto de Cultura, o Espaço de Memória atua não apenas na preservação de objetos, mas na continuidade dos saberes. Oficinas, rodas de diálogo, atividades educativas e ações culturais fortalecem o vínculo com a comunidade, reafirmando o artesanato como elemento de identidade, economia e pertencimento. A instituição também participa de eventos nacionais, como a Semana Nacional de Museus, ampliando sua visibilidade.











Memorial Antônio de Dedé
Horário Funcionamento: Segunda a Sexta de 08:00 às 12:00 / 14:00 às 17:00
Endereço: Rua Dario Porfírio, centro, Lagoa da Canoa
Espaço de Memória Artesão Fernando Rodrigues dos Santos
Horário de funcionamento: Aberto diariamente, das 8h às 12h e das 13h às 17h
URL: http://hml2.uneal.edu.br/espacos-de-memoria/artesao-fernando-rodrigues-dos-santos
Redes Sociais:
https://www.facebook.com/MuseuIlhadoFerro/ https://www.instagram.com/museuilhadoferro/
E-mail: museuilhadoferro@uneal.edu.br
Telefone: (82) 3624-8008
Texto, revisão e edição: Iranei Barreto
Crédito das imagens: Iranei Barreto, Acervo da família e Da Internet
*Reportagem viabilizada com recursos da Lei Aldir Blanc, operacionalizada em Alagoas pelo Governo do Estado, por meio da Secretaria de Estado da Cultura e da Economia Criativa (Secult).

