Entre papeis, colagens, tintas e telas, o artista visual alagoano Agélio Novaes constrói seu universo onde técnica e sensibilidade caminham lado a lado, de forma plural e criativa. Seu ateliê é o cenário onde o pensamento se transforma em imagem. Esta é a matéria de estreia da série especial “Arquitetura da criação”, que se propõe a revelar os bastidores e processos que moldam o trabalho de artistas de diferentes técnicas e regiões. Mais do que retratar a obra final e seus artistas, a série busca compreender os caminhos da produção, o espaço íntimo da criação, os rituais do fazer e os pensamentos que permeiam o antes, durante e depois da arte.


Conhecido por explorar as gravuras, colagens, o desenho e as infogravuras, Agélio faz de cada obra um exercício de observação para dentro de si, através de suas memórias, vivências e experiências para depois transformá-las em arte de diversos formatos. Natural de Viçosa, cidade berço de diversos artistas, folcloristas e figuras de destaque em Alagoas, Agélio desde sempre se encantou pelas cores. “Desenhava e gostava de pintar muito. Ser artista é uma coisa que passava na minha cabeça desde sempre”, relembra. Com o interesse tão forte e vívido, foi levado pelo pai para estudar na escola de arte Tapete Mágico, do pintor Lourenço Peixoto, figura histórica do Modernismo em Alagoas.
PROCESSOS CRIATIVOS
Criador meticuloso, Agélio une técnica apurada, curiosidade constante e uma busca incessante por novas formas de expressão. “Eu geralmente parto de uma ideia e dela vou buscando. Hoje com a computação facilita um pouco. Busco as imagens que eu quero e vou montando, feito um quebra-cabeça como eu fazia com as colagens, só que no computador”, afirma ele. “E daí eu vou fazendo, mas não só isso, existem outras coisas que eu boto na cabeça e faço sem computador, apenas sentando e pintando, e a ideia está tão clara na cabeça que sai realmente o que eu quero”.
Para ele, a ideia da pintura pode até nascer de um jeito no pensamento, mas no desenrolar da execução e pela criatividade do artista ela vai se modificando naturalmente. “Geralmente quando você desenha em preto e branco, a sua tendência é preencher muito as coisas, porque você não está vendo cor, você está vendo traços”, reflete. “Já quando você parte para a pintura, você vê o que não precisa, se está demais ou está de menos, e aí a pintura se modifica. Acho que é um processo que se intensifica muito na hora de fazer”.
Segundo ele, a memória geralmente é o que costuma ativar o seu impulso criador. “Eu sou muito de memória, das coisas que eu vi e vivi. Saí de casa muito cedo e fui logo para um celeiro de arte que é Recife aos 19 anos. Quando eu cheguei no Carnaval meus olhos brilharam de tanta cor, minha cabeça deu um nó”, recorda-se. “Acho que é daí que vem a cor no meu trabalho. Todo ele é carregado de memória e tempo. Essas vivências ajudam muito no processo criativo. Eu gosto muito disso, essa memória afetiva”. Nas suas obras estão muito presentes as cores carnavalescas. “Eu gosto do colorido. E carnaval pra mim é cor, alegria. Pinto muitas figuras como Pierrot, Colombina, La Ursa, a Miss Paripueira. Tudo isso faz parte da minha vida e da minha arte”. Entre as pinturas e as colagens, o ritual criativo continua e permanece o mesmo.
DETALHES DE SUAS PRODUÇÕES
Além disso, as minúcias também são muito frequentes em suas obras. “Meu trabalho é de maturação lenta, porque sou perfeccionista. E isso requer um bom desenho, um bom planejamento de pintura. Estudar onde eu vou usar a cor, onde eu vou usar uma textura mais espessa ou mais rala, então isso demora muito”, comenta.
“Sou fascinado por cor e não sou nada minimalista. Mesmo nas colagens, na pintura, eu procuro sempre ter um jogo. Um jogo de cor, de luz, de sombra”.
Nas colagens o material é fundamental para dar as dimensões e estéticas pretendidas por ele, e Agélio acredita que a técnica e a emoção caminham juntas em seu trabalho. “A ideia vem, mas ela vem muito solta. Quando você começa a materializar você tem a dimensão exata. Mas eu acho que o artista é para isso, é para ultrapassar barreiras e ir atrás realmente do que a gente quer. Mas na minha realidade, a ideia é que escolhe o material”. Seu ritual de produção também se caracteriza por várias obras tendo um tema como guia. “Eu nunca faço um quadro isolado. Sempre gosto de ter um tema e desenvolvê-lo em séries”.
Dentre os artistas e movimentos contemporâneos que dialogam com a sua produção atualmente, ele destaca o trabalho de Adriana Varejão e de Delson Uchôa. “São artistas fantásticos”. Suas influências passeiam por muitos mestres e movimentos. “Eu gosto de muita gente. Posso citar o Wesley Duke Lee, que fazia colagens maravilhosas. Depois Matisse pelas cores que eu adoro. Van Gogh, pela forma de pintar e muitos outros”, revela. “Dos alagoanos eu gosto muito do Lourenço Peixoto que foi um mestre. Lula Nogueira, me baseava muito no trabalho dele, temos uma linguagem muito próxima. Também adorava o trabalho do Achiles Escobar”, enumera Agélio. “Assim como também o de Delson Uchôa, pelas cores e pelas formas que ele usa. Aquelas formas geométricas incríveis”.






Mesmo com a falta de espaço para expor suas obras, Agélio comenta que a internet possibilitou uma abertura interessante para o artista visual. Para ele, as exposições ainda são os melhores momentos para se mostrar a arte produzida. “Eu acho que eu fazia uma exposição a cada ano. E eu vendia todas as minhas colagens.Depois que eu vim para Maceió, também era do mesmo jeito. Sempre estava fazendo exposição, porque era uma maneira de eu juntar tudo que eu tinha e mostrar de uma vez só”, lembra. “Hoje eu acho que a internet facilitou muito isso. Mas eu ainda preciso melhorar muito nessa questão virtual”.
Com cerca de 10 exposições no currículo, Agélio destaca a sua última como sendo fundamental para sua trajetória artística. “Meu mundo é o papel” é o resultado de três anos de trabalho, com o papel como matéria-prima e inspiração. “Acho que foi a maior mostra que eu fiz. Tinha muita coisa, e eu botei pra fora tudo que eu estava produzindo. Era colagem junto com papel machê, machê colorido, machê branco, infogravuras. Eu dei uma misturada, mas com a temática do papel”.
Já ao refletir sobre suas atuais produções, ele admite que está no meio de um processo de mudança de técnica. “Ainda não sei o que eu quero direito. Comecei de um jeito, já estou em outro. É um processo”, diz ele. “Neste momento estou num tema que eu chamei de Diáspora, porque são animais no habitat humano”.
Com o pensamento de estar sempre se desafiando e se reinventando artisticamente, Agélio Novaes tem a consciência de que sua arte é intimamente ligada ao seu lugar de criação. “Meu ateliê representa o meu lugar de bem-estar. Eu adoro isso aqui, principalmente à noite. Eu me dou bem com a noite. De manhã zero, de tarde mais ou menos, e à noite os tamborins esquentam”, brinca. “É aqui é onde eu crio, onde eu pinto, eu erro e acerto. Onde eu me mostro. Acho que para qualquer artista o ateliê é o seu templo”, conclui.











Vídeo no Instagram – Parte I da entrevista
Equipe de Reportagem:
Entrevista: Iranei Barreto
Gravação e texto: Nicollas Serafim
Revisão, edição de vídeo e texto: Iranei Barreto
Créditos das imagens: Iranei Barreto e acervo pessoal do artista
*Reportagem viabilizada com recursos da Lei Aldir Blanc, operacionalizada em Alagoas pelo Governo do Estado, por meio da Secretaria de Estado da Cultura e da Economia Criativa (Secult)

