Em meio à paisagem urbana de Alagoas, entre ruas, praças e viadutos, um olhar atento encontra esculturas e murais que carregam histórias, memórias e, sobretudo, um compromisso profundo com a sustentabilidade. O artista em destaque é o pernambucano de alma alagoana Persivaldo Figueirôa, cuja produção está ancorada no reaproveitamento de materiais, e sua filosofia de vida e de arte enxerga na reciclagem uma forma de expressão e resistência. Mais do que simples composições plásticas e visuais, suas obras revelam um processo criativo onde a matéria descartada é ressignificada, transformando-se em manifestação artística e conscientização ambiental.
O trabalho de Figueirôa é destaque no 4º episódio da série “Re-Arte” e também integra o documentário “Ressignificando com Arte” (2025), uma produção do Aqui Acolá Arte com direção de Iranei Barreto. A reportagem é viabilizada com recursos da Lei Aldir Blanc e executada em Alagoas pelo Governo Estadual, por meio da Secretaria de Estado da Cultura e da Economia Criativa (Secult).

Artista nato, Persivaldo pinta desde criança incentivado pela sua mãe em Vertentes-PE. “Desde 8 anos eu pintava algumas coisas. Saí da minha cidade e fui morar em Recife, e continuei pintando, em paralelo às atividades profissionais cotidianas”, lembra ele. “Em 1983 eu vim para Maceió e comecei a trabalhar em bancos e passei 13 anos nesse ramo. Depois disso eu passei a viver inteiramente da minha arte”. Totalmente integrado à capital alagoana, em contato e conhecimento com arquitetos e colegas artistas, antes mesmo de sair de seu trabalho formal Persivaldo já estreava uma exposição individual.
Com o término de seu trabalho no banco, só havia um caminho para seguir, aquele que havia lhe acompanhado a vida inteira. “Não queria mais ser empregado de ninguém e entrei de cabeça na arte. Já tinha conhecimento com arquitetos e pessoas ligadas a esse meio e passei a pintar profissionalmente. A partir daí, meu trabalho só cresceu”. O trabalho de Persivaldo Figueirôa se destaca, fundamentalmente, pelo figurativo. Seja humana, animais ou criaturas (inventadas ou não), a figura sempre se destaca em seus trabalhos. Cenas e situações do cotidiano também têm presença garantida em suas obras, assim como os elementos do folclore nordestino.


A trajetória do artista está profundamente ligada ao uso de materiais recicláveis. Mas ele lembra que tudo aconteceu sem pretensão. “Por acaso eu fiz uma oficina de confecção de máscaras de carnaval com Achiles Escobar. E nessa oficina eu tomei contato com a técnica de papietagem. Só que eu sou muito inquieto e resolvi criar uma coisa diferente”. Apesar de seu trabalho ser bastante figurativo, as grandes esculturas que produzo possuem uma essência mais orgânica e abstrata. “A partir de então eu fui buscando minha própria identidade, aquilo que todo artista busca tomando como ponto de partida as suas inspirações”, diz ele. “Dessas máscaras de carnaval, eu comecei a fazer umas esculturas grandes de 2, 3 e até 4 metros”.
Luminárias de poste, orelhões antigos, ferros corroídos pela maresia, papelões, jornais, folhas de árvores, boias de rede de pesca, garrafas e outros elementos que já não possuem utilidade são incorporados ao seu fazer artístico, dando vida a esculturas e instalações que se integram ao espaço tanto urbano, como fechado. Um dos exemplos mais marcantes dessa abordagem é o conjunto de tartarugas que fazem parte de uma instalação na orla de Cruz das Almas. Feitas integralmente a partir de materiais reciclados, as esculturas não são apenas representativas da fauna local, mas também um alerta sobre a relação entre o homem e o meio ambiente.
“Ali você tem um trabalho de reciclagem, 100% reciclagem. Eu utilizei orelhão, luminárias de poste e compus uma instalação sobre tartarugas. Elas fazem referência às áreas de desova desses animais na região, como acontece entre Ipioca e outras praias alagoanas”, relata o artista. “Mas nada vem pensado ou programado. Tudo vai acontecendo de forma natura e intuitivamente”.






Entretanto, manter essas obras expostas ao público também apresenta desafios. A maresia, a ação do tempo e, sobretudo, atos de vandalismo comprometem a longevidade das peças. Persivaldo enfatiza sua frustração com o desrespeito por essas criações e destaca a importância da educação ambiental e da valorização da arte urbana como parte do patrimônio coletivo.
“A gente precisa respeitar e preservar, porque essa tem sido uma das maiores dificuldades. Eu fiz aquelas tartarugas, elas estavam lá, as pessoas tiravam fotos, interagiam, mas foram danificadas. Não tem explicação para isso. Se você não gostou da obra, passa. Se gostou, interage, tira uma foto. Mas quebrar? Destruir por pura maldade? Isso me entristece”.
Seu processo de esculturas hoje é realizado através da técnica de papietagem. “Eu gosto de usar uma cabaça ou uma folha de palmeira, qualquer coisa que me desperte atenção pelo formato e começo a colar pequenos pedaços de papel em cima para usar como suporte”, revela ele. “A partir daí, os limites para a arte são infinitos”. Depois de duas ou três camadas de papel, ele já consegue retirar o objeto e começar a trabalhar em cima do molde de papel que foi feito. Daí surgem as tintas, rendas, cordões e outros materiais que comporão a escultura: tudo toma forma a partir da criatividade do artista, misturando colagens e pinturas.
Ainda dentro de seu processo criativo, Persivaldo trabalha estruturalmente de duas formas: através de encomendas de clientes, e por meio de sua inspiração com os materiais que vê pelo caminho. Morador do bairro de Jacarecica, suas caminhadas pela manhã na praia sempre revelam novos olhares e materiais para suas artes.
“Quando eu vou fazer oficinas, eu também aproveito para levar esses materiais que encontro para comporem as obras dos alunos”, revela. “Já é um trabalho ambiental antes mesmo de se tornar artístico. Às vezes eu pego algo que encontro e não sei ainda o que ele vai virar, mas o meu olhar me faz guardá-lo. A partir do momento em que eu pego qualquer material desses que ia para o lixo, além de ser uma contribuição para o meio ambiente, é uma atitude de enriquecimento nas obras que faço”. Nas oficinas que ministra, Persivaldo sempre faz questão de abordar e enfatizar que as peças que os alunos estão fazendo contém materiais que iriam para o lixo, despertando neles a consciência ecológica, incentivando o reaproveitamento.


Mesmo diante dos desafios, Persivaldo não desiste e busca meios para restaurar suas obras. Ele acredita que, com a revitalização da pequena praça onde as tartarugas estão localizadas, haverá uma oportunidade para recompor e reforçar a instalação. “Eu quero que essas peças tenham uma vida longa, que possam permanecer ali e continuar transmitindo sua mensagem. Porque a arte na rua tem uma dimensão diferente. Quando você vende um quadro, ele fica restrito à casa de alguém. Mas quando é na rua, ela tem um impacto social, cultural e ambiental muito maior”, reflete.
O artista tem um histórico consolidado de intervenções em diversos espaços da cidade. De murais pintados em viadutos a instalações em praças, seu trabalho se espalha pelo cenário urbano, tornando-se parte da identidade visual de Maceió e de Alagoas. Ele já contribuiu para projetos em bairros como Jaraguá, Santa Amélia, Village Campestre e na cidade de Rio Largo, sempre trazendo um olhar crítico e estético sobre o ambiente e sua relação com os habitantes.
“Quando a gente trabalha com murais e instalações, a cidade se torna um grande espaço expositivo. E eu vejo essa possibilidade de alcançar um público que talvez não tivesse acesso à arte em museus e galerias. A arte urbana democratiza a experiência artística”, comenta ele.
Apesar de sua contribuição significativa para o cenário cultural, a burocracia ainda se coloca como um obstáculo para o artista. Recentemente, ele tentou contato com órgãos públicos para restaurar algumas de suas obras, mas encontrou dificuldades em obter respostas objetivas.





“Eu não quero nada. Não estou pedindo dinheiro. Eu só quero restaurar. Mas, para isso, preciso entender quem pode autorizar, quem pode facilitar o processo. Eu fiz o trabalho, foi pago, mas agora quero garantir que ele continue existindo. E é um impasse atrás do outro”, desabafa.
Para o mercado da arte sustentável, Persivaldo reflete que o público ainda tem um certo preconceito. “A arte em si já não tem um mercado tão favorável, e quando você mostra um trabalho em que você reutilizou, reciclou, as pessoas têm um pouco de preconceito. A primeira impressão é que a arte quando é reutilizada com esses materiais tem que ser barata”, analisa. Contudo, ele reafirma a qualidade das obras, o tempo dedicado e o intenso trabalho artesanal das peças.
O compromisso do artista com a sustentabilidade vai além da escolha dos materiais. Ele busca conscientizar sobre a necessidade de repensar o consumo e o descarte, mostrando que resíduos podem se transformar em arte, cultura e memória. A reutilização de elementos descartados não é apenas uma questão ambiental, mas também uma afirmação estética e política, ressignificando o que a sociedade rejeita e conferindo novo valor ao que antes era considerado lixo.
Seja por meio das cores nos murais ou das formas inusitadas de suas esculturas, a arte de Persivaldo Figueiroa segue resistindo e provocando reflexão. No cruzamento entre criatividade e sustentabilidade, ele prova que cada pedaço de material reciclado carrega potencial para contar histórias, despertar consciência e transformar espaços. “As pessoas olham um orelhão velho e veem sucata. Eu vejo uma tartaruga. E esse processo de transformação é essencial. É aí que a arte entra, dando uma nova história para aquilo que foi descartado”, conclui.
Em 2025, Persivaldo apresentou ao público uma de suas exposições mais emblemáticas “Cores e Ritmos – No Balanço do Guerreiro”, em cartaz nos meses de junho e julho no Museu Palácio Floriano Peixoto (Mupa), no Centro de Maceió. A mostra foi uma celebração da cultura popular alagoana, reunindo esculturas que homenagearam mestres e brincantes de folguedos tradicionais como o Guerreiro, o Coco e o Reisado, enriquecidas com fitas, rendas, cordões e lantejoulas, elementos que traduzem a estética do universo popular.






Com o uso característico de materiais reciclados, o artista deu vida a figuras lendárias como Dona Hilda do Coco, Nelson da Rabeca e o artista Achiles Escobar, entre outros ícones que fazem parte do imaginário popular nordestino. A exposição, que se destacou também pelo cuidado com a acessibilidade, permitiu que o público tocasse em algumas peças e explorasse suas texturas, numa experiência sensorial que ampliou o diálogo entre arte e inclusão, além de contar com textos em Braille.
Segundo Persivaldo, o artista não pode perder a emoção do próximo trabalho, de continuar a se mostrar e se provar como criador. Como desdobramento dessa vivência, o artista lançou o catálogo virtual da mostra, disponível em https://catalogopersivaldo.wixsite.com/arte, reunindo imagens, textos e reflexões sobre seu processo criativo e o universo simbólico que permeia suas obras. O material serve como registro permanente da exposição e reafirma o compromisso de Persivaldo Figueirôa com a arte sustentável, acessível e enraizada na cultura popular de Alagoas.
Equipe de Reportagem
Texto: Nicollas Serafim
Revisão e edição: Iranei Barreto
Créditos das imagens: Acervo Pessoal da artista, Aqui Acolá Arte /Iranei Barreto, Aqui Acolá Arte /Matheus Monstro
*Reportagem viabilizada com recursos da Lei Aldir Blanc e operacionalizada em Alagoas pelo Governo do Estado, por meio da Secretaria de Estado da Cultura e da Economia Criativa (Secult)

