Marta Arruda entre a dureza do metal e a leveza da criação    

No universo das artes visuais, a matéria-prima nem sempre vem de lugares convencionais. Para a artista alagoana Marta Arruda, suas esculturas em aço evidenciam que cada sobra de material descartado carrega em si uma história que pode ser ressignificada. Seu trabalho se destaca pelo contraste da beleza e delicadeza de suas obras ao mesmo tempo em que utiliza materiais rudes e duros como chapas de ferro e aço reutilizados de construção, criando composições que transcendem a estética para se tornarem discursos potentes sobre consumo, desperdício e a própria natureza da arte.

A artista é assunto do 3ª episódio da série especial do Blog Aqui Acolá – “Re-Arte” e também é uma das artistas retratadas no documentário “Ressignificando com Arte” (2025), produzido pelo Aqui Acolá Arte, com direção de Iranei Barreto. A reportagem é viabilizada com recursos da Lei Aldir Blanc e executada em Alagoas pelo Governo Estadual, por meio da Secretaria de Estado da Cultura e da Economia Criativa (Secult).

Foto: Aqui Acolá Arte /Matheus Monstro
Foto: Aqui Acolá Arte /Matheus Monstro
Foto: Aqui Acolá Arte /Matheus Monstro

Em um mundo onde o descarte é regra, para Marta cada peça de ferro descartada guarda um potencial poético, uma nova possibilidade de existência. Sua arte, profundamente ligada à reciclagem e reutilização de materiais, não apenas dá uma segunda vida a objetos esquecidos, mas também questiona nossa relação com o consumo e a sustentabilidade. Além da originalidade de suas obras, Marta também traz consigo o pioneirismo de ser a primeira mulher soldadora de Alagoas.

Natural do bairro da Levada em Maceió, a artista sempre esteve à frente de sua época e construiu sua trajetória artística com um olhar atento ao que a sociedade descarta.

Eu sempre fui muito inquieta, já andava de moto, fui aluna do Aeroclube para pilotar avião e sempre gostei de experimentar materiais diferentes, ver o que dava pra fazer. E o ferro, que para muitos é apenas sucata, para mim é uma tela em branco”, conta a artista.

Suas obras impressionam pela forma como transformam o bruto em delicado, o rígido em fluído, o ordinário em extraordinário. “Comecei a trabalhar com solda numa serralharia de um amigo, mas a primeira vez que utilizei o ferro pra esculpir foi durante uma greve que aconteceu na construtora Mendes Júnior, onde eu trabalhava”, conta. “Meus colegas de bobeira começaram a fazer churrasqueiras e eu decidi fazer um enfeite para minha casa.

Foto: Acervo da artista

Os resultados foram agradando a ela e aos amigos, até que surgiu a oportunidade de participar de uma seleção no Salão de Arte Contemporânea de Pernambuco. “Foi minha amiga Lílian Lima que pediu para inscrever minhas esculturas, até então eu nem chamava o que eu produzia de escultura”, lembra. Seu trabalho foi contemplado e ganhou muitos elogios, principalmente do poeta e crítico de arte Ferreira Gullar, um dos julgadores da seleção. Desde então, Marta foi tomando gosto pelas esculturas, pelo labor e o trato com a matéria prima tão bruta usada no dia a dia, mas dominada com a destreza e delicadeza próprias das almas femininas.

Ao entrar em seu ateliê, a sensação é de um laboratório criativo, onde resíduos ganham novas formas e sentidos. Sobras de madeira, puxadores de móveis, cabides e metais corroídos pelo tempo se convertem em esculturas, painéis e instalações que provocam reflexões sobre a relação da sociedade com os objetos que descarta.

Não vejo esses materiais como lixo, mas como possibilidades“, afirma Marta, que há quatro décadas desenvolve sua produção artística baseada na ressignificação dos elementos. “Sempre fui fiel ao meu material, meu trabalho sempre teve como essência as esculturas em aço”, revela. “Mas com o tempo eu fui aprimorando a solda, trabalhando melhor o acabamento”.

Seu ateliê é um espaço de experimentação e ressignificação. “Lá você vai ver muito trabalho meu feito com as reciclagens como flores de ferro, tudo feito com sobras”, revela. O uso de materiais reutilizados não é apenas uma escolha estética, mas um posicionamento ético e político. “Meu ateliê é um espaço verde, onde eu sento, olho para as árvores e plantas, tenho meu forno à lenha. Ali é o meu mundo de criação”.

Marta acredita que a arte pode e deve ser um agente de transformação ambiental e social. “Esses resíduos, essas chapas não são de graça. Como são sobras, elas são vendidas a um preço menor do que o quilo vendo em lojas, mas o tratamento é o mesmo. Eu consigo adquiri-los em indústrias, metalúrgicas”.

Foto: Flavia Correia
Foto: Flavia Correia
Exposição Marta Arruda: 40 anos de esculturas, na Caixa Econômica Cultural do Rio de Janeiro (2024) Foto: Monica Ramalho
Exposição Marta Arruda: 40 anos de esculturas, na Caixa Econômica Cultural do Rio de Janeiro (2024) Foto: Monica Ramalho

Seu método resulta em obras que evocam tanto a delicadeza quanto a força bruta dos materiais originais. “A arte tem um papel crucial na sensibilização das pessoas. Quando você transforma algo que foi descartado em uma obra capaz de emocionar, você muda a percepção sobre aquele material e sobre a própria lógica do consumo”, reflete. “Eu trabalho o ferro como se fosse um papel”.

O processo criativo de Marta é artesanal em sua essência. Ela não delega a execução de suas obras. “Uma coisa que eu sempre fiz questão é eu produzir minhas obras. Tem muito artista que desenha e alguém produz, mas eu não. Eu soldo, eu lixo, eu corto, faço tudo. Pinto e tudo. Eu sou um bicho pra trabalhar e arrastar ferro”. Essa relação direta com o material garante que cada peça carregue não apenas sua assinatura estética, mas também sua energia e dedicação.

Meu processo é muito pessoal e intuitivo. Depois de muitos anos é que eu aprendi a planejar melhor através de maquetes que comecei a fazer de papelão e escalímetro”. Para Marta, a sustentabilidade na arte vai além da reutilização de materiais; é uma filosofia que envolve o respeito ao meio ambiente, a valorização do fazer artesanal e a conscientização sobre os impactos das escolhas individuais.

Marta também trabalha ministrando oficinas, tanto ensinando técnicas de se esculpir em aço, como outras formas de arte como mosaicos em cerâmica e fuxico de tecidos. “Onde eu passei tudo foi feito com aproveitamento, já fui no Tocantis (em Gurupi, Araguaína e Palmas), no interior do Maranhão, aqui em Maceió e Arapiraca”. Mesmo assim, apesar disso Marta gostaria de ter mais oportunidades de repassar seu conhecimento e seu trabalho. “Queria formar mais escultures, ter mais obras em determinados locais públicos. Restaurar as obras antigas que estão espalhadas pela cidade também seria muito importante”, comenta.

Exposição Marta Arruda: 40 anos de esculturas, na Caixa Econômica Cultural do Rio de Janeiro (2024) Foto: Monica Ramalho
Acervo da artista
Foto: Acervo da Artista
Foto: Acervo da Artista

Apesar do reconhecimento de seu trabalho, a jornada de Marta não foi isenta de desafios. “Ser artista em Alagoas já é difícil, ser artista mulher, então, nem se fala. Mas a gente vai conquistando espaço, mostrando trabalho e não desistindo“, reflete. “O Brasil ainda precisa caminhar muito pra valorizar a arte, não só nesse segmento que eu atuo”, desabafa ela. “A consciência ambiental também é deixada de lado, é extremamente importante que esse trabalho educativo de cuidado com os resíduos que deixamos seja realizado nas escolas para que a mentalidade vá mudando ao longo dos anos”.

A relevância de sua produção já lhe rendeu reconhecimento em exposições dentro e fora de Alagoas, como em Belo Horizonte e São Paulo. Seu talento e persistência a levaram a exposições importantes como na Caixa Cultural do Rio de Janeiro recentemente em comemoração aos seus 40 anos de esculturas, e a um público que se encanta com sua capacidade de dar beleza ao que um dia foi considerado inútil.

O reconhecimento de sua trajetória acaba de ganhar um novo e importante capítulo. Em 2025, Marta Arruda foi oficialmente reconhecida como Mestra do Patrimônio Vivo de Alagoas, título concedido pelo Governo do Estado, por meio da Secretaria de Estado da Cultura e Economia Criativa (Secult). A nomeação, publicada no Diário Oficial no mês de agosto, insere a artista no seleto grupo de guardiões da cultura alagoana que, com seu ofício e seus saberes, ajudam a manter vivas as tradições e expressões artísticas do estado.

O título é também um símbolo de justiça histórica para uma artista pioneira, que há mais de quatro décadas transforma o ferro em poesia visual e inspira novas gerações. A diplomação marca sua inscrição no Livro do Patrimônio Vivo de Alagoas, eternizando sua contribuição à cultura e reafirmando o valor de seu trabalho como referência de inovação, resistência ao tempo e sustentabilidade.

Intervenção artística na escadaria da Ladeira da Catedral em Maceió. A curadoria é assinada por Marta Arruda, madrinha do projeto. Foto: Aqui Acolá Arte /Matheus Monstro
Foto: Aqui Acolá Arte /Matheus Monstro
Foto: Aqui Acolá Arte /Matheus Monstro

“Tenho o orgulho de ser reconhecida e valorizada como artista e como escultora no meu estado. Aqui eu sempre vendi muito minhas obras”, diz ela. “O conselho que eu daria é primeiro você ter amo àquilo que faz e ter foco no seu ofício, sem deixar de observar também às normas de segurança. Tanto que eu continuo na minha luta solitária para continuar vivendo da minha arte”.

Suas próximas ações incluem a coordenação do projeto Nise 120 anos, em homenagem à psiquiatra alagoana pioneira Nise da Silveira, e uma exposição prevista para o mês de setembro de 2025.

Marta Arruda é uma artista que enxerga além do óbvio. Sua arte não apenas ressignifica materiais, mas também convida o espectador a olhar para o mundo com mais sensibilidade e consciência. No entrelaçar de ferro e poesia, ela nos lembra que tudo pode ser transformado, basta um olhar atento e mãos dispostas a criar.


Equipe de Reportagem

Texto: Nicollas Serafim

Revisão e edição: Iranei Barreto

Créditos das imagens: Acervo Pessoal da artista, Monica Ramalho/ Divulgação, Aqui Acolá Arte /Matheus Monstro


*Reportagem viabilizada com recursos da Lei Aldir Blanc e operacionalizada em Alagoas pelo Governo do Estado, por meio da Secretaria de Estado da Cultura e da Economia Criativa (Secult)

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