Jackson Lima e a arte sustentável como movimento estético e ambiental

No silêncio da noite, um ser inspirador começou a visitar o quarto de Jackson Lima, artista visual alagoano, e lhe revelou um caminho: ressignificar materiais que antes eram descartados. Jackson encontrou na arte sustentável não apenas uma expressão estética, mas um compromisso com o meio ambiente e uma forma de sensibilizar a sociedade para a urgência da reciclagem. Ele contou sua história artística e de vida no 2ª episódio  da série “Re-Arte”, viabilizada com recursos da Lei Aldir Blanc e executada em Alagoas pelo Governo Estadual, por meio da Secretaria de Estado da Cultura e da Economia Criativa (Secult).

Ateliê de Jackson Lima. Foto: Aqui Acolá Arte /Matheus Monstro

Com quase 59 anos, o artista lembra que a inquietação diante dos resíduos sólidos gerados em sua própria residência foi o estopim para transformar o lixo em arte. Ele conta que iniciou suas brincadeiras com arte ainda criança, quando fazia brinquedos com o barro ao lado de sua mãe na beira do rio. “Eu já fazia arte, mas sentia que faltava algo. Quando percebi o impacto do lixo ao meu redor, decidi incorporá-lo ao meu trabalho”, conta.

Seu processo criativo é quase intuitivo, ao encontrar um material descartado, ele enxerga de imediato a obra oculta em sua forma bruta.

Eu sou apenas um fio condutor. Minhas mãos deslizam sobre o material, revelando a arte que já gritava por aparecer“, revela. “Essa arte que eu faço é uma arte inédita, única. Eu não conheço ninguém que fazia uma coisa assim. Fui eu que inventei, uma coisa que nasceu de mim, uma coisa inspirada. Até acho que isso é espiritual, que foi uma inspiração daquela aparição, daquele ser que aparecia no meu quarto”, analisa ele.

Jackson Lima é um artista que desenvolveu por conta própria seu saber e fazer artístico. Começou com a pintura e o desenho, mas foi com a escultura que seu trabalho ganhou força e visibilidade. Suas esculturas originais chamam a atenção pelos detalhes visuais e técnica singular. “A minha história na arte começou muito cedo, através de muita luta e insistência. Tudo isso gritava dentro de mim, eu só arrumei um modo de botar para fora através da arte”, comenta. “Um dos objetivos é mostrar ao público o que pode ser feito com o lixo que produzimos, as saídas e soluções para a diminuição dos impactos ambientais

Detalhes do Ateliê localizado na zona rural de Limoeiro de Anadia. Foto: Aqui Acolá Arte /Matheus Monstro
Foto: Aqui Acolá Arte /Matheus Monstro
Foto: Aqui Acolá Arte /Matheus Monstro
Foto: Aqui Acolá Arte /Matheus Monstro
Foto: Aqui Acolá Arte /Matheus Monstro

Dentre os materiais mais presentes em sua produção está o plástico, um dos principais poluentes do planeta. “Os impactos ambientais causados por ele são descomunais“, enfatiza. Para garantir o suprimento de insumos, Jackson conta com a colaboração de amigos e ativistas ambientais que doam descartes. Uma das principais parcerias vem do projeto “Alagoas Mais Limpa“, coordenado pela professora de química da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), Iara Terra. “Eles mobilizam alunos para coletar resíduos em praias e cidades, e parte desse material vem para mim, para ser ressignificado em arte.”

As possibilidades são amplas, cartelas de comprimidos, frascos de vidro, tecidos, isopor, madeira, ferro, alumínio e tantos outros materiais têm encontrado nova vida em suas mãos. “Recebo de tudo um pouco. Todos esses materiais têm uma nova chance de continuar existindo, agora transformados em arte.”

Tudo que se julga ‘descartável’ uso em minhas peças”, diz ele. “Busquei também, ao longo de aprimoramentos, chegar a um material resistente. Da argila, que antes usava, utilizo hoje uma massa que garante a durabilidade das obras”. Jackson afirma que esse foi o melhor modo encontrado para devolver à natureza tudo que ela fornece de presente todos os dias.

O impacto de seu trabalho não se restringe à produção artística. Ele também atua diretamente na conscientização de crianças e jovens, recebendo alunos em seu ateliê e ministrando oficinas em escolas. “Esse trabalho transforma essa galera, pode acreditar. Quando você mostra que aquele material que seria descartado pode virar arte, você muda a mentalidade das pessoas sobre o lixo e o consumo.”

Foto: Aqui Acolá Arte /Matheus Monstro
Foto: Aqui Acolá Arte /Matheus Monstro
Foto: Aqui Acolá Arte /Matheus Monstro

Apesar de seu reconhecimento crescente, Jackson ressalta que ainda há preconceito com a arte sustentável. “Muita gente tem resistência por causa da origem dos materiais. Um exemplo é a cartela de comprimidos: quando eu levei esculturas feitas com elas para uma feira, percebi que algumas pessoas tinham receio de tocar, por acharem que poderia estar contaminado. Mas o material passa por todo um processo de limpeza antes de virar arte.”

Sobre o mercado de arte sustentável, o artista analisa que ainda é pequeno, mas já existe. “Há uma conscientização crescente, mas ainda precisamos de mais valorização”, avalia. Um dos grandes é a consolidação de um nome no mercado. “O reconhecimento é complicado. Tem artista que está há anos produzindo e nunca teve uma exposição. Eu tive a sorte de ter meu trabalho descoberto por curadores como Socorrinho Lamenha, que me incluiu na exposição ‘Poesia Forjada em Ferro’, e de receber apoio de pessoas fundamentais como Marlan Ferreira e sua esposa Heloísa Ferro. Foram essas oportunidades que abriram portas para mim.”

Dentre suas exposições individuais, destacam-se “Ressignificando – Idas e Vindas” tendo sua cidade interiorana Limoeiro de Anadia como inspiração, pano de fundo e próprio palco da mostra em 2021.  “Poesia forjada em Ferro”, seu segundo trabalho individual, o qual foi realizado em 2017 na Galeria de Arte do Centro Universitário Cesmac como parte das comemorações dos 200 anos de emancipação política de Alagoas.

Já sua primeira exposição intitulada “Caminhos” teve duas montagens nas galerias do SESC de Maceió e Arapiraca nos anos de 2016 e 2017, respectivamente. Além disso, o artista também expôs seus trabalhos em mostras coletivas como a “Artesanato nos Jogos da Copa 2014 – Vitrines Culturais”, várias edições da Fenearte – Feira de Artes e Negócios do Agreste Alagoano, edições do Salão Nacional de Arte Contemporânea de Alagoas (SACA) e do Salão de Artes da Marinha. “Tenho obras espalhadas pelo Brasil todo e inclusive no exterior também, como Portugal, Alemanha, Irlanda”, comenta.

Seus projetos futuros estão voltados para a disseminação do conhecimento. “Quero levar essa arte para mais escolas, trazer mais gente para o ateliê, dividir os meus saberes com essa galera. Esse é o legado que eu quero deixar”, afirma. Para Jackson, o verdadeiro sucesso está em inspirar novas gerações a continuar seu trabalho. “Se um jovem pegar essa ideia e aprimorá-la, para mim é uma honra. Saber que fui um pioneiro e que minha arte vai continuar em outras mãos é gratificante.”

Por fim, Jackson Lima deixa um conselho para aqueles que desejam seguir seus passos na arte sustentável: “Arregace as mangas, não tenha nojo e produza. A arte é um meio de expressão, mas também uma ferramenta poderosa para transformar o mundo. Se você acredita nisso, siga em frente. Acredite na sua arte e faça acontecer.”

Foto: Aqui Acolá Arte /Matheus Monstro
Foto: Aqui Acolá Arte /Matheus Monstro
Foto: Aqui Acolá Arte /Matheus Monstro

Equipe de Reportagem

Texto: Nicollas Serafim

Revisão e edição: Iranei Barreto

Créditos das imagens: Acervo Pessoal da artista e Aqui Acolá Arte /Matheus Monstro


*Reportagem viabilizada com recursos da Lei Aldir Blanc e operacionalizada em Alagoas pelo Governo do Estado, por meio da Secretaria de Estado da Cultura e da Economia Criativa (Secult)

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