Série Re-Arte estreia com Adriana Jardim e a Poética do Reaproveitamento

Por meio de oficinas, murais e esculturas feitas com materiais recicláveis, a artista visual e psicóloga Adriana Jardim vem construindo um trabalho sensível e profundo em Alagoas. Seu olhar artístico se entrelaça com a escuta clínica, produzindo obras que não apenas chamam atenção pela estética, mas também criam espaços de cuidado, escuta e transformação. Seus trabalhos com papietagem e papel machê e suas esculturas surrealistas conquistaram os olhares do público e formataram uma característica marcante em suas obras.

Tendo o papel como principal matéria-prima, Adriana constrói mundos fantásticos e tridimensionais, levando cor e fantasia para a arte contemporânea. Ela é a artista que inaugura a nova série do Blog Aqui Acolá, “Re-Arte”, um mergulho no universo da arte sustentável e da economia criativa. Sua trajetória também é retratada no documentário “Ressignificando com Arte” (2025), produzido pelo Blog Aqui Acolá e dirigido por Iranei Barreto, que apresenta quatro artistas e suas diferentes formas de transformar o descarte em criação.

Bastidores do documentário “Ressignificando com Arte” (2025). Foto: Aqui Acolá Arte /Matheus Monstro

 Nesta reportagem, viabilizada com recursos da Lei Aldir Blanc e operacionalizada em Alagoas pelo Governo do Estado, por meio da Secretaria de Estado da Cultura e da Economia Criativa (Secult), Adriana compartilha os primeiros passos de sua trajetória artística, o uso de resíduos como insumo criativo, os desafios enfrentados ao longo do caminho e a potência da arte como ferramenta de inclusão, terapia e reflexão.

Adriana conta que seu caminho na arte começou ainda na infância, com muita experimentação. Incentivada pela mãe a liberar sua criatividade desde criança e adolescência, Adriana partiu para aperfeiçoar suas técnicas artísticas de desenho e pintura na Escola de Arte de Salles.

Mais tarde, as formações em Educação Artística e Psicologia agregaram novas camadas ao seu trabalho artístico: “Eu fazia arte, utilizava materiais recicláveis desde sempre, nas colagens com papel jornal, papel kraft e papel sulfite. E tudo meio intuitivo, meio livre.”  Pós-graduada em ArteTerapia, Adriana Jardim também uniu essas duas valências. “Nas terapias e no consultório eu já usei bastante a arte. E hoje em dia, de vez em quando eu faço algumas vivências, oficinas e técnicas, o que agrega bastante tanto a mim quanto aos pacientes”, revela.

Foto: Aqui Acolá Arte /Matheus Monstro
Foto: Acervo da artista

Desde cedo, Adriana utiliza resíduos como papelão, embalagens e objetos descartados para criar esculturas e instalações. O uso de materiais recicláveis vai além da questão ambiental: tem a ver com ressignificação de objetos e de pessoas.

É um material que carrega uma história, que foi descartado, e aí você transforma ele em algo novo. Isso tem muito a ver com o processo terapêutico também. Consegui me adaptar muito bem ao papel, por ser um material leve, fácil de encontrar e de se trabalhar”, revela.

 Adriana conta que em 2006 tomou contato com a técnica da escultura em papel, a papietagem, assim como dar formas a esculturas através do papel machê e de lá pra cá vem desenvolvendo suas obras misturando essa técnica com outras linguagens artísticas como a pintura em tela, criando e dando uma característica forte e uma identidade ao seu trabalho. Ela destaca que há desafios na escolha por esse tipo de material:“As pessoas tendem a desvalorizar a arte feita com recicláveis. Acham que, por ser lixo, não tem valor. E aí você precisa explicar, precisa educar o olhar.

Foto: Acervo da artista
Foto: Acervo da artista
Foto: Acervo da artista

Nas oficinas que realiza, Adriana trabalha com o lúdico, com o fazer coletivo e com o reconhecimento dos afetos envolvidos na criação, ensinando a arte em papel machê e papietagem. Ela menciona a intenção de desenvolver projetos voltados especialmente para alunos com dificuldades de aprendizagem ou diagnósticos como TDAH e autismo: “Às vezes, quem mais precisa de cuidado não é nem o aluno, é o pai. A oficina vira uma forma de detectar isso e encaminhar.”

Ela planeja integrar ainda mais sua atuação como psicóloga ao seu trabalho artístico, com oficinas voltadas às famílias, buscando um viés de arte terapêutica: “Não é uma terapia aprofundada, mas é um espaço de expressão. E ali, naquele gesto, você já percebe quem precisa de mais atenção.”

Adriana também participa de projetos de pintura mural em espaços públicos. Fez parte da equipe de artistas que coloriu muros em bairros como Jaraguá e no viaduto do Francês no litoral sul na cidade de Marechal Deodoro, ao lado de nomes como Marta Arruda e Persivaldo Figueirôa.

Foto: Acervo da artista

Foto: Acervo da artista

Ela também reflete sobre os limites físicos e pessoais desse tipo de arte: “Gosto da pintura mural, mas já tô sentindo que não é mais muito a minha área. Cansa. Talvez eu continue, mas só se for um projeto muito específico. ” Além disso, seu trabalho com 25 peças de esculturas já foi reunido em sua primeira exposição individual em 2008, no Museu Théo Brandão e de lá pra cá, vem participando de inúmeras mostras coletivas nos espaços da cidade.

Ao aconselhar jovens artistas que desejam trabalhar com materiais recicláveis, Adriana ressalta a importância da criatividade: “É legal quando a pessoa olha e diz: ‘Isso era uma caixa de ovo? ’ ou então nem percebe o que era antes. Tanto faz, o importante é que a obra provoque algo.” Ela também valoriza a busca por um acabamento mais refinado, que eleve o objeto reciclado à condição de obra de arte: “Que seja algo novo, ressignificado de verdade.

Mais do que denunciar ou dramatizar, Adriana quer que sua arte convide à leveza e à reflexão. Ela fala sobre isso ao mencionar obras como a que fez sobre o mangue:

Falo da natureza, mas de uma forma mais fluida, mais leve. A ideia é sempre puxar para o lado positivo, a cultura da paz, a harmonia.

Foto: Acervo da artista

Seu desejo é que a arte que produz e que compartilha com outras pessoas seja também um espelho, uma ponte para o autoconhecimento: “A arte tem essa capacidade de tocar, de fazer pensar. E se for com beleza, com poesia, melhor ainda.” Além disso, ela deseja produzir e executar sua próxima exposição individual e aumentar a atuação nas oficinas que ministra, contribuindo para a disseminação de sua arte e da conscientização sustentável que ela carrega consigo.


Equipe de Reportagem

Texto: Nicollas Serafim

Revisão e edição: Iranei Barreto

Créditos das imagens: Acervo Pessoal da artista e Aqui Acolá Arte /Matheus Monstro


*Reportagem viabilizada com recursos da Lei Aldir Blanc e operacionalizada em Alagoas pelo Governo do Estado, por meio da Secretaria de Estado da Cultura e da Economia Criativa (Secult)

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