Mestre Vevel: Patrimônio Vivo da Tradição do Bumba Meu Boi


Nome: Everaldo Lins

Conhecido como: Mestre Vevel

Atividade reconhecida: Boi de Carnaval

Local e data de nascimento: Maceió, 11/09/1951

Patrimônio Vivo de Alagoas: 30/06/2012

Falecimento: 09/03/2014 (Aos 62 anos)

Foto: Da internet

Entre as figuras que mantiveram vivo o Bumba Meu Boi em Alagoas, Mestre Vevel ocupa um lugar de destaque. Mais do que coordenador e entoador do Boi Paraná, tornou-se referência e fonte de inspiração para gerações de brincantes. Reconhecido como Patrimônio Vivo de Alagoas em 2012, dedicou mais de quatro décadas à preservação e à reinvenção do folguedo, sem nunca perder a simplicidade que lhe era característica.

Natural da capital alagoana, Everaldo Lins nasceu em 11 de setembro de 1951. Iniciou sua trajetória cultural aos 18 anos no bairro do Poço, tendo a Travessa Paraná como coração dessa história. A própria travessa, que inspirou o nome do boi que liderou, um dos primeiros a participar de concursos oficiais em Alagoas, tornou-se ponto de encontro, local de ensaios e de confecção das roupas e alegorias do folguedo.

Foto: Acervo do Boi Paraná/ Ewerton Vieira
Fotos: Acervo do Boi Paraná
Foto: Acervo do Boi Paraná/ Ewerton Vieira

Sua dedicação ao Boi Paraná não era solitária. Em família, a irmã Deusdete ajudava na costura das roupas do boi e das integrantes, enquanto ele cuidava das armações, das baterias e da música. “Antes dele tomar conta do Boi Paraná, já tinham outras pessoas que foram as fundadoras, mas depois essas pessoas deixaram e o tio Vevel junto com a minha mãe Deusdete tomaram a frente. Ele ficou a cargo das armações, das baterias, e minha mãe passou a costurar a roupa do boi e as roupas das meninas que dançavam. Eu tinha uns nove, dez anos quando comecei a brincar no boi, porque o Paraná começou com o grupo de dança. Antigamente só era o boi, o vaqueiro e os tocadores. Aí a gente inovou e colocamos as meninas pra dançar e eu comecei a fazer parte também, ” recorda Ariana, sobrinha do Mestre.

Vevel estreou em competições em 1985, no antigo clube Alagoinhas, e inovou ao introduzir canções nas apresentações, que antes contavam apenas com percussão. Ele criava músicas que exaltavam Alagoas e eram requisitadas por outros grupos da capital. “Antes os bois se apresentavam somente com a percussão, sem música. Foi então que tive a ideia de fazer uma música para animar ainda mais a festa”, afirmou certa vez.

“Ele deixou um caderno enorme com músicas que criou, cada uma mostrando sua inteligência e amor pelo folguedo. Tio Vevel era uma pessoa muito boa, todo mundo gostava dele. Gostava de ajudar o próximo e amava a cultura. A sede do boi era na nossa casa, e ele cuidava de tudo com muito carinho, ” relembra Ariana.

Composição inédita de Mestre Vevel | Acervo do Boi Paraná/ Ewerton Vieira

Depois do falecimento de Deusdete, Vevel passou também a cuidar da ornamentação do boi. Ele produzia artesanalmente os bonecos, preferindo lantejoulas em vez de miçangas, por acreditar que o brilho deveria ter leveza. “Aprendi com minha querida irmã, que faleceu. Tem que ter paciência para conseguir um resultado bom. Fazemos tudo bem feito, da cabeça do boi ao saiote”, afirmou. “Eu sou dos poucos que ainda prefere trabalhar com as lantejoulas em vez de miçangas. Na minha opinião, as alegorias têm que brilhar, mas com leveza”, completou.

A memória de Mestre Vevel também está viva nas palavras de Ewerton Vieira, seu discípulo e criador do grupo Bumbá Alagoano. Ele guarda consigo não apenas os troféus e certificados conquistados pelo Mestre, mas o legado humano e cultural.Tudo o restou do boi Paraná está na sede do meu grupo atual, o Bumbá Alagoano. Eu tenho a última roupa que ele cantou, o livro-histórico do grupo, os troféus, os certificados que ele ganhou por onde passou, mas o mais importante é a memória, comenta emocionado.

“Desde pequeno a gente sempre tinha o sonho de brincar o Bumba meu boi e teve o grupo do mestre Vevel como referência, que foi nosso mentor de tudo o que a gente sabe hoje. Quando a gente chegou na casa dele, ele nos apoiou costurando o pano do boi da gente, ajudando a gente com a música e dali a gente já pensou em não simplesmente fazer um boi pra sair na rua, mas brincar nos festivais. Aí de lá pra cá estamos há 25 anos levando o que a gente aprendeu”.

Ewerton Vieira

Ewerton fala também de Vevel como uma figura paterna. “Eu nunca tive pai, e ele me tirou de muita coisa. Eu poderia ter entrado na droga e em outras coisas e eu tive ele como pai, não só na cultura. Era um cara de bom coração que não media esforços pra ajudar a ninguém, era retelhando casa do povo que não tinha dinheiro, era fazendo serviço de energia, encanação, de tudo. Eu aprendi muita coisa com ele”. A generosidade era marca de sua convivência. Você não via ele triste, você via ele sempre ajudando ao próximo, não tinha essa questão de rivalidade dentro dos grupos. Chegavam grupos que se diziam rivais da gente na casa dele pedindo música e ele fazia. Ia nos ensaios dos grupos e ensinava como se cantava”, recorda.

Reconhecimento e legado

Compositor, artesão, aderecista e cantor, deixou uma obra feita de cores, ritmos e letras que exaltavam Alagoas e seu povo. Sua trajetória foi reconhecida oficialmente em 2012, quando recebeu o título de Patrimônio Vivo de Alagoas. Um ano depois, foi homenageado no Festival de Bumba meu boi de Maceió, mas, tímido como era, não subiu ao palco para receber os aplausos.

Foto: Da internet
Foto: Da internet

Quando foi reconhecido como Patrimônio Vivo, foi uma grande alegria, um incentivo pelo tanto que já havia feito”, lembra Ariana. Ewerton também recorda o momento. “Quem foi o mentor da indicação do Mestre Vevel como Patrimônio Vivo foi Eugênio Vilela, que fez a inscrição dele. Quando ele foi nomeado, estávamos lá, junto com o Bumbá Alagoano e toda a bateria do boi, celebrando aquela gratidão que a cultura estava dando a ele. Foi uma alegria imensa vê-lo reconhecido.”

Apesar do reconhecimento, Mestre Vevel nunca se deixou levar pela vaidade. Ariana também lembra que ele era um homem simples e reservado. Preferia estar no meio da comunidade, fazendo o que amava: criar, orientar e brincar. “Ele não gostava de se exibir, era muito tímido. Muitas vezes não ia receber os troféus, mandava alguém no lugar. Ele fazia porque amava o boi e a cultura, não por interesse pessoal.”

Entre as experiências marcantes de sua carreira, destaca-se a participação, em 1998, com o Boi Paraná, na gravação da canção Influência Jackson, de Aldir Blanc e Guinga, em Maceió, ao lado da cantora Leila Pinheiro. Esse momento mostrou a sua importância e do folguedo para além das apresentações locais, registrando sua contribuição para a cultura brasileira.

Foto: Acervo do Boi Paraná/ Ewerton Vieira

A perda de Mestre Vevel deixou um profundo vazio na comunidade cultural. Na despedida, a dor foi sentida por todos que conviviam com ele. “Recebemos a notícia do falecimento dele antes de um festival e foi muito doloroso, a gente pensou até em parar de montar o nosso boi naquele ano, porque ele era o esteio da gente. Nesse ano nossa temática era “O mundo do faz de conta”, onde um boneco queria virar gente, e nesse mundo só o mestre Vevel poderia fazer isso. Levamos esse tema e ficamos em 2º colocado, mais uma vez homenageando ele. E seguimos até hoje, celebrando o que ele nos deixou. Agora em 2025, celebramos as bodas de prata do Bumbá Alagoano e tem uma parte da música que é voltada a ele,” recorda Ewerton.

Mestre Vevel faleceu em 9 de março de 2014, vítima de câncer no pulmão, aos 62 anos. O velório reuniu familiares, amigos, brincantes e admiradores, e contou com tambores, fantasias e músicas do Boi Paraná, transformando a despedida em um verdadeiro ato de celebração da vida e da obra do mestre. Sua trajetória foi reverenciada em homenagens públicas, como no Festival de Bumba meu boi daquele ano, quando vários grupos entraram em cena para celebrar sua memória.

Hoje, passados mais de dez anos de sua partida, sua presença permanece. Está na lembrança dos que conviveram com ele, nos figurinos que bordou à mão, nos enredos que deram identidade ao Boi Paraná, nas composições que continuam sendo entoadas e no exemplo de vida simples e generosa. Como sintetizou Ewerton, “nada mudou, porque no meio da cultura do boi ele sempre foi tido como mestre, mesmo sem título”. Assim, o legado de Mestre Vevel não se encerrou com sua partida. Ele continua a ecoar nas batidas do tambor, no brilho das lantejoulas e na força da coletividade que ele tanto acreditava. Seu nome se inscreve na história cultural de Alagoas como um mestre essencial, guardião do Bumba meu boi e exemplo de dedicação à cultura popular.


Galeria de Imagens – Entrevista


DOCUMENTOS E REPORTAGENS

Foto: Acervo do Boi Paraná / Ewerton Vieira
Foto: Acervo do Boi Paraná / Ewerton Vieira
Foto: Acervo do Boi Paraná / Ewerton Vieira

Arquivo Audiovisual


Publicações encontradas

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Créditos da reportagem

Equipe de pesquisa:  Iranei Barreto e Nicollas Serafim

Transcrição das entrevistas: Nicollas Serafim

Texto: Iranei Barreto

Identidade Visual: Joenne Mesquita

Créditos das imagens: Iranei Barreto, Nicollas Serafim e Acervo do Boi Paraná/ Ewerton Vieira, Acervo da família/Ariana

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