Nome: Ronaldo da Costa
Conhecido como: Mestre Pancho
Atividade reconhecida: Mestre de Fandango
Local e data de nascimento: Maceió – 14/07/1951
Local de atuação: Maceió
Patrimônio Vivo de Alagoas: 03/08/2012
Falecimento: 02/03/2021 (Aos 69 anos)

Ronaldo da Costa, conhecido carinhosamente como Mestre Pancho, nasceu em Maceió, em 14 de julho de 1951, e desde cedo teve a música, a dança e a cultura popular como elementos centrais de sua vida. Cresceu no Pontal da Barra, bairro que abriga uma tradição secular, o Fandango, folguedo de origem portuguesa que chegou à região em 1930, trazido por pescadores e mestres que buscavam preservar suas histórias e memórias marítimas. Para Pancho, a vida sempre foi boa como a música e o Fandango, e desde adolescente ele mergulhou nessa tradição que, para ele, era tão natural quanto respirar.

O Fandango do Pontal da Barra é um espetáculo popular que mistura dança, canto, narrativa e encenação. Desde seus primórdios, com mestres como Aminadab e Zé da Sofia, o grupo mantinha cantigas náuticas que narravam aventuras e desventuras de navegadores portugueses, retratando naufrágios, milagres e odisséias marítimas. Essas histórias, passadas de geração em geração, faziam parte do imaginário coletivo do bairro e construíam a identidade cultural da comunidade. “O Fandango alagoano que vive aqui no Pontal tem uma identidade própria, chegou de um jeito e logo foi se adaptando ao local, à cultura e ao povo”, dizia o próprio Pancho, sempre consciente de que a tradição que conduzia precisava ser valorizada e preservada.
Filho de Mestre Isaldino da Costa, Pancho herdou o amor pela cultura popular e a responsabilidade de manter vivo o folguedo. Aos 13 anos, já integrava o grupo, começando como marujo e participando de todas as etapas do Fandango. Com o tempo, passou pelas funções de gajeiro, capitão de mar e guerra e, finalmente, mestre. Sua trajetória no folguedo é marcada por dedicação, disciplina e alegria contagiante, características reconhecidas por todos que tiveram a oportunidade de conviver com ele. “Quando eu o conheci, ele já fazia parte do Fandango. Conheci lá na Massagueira, perto da Praia do Francês, porque eu era mestra de pastoril. Eu já acompanhei desde o pai dele, o seu Isaldino, até ele se tornar mestre. Ronaldo tocava, depois dançava, participou de tudo isso, ” relembra Maria de Lurdes, sua esposa.






Ao longo de quatro décadas à frente do Fandango do Pontal da Barra, Pancho inovou e ampliou o alcance do grupo. Entre as mudanças mais significativas, incluiu a participação feminina, rompendo uma tradição até então restrita aos homens. “Foi comigo que as mulheres começaram a participar da brincadeira. Não tinha sentido deixá-las de fora já que também podem entrar na Marinha”, explicou o mestre, consciente de que a preservação da tradição depende da renovação e da inclusão das novas gerações.
O grupo, sob sua liderança, ganhou projeção regional e nacional. Entre as apresentações mais memoráveis, destacam-se as viagens para Recife e Rio de Janeiro. Durante as Paralimpíadas no Rio, Pancho realizou um sonho de viajar de avião para representar o Fandango do Pontal da Barra. “O momento mais especial na vida cultural do meu pai foi quando ele fez uma viagem para as Paralimpíadas, um convite que ele recebeu para representar o Fandango do Pontal da Barra no Rio de Janeiro. Ele dizia que tinha realizado o sonho da vida dele que era viajar de avião, ” recorda Emília Costa, sua filha.
Pancho era conhecido por sua generosidade e alegria. Um homem de coração puro, dedicava-se intensamente à família e ao próximo. “Para ele era uma festa. Não tem ninguém no Pontal da Barra que fale que não gosta do Pancho. Fazia a festa com todo mundo, e o interessante é que ele não bebia, passava a noite toda na farra. Com o violão e o tira-gosto dele, passava a noite inteira, ” recorda Maria de Lurdes. O dia a dia de Pancho incluía encontros com a comunidade, conversas nas ruas do bairro e ensaios regulares, sempre com música, riso e dedicação.

Legenda para #CEGOVER | A imagem mostra seis integrantes do Fandango do Pontal sobre uma embarcação, com o mar e a vegetação ao fundo. Eles estão perfilados e erguem espadas que se cruzam no centro da cena. Todos vestem uniformes brancos inspirados na Marinha, com quepes brancos, ombreiras douradas e faixas decorativas amarelas, mas as roupas pertencem ao folguedo e não à instituição militar. O quarto integrante da esquerda para a direita é o Mestre Pancho, sorridente, participando do gesto coletivo.
A neta Jéssica destaca o caráter e a influência do avô na vida familiar. “Meu avô sempre foi uma presença paterna, não só para mim, mas para todos os netos, e ele era uma pessoa muito gentil. Sempre abdicava de tudo da vida dele em prol da vida das outras pessoas. Era alegre, amigo, parceiro, sempre gostou de folia, por isso se dedicava tanto à brincadeira do Fandango. O importante é não deixar esse legado acabar e que ele passe de geração em geração, como já está acontecendo. ”
Pancho não se limitava a transmitir saberes culturais, ele também incentivava a formação de novas gerações, envolvendo crianças e jovens da comunidade nas práticas do Fandango. Mestre Vavá, amigo e coordenador que o sucedeu no Fandango da Barra, ressalta a importância da continuidade. “Hoje eu faço do meu jeito e está dando certo, mas ele é insubstituível. Ninguém faz no Fandango como Pancho fez.”

Reconhecimento e legado
Mestre Pancho recebeu diversas homenagens durante sua vida. Além do título de Patrimônio Vivo de Alagoas, concedido em 2012, ele recebeu comendas na Associação Comercial. “Quando ele recebeu o título de Patrimônio Vivo parecia que estava no céu, ficou tão feliz nesse mundo. Ele recebia todo mundo em casa bem, pessoas das faculdades, dos jornais que vinham fazer entrevista, ele sempre estava muito feliz. Era uma pessoa de sorriso fácil e brincalhão”, lembra Maria de Lurdes.
O impacto de Pancho na comunidade e na preservação do Fandango é incalculável. Ele transformou a tradição em patrimônio vivo, capaz de unir família, bairro e sociedade em torno da cultura popular. Sua liderança e dedicação foram fundamentais para que o Fandango do Pontal da Barra resistisse ao tempo, à modernidade e às dificuldades financeiras. A parceria com instituições permitiu que o grupo participasse de apresentações fora do estado, divulgando a tradição e atraindo novos integrantes, enquanto a colaboração com escolas locais assegurava a transmissão dos saberes para crianças e adolescentes.



O falecimento de Mestre Pancho em 2 de março de 2021, vítima da Covid-19, deixou um vazio profundo na família e na comunidade. “Ele saiu daqui andando e disse: ‘Eu vou, mas não volto’. Palavras que até hoje soam no meu ouvido. Não pude nem escolher a roupa em que ele foi sepultado, só quem viu foi minha filha e meu filho, ” lamenta Maria de Lurdes. Apesar da tristeza, a memória de Pancho permanece viva em cada canto do Pontal da Barra e nas histórias contadas pelos que conviveram com ele.
O legado de Mestre Pancho vai além das apresentações e das honrarias. A alegria, a dedicação e a generosidade que marcaram sua vida permanecem como referência para familiares, amigos e comunidade. Seu legado cultural, humano e afetivo transforma-se em patrimônio coletivo, inspirando novas gerações a preservar a memória, a tradição e a identidade do Pontal da Barra.
Galeria de Imagens – Entrevista
Arquivo Audiovisual
Publicações encontradas
Créditos da reportagem
Equipe de pesquisa: Iranei Barreto, Nicollas Serafim e Givaldo Kleber
Transcrição das entrevistas: Nicollas Serafim
Texto: Iranei Barreto
Identidade Visual: Joenne Mesquita
Créditos das imagens: Da intenet , Arquivo Secom AL/ Raul Plácido, Acervo da família de Mestre Pancho , Acervo do Fandango do Pontal













