Nome: Juvenal Leonardo Jordão
Mais conhecido como: Mestre Juvenal Leonardo
Atividade reconhecida: Mestre de Guerreiro
Local e Data de Nascimento: Anadia – 23/11/1933
Local de atuação: Maceió
Patrimônio de Alagoas: 13/05/2005
Falecimento: 23/05/2015 (Aos 81 anos)

Mestre Juvenal possuía uma presença inconfundível à frente do Guerreiro. O porte altivo, herança da elegância dos pais, somava-se à alegria que, desde os dez anos, o levou a participar das brincadeiras. Seu jeito refinado e o entusiasmo com que conduzia cada apresentação o tornaram referência para gerações. É, sem dúvida, uma figura eternizada nas memórias e histórias que compõem o imaginário da cultura alagoana.
Filho de Leonardo Jordão de Moura e Doralice Rosa da Conceição, Juvenal Leonardo nasceu em 23 de novembro de 1933, em Anadia, no interior de Alagoas. Ainda menino, acompanhou a mudança da família para Pilar, onde se encantou com o brilho das fitas e o som dos pandeiros do mestre Artur José, conhecido como Artur Bozó. Fascinado, corria para assistir aos ensaios e, aos dez anos, por iniciativa própria, começou a dançar, confeccionando o seu primeiro chapéu. O entusiasmo e a alegria que levava para as brincadeiras logo lhe renderam convites, marcando o início de uma trajetória que se estenderia por toda a vida.

“Confeccionei um chapéu de talo de palmeira e uma casca de bananeira grossa e, em cima da copa, uma única fita. Depois do trabalho, fui correndo para o ensaio, que acontecia todos os sábados. Por causa da minha alegria e animação, fui convidado a dançar de mateu e logo aceitei”, contou Juvenal em entrevista a Josefina Novaes.
Aos quinze anos, Juvenal deixou de brincar de mateu e passou a dançar nos cordões como bandeirinha. Já casado, aos 22 anos, formou seu próprio grupo em Coqueiro Seco, atuando como mestre por cerca de três anos. Mais tarde, mudou-se para Maceió, fixando residência no bairro do Vergel do Lago, onde conheceu o mestre João Amado e passou a integrar seu grupo.
A amizade com o sargento Wilson e José Tenório, proprietário de um grupo de Guerreiro, abriu caminho para a criação do Guerreiro Vencedor Alagoano. A iniciativa rapidamente conquistou destaque, reunindo um grande número de brincantes e vivendo momentos marcados por transformações. Os ensaios, realizados sempre aos sábados na sede do sargento Wilson, encerravam-se em animadas brincadeiras, fortalecendo os laços entre os participantes. Com o tempo, a saúde do sargento Wilson enfraqueceu e ele encerrou as atividades do grupo. Pouco depois, Juvenal ajudou José Tenório a reorganizar o Vencedor Alagoano, primeiro na Chã da Jaqueira e depois em Bebedouro, sempre tendo a Mestra Maria Flor como rainha. Mais tarde, o grupo retornou ao Vergel do Lago, agora sob o comando definitivo de Juvenal Leonardo.
Maria Gonçalves relembra a parceria de Juvenal e José Tenório. “Meu marido tinha um Guerreiro chamado Vencedor Alagoano e contratava os mestres para cantar, entre eles o seu Juvenal. Eu tinha muita amizade com ele, nos dias de Guerreiro ele vinha muito aqui em casa. Era um mestre muito bacana, tinha uma voz boa, mestrava bonito e dançava com aquelas pernas grandes. Meu marido sempre dizia: ‘no tempo que eu for embora, cuide do meu Guerreiro’. Quando Tenório adoeceu, o grupo ficou sob os cuidados de Juvenal, e ele cuidou. ”




Segundo Juvenal, “o Guerreiro voltou a brilhar. Viajamos para Brasília com as professoras Carrascosa e Hélia Pontes, da UFAL, e também duas vezes para Salvador e Aliança, em Pernambuco, sem contar as inúmeras apresentações no interior do estado em que sempre agradávamos o público”. Ele destacava a importância da amizade e da dedicação de todos os brincantes.
Nonato, produtor cultural e amigo de Juvenal, comenta que teve a oportunidade de conhecê-lo em 2005, quando começou a ensaiar o Guerreiro no coreto da praça da Guarda Municipal. Ele observa que Mestre Juvenal tinha um jeito simpático de conquistar as pessoas e que aprendeu muito com ele. Nonato acrescenta que apresentaram juntos um projeto ao CRAS para melhorar a indumentária do Guerreiro, e que também realizaram o “Agosto da Cultura Popular”, na Praça Santa Tereza, onde Juvenal teve muitas oportunidades de se apresentar.
Elegância dentro e fora do Guerreiro
A postura de Mestre Juvenal à frente do grupo era reconhecida por todos. Josefina Novaes, ex-presidente da Asfopal, observa que ele não usava o saiote de fita; preferia uma calça geralmente branca, de tecido brilhoso, com uma faixa lateral de outra cor, além de camisa de manga comprida igualmente brilhosa, com punhos dobrados para dentro. O sapato estava sempre muito bem escovado. Segundo ela, Juvenal era a própria elegância; a elegância do Guerreiro era ele. “A gente o chamava de Fred Astaire do Guerreiro, também porque ele era magro e alto. Era muito boa gente, educado e de trato respeitoso”, conta.

Cícero Farias, que também presidiu a associação, enfatiza a força e o profissionalismo de Juvenal. Ele afirma que Juvenal era um bom mestre, competente e conhecedor do Guerreiro, com pisada forte e apresentações sempre bonitas. “Ele era um homem forte, alinhado, gostava de cumprir horários. As músicas do Guerreiro dele eram maravilhosas. Ele era muito comunicativo, amigo de todos e gostava de prestigiar outros Guerreiros. Amava cultura”, explica. Cícero recorda que acompanhou Juvenal em apresentações em Salvador e no interior de Alagoas, e sempre admirava a beleza das apresentações.
Nonato também recorda das apresentações em projetos que compartilharam. “Quando ele estava dançando, tinha um grito, uma voz muito alta, um comando muito forte. O jeito de dançar, o modo como fazia os passos, era muito interessante, muito bonito. Era realmente um dom de Deus.”
A dedicação de Mestre Juvenal à cultura popular estendeu-se à educação, por meio do projeto “Mestre vai à Escola”, da Secretaria Estadual de Educação, no qual atuou como agente cultural ao lado da mestra Maria Flor. Juntos, criaram o Guerreiro das Artes, no Núcleo de Expressões Artísticas – NEXA/CEPA, levando a tradição do folguedo aos estudantes.
Reconhecimento
Em 2005, Juvenal recebeu o título de Patrimônio Vivo de Alagoas, reconhecimento merecido por décadas de dedicação. “Foi muito vantajoso quando ele foi reconhecido como Patrimônio Vivo. Acho que era um currículo que faltava a ele e que foi merecidamente dado pela Secretaria de Cultura de Alagoas. Esse recurso o beneficiava muito, porque com ele enfeitava uma fita, um adereço, às vezes um pandeiro, um tambor. Ajeitava coroas do Guerreiro; enfim, esse recurso fortaleceu muito o embelezamento do Guerreiro Vencedor Alagoano, ” comenta Nonato.

Legenda para #CEGOVER | Na foto, Mestre Juvenal Leonardo, um senhor de pele clara e expressão serena, está de pé entre duas crianças. Ele veste uma camisa azul clara decorada com faixas verticais de fitas coloridas. Na cabeça, carrega um alto chapéu ornamentado com miçangas e fitas multicoloridas, típico do guerreiro alagoano. À esquerda e à direita, as duas meninas, também com trajes do folguedo, usam vestidos brilhantes em verde e vermelho, coroas adornadas com pedrarias e fitas que descem pelos ombros. Ao fundo, cortinas em tom vinho completam o cenário simples e acolhedor.
Juvenal permaneceu à frente do Vencedor Alagoano até os últimos anos, quando problemas de saúde o afastaram dos ensaios. Faleceu em Arapiraca, no dia 23 de agosto de 2015, aos 81 anos, encerrando a história de um homem que viveu a cultura com intensidade e amor, transformando o Guerreiro Vencedor Alagoano em referência de beleza, disciplina e alegria. Como ele mesmo dizia: “O verdadeiro mestre tem que ter juízo, saber inventar a cantoria, tirar uma peça. Isso é dom, nasce com a pessoa. No fim, tudo é brincadeira, é distração, é cultura.” Assim, Juvenal permanece vivo na memória daqueles que veem, no seu Guerreiro, a beleza de uma arte que nunca deixa de pulsar.
Galeria de Imagens – Entrevista
Arquivo Audiovisual
Publicações encontradas
Créditos da reportagem
Equipe de pesquisa: Iranei Barreto e Nicollas Serafim
Transcrição das entrevistas: Nicollas Serafim
Texto: Iranei Barreto
Identidade Visual: Joenne Mesquita
Créditos das imagens: Da intenet , Iranei Barreto, Nicollas Serafim e Asfopal/Neno Canuto
*Texto em constante atualização. A proposta do projeto Entorno dos Mestres é criar um arquivo com o maior número de informações possíveis sobre os Mestres do Patrimônio Vivo de Alagoas já falecidos.
*PNAB ALAGOAS – O projeto “Entorno dos Mestres” é realizado com recursos da Política Nacional Aldir Blanc, do Governo Federal, operacionalizado pelo Governo de Alagoas, através da Secretaria de Estado da Cultura e Economia Criativa (SECULT).







