Mestre Venâncio: Alegria e Resistência no Guerreiro Alagoano


Nome: Manoel Venâncio de Amorim

Conhecido como: Mestre Venâncio

Atividade reconhecida: Mestre de Guerreiro

Local e Data de Nascimento: Capela – 20/04/1924

Local de Atuação: Maceió

Patrimônio Vivo de Alagoas:  13/05/2005

Falecimento: 28/02/2008 (Aos 84 anos)

Foto: Acervo Asfopal

Nascido em 20 de abril de 1924, no Engenho Monte Alegre, povoado de Capela, Manoel Venâncio de Amorim cresceu entre o cheiro da cana e o som do pagode que ecoava nas rodas conduzidas por seu pai, Cícero Venâncio. Desde menino, aprendeu a valorizar o canto e o riso como forma de atravessar as dificuldades. Ainda criança, acompanhava o pai nas brincadeiras, aprendendo as cantigas de coco e o respeito pelos folguedos. Antes dos quinze anos já era contramestre de reisado, demonstrando uma habilidade precoce para a improvisação e o manejo das tradições.

A juventude o levou a diferentes caminhos. Experimentou o ofício de pedreiro e migrou em busca de trabalho, passando pelo interior da Bahia, Rio de Janeiro e São Paulo. Nessas andanças, nunca abandonou a música. Entre uma obra e outra, cantava pagode, participava de festejos e partilhava a alegria que levava consigo. Fabricou sua própria viola com a palha do coco catolé, confeccionou pandeiros, ganzás e bizungas, inventando soluções para que o canto não fosse interrompido pelas limitações materiais. O humor, marca registrada, o acompanhava sempre, mesmo nos períodos de maior aperto.

Foto: Acervo da Asfopal

Ao voltar para Alagoas, estabeleceu-se em Maceió, no bairro de Bebedouro, onde começou a dançar no Guerreiro do mestre João Rosa. A partir daí, integrou-se a grupos comandados por nomes de destaque como Manoel Lourenço, Manoel Cândido, Luís Moreno, Jorge Ferreira, João Amado. Em cada roda, ampliava seu repertório e aprendia novas formas de conduzir um folguedo.

Em 1972, junto de amigos como Sebastião, João Vicente e Darci Marcena criou seu próprio grupo, o Guerreiro Padre Cícero, também conhecido como Mensageiros de Padre Cícero. O nome refletia sua devoção ao “Padim Ciço”, vínculo herdado de sua mãe, Antônia Maria, que viajava a pé até o Juazeiro do Norte para pagar promessas. Venâncio construiu a sede do grupo no Tabuleiro do Martins, num terreno cedido por comerciantes, e vestiu os brincantes com roupas que ele mesmo ajudava a confeccionar. Para garantir o traje do Guerreiro, recorria até ao décimo terceiro salário, como costumava brincar, afirmando que “tirava do prato” para não deixar faltar fita ou bordado.

A memória de seu filho Petrúcio, o Pell, revela o ambiente alegre que cercava o Mestre. Pell lembra dos ensaios aos sábados no campo do Sete, onde se juntavam moradores do Tabuleiro, Chã da Jaqueira, Forene, Benedito Bentes. “Meu pai sempre dizia que o Guerreiro só dá certo quando a gente sabe lidar com o povo”, contou. A casa era também guardiã da festa. Um quarto inteiro era destinado aos figurinos, cuidadosamente guardados, prontos para brilhar em palcos e ruas. As fitas eram compradas por Venâncio, enquanto dona Ló, rainha do grupo, se encarregava de costurar os saiotes e camisas.

Mais do que mestre de Guerreiro, Venâncio era cantador de pagode, coquista e educador informal. Participou do projeto “Mestre na Escola”, da Secretaria de Educação, ensinando crianças e adolescentes no Núcleo de Expressão Artística (NEXA), no CEPA. Para ele, estar com os jovens era sinônimo de festa; gostava de transmitir o que sabia, de ouvir novas vozes ecoando antigas ladainhas.

Reconhecimento

A trajetória de Venâncio se entrelaça com a história da política cultural alagoana. O jornalista e ex-secretário Estadual de Cultura, Edilberto Ticianeli, conta que foi a convivência com mestres como ele que inspirou a implantação da Lei do Patrimônio Vivo, em 2004. “Venâncio nunca soube que foi ele quem me inspirou a propor a Lei dos Mestres. Eu saía das conversas com aquele mestre do Guerreiro refletindo sobre a grandeza humana. Um homem do povo, vivendo com inúmeras limitações materiais, mas que sabia rir como poucos. Seu bom humor era uma aula de como viver de bem com o mundo e com as pessoas, mesmo nas adversidades”, relata

Venâncio, com seu inseparável pandeiro, estava entre os nove primeiros registrados em 2005, por decisão do Conselho Estadual de Cultura. Recebia, enfim, um reconhecimento que simbolizava o valor de sua dedicação. Pouco tempo depois, adquiriu novos microfones, caixas de som e reformou os figurinos do grupo, garantindo apresentações em Atalaia, Branquinha, Pilar, Ibateguara, São Luís do Maranhão, Teresina, São Paulo.

Mesmo quando um incêndio destruiu parte das roupas do grupo, ele não desanimou. Reconstruiu tudo com o apoio de amigos e das poucas remunerações obtidas em apresentações. Sua fé e perseverança eram combustível para recomeçar sempre. Recebeu, em 2007, o Prêmio de Culturas Populares Humberto Maracanã, do Ministério da Cultura, distinção que reforçou sua importância no cenário nacional.

Foto: Da internet
Mestre Venâncio ao lado do Mestre Verdelinho. Foto: Da internet
Foto: Da internet

Venâncio também sabia rir de si mesmo. Ticianeli recorda uma manhã na Secretaria de Cultura quando, provocado sobre improvisos, respondeu com gargalhadas ao mote inusitado “topei no paralelepípedo e caí no purgatório”. O mestre não perdeu a chance de brincar, reafirmando que sua poesia vinha do encontro vivo, não de decorações antecipadas. Era assim, um homem simples, consciente das dificuldades, mas capaz de transformar cada ocasião em motivo para alegria.

A saúde fragilizada não o afastou completamente das apresentações. Em janeiro de 2008, já doente, subiu ao palco do Museu Théo Brandão, desculpando-se por ter esquecido o chapéu em casa, antes de tocar o pandeiro com vigor. No mês seguinte, em 28 de fevereiro, faleceu em sua residência no Tabuleiro do Martins, aos 84 anos. O velório, como lembrou Pell, foi marcado pela beleza. Todos do grupo compareceram trajados, e o som dos tambores ecoou como homenagem ao mestre. “Ele deixou uma mensagem muito bonita com o Guerreiro dele”, disse o filho.

Foto: Acervo da Asfopal

Hoje, o grupo que Venâncio fundou encontra-se com o Mestre André. Pell sonha em recuperar o Guerreiro Padre Cícero, preservando a memória do pai e abrindo espaço para novas gerações.

Manoel Venâncio de Amorim foi mais do que um brincante habilidoso, foi ponte entre tempos, costurando saberes antigos às esperanças de um futuro em que a cultura popular siga pulsando. Sua história, marcada por fé, trabalho e riso, reafirma que o Guerreiro não é apenas espetáculo, mas também testemunho da força criadora do povo alagoano.


Galeria de Imagens – Entrevista


Arquivo Audiovisual


Publicações encontradas

Publicações encontradas
Mestre Venâncio e a Lei do Patrimônio Vivo de Alagoas
https://contextoalagoas.com.br/?p=2260
Manoel Venâncio
https://secult.al.gov.br/politicas-e-acoes/registro-do-patrimonio-vivo/mestres-do-rpv-al-por-ano-de-premiacao/ano-2005/587-manoel-venancio-falecido#:~:text=Mestre%20Ven%C3%A2ncio%20foi%20um%20dos,Vivi%20do%20Estado%20de%20Alagoas
Manoel Venâncio, mestre do guerreiro
https://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff0203200811.htm
Mestre Venâncio – As Histórias de um Guerreiro Aventureiro
https://bairrosdemaceio.net/caderno2/204
 
Filis fazem homenagem a Padre Cícero
https://www.gazetadealagoas.com.br/cidades/45543/fiis-fazem-homenagem-a-padre-ccero
 
Mestre Venâncio será sepultado nesta sexta
https://www.alagoas24horas.com.br/751055/mestre-venancio-sera-sepultado-nesta-sexta/
NOVAES, Josefina Maria Medeiros. ASFOPAL – Associação de Folguedos Populares de Alagoas – 25 Anos Brincando Sério. Maceió: Gráfica do Estado/CEPAL, 2010. Pag 60

Créditos da reportagem

Equipe de pesquisa:  Iranei Barreto , Nicollas Serafim e Givaldo Kleber

Transcrição das entrevistas: Nicollas Serafim

Texto: Iranei Barreto

Identidade Visual: Joenne Mesquita

Créditos das imagens: Da intenet , Iranei Barreto, Nicollas Serafim e Asfopal/


*Texto em constante atualização. A proposta do projeto Entorno dos Mestres é criar um arquivo com o maior número de informações possíveis sobre os Mestres do Patrimônio Vivo de Alagoas já falecidos.

 *PNAB ALAGOAS – O projeto “Entorno dos Mestres” é realizado com recursos da Política Nacional Aldir Blanc, do Governo Federal, operacionalizado pelo Governo de Alagoas, através da Secretaria de Estado da Cultura e Economia Criativa (SECULT). 

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