Nome: Benon Pinto da Silva
Conhecido como: Mestre Benon
Atividade reconhecida: Mestre de Guerreiro
Local e data de nascimento: Cabo (PE) –13/07/ 1937
Local de atuação: Maceió
Título: Patrimônio Vivo de Alagoas: 15/03/2006
Falecimento: 28/04/2016

Figura icônica do folguedo alagoano, Mestre Benon dedicou mais de seis décadas ao Guerreiro, deixando uma herança cultural que ultrapassa fronteiras. Criador do grupo Treme-Terra de Alagoas, ele adotou o estado como sua casa e transformou a Chã de Bebedouro em um centro vivo de tradição, arte e aprendizado.
Natural do Cabo, em Pernambuco, Benon chegou criança a Alagoas. Foi em Cajueiro que, ainda menino, conheceu o Guerreiro e se encantou pelos seus personagens, músicas e danças. Aos sete anos já participava das rodas e, aos dez, assumiu o papel de caboclinho no grupo da mestra Joana Gajuru. Com o tempo, tornou-se vassalo, índio Peri e embaixador, até alcançar o posto de mestre, função que ele próprio dizia ter aprendido sozinho, observando, experimentando e ouvindo histórias de mestres mais velhos.
A religiosidade sempre atravessou sua trajetória. Durante a adolescência, viveu em Salvador, onde tocou tambor em um centro de Umbanda, experiência que fortaleceu seu vínculo com os elementos simbólicos do Guerreiro. Benon costumava contar que recebeu um apito da cabocla Iracema, entidade que o orientava antes das apresentações, pedindo que ele se lembrasse de Deus e da proteção espiritual antes de conduzir o grupo. Mesmo quando o apito deixou de funcionar, ele o manteve guardado, considerando-o abençoado.

Na década de 1980, fundou o Treme-Terra de Alagoas, um dos mais respeitados grupos do gênero. Com cerca de 35 integrantes, o Guerreiro de Benon reunia dançarinos, músicos e aprendizes da própria comunidade. Ele acreditava que, para o folguedo brilhar, era preciso envolver muitas pessoas. Por isso, abriu as portas de sua sede para jovens, estudantes e curiosos, oferecendo oficinas de canto, dança e confecção de chapéus, peças que ele mesmo produzia com destreza e vendia para o mundo, chegando a exportar enfeites para Estados Unidos, Japão e Europa.
O Treme-Terra tornou-se referência também pelo vigor das apresentações. Era famoso o momento do trupé, quando os brincantes batiam os pés no chão acompanhando o ritmo acelerado dos instrumentos, tantas vezes derrubando palcos improvisados. Entre rezas ao Divino e lutas de espada, o espetáculo ganhava energia contagiante, misturando o sagrado, o profano e o lúdico.
Além do Guerreiro, Mestre Benon liderava o Trio Mordidos do Porco, animando festas de forró com sua sanfona. Multifacetado, dizia ser “instruído em 29 profissões” e orgulhava-se de nunca ter medo do trabalho. Em suas palavras, “em Alagoas só passa necessidade quem tem preguiça, porque tem peixe, sururu, siri, caranguejo, tem de tudo”.
Reconhecimento e legado
O reconhecimento oficial veio em 2006, quando foi inscrito no Registro do Patrimônio Vivo de Alagoas. A lei garantiu a ele uma bolsa vitalícia, recurso que destinava à manutenção do grupo com a compra de materiais, reformas na sede, pagamento de instrumentistas e apoio aos brincantes. Ainda assim, reclamava dos atrasos no repasse, preocupado em manter as vestimentas e músicos que completavam a beleza do Guerreiro.
Nos últimos anos de vida, enfrentou problemas de saúde, o que levou à suspensão temporária dos ensaios do Treme-Terra em 2014. Mesmo debilitado, continuou participando de eventos, como exposições de chapéus de Guerreiro, sempre atento à importância de transmitir seu saber. Em abril de 2016, aos 79 anos, faleceu no Hospital Geral do Estado, vítima de complicações de uma hemorragia causada pela Chikungunya. O velório e sepultamento ocorreram em Murici, interior de Alagoas, cercados por familiares, amigos e brincantes.
A memória de Benon permanece viva entre aqueles que partilharam sua jornada. Para Marlene, que brincou no grupo, “ele tinha a sede dele, muito bem organizada lá na Chã de Bebedouro. Ele era uma ótima pessoa, muito atencioso com todos os trabalhos que ele tinha no Guerreiro dele, e muita gente brincava. Era muito legal porque a gente brincava na Praça Lucena Maranhão, era muito bom nessa época, principalmente no mês do folclore e nos finais de ano”.





Já Maria Dalva, também brincante do Treme-Terra, recorda os tempos de apresentações. “Quando ele precisava a gente ia brincar, eu era figura do Guerreiro. Nessa época não tinha carro fácil pra levar a gente, então nós íamos e voltávamos de ônibus até a Chã de Bebedouro. A vida era essa, a gente se apresentava na Praça Lucena Maranhão”.
Após sua partida, o filho, Cícero Pinto da Silva, o Mestre Peitika, assumiu o compromisso de manter vivo o legado paterno. “Meu pai sempre falava pra mim: ‘Meu filho, qualquer dia que eu for embora, que Deus me levar, você vai tomar conta do meu Guerreiro’. E eu dizia que meu negócio era forró… mas fui sentindo que precisava colocar o Guerreiro pra frente. E o Guerreiro continua o mesmo, o Treme-Terra, só mudou de mestre Benon para mestre Peitika”.
Mestra Vânia, parceira na continuidade do trabalho, relata: “Quando Mestre Peitika falou que ia voltar com o Guerreiro do pai, me enchi de alegria porque é uma coisa que vem de dentro da gente. Disse a ele que o que precisasse da minha parte, da minha contribuição, eu faria. Consegui um espaço no Teatro Deodoro e dividi o horário, uma hora e meia para cada, eu ensaio com o Pastoril e as Marisqueiras, e ele com o Treme-Terra”.

Legenda para #CEGOVER | Na imagem, o Mestre Benon aparece de pé em um ambiente simples, com prateleiras de metal ao fundo. Ele usa uma camisa marrom clara e na cabeça carrega um grande e colorido chapéu de guerreiro. O chapéu é todo ornamentado com fitas, espelhos e materiais brilhantes em várias cores, entre elas dourado, vermelho, verde, azul e prateado, formando uma estrutura alta e imponente. Atrás dele há prateleiras com outras peças igualmente ornamentadas, como coroas, torres e chapéus menores, todos decorados com fitas e miçangas. O ambiente transmite a atmosfera de um ateliê artesanal onde o mestre cria e guarda suas obras.
Benon também foi personagem de documentários e registros importantes, entre eles o filme“Mestre Benon: O Treme Terra”, de 2006, dirigido por Nicolle Freire e Celso Brandão. Sua figura permanece na lembrança dos que o conheceram como um homem de riso largo, firmeza na condução do folguedo e enorme carinho pelos seus brincantes.
Mais que um mestre, Benon foi guardião de um pedaço essencial da alma alagoana. Seu Guerreiro, com sua força e alegria, segue ecoando, lembrando que a tradição vive quando encontra mãos dispostas a moldá-la, preservá-la e reinventá-la.
Galeria de Imagens – Entrevista
Arquivo Audiovisual
Publicações encontradas
Créditos da reportagem
Equipe de pesquisa: Iranei Barreto, Nicollas Serafim e Givaldo Kleber
Transcrição das entrevistas: Nicollas Serafim
Texto: Iranei Barreto
Identidade Visual: Joenne Mesquita
Créditos das imagens: Da intenet , Iranei Barreto, Nicollas Serafim e Asfopal/Ricardo Lêdo
*Texto em constante atualização. A proposta do projeto Entorno dos Mestres é criar um arquivo com o maior número de informações possíveis sobre os Mestres do Patrimônio Vivo de Alagoas já falecidos.
*PNAB ALAGOAS – O projeto “Entorno dos Mestres” é realizado com recursos da Política Nacional Aldir Blanc, do Governo Federal, operacionalizado pelo Governo de Alagoas, através da Secretaria de Estado da Cultura e Economia Criativa (SECULT).















