Nome: Juvenal Domingos
Conhecido como: Mestre Juvenal Domingos
Atividade reconhecida: Mestre de Guerreiro
Local e data de nascimento: São Luiz do Quitunde – 25/11/1936
Local de atuação: Maceió e municípios alagoanos
Patrimônio Vivo de Alagoas: 19/08/2010
Falecimento: 24/03/2020 (aos 84 anos)

Nascido em 25 de novembro de 1936, em São Luís do Quitunde, Juvenal era filho de trabalhadores do campo, Juvêncio Domingos dos Santos e Josefa Teotônio. Viveu uma infância marcada por perdas e deslocamentos. A mãe faleceu quando ele tinha apenas três anos e, até os sete, permaneceu sob os cuidados do pai. Mais tarde, foi morar com um tio na Usina Utinga, em Rio Largo, onde cresceu entre tarefas do engenho e apresentações de mestres consagrados como Sebastião Batista e João José. Curioso, começou a cantarolar as peças do Guerreiro alagoano ainda menino, chamando atenção pela firmeza da pisada e pela voz alta, clara e afinada.
Encontrou no Guerreiro não apenas um ofício, mas também um caminho para pertencer. O ritmo dos pandeiros, o canto, o colorido dos trajes e a energia dos folguedos foram o abrigo que a vida parecia negar. Juvenal começou como bandeirinha e, aos poucos, foi assimilando saberes transmitidos oralmente, aprendendo passos, cantos e responsabilidades que o transformariam, anos mais tarde, em referência dessa expressão popular.
“Um dia acordei e não encontrei meu tio. Ele tinha fugido por causa de uma briga, me deixando sozinho neste mundo de meu Deus. Fui morar, de favor, na casa do mestre de curral que teve pena de mim. Foi nesse tempo que comecei a dançar Guerreiro, como bandeirinha, na Fazenda Bom Jardim, com os mestres Sebastião Batista, José Losé e Joana Gajuru. Com eles aprendi muito”, confidenciou à pesquisadora Josefina Novaes.

Aos 14 anos, decidiu morar sozinho. Três anos depois, já estava casado, numa tentativa de afastar a solidão que o acompanhara desde a infância. “Tive duas mulheres com o mesmo nome, Maria José da Conceição. Foi uma grande coincidência”, disse certa vez.
Durante sua trajetória, dançou alguns anos com o Mestre José Leonildo, em Messias, e, já na condição de mestre, liderou por sete anos o Guerreiro da Usina Santa Clotilde, em Rio Largo, cidade onde fixou residência e passou a comandar o Guerreiro da terceira idade. Foi ali que conheceu sua segunda Maria José da Conceição, rainha do Guerreiro, mulher que dividiria com ele a vida, o amor e o compromisso com a cultura popular. Juntos formaram o Guerreiro São Pedro Alagoano, em Murici. Sua dança o levou de volta à Utinga, passou por Rio Largo, e o grupo acompanhou sua trajetória por diferentes cidades até se fixar no bairro Chã da Jaqueira, em Maceió. Com Maria ao seu lado, Juvenal comandou um conjunto animado, de ensaios concorridos e figurinos bem cuidados. Mais tarde, transferiu-se para o Conjunto Luiz Pedro I, onde a sede passou a reunir brincantes de várias gerações.

Liderança e generosidade
Mestre Juvenal não era apenas um cantor vigoroso; era um guia paciente, que sabia acolher quem chegava para aprender. Marlene, sua sucessora no São Pedro Alagoano, recorda o início dessa convivência. “Eu conheci Juvenal aqui no Conjunto, já com quase sessenta anos. Ele e dona Maria me convidaram para ser estrela de ouro. Depois chamou meu marido, Juvenal Argemiro, para a sanfona. Desde então, viramos uma família dentro do Guerreiro.” Emocionada, Marlene relembra o momento em que o mestre a coroou rainha do São Pedro Alagoano. “Quando dona Maria ficou doente, me disse que o Guerreiro não podia morrer. Depois, seu Juvenal falou: ‘Você vai ser a Rainha, vai ficar no lugar dela’. Fomos ao Centro, ele comprou todos os trajes. A coroação foi linda. No outro dia, ele disse: ‘Esse Guerreiro agora é seu, porque eu já não tenho mais saúde’.”
Juvenal Argemiro, sanfoneiro do grupo há décadas, relembra como tudo começou. “Ele precisava de alguém para tocar, porque o sanfoneiro antigo cobrava caro. Comprou uma sanfoninha para mim e disse: ‘Você aprende’. Em duas semanas eu já estava acompanhando o grupo.”
Sobre as viagens com Juvenal, Marlene guarda lembranças vívidas. “Aquela ida ao Piauí foi a coisa mais linda do mundo. Ficamos cinco dias com 28 pessoas. Não faltou nada. Em Alagoas, fomos para Arapiraca, Joaquim Gomes, São Luiz do Quitunde. Era só alegria.”

Legenda para #CEGOVER | Na imagem, o Mestre Juvenal Domingos aparece em meio a uma apresentação de guerreiro. Ele é um homem idoso, de pele morena e cabelos grisalhos. Usa uma camisa vermelha coberta por um colete amarelo bordado com fios dourados e pequenos enfeites. Na cabeça, carrega o chapéu típico do guerreiro, feito de tiras coloridas em tons de vermelho, verde e roxo, com fitas pendendo pelas laterais. Ele leva um apito à boca, participando ativamente da brincadeira. Ao fundo, vê-se parte de outro brincante vestindo roupa rosa e segurando um instrumento musical.
O mestre deixava uma marca profunda naqueles que conviviam com ele. “Ele não era exigente. A única coisa que pedia era que todo mundo cantasse. A voz dele era linda e limpa”, diz Marlene. “Ele era muito paciente e tinha um jeito simples. Sempre dizia que o Guerreiro precisava de união. A gente aprendeu a brincar, mas também a respeitar”, completa Juvenal Argemiro.
Devoto de Padre Cícero, Mestre Juvenal, com seu jeito afável, conduziu o São Pedro Alagoano por palcos de Alagoas e de outros estados. O grupo se apresentou em Brasília, Salvador, Piauí e Pernambuco, sempre levando a riqueza das peças e o brilho dos chapéus coloridos. Sob sua liderança, a dança manteve viva a tradição dos personagens estrela de ouro, índio Peri, boi, Joana Baia e lira, adaptando o enredo ao tempo disponível, mas sem perder a essência.
Reconhecimento
O trabalho de Juvenal ultrapassou fronteiras locais. Em 2006, integrou a comitiva de 20 mestres da cultura popular de Alagoas que viajaram a Brasília para participar do Plano Nacional de Cultura Popular. No ano seguinte, seu Guerreiro foi contemplado com o Prêmio de Culturas Populares Mestre Duda – 100 Anos de Frevo, concedido pelo Ministério da Cultura. Em 2008, representou o estado no Encontro Nacional de Folclore, em Juazeiro do Norte, Ceará, ampliando o alcance de sua arte e reforçando o valor do Guerreiro como patrimônio imaterial. Em 2010, aos 73 anos, foi inscrito no Livro de Registro como Patrimônio Vivo do Estado de Alagoas, em reconhecimento a uma vida inteira dedicada ao folguedo.
“Não lembro muito bem da data exata em que ele foi reconhecido como mestre do Patrimônio Vivo, mas nessa época eu já brincava no Guerreiro dele. Até no dia em que ele foi receber o título, eu estava lá com dona Maria e com ele. Lembro que tinha muita gente. Também recordo que, depois disso, ele conseguiu investir mais no grupo, tanto em roupas quanto em sapatos. Além disso, teve outro prêmio que ele ganhou após uma viagem. Ele e outros mestres receberam, parece, 10 mil reais cada um, e ele investiu muito no Guerreiro”, relembra Marlene.


Apesar das conquistas, Juvenal não escondia a dor que o acompanhou após a morte de sua companheira, no fim de 2009. “Tudo isso foi importante e muito bonito, se não fosse a tristeza e a saudade que tenho com a partida da minha Maria, meu grande amor.” Essa perda marcou sua vida pessoal, mas não apagou o brilho de sua dedicação à cultura.
Depois da partida de Maria, Juvenal seguiu à frente do grupo até que a saúde já não permitiu. Antes de morrer, confiou a Marlene a missão de continuar o Guerreiro, gesto que ela abraçou com coragem, mesmo diante das dificuldades para manter roupas, chapéus e ensaios em ordem. Hoje, ela preserva, no guarda-roupa do grupo, o chapéu original do mestre, guardado como relíquia. “O que ele me deixou foi perseverança”, resume Marlene. “Eu sempre digo que, enquanto eu tiver forças, o São Pedro Alagoano não vai parar.”


Juvenal Domingos faleceu em setembro de 2020, aos 84 anos, após complicações de saúde. No velório restrito, em tempos de pandemia, a emoção dos familiares e amigos confirmava o quanto sua presença marcou gerações. Ele deixou uma herança que ultrapassa músicas e cordões, deixou o exemplo de que o Guerreiro é mais que espetáculo: é cultura, disciplina, alegria e memória. Como lembrou a própria Marlene: “Eu não sei se era porque a gente já estava acostumada com mestre Juvenal, mas até quando a gente via os vídeos dele cantando, a gente já dançava sem querer. Era muito bonito. Tanto a voz quanto o jeito dele, a paciência, muito simpático. Era muito legal seu Juvenal, não o esqueço de jeito nenhum. Até hoje eu sempre puxo um pouquinho do jeito que ele era, nunca esqueço, não, da maneira como ele conduzia o Guerreiro.”
Galeria de Imagens – Entrevista
Arquivo Audiovisual
Publicações encontradas
Créditos da reportagem
Equipe de pesquisa: Iranei Barreto, Nicollas Serafim e Givaldo Kleber
Transcrição das entrevistas: Nicollas Serafim
Texto: Iranei Barreto
Identidade Visual: Joenne Mesquita
Créditos das imagens: Iranei Barreto, Nicollas Serafim, Asfopal/ Ailton Cruz, Acervo da família de Mestre Djalma
*Texto em constante atualização. A proposta do projeto Entorno dos Mestres é criar um arquivo com o maior número de informações possíveis sobre os Mestres do Patrimônio Vivo de Alagoas já falecidos.
*PNAB ALAGOAS – O projeto “Entorno dos Mestres” é realizado com recursos da Política Nacional Aldir Blanc, do Governo Federal, operacionalizado pelo Governo de Alagoas, através da Secretaria de Estado da Cultura e Economia Criativa (SECULT).







