Mestra Vitória:  A Índia Peri do Guerreiro Leão Devorador


Nome: Maria Vitória da Silva

Conhecido como: Mestra Vitória

Atividade reconhecida: Brincante de Guerreiro

Local e data de nascimento: Viçosa – 02/11/1938

Local de atuação: Maceió

Patrimônio Vivo de Alagoas: 13/04/2007

Falecimento: 09/12/2008 (Aos 71 anos)

Foto: Celso Brandão/ Acervo de Gustavo Quintella

Imponente no palco, mesmo com sua estatura franzina, Maria Vitória da Silva transformava cada apresentação em um espetáculo de força e beleza. Foi a única mulher em Alagoas a interpretar o Índio Peri, papel central na ópera popular do Guerreiro, e fez do grupo Leão Devorador, fundado por ela na Chã da Jaqueira, um marco da cultura popular alagoana.

Desde os oito anos de idade começou a dançar Guerreiro ao lado dos familiares. Nascida em Viçosa, no dia 2 de novembro de 1938, era filha de Jacinto Marques da Silva e de Maria Francisca dos Santos. Quando se mudou para Maceió, no bairro da Chã da Jaqueira, integrou o Guerreiro Vencedor Alagoano, coordenado por José Tenório, onde conviveu com o mestre Juvenal Leonardo. Foi nesse ambiente que conheceu a Rainha Maria Flor, com quem construiu uma amizade que atravessou toda a vida.

Mestra Vitória ao lado do Mestre Djalma. Foto: Acervo da família do Mestre Djalma
Foto: Da internet

Com o incentivo do compadre e amigo mestre Djalma de Oliveira, fundou o Guerreiro Leão Devorador, grupo que se tornaria um marco da cultura popular alagoana. Vitória também foi pioneira, sendo única mulher em Alagoas a interpretar o Índio Peri, uma das figuras centrais e mais fortes do Guerreiro. “Dançar de Índio Peri é muito importante, é uma figura muito forte e muito animada, além do traje que é muito bonito. É uma parte de drama do Guerreiro”, dizia com orgulho.

O início, no entanto, foi desafiador. “Sempre foi muito difícil manter o grupo. Os ensaios eram na calçada, aproveitando a luz do poste. A pouca ajuda, quando vinha, era por parte do professor Ranilson, através da Asfopal, mas ele também não tinha muito apoio”, recordava a mestra. Mesmo diante dos obstáculos, o Leão Devorador cresceu e ganhou reconhecimento, chegando a se apresentar em Salvador, Recife, Fortaleza, São Paulo e em várias cidades do interior de Alagoas.

Vitória também percorreu o país no projeto “Sonora Brasil”, do Sesc, ao lado do mestre Verdelinho. Foram quarenta dias de apresentações do Sul ao Norte do Brasil, experiência que lhe permitiu, com o cachê recebido, reformar sua casa na Chã da Jaqueira. Mestra Vitória integrou o Grupo “A Parte”, que desenvolvia um trabalho de divulgação e pesquisa do Guerreiro alagoano e contava com estudiosos e folcloristas como Catarina Labouré, Telma César, além do Mestre Verdelinho.

Foto: Da internet
Foto: Acervo da Asfopal
Reunião da Asfopal. Foto: Acervo da Asfopal

Em 2007, seu nome foi inscrito no Registro do Patrimônio Vivo de Alagoas. No ano seguinte, a conquista de uma sede própria, graças ao Prêmio Culturas Populares Humberto Maracanã, foi motivo de profunda alegria. “A inauguração dessa sede me fez muito feliz, foi o dia mais alegre da minha vida, já posso morrer em paz”. Poucos meses depois, em 9 de dezembro de 2008, Mestra Vitória faleceu, vítima de complicações de saúde, deixando o Guerreiro aos cuidados da filha Anadeje Morais.

A sua trajetória deixou marcas não apenas na história do Guerreiro, mas também na memória afetiva de quem esteve ao seu lado. A brincante Solange Leite, que conviveu de perto com Vitória, lembra com emoção do tempo em que dançou no grupo. “Eu passei muito tempo dançando no Guerreiro da dona Vitória. A gente sempre ensaiava aos sábados e no domingo já se apresentava, até mesmo aqui na Chã da Jaqueira. Era muita gente naquele tempo, muitas figuras, era muito bom, aproveitei tanto aqueles momentos. Fomos até para Fortaleza com o grupo dela. Era muito animado, muita gente chegava para olhar o Guerreiro dançando. Todo mundo aplaudia, achava bonito. Eu não perdia um. Praticamente, a cultura do Guerreiro aqui acabou”, lamenta”.

Carlos Alberto, neto da mestra, também guarda lembranças carregadas de afeto. “A convivência com ela era maravilhosa, minha vó era tudo pra mim. O único neto que ela confiava era eu, e me levava para todo canto. Ela foi quem me incentivou a começar a brincar como caboclinho porque eu era pequeno, mas eu queria ser embaixador só que o chapéu era muito grande para mim na época. Aí passei para vassalo, depois embaixador e entremeio, que são os figurantes (boi, zabelê, lobisomem).

Ele recorda também os momentos animados do Leão Devorador. “Quando ela estava viva, lá na Chã da Jaqueira, era muito movimentado. Nos apresentávamos na sede, em frente às igrejas, sempre com muita gente, e era maravilhoso. Viajávamos bastante, de dezembro a janeiro, durante as festas de Natal, e fomos para várias cidades do interior. Ela mantinha o Guerreiro com o salário mínimo que ganhava, comprava fitas e adereços. Os chapéus foram feitos primeiro pelo meu avô, e depois o mestre Jaime passou a confeccioná-los. ”

Foto: Acervo Asfopal/Ricardo Lêdo

Para Carlos, o brilho da avó era inconfundível. “Era maravilhoso vê-la se apresentando, tem coisas que eu não sei explicar direito, fico até emocionado. Minha vó era muito sorridente, só vivia rindo. Em vida ela foi muito respeitada, em todo canto que chegava o pessoal abraçava, tirava foto com ela”.

Mestra Vitória deixou um legado de força, garra e resistência. Sua figura permanece viva na memória coletiva, seja nas coreografias do Leão Devorador, nas histórias contadas pelos que dançaram ao seu lado ou no orgulho transmitido aos descendentes. Mais que uma mestra, foi guardiã de uma tradição que encantou gerações e que segue sendo inspiração para a cultura popular alagoana.


Galeria de Imagens – Entrevista


Arquivo Audiovisual


Publicações encontradas

Mestra Vitória recebe homenagem póstuma neste sábado
https://noticias.ufal.br/ufal/noticias/2009/03/mestra-vitoria-recebe-homenagem-postuma-neste-sabado
O Leão Devorador
https://www.alagoas24horas.com.br/625905/o-leao-devorador/
Morre mestra do folclore alagoano
https://www.alagoas24horas.com.br/786441/morre-mestra-do-folclore-alagoano/amp/
Maria Vitória (falecida)
https://secult.al.gov.br/noticia/241-fotos/uncategorised/outra-categorias/politicas-e-acoes/mapeamento-cultural/cultura-afro-brasileira/comunidades-quilombolas/certificados-em-2007/591-maria-vitoria-falecida
NOVAES, Josefina Maria Medeiros. ASFOPAL – Associação de Folguedos Populares de Alagoas – 25 Anos Brincando Sério. Maceió: Gráfica do Estado/CEPAL, 2010. Pag 96

Créditos da reportagem

Equipe de pesquisa:  Iranei Barreto e Nicollas Serafim

Transcrição das entrevistas: Nicollas Serafim

Texto: Iranei Barreto

Identidade Visual: Joenne Mesquita

Créditos das imagens: Iranei Barreto, Nicollas Serafim , Acervo da Família, Asfopal/ Ricardo Lêdo


*Texto em constante atualização. A proposta do projeto Entorno dos Mestres é criar um arquivo com o maior número de informações possíveis sobre os Mestres do Patrimônio Vivo de Alagoas já falecidos.

 *PNAB ALAGOAS – O projeto “Entorno dos Mestres” é realizado com recursos da Política Nacional Aldir Blanc, do Governo Federal, operacionalizado pelo Governo de Alagoas, através da Secretaria de Estado da Cultura e Economia Criativa (SECULT). 

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