Nome: Severino João da Silva
Conhecido como: Mestre Jaçanã
Atividade reconhecida: Embolador
Local e Data de Nascimento – Panelas (PE) – 20/01/1958
Local de Atuação: Maceió
Patrimônio Vivo de Alagoas: 03 /08/ 2011
Falecimento: 28/04/2020 (Aos 62 anos)

Severino João da Silva, o Mestre Jaçanã, nasceu no sítio Brejinho, em Panelas, Pernambuco. A música fez parte de sua vida desde a infância, marcada pelo ambiente familiar de tradição musical. O avô tocava viola, o pai dominava o harmônico, e foi cercado por essa atmosfera que o pequeno Severino começou cedo a acompanhar os irmãos nas festas da região. Aos sete anos já se arriscava no forró, tocando pandeiro em aniversários, casamentos e celebrações nos sítios.
Foi aos doze anos que sua trajetória tomou novo rumo. Inspirado por cantadores como Zé Vieira, de Cupira, e atento às emboladas que ecoavam nas feiras onde o pai vendia caldo de cana, Jaçanã descobriu seu verdadeiro destino. Encantado com as disputas de improviso, passou a frequentar as rodas e, ainda estudante, começou a cantar embolada. “Meu pai vendia caldo de cana na feira e lá os cantadores faziam aquelas emboladas na feira e eu saia do estabelecimento e ia ver a rodada, prestava atenção de como era a coisa. Eu já tinha uma prática boa no bandeiro e no repente, mas no início, com as rimas foi difícil”, recordava o mestre. Mas o talento, a dedicação e a prática com o pandeiro fizeram dele um cantador nato.
Aos vinte anos, já profissionalizado, começou a viajar pelo Brasil, levando sua voz e o pandeiro para praças, feiras, festas religiosas e políticas. Desde 1998 tornou-se presença constante em festivais de repentistas e emboladores, como o Festival de Repentistas e Emboladores de Brasília, onde todos os anos marcava presença.

Legenda para #CEGOVER | Na foto, três artistas estão no palco, cada um diante de um microfone. À esquerda, um homem veste camiseta clara, calça jeans e chapéu de palha, batendo palmas. No centro está o mestre Jaçanã, com camisa amarela, calça branca e óculos escuros, tocando um pandeiro. À direita, outro artista usa camiseta clara, calça jeans e chapéu de palha, segurando um instrumento pequeno. O fundo do palco é escuro, com peças de tecido estampado colorido penduradas, e a iluminação destaca os músicos.
As andanças levaram Jaçanã por outras regiões de Pernambuco, Sergipe, Brasília e São Paulo, mas foi em Maceió que encontrou sua morada definitiva. Foi na capital alagoana que fez amigos, criou raízes e consolidou sua arte. A decisão de se fixar no estado aconteceu quando foi contratado para tocar na campanha política de Suruagi e Guilherme Palmeira, experiência que marcou sua ligação definitiva com a terra que adotaria como lar. “Gosto demais desse lugar e tenho muitas histórias para contar de Alagoas. Minha vida artística se iniciou em Pernambuco, mas vai acabar em Alagoas”, comentava.
A vida, no entanto, nem sempre foi fácil. Ao chegar em Maceió, muitas vezes não tinha dinheiro para hotel e passava a noite na rodoviária. Também enfrentava os desafios de uma miopia degenerativa que, ao longo do tempo, comprometeu fortemente sua visão. Apesar disso, não abandonou a música e fez dela sua força. “Mesmo se eu não cantar mais na rua, nas festas, continuo cantando em casa. Enquanto Deus me permitir e tiver voz e esse pouco de visão, vou continuar cantando e tocando. Meu pandeiro e eu somos uma dupla inseparável”, repetia com orgulho.
Reconhecimento
Em 2011, aos 53 anos, Jaçanã foi inscrito no livro de Registro como Patrimônio Vivo de Alagoas, ao lado dos amigos Jorge Calheiros e João de Lima. O título reconheceu mais de quatro décadas de dedicação à embolada, ao repente e ao pandeiro. A vitória veio, segundo ele, para coroar tantos anos de dedicação. “Sei que fui contemplado porque mereci, por todo o tempo dedicado à minha arte”, disse em reportagem.

A honraria recebida por Jaçanã também foi consequência do seu compromisso em transmitir conhecimento. Ele ensinou gerações de jovens, compartilhando não apenas música, mas também rima, ritmo e entonação de voz. “Já ensinei jovenzinhos ainda com voz fina; eu até tinha que afinar minha própria voz para acompanhá-los. Hoje, todos estão crescidos, são pais de família e profissionais”, recordava com satisfação. Além de ser mestre nas praças e escolas, gravou três CDs e levou sua arte a diversas cidades de Alagoas e de outros estados do Brasil.
A relação com Alagoas foi de amor profundo. Foi aqui que, além de construir vida pessoal e profissional, se tornou figura marcante em espaços culturais. Em 2017, na 7ª Bienal Internacional do Livro de Alagoas, dividiu o palco com outros patrimônios vivos, como Zeza do Coco e Jorge Calheiros, levando a embolada a novos públicos.
O Adeus e a Permanência do Canto de Jaçanã
Durante a pandemia, a notícia de sua morte, após complicações de uma cirurgia em Recife, chegou aos amigos por meio de um de seus filhos. A despedida foi sentida em Alagoas, terra que ele adotou como lar e onde deixou fortes raízes culturais.
Quem conviveu com ele guarda lembranças de generosidade, talento e parceria. “Eu conheci Jaçanã na praia, antes dele ser Patrimônio Vivo, porque ele ia sempre cantar lá com a viola ou com o pandeiro pra ganhar o dinheiro dele. Fizemos um show juntos chamado Juntos e Misturados, com cinco poetas, e conseguimos encher o Teatro Deodoro. Ele também me ajudou num projeto em escola, ensinando cordel e embolada para alunos carentes. Era muito dedicado. Até me incentivou a escrever uma poesia chamada “Amor Eterno”, em homenagem à minha esposa que faleceu. Eu agradeço muito a Jaçanã, que era um repentista fantástico, rimava muito bem, fosse no pandeiro ou na viola”, declara Jorge Calheiros.




O violeiro João de Lima também recorda a amizade e a admiração que nutria pelo mestre. “Conheci Jaçanã em Maceió, cantando na Rua do Comércio com o Canarinho de Anadia. Era um grande embolador, que mais tarde passou a se apresentar também como violeiro. ” Ele conta que, sempre que surgia uma oportunidade, fazia questão de levá-lo para novos palcos.
“Gostava dele, era elegante e merecedor do título de mestre. Já nos apresentamos no mesmo evento, mas não juntos, porque o ritmo dele era diferente do meu. O Gonzalo Gonçalves Bezerra, natural do Ceará, fundou em Brasília o Palácio da Poesia, a Casa do Cantador. Um prédio lindíssimo, e a inauguração também foi maravilhosa. Lá aconteciam festivais incríveis. Certa vez, ele me pediu uma indicação de dupla de embolada, e eu levei Jaçanã e Azulão. Eles cantaram comigo e foi simplesmente maravilhoso. Em Sergipe, também o levei para se apresentar na Festa do Vaqueiro, em Carmópolis, e em algumas rádios de Aracaju. Aqui em Viçosa, quando Deda era prefeito, também cantou bastante. Jaçanã se apresentou muito com Salú, um galegão que usava chapéu, e com vários outros cantadores do Nordeste”, recorda.
O Mestre Jaçanã partiu, mas seu legado segue ecoando nas praças, escolas e palcos que acolheram seu canto. Sua vida foi exemplo de perseverança, simplicidade e entrega à arte. Entre Pernambuco e Alagoas, entre a viola, o repente e o pandeiro, Jaçanã construiu uma trajetória que honra a cultura popular nordestina e mantém viva a tradição da embolada para as novas gerações.
Galeria de Imagens – Entrevista
Arquivo Audiovisual
Publicações encontradas
Créditos da reportagem
Equipe de pesquisa: Iranei Barreto, Nicollas Serafim, Givaldo Kleber
Transcrição das entrevistas: Nicollas Serafim
Texto: Iranei Barreto
Identidade Visual: Joenne Mesquita
Créditos das imagens: Iranei Barreto, Nicollas Serafim e Da internet
*Texto em constante atualização. A proposta do projeto Entorno dos Mestres é criar um arquivo com o maior número de informações possíveis sobre os Mestres do Patrimônio Vivo de Alagoas já falecidos.
*PNAB ALAGOAS – O projeto “Entorno dos Mestres” é realizado com recursos da Política Nacional Aldir Blanc, do Governo Federal, operacionalizado pelo Governo de Alagoas, através da Secretaria de Estado da Cultura e Economia Criativa (SECULT).











