Nome: Artur Moraes dos Santos
Conhecido como: Mestre Artur Moraes
Atividade reconhecida: Mestre de Guerreiro
Local e data de nascimento: Fernão Velho, Maceió – 08/10/1925
Localização: Região Metropolitana de Maceió
Patrimônio Vivo: 03/08/2011
Falecimento: 18/05/2020 (Aos 95 anos)

A voz, que um dia entoou versos com força e paixão, permanece apenas nas lembranças daqueles que acompanharam sua trajetória. Mestre Artur Moraes dos Santos atuou por mais de 70 anos no Guerreiro alagoano. Ele preservou com rigor a tradição, transmitindo saberes a amigos, alunos e pesquisadores.
Nascido em 8 de outubro de 1925, em Fernão Velho, filho de Manuel Morais e de Antônia Francisca da Conceição, passou parte da infância em Satuba, onde ajudava nas olarias produzindo tijolos e telhas. Desde menino demonstrou fascínio pelas festas que movimentavam os bairros de Maceió. Cícero Farias, ex-presidente da Asfopal, recorda que ele dizia ter se apaixonado pelo Guerreiro quando via os mestres chegando às ruas de Fernão Velho ou Bebedouro, animando o povo com cores e cantorias.
O primeiro contato com a brincadeira veio aos dez anos, no grupo de Manoel Vicente, no antigo povoado Carrapato, atual Rio Novo. Começou como bandeirinha e depois atuou como embaixador, aprendendo com veteranos como Manoel Lourenço, João Inácio, Jorge Ferreira, Artur Bozó e Alfredo. Também no Pilar e em Maribondo teve o aprendizado decisivo, ao lado de Joana Gajuru e de mestre Laurentino, que o incentivaram a assumir o comando de um grupo. Mais tarde mudou-se para Maceió, passando pelos bairros Ponta Grossa e Clima Bom, até firmar morada na Chã da Jaqueira. Ali, junto de Pedro Lins, ajudou a consolidar o Guerreiro Santa Isabel, onde seu nome se tornaria referência.

Legenda para #CEGOVER | Homem idoso, de pele negra, cabelos grisalhos curtos e óculos, sorri levemente enquanto segura com orgulho um chapéu de Guerreiro em formato de igreja, todo ornamentado com miçangas, pedrinhas brilhantes e enfeites multicoloridos. Ele veste o traje típico de mestre de Guerreiro, em cores vibrantes de amarelo, verde e vermelho. Ao fundo, a parede clara exibe imagens religiosas e pequenos ornamentos pendurados. O homem é Mestre Artur de Moraes, guardião de tradições populares.
Comprometido e exigente, mestre Artur percorria léguas a pé para apresentar o grupo em povoados e cidades, quando não conseguia uma carona em caminhões ou tratores. “Ele era muito sério e competente no seu Guerreiro”, recorda Cícero Farias, destacando o timbre potente, a pisada firme e a capacidade de mestrar por mais de uma hora sem perder o fôlego. Os trajes, bordados com espelhos, lantejoulas e miçangas, sempre lhe mereceram cuidado especial, pois acreditava que a beleza da indumentária era parte do respeito à tradição.
Josefina, que também presidiu a Asfopal, destaca as inúmeras qualidades artísticas de seu trabalho. Para ela, Artur tinha um talento raro, com uma voz “divina” que preenchia cada peça do Guerreiro Santa Isabel. Mesmo analfabeto, criava versos e coreografias elaboradas, revelando inteligência e sensibilidade. Mais tarde enfrentou o drama de um câncer de garganta, que quase lhe retirou a fala. “Era uma pessoa de uma inteligência, apesar de não saber escrever o próprio nome, mas fazia peças encantadoras”, lembra Josefina.

O músico e pesquisador Gustavo Quintella também traz lembranças afetivas. Conheceu-o no fim dos anos 1990, quando o Professor Ranilson França reunia mestres na Secretaria de Cultura, na Rua Pedro Monteiro. Ali, impressionou-se com a precisão melódica de Artur, que, a pedido, cantou um maracatu. A partir daí, passaram a se encontrar para gravações. Gustavo guarda fitas e registros raros, incluindo um vídeo feito no dia em que o levou ao hospital para tratar um câncer no pulmão. Mesmo debilitado, Artur entoou uma cantiga antiga sobre um bicho das canas, demonstrando a coragem de quem não se afastava de sua arte. “Era uma pessoa muito bacana, dessas que são especiais”, afirma o pesquisador.
Reconhecimento
Ao longo de mais de sete décadas, Artur brincou em vários grupos, mas foi no Guerreiro Santa Isabel que recebeu o título de Patrimônio Vivo de Alagoas, em 2011. A honraria consagrou uma vida dedicada à preservação do folguedo, sustentada por disciplina e amor à cultura popular. Ele transmitia aos mais jovens os segredos das danças, dos toques, das músicas e do preparo das roupas, zelando para que cada detalhe permanecesse fiel ao legado dos antigos mestres.

Mesmo quando a saúde começou a fraquejar, mantinha-se presente nas rodas. Após complicações de pulmão, a voz enfraqueceu, mas a memória continuava intacta, repleta de histórias. Ele gostava de recordar o tempo em que viajava com amigos para Recife ou Fortaleza, levando o Guerreiro a outros palcos, e também se orgulhava da amizade com mestres como Juvenal Domingos. Costumava dizer que a alegria de dançar superava qualquer dificuldade.
Artur Moraes morreu aos 95 anos, no dia 18 de maio de 2020, deixando uma herança que atravessa gerações. A sua figura permanece viva no imaginário das comunidades que o viram brilhar. Nos versos resgatados, nas coreografias criadas e na disciplina ensinada está a marca de um verdadeiro guardião do Guerreiro alagoano, alguém que fez da brincadeira um compromisso com a memória coletiva e com a beleza de um folguedo que resiste ao tempo.
Galeria de Imagens – Entrevista
Arquivo Audiovisual
Mestre Artur de Moraes aparece neste episódio do programa Balançando o Ganzá, da TV Educativa, em homenagem a Mestra Virgínia Moraes
Publicações encontradas
| Artur Moraes https://secult.al.gov.br/politicas-e-acoes/registro-do-patrimonio-vivo/mestres-do-rpv-al-por-ano-de-premiacao/ano-2011/616-artur-moraes |
| Mestre Artur Moraes conta a história do Guerreiro das Alagoas https://aquiacontece.com.br/mestre-artur-moraes-conta-a-historia-do-guerreiro-das-alagoas/ |
| Balançando o Ganzá – 15/10/11 https://www.youtube.com/watch?v=_sIGomdDso8 |
| NOVAES, Josefina Maria Medeiros. ASFOPAL – Associação de Folguedos Populares de Alagoas – 25 Anos Brincando Sério. Maceió: Gráfica do Estado/CEPAL, 2010. Pag 44 |
Créditos da reportagem
Equipe de pesquisa: Iranei Barreto e Nicollas Serafim
Transcrição das entrevistas: Nicollas Serafim
Texto: Iranei Barreto
Identidade Visual: Joenne Mesquita
Créditos das imagens: Iranei Barreto, Nicollas Serafim e Acervo da Família
*Texto em constante atualização. A proposta do projeto Entorno dos Mestres é criar um arquivo com o maior número de informações possíveis sobre os Mestres do Patrimônio Vivo de Alagoas já falecidos.
*PNAB ALAGOAS – O projeto “Entorno dos Mestres” é realizado com recursos da Política Nacional Aldir Blanc, do Governo Federal, operacionalizado pelo Governo de Alagoas, através da Secretaria de Estado da Cultura e Economia Criativa (SECULT).









