Entre melodias e Orações: O Legado de Mestre Jota do Pife


Nome: José Felix dos Santos

Conhecido como: Jota do Pife

Local e Data de Nascimento: Crato (CE) – 06/10/1938

Atividade reconhecida: Mestre de Banda de Pífano

Local de atuação: Maceió

Patrimônio Vivo de Alagoas:  13/05/2007

Falecimento: 25/05/2011 (Aos 73 anos)

Foto: Acervo da família

José Felix dos Santos, mais conhecido como Jota do Pife, nasceu no Crato, Ceará, em 6 de outubro de 1938. Desde muito cedo, demonstrou uma afinidade singular com a música popular. Aos sete anos, ouviu uma banda de pífano liderada por outro José Felix que passava pela fazenda onde morava. Fascinado, pediu ao pai que lhe confeccionasse um instrumento.

Era meu xará. Estava passando pela fazenda onde morávamos e eu me encantei. Pedi a meu pai: “O senhor podia fazer um ‘pifinho’ pra mim”? Com dez dias, eu já estava tocando Vitalina, uma música bem conhecida na época”, contou em entrevista à jornalista Telma Elita.

Aos quinze anos, José Felix chegou a Alagoas. Embora cearense de nascimento, teve seus documentos registrados como alagoano em homenagem às raízes familiares em Murici, onde seus pais e avós nasceram. Aos dezesseis anos, passou a animar festas nas fazendas da zona rural, momento em que ganhou o apelido de “Jota do Pife”. Foi também nessa época que fundou a banda de pífano Consagrada Jesus, Maria e Todos os Santos, iniciando uma trajetória marcada pela dedicação à música e à cultura popular. A banda era formada por pessoas da comunidade, pessoas próximas a ele.

Maria das Graças recorda com emoção os primeiros passos do pai na música. “Teve uma infância muito humilde, começou a tocar aos sete anos e fazia com maestria, era um dom mesmo. Ele era trabalhador rural, mas se aparecesse uma tocada, ele largava tudo. Depois que ele chegou a Maceió, começou a tocar em alguns lugares. Ele amava tanto o que fazia que sequer cobrava. Quando tocava, as pessoas davam o que quisessem dar, e se não dessem, ele também não cobrava. Era algo da alma dele mesmo.”

Foto: Acervo da família

Mestre Jota do Pife aprendeu sozinho não apenas a tocar, mas também a confeccionar seus instrumentos. Ele criava pífanos de PVC, metal, taquara e taboca, além de construir toda a percussão da banda incluindo prato, caixa e zabumba de maneira artesanal.

Insatisfeito com os limites da apresentação convencional, criou uma engenhoca que permitia tocar todos os instrumentos simultaneamente, como uma bateria completa, enquanto conduzia a melodia do pífano. “Até os instrumentos da banda foram todos criada por ele, e depois, não satisfeito, ele ainda fez uma engenhoca que tocava sozinho tudo isso, como se fosse uma bateria, ” lembra Maria das Graças.

Devoção

Mestre Jota do Pife era querido por muitos, entre eles inúmeros afilhados. Foi casado com Maria José da Conceição, com quem teve 16 filhos, oito homens e oito mulheres. Metade faleceu ainda na infância, mas os que sobreviveram lhe deram grande alegria. “Tivemos 16 filhos, só que oito faleceram. E assim a gente foi vivendo, ele ia para todo canto pra tocar, às vezes passava oito dias fora”, recorda Maria José.

Foto: Acervo da Família
Foto: Acervo da Família
Foto: Acervo da Família
Foto: Acervo da Família
Foto: Acervo da Família

A fé permeava sua vida. Profundamente religioso, mantinha em casa uma parede dedicada aos santos e guardava objetos sagrados. Todos os anos viajava com a engenhoca para Juazeiro do Norte, no Ceará, participando das romarias e unindo música e devoção. “Essa minha banda é leve. Faço questão de levar comigo e tocar entre as orações”, dizia ele.

Maria José também lembra as idas ao Juazeiro. “Quando voltávamos, ele se encontrava com os amigos e ainda tocava de novo. Toda vida ele tocou pífano, desde pequeno. O pai dele também tocava e ele aprendeu. Eu apoiava sim, achava bonito. Até hoje, quando vejo uma banda de pífano tocando, parece que estou vendo ele.”

Reconhecimento

Ao chegar em Maceió, Jota do Pife fez amizade com o médico, instrumentista e pesquisador da cultura popular Dr. Gustavo Quintella, e passou a ser mais conhecido. Mais tarde, foi apresentado ao professor Ranilson França e à equipe da Secretaria Estadual de Cultura. “Daí então ele começou a ser valorizado enquanto músico mesmo. Acho que nem ele mesmo tinha noção da grandiosidade que ele era, dentro da arte que ele fazia”, afirma Maria das Graças.

Em 2007, Jota do Pife foi oficialmente selecionado para o Registro do Patrimônio Vivo de Alagoas, reconhecimento que consolidou sua importância para a cultura popular do estado.

Depois que ele foi reconhecido como Patrimônio Vivo, a gente passou realmente a entender o quão valioso era o talento dele. Ele se sentiu muito mais reconhecido e valorizado. O maior legado que ele deixou foi a perseverança, ser feliz com o seu maior dom, lutar pelo que acredita, mesmo que ninguém mais acredite”, comenta Maria das Graças. A esposa recorda a emoção daquele momento. “Ele ficou feliz demais quando foi reconhecido Patrimônio Vivo, pena que depois de pouco tempo ele morreu.”

Maria das Graças, filha de Jota do Pife
Foto: Acervo da família
Foto: Nicollas Serafim
Foto: Nicollas Serafim
Foto: Nicollas Serafim

Maria das Graças lembra ainda que Jota do Pife chegou a ir para Brasília e voltou radiante, sentindo-se reconhecido pelo talento. Recorda também um evento promovido pelo governo, na gestão de Teotônio Vilela, em que um japonês se encantou com sua arte e chegou a lhe oferecer dinheiro. “Na entrega do certificado de Patrimônio Vivo, ele estava muito feliz, especialmente porque havia acabado de conquistar o BPC como trabalhador rural”, conta. Segundo ela, tanto a bolsa quanto o benefício trouxeram um impacto muito positivo em sua qualidade de vida. Embora esse reconhecimento não tenha ampliado sua visibilidade, manteve o prestígio junto às pessoas que já o conheciam, num tempo em que não havia tanta exposição como hoje.

Mesmo nos últimos anos de vida, Jota do Pife manteve o vigor e a criatividade, tocando o pífano enquanto conduzia, ao mesmo tempo, todos os instrumentos da engenhoca.

“Gostaria que meu pai fosse lembrado como músico mesmo, como alguém que se doou pela cultura. Ele era apaixonado pelo pífano e ensinava com alegria. Hoje, as pessoas focam muito no ‘ter’, e meu pai era o ‘ser’. Ele era muito feliz com o que ele era e com a forma como ele era.”

Continuidade

Além de músico, Jota do Pife também atuava como carpinteiro e agricultor. E Sempre que tinha oportunidade, compartilhava seus conhecimentos com a comunidade do Poço Azul, ensinando moradores a tocar e a construir o pífano. “Era algo da alma dele mesmo. Infelizmente dos 8 filhos dele, nenhum desenvolveu o dom. Com certeza ele ficaria muito feliz se algum deles tivesse desenvolvido o dom pela música. Ele até incentivava, mas dom é algo que a pessoa já nasce”, comenta Maria das Graças.

Foto: Acervo da família

A banda de pífanos dele era formada por pessoas da comunidade e não tinha uma formação certa, sendo sempre quem estava disponível para aquele evento ou aquele momento. “Meus irmãos tocavam, mas faziam mais para agradá-lo do que por vontade própria e dom. Meu pai percebia muito isso. ”

Jota do Pife faleceu em 25 de maio de 2011, aos 73 anos, mas seu legado permanece vivo. Dedicou a vida à música, à educação e à preservação da tradição do pífano, ajudando a perpetuar a cultura popular de Alagoas e do Nordeste.


Galeria de Imagens – Entrevista


Arquivo Audiovisual


Publicações encontradas

Jota do Pife
https://secult.al.gov.br/politicas-e-acoes/registro-do-patrimonio-vivo/mestres-do-rpv-al-por-ano-de-premiacao/ano-2007/590-jota-do-pife-falecido
Jota do Pife (José Felício da Silva)
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Uma análise do Registro do Patrimônio Vivo de Alagoas1
chrome-extension://efaidnbmnnnibpcajpcglclefindmkaj/https://www.repositorio.ufal.br/bitstream/riufal/1400/1/Entre%20tramas%20e%20rendas%20a%20constru%C3%A7%C3%A3o%20de%20uma%20agenda%20pol%C3%ADtica%20para%20o%20artesanato%20e%20a%20economia.pdf
Folclore alagoano: folguedos e danças
https://wp.historiadealagoas.com.br/folclore-alagoano-folguedos-e-dancas.html
 
Jota do Pife
https://www.flickr.com/photos/45151614@N07/
A historiografia musical brasileira como  suporte para pensar a musicologia  na contemporaneidade
chrome-extension://efaidnbmnnnibpcajpcglclefindmkaj/https://abmus.net.br/uploads/midias/1722133379_midia.pdf
 

Créditos da reportagem

Equipe de pesquisa:  Iranei Barreto, Nicollas Serafim, Givaldo Kleber

Transcrição das entrevistas: Nicollas Serafim

Texto: Iranei Barreto

Identidade Visual: Joenne Mesquita

Créditos das imagens: Iranei Barreto, Nicollas Serafim e Acervo da Família


*Texto em constante atualização. A proposta do projeto Entorno dos Mestres é criar um arquivo com o maior número de informações possíveis sobre os Mestres do Patrimônio Vivo de Alagoas já falecidos.

 *PNAB ALAGOAS – O projeto “Entorno dos Mestres” é realizado com recursos da Política Nacional Aldir Blanc, do Governo Federal, operacionalizado pelo Governo de Alagoas, através da Secretaria de Estado da Cultura e Economia Criativa (SECULT). 

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