Rainha do Guerreiro: Brilho e Devoção de Maria Flor


Nome: Maria Flor dos Santos

Mais conhecida como: Dona Flor

Atividade reconhecida: Rainha de Guerreiro

Local e data de nascimento: Flexeiras – 02/02/1930

Local de atuação: Maceió

Patrimônio Vivo de Alagoas: 18 /08/ 2009

Falecimento: 10/12/2018 (Aos 88 anos)

Foto: Da internet

Alagoas nunca teve uma monarquia, mas teve sua rainha, Maria Flor. Colorida, adornada, vaidosa, autêntica, apaixonada e, segundo os mais próximos, muito, muito “amostrada” e linda também. Parecia uma bonequinha de tão pequena e exuberante. Nos tempos áureos do Guerreiro em Alagoas, Dona Flor, como ficou conhecida, reinou por décadas, dançando e celebrando o guerreiro alagoano.

A “Senhora dos Anéis”, outro apelido que a acompanhou, nasceu no Engenho dos Prazeres, município de Flexeiras, em 2 de fevereiro de 1930, filha de Florentino Ferreira dos Santos e Elvira Maria da Conceição. Logo nos primeiros dias de vida, tornou-se motivo de desavença entre os pais, que não conseguiam decidir seu nome. A bebê passou 15 dias sem definição, até que finalmente recebeu o nome que a marcaria para sempre, e que carregava em si a força e a beleza de sua história.

Maria Flor nasceu no dia 2 de fevereiro, e em alguns lugares se comemora o dia de Santa Maria Madalena. O pai queria que ela se chamasse Maria Madalena. A mãe permanecia em silêncio, mas depois de uns quinze dias ele sugeriu Maria dos Prazeres, porque ela nascera no Engenho Prazeres. Então a mãe se impôs e disse que não seria nem uma coisa nem outra. Ela se chamaria Maria Flor, porque o marido se chamava Florentino”, lembra a amiga Josefina Novaes.

Desde muito cedo, Maria Flor mergulhou no guerreiro, vivendo a tradição com alegria e dedicação. Começou sua trajetória aos dez anos, ainda na casa dos pais. Logo se destacou, tornando-se Estrela de Ouro, Sereia e Rainha.

Foto: Arquivo Asfopal / Neno Canuto

Quando se casou, fez uma pausa na “brincadeira”, mas o casamento durou apenas quatro anos. Em 1949, aos 19 anos, decidiu tentar a vida em Maceió trabalhando como doméstica. Fixou residência no bairro da Chã de Bebedouro, então um verdadeiro celeiro de folguedos populares. Rapidamente integrou-se ao Guerreiro do mestre Jorge Ferreira, onde dançou por dois anos e se apresentou em diversos municípios do estado.

A coisa melhor do mundo é o Guerreiro”, dizia ela. “Quando o mestre Jorge resolvia viajar, eu largava o emprego de doméstica e ia junto. Sempre sobrava um dinheirinho para comer e guardar. Conforto, nem pensar. O transporte era um caminhão, a dormida era arranchada nas casas dos outros ou nas salas das escolas, mas nunca faltava um palco para as apresentações e nada abalava a alegria de dançar Guerreiro”, contou ela em entrevista a Josefina.  O dinheiro que ela ganhava nas apresentações dava para passar uns três meses depois que ela retornava das viagens, e então ela buscava outro trabalho.

Quando o grupo do mestre Jorge Ferreira chegou ao fim, Maria Flor passou a brincar no Guerreiro do Machado. Mais tarde, foi convidada por José Tenório para ser Rainha do Guerreiro Vencedor Alagoano, mestrado por Juvenal Leonardo. “Ela deixou uma marca maravilhosa, porque ela passou 25 anos como rainha do Guerreiro Vencedor Alagoano, que tinha dois pontos fortes, o mestre Juvenal Leonardo e a Maria Flor, pela beleza que ela se apresentava, pela simpatia”, declara Josefina.

Apresentação do Guerreiro Vencedor Alagoano. Foto: Acervo da Asfopal

 Dividida entre a vida profissional, a família e a arte, Maria Flor teve um único filho, cuja perda, aos 36 anos, foi a maior tristeza de sua vida. Ele deixou três crianças, que Maria Flor fez questão de ajudar a criar.

Para Ariane Sales, bisneta de Maria Flor, sua marca mais profunda não esteve apenas no Guerreiro, mas sobretudo na família, por sua coragem e pela ousadia de proteger os seus enquanto cultivava um amor inabalável pela tradição.

 “Falar dela é emocionante e muito gratificante, porque ela foi uma mulher que sempre lutou pelo que queria, pelos seus direitos e pela cultura, por tudo em que acreditava. Teve um papel muito importante na nossa família, pois mostrava que, quando a gente quer algo, consegue. Foi uma mulher sozinha que criou o único filho, que era meu avô, ajudou a criar os netos, minha mãe e meus tios, e ainda lutou pelo que acreditava, que era o Guerreiro. Sempre foi respeitada por onde passava, tanto no bairro quanto em outros lugares, e conseguiu construir o seu nome.”

Ariane Sales, bisneta de Maria Flor

“Era uma mulher guerreira do Guerreiro”, lembra a nora Maria Augusta. “Trabalhava em casas de família, se aposentou como cozinheira, veio do interior. Morou na Chã de Bebedouro e, depois, na Chã da Jaqueira, quando conheci o filho dela e nós nos casamos. Ela era apaixonada pelo Guerreiro, sempre alegre e contente. Desde quando me casei com o filho dela, ela já dançava, e assim foi até velhinha. Só parou quando Deus a levou. Conheceu muita gente nesse meio. Quando inventava de fazer alguma coisa, ela fazia e pronto. A gente nunca foi contra. Mesmo de idade, com aquelas perninhas dela, ainda pulava e dançava. ”

Conheci Maria Flor em 1986, na Secretaria de Cultura, durante as reuniões da Asfopal, e foi amor à primeira vista”, relembra Josefina Novaes. “Ela era muito bonitinha, dava vontade de botar no braço, tão pequenininha, acho que Maria Flor tinha 1,45m por aí. O interessante é que, quando cheguei, pensei que ela e a mestra Vitória fossem irmãs, porque eram do mesmo tamanho e só andavam juntas. Dançavam no mesmo Guerreiro, moravam perto, e estavam sempre lado a lado. São muitas lembranças, quando ela chegava, eu já estava junto dela. Ela brincava dizendo que eu era mãe dela.”

Foto: Da internet

Inesquecível, dentro e fora do Guerreiro

A característica mais forte dele era a vaidade”, conta Josefina. “Altamente vaidosa, cuidada, as unhas sempre pintadas, de batom vermelho, cada dedo tinha que ter um anel, muitos colares, toda arrumadinha. Em segundo lugar vinha a limpeza. A casa era impecável e, quando a gente chegava lá, ela pedia que tirássemos os sapatos. Ninguém entrava calçado. Parecia uma casa de boneca. ” Josefina recorda também que, quando recebia o décimo terceiro, Maria Flor investia tudo no figurino. “O manto precisava ser o tecido com mais dourado. Eu sempre ia com ela às compras e andávamos bastante até encontrar algo bem reluzente. ”

Foto: Ricardo Lêdo

Além de chamar atenção por ser pequeninha e andar sempre muito arrumada, Maria Flor era bem comunicativa. “Sempre sorrindo, tinha um timbre de voz estridente quando começava a cantar e gostava de se mostrar mesmo”, diz Novaes.

Sua nora, Maria Augusta, comenta que essa vaidade permaneceu até os últimos dias. “Era muito vaidosa, passava batom, pintava as unhas e andava sempre arrumadinha. Mesmo velhinha, nunca deixou de se cuidar. Todo mundo amava ela no Guerreiro. ” Ariane também guarda lembranças afetuosas da casa sempre multicolorida. “Ainda consegui ver algumas apresentações dela na rua. E lembro que, quando chegava lá, era muito brilho, muitos chapéus, roupas coloridas. Ela estava sempre com esmalte na mão, cabelo arrumado, batom, sempre cheirosa. Gostava mesmo de se enfeitar, de usar colares, pulseiras, brincos grandes. Sempre foi ousada nos acessórios. ”

Reconhecimento

A flor singular e memorável do folclore alagoano foi reconhecida, em 2009, como Mestra do Patrimônio Vivo de Alagoas, conquistando definitivamente seu lugar na realeza da cultura popular do estado. Josefina recorda a alegria e o cuidado que Maria Flor teve para se apresentar no dia da certificação como uma verdadeira rainha.

Quando recebeu a notícia de que seria Patrimônio Vivo, ela chegou dizendo que precisava comprar um vestido cor-de-rosa. Passamos a manhã inteira escolhendo o tecido e, depois, oito anéis, todos da mesma cor. Ela dizia: ‘Eu sou uma rainha, e no dia eu tenho que estar como uma rainha’. E realmente parecia uma boneca naquele dia, tão feliz. A cerimônia foi no Museu Théo Brandão.”

Josefina Novaes

Ariane também se lembra do orgulho estampado no rosto de Maria Flor. “Nós fomos ao evento em que ela foi reconhecida como Patrimônio Vivo de Alagoas, acompanhamos tudo de perto, e ela ficou radiante, muito orgulhosa por ter conseguido esse reconhecimento”, conta.

Maria Flor participou ainda do projeto Mestre na Escola, da Secretaria de Estado da Educação, e, junto com o mestre Juvenal Leonardo, criou o “Guerreiro das Artes” no Núcleo de Extensão Artístico do CEPA. “Ela foi, com o mestre Juvenal, trabalhar no projeto Mestres nas Escolas, coordenado pelo professor Ranilson, e juntos formaram o Guerreiro das Artes. Era maravilhoso, foi o grupo mais exitoso desse projeto”, comenta Josefina.

Nos últimos anos, gostava de cantar as peças diariamente para não esquecer e para ensinar bisnetas e tataranetas. Apesar do incentivo, ninguém da família seguiu no caminho do guerreiro ou de outra atividade artística. “Ela sempre incentivou, mas o interesse da gente é que foi pouco mesmo”, admite Ariane.

Mesmo com a idade avançada, Maria Flor estava sempre pronta para reassumir o posto de rainha, bastava um convite. A Mestra encerrou seu reinado aos 88 anos, no dia 10 de dezembro de 2018, deixando um importante capítulo na história do Guerreiro alagoano e perpetuando um legado de beleza e entusiasmo pela cultura popular.


Galeria de Imagens – Entrevista


Arquivo Audiovisual


Publicações encontradas

NOVAES, Josefina Maria Medeiros. ASFOPAL – Associação de Folguedos Populares de Alagoas – 25 Anos Brincando Sério. Maceió: Gráfica do Estado/CEPAL, 2010. Pag. 93
Dona Flor
https://secult.al.gov.br/politicas-e-acoes/registro-do-patrimonio-vivo/mestres-do-rpv-al-por-ano-de-premiacao/ano-2009/596-dona-flor
Morre aos 88 anos a Mestra Maria Flor, Patrimônio Vivo de Alagoas
https://g1.globo.com/al/alagoas/noticia/2018/12/10/morre-aos-88-anos-a-mestra-maria-flor-patrimonio-vivo-de-alagoas.ghtml
Referência no Guerreiro alagoano, Mestra Maria Flor morre aos 88 anos
https://tribunahoje.com/noticias/cidades/2018/12/10/71668-referencia-no-guerreiro-alagoano-mestra-maria-flor-morre-aos-88-anos
 Patrimônio Vivo de Alagoas, Mestre Maria Flor morre aos 88 anos
https://aquiacontece.com.br/patrimonio-vivo-de-alagoas-mestre-maria-flor-morre-aos-88-anos/
Nelson da Rabeca, Maria José e Maria Flor são Patrimônio Vivo de Alagoas
https://bairrosdemaceio.net/caderno2/454
Rainha do Guerreiro de Alagoas – Maria Flor dos Santos
https://www.facebook.com/photo/?fbid=112198074212324&set=a.107201341378664
Morre a Mestra do Guerreiro Maria Flor dos Santos
https://globoplay.globo.com/v/7223900/
 Mestres da cultura popular serão homenageados na 70ª Reunião Anual da SBPC
https://noticias.ufal.br/ufal/noticias/2018/7/mestres-da-cultura-popular-serao-homenageados-na-70a-reuniao-anual-da-sbpc
Uma análise do Registro do Patrimônio Vivo de Alagoas1

chrome-extension://efaidnbmnnnibpcajpcglclefindmkaj/https://www.abant.org.br/files/34rba_196_35926832_032142.pdf
 Patrimônio Vivo de Alagoas, Mestre Maria Flor morre aos 88 anos
https://folhadealagoas.com.br/2018/12/10/patrimonio-vivo-de-alagoas-mestre-maria-flor-morre-aos-88-anos/
Cultura inaugura Memorial dos Mestres do Patrimônio Vivo nesta sexta-feira (15)
https://aquiacontece.com.br/cultura-inaugura-memorial-dos-mestres-do-patrimonio-vivo-nesta-sextafeira-15/
Agenda Cultural: maracatu no museu e festival indígena
https://noticias.ufal.br/ufal/noticias/2009/08/agenda-cultural-maracatu-no-museu-e-festival-indigena

Créditos da reportagem

Equipe de pesquisa:  Iranei Barreto, Nicollas Serafim, Givaldo Kleber

Transcrição das entrevistas: Nicollas Serafim

Texto: Iranei Barreto

Identidade Visual: Joenne Mesquita

Créditos das imagens: Iranei Barreto, Asfopal/ Neno Canuto, Ricardo Lêdo, Da internet


*Texto em constante atualização. A proposta do projeto Entorno dos Mestres é criar um arquivo com o maior número de informações possíveis sobre os Mestres do Patrimônio Vivo de Alagoas já falecidos.

 *PNAB ALAGOAS – O projeto “Entorno dos Mestres” é realizado com recursos da Política Nacional Aldir Blanc, do Governo Federal, operacionalizado pelo Governo de Alagoas, através da Secretaria de Estado da Cultura e Economia Criativa (SECULT). 

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