Nome: José Cícero Abdias Bonfim
Conhecido como: Cicinho
Atividade reconhecida: Artesão
Local e data de nascimento: Maribondo – 03/07/1969
Localização: Maceió
Patrimônio Vivo de Alagoas: 19 /08/2010
Falecimento: 14/06/2016

Herdeiro da tradição do Mestre Nivaldo Abdias, José Cícero Abdias Bonfim, mais conhecido como Cicinho, revelou desde cedo uma dedicação incomum aos ensinamentos do pai e do Mestre Adelmo, por quem nutria profunda admiração. Foi uma criança precoce e sensível à cultura popular, aos dez anos já dançava no Guerreiro do Mestre Adelmo, em Atalaia, e ajudava o pai na confecção dos chapéus que dão brilho ao folguedo, peças reconhecidas pela complexidade e pelo custo elevado.
O talento e a dedicação o levaram a criar chapéus que se destacavam pela beleza e pela riqueza de detalhes. Tornou-se um nome de referência nesse ofício. Josefina Novaes, pesquisadora do tema, lembra que ele preferia trabalhar em silêncio, recolhido na própria timidez, concentrado no manuseio de arames, contas e fitas coloridas. Essa dedicação se refletia na diversidade e no equilíbrio de suas criações.
Em depoimento à pesquisadora, Cicinho contou que o Mestre Adelmo lhe ensinou a importância de manter a harmonia nas peças. Ele afirmava que o traje do Guerreiro precisava estar em perfeita harmonia, mesmo que cada chapéu fosse único. “Tudo que faço é com muito cuidado, nada pode estar fora do lugar. É como um filho, que nasce com a missão de animar a brincadeira, valorizando a figura e mostrando o que cada um representa no Guerreiro”, disse Cicinho.
Josefina destaca ainda que Cicinho ousou em escolhas de materiais, substituindo papel por tecido e no uso da área brilhante, o que dava um caráter único ao resultado final.


O irmão Everaldo Bomfim lembra que o mais velho, Erivaldo, começou a confeccionar chapéus antes dos outros, e que ele e Cicinho aprenderam observando. “Fazíamos miniaturas enquanto ele produzia os grandes. Depois crescemos e Cicinho seguiu firme, realizou muito em pouco tempo”, recorda. “Além dele, tenho meus dois irmãos, Everaldo e Erivaldo, que também trabalham com chapéus de Guerreiro. Para nós da família, é sempre uma festa quando estamos juntos no Guerreiro”, comenta a irmã Iraci.
Já em Maceió, a irmã Salete passou a colaborar com ele. “Na época eu ia pra ajudar ele a fazer os chapéus, prestava atenção no que ele dizia, no que ele ensinava. E eu aprendi, ele era muito inteligente. O que ele imaginava na cabeça ele conseguia fazer. Recortava o chapéu do jeito que ele queria, da imaginação dele e a gente ia fazendo,” conta.
Além de criar os adereços para os Guerreiros da família, Cicinho compartilhou seu conhecimento ministrando aulas sobre a confecção dos chapéus na Oficina Laboratório Vivo, no Centro de Belas Artes de Alagoas. Ele também foi vice-presidente da Associação dos Folguedos Populares de Alagoas, a Asfopal.
“Pra mim é um orgulho muito grande ser sobrinho dele”, diz Ailton Bomfim. “Ele aprendeu com um dos melhores mestres, que foi meu avô Nivaldo, e eu tive a sorte de aprender um pouco sobre fazer chapéus de Guerreiro com Cicinho. Eu observava de longe, fingindo que não estava olhando, mas prestando atenção em cada detalhe do que ele fazia no ateliê. Sempre tive medo de tentar e não conseguir, mas há pouco tempo criei coragem e não parei mais. Ele trabalhava muito bonito, eu prestava muita atenção no que ele fazia.”
Mestre de Guerreiro
Além de artesão, Cicinho também era brincante de Guerreiro, interpretando o Índio Peri e acompanhando o Mestre Nivaldo Abdias nos diversos grupos de Guerreiro em que ele atuou. Por muitos anos dançou no “Barreira Pesada”, criado por sua irmã Iraci Bonfim, até integrar de forma definitiva o “Campeão do Trenado”, no bairro da Chã da Jaqueira, fundado por seu pai, Mestre Nivaldo Abdias.
Após o falecimento do pai, assumiu a liderança do Guerreiro “Campeão do Trenado” ao lado da irmã Iraci, mantendo vivo o legado da família com firmeza e paixão. “Cicinho foi um mestre que deu continuidade ao trabalho de nosso pai, que quando faleceu pediu para que ele não deixasse acabar a cultura do Guerreiro. E ele teve esse prazer, ele seguiu os passos do meu pai. Depois que meu pai faleceu, ele passou acho que uns quatro anos como mestre apenas”, recorda Everaldo. “Ele já trabalhava junto com a gente e, depois que papai faleceu, passou a ser mestre também. Eu fiquei junto com Cicinho nesse Guerreiro que era de papai”, acrescenta Iraci.





“A recordação mais marcante que eu tenho dele foi quando eu o vi pela primeira vez mestrando o Campeão do Trenado lá em Canafístula. Foi quando eu vi realmente que ele queria levar a tradição para frente. Não é fácil você sair representando 35, 40 pessoas no meio do mundo. Ele quis dar continuidade ao que meu avô deixou, e ele deu”,
recorda Ailton.
“Depois que papai faleceu ele ficou cantando de mestre, só que ele achou cansativo cantar sozinho, aí chamou pra cantar com ele o Pedro Lavandeira, que faleceu ano passado. Quando meu pai cantava, Cicinho era o índio Peri. Depois disso, Cicinho faleceu e agora quem canta é minha irmã Iraci, e eu também fiquei nessa parte”, comenta Salete.
Reconhecimento
Seu talento e compromisso com a cultura o levaram a ser reconhecido, em 2010, aos 41 anos, como Mestre do Patrimônio Vivo de Alagoas. Ele foi um dos mais jovens a receber essa honraria e, infelizmente, também o mais jovem entre os Mestres reconhecidos a falecer até hoje.

“Depois que papai faleceu, ele foi reconhecido como Mestre do Patrimônio Vivo. Cicinho não teve filhos. Ele dançava, cantava e confeccionava os chapéus. Quando recebeu o reconhecimento, eu estava morando no sertão, em Girau do Ponciano, e vi tudo pela televisão. Ele ficou muito grato, agradeceu bastante e, ao chegar em casa, foi agradecer a Deus. Era muito devoto. Os chapéus dele eram decorados com santos”, recorda Iraci.
“Lembro que nós o parabenizamos por mais essa conquista, porque ele era uma pessoa extremamente dedicada em tudo o que fazia. Trabalhou com cultura popular até o fim da vida. Ele ensinava como fazer os chapéus, tanto nas escolas para as crianças quanto no Cenarte para os idosos”, acrescenta Ailton.
Everaldo também recorda a alegria e a dedicação do irmão. “Quando foi reconhecido, ele ficou muito feliz, muito alegre. Nós éramos muito unidos. Ele cuidava da minha filha quando eu precisava viajar para trabalhar de motorista. Sempre compartilhávamos nossos problemas. Nos meus acidentes, era o primeiro a chegar. Ele era deficiente, mas isso nunca atrapalhou nada. Fazia tudo, corria atrás de tudo e enfrentava tudo com muita tranquilidade. O que ganhava era para ajeitar os enfeites e, no fim do ano, viajava pro sertão para dançar Guerreiro nas cidades.”

Legenda para #CEGOVER | Na foto está Mestre Cicinho, sentado em um ambiente simples de paredes gastas. Ele usa camiseta verde-limão, bermuda caqui e chinelos. Inclinado para frente, trabalha com atenção na confecção de um chapéu de Guerreiro, ornamentado com miçangas, espelhos e fitas coloridas. À sua frente, sobre uma mesa baixa, há outros chapéus igualmente enfeitados. No lado direito da imagem, fitas compridas em tons vivos de rosa, amarelo, verde, azul e laranja completam o cenário, revelando o cuidado artesanal e a força das tradições culturais.
Falecimento
Assim como um cometa, Mestre Cicinho deixou sua marca de forma breve e intensa. Partiu aos 47 anos, vítima de um AVC hemorrágico, deixando uma lacuna profunda entre familiares, amigos e admiradores da cultura popular alagoana.
“Ele dava aula lá no Cenarte de Artesanato de Guerreiro, e a gente já imaginava que ele estava com algum problema. Um dia, ligaram avisando que ele estava internado com suspeita de derrame. Mas pra mim, ele já tinha partido. Ele era muito comportado, a vida toda gostou de trabalhar com o pai. Para qualquer canto, o pai chamava ele. Era um menino bom, muito quieto. Eu senti muito a morte dele, fiquei sem mão, sem pé, sem nada, ” comenta emocionada Dona Creuza, sua mãe.
Depois de sua partida, irmãos e sobrinhos continuaram o legado, mantendo viva a tradição do guerreiro e de confeccionar chapéus. Em cada criação, a memória de Cicinho pulsa nas mãos da família, como uma herança transmitida no fazer.


















Galeria de Imagens – Entrevista
Arquivo Audiovisual
Mestre Cicinho
Publicações encontradas
Créditos da reportagem
Equipe de pesquisa: Iranei Barreto, Nicollas Serafim, Givaldo Kleber
Transcrição das entrevistas: Nicollas Serafim
Texto: Iranei Barreto
Identidade Visual: Joenne Mesquita
Créditos das imagens: Iranei Barreto, Vitor Sarmento, Acervo da família
*Texto em constante atualização. A proposta do projeto Entorno dos Mestres é criar um arquivo com o maior número de informações possíveis sobre os Mestres do Patrimônio Vivo de Alagoas já falecidos.
*PNAB ALAGOAS – O projeto “Entorno dos Mestres” é realizado com recursos da Política Nacional Aldir Blanc, do Governo Federal, operacionalizado pelo Governo de Alagoas, através da Secretaria de Estado da Cultura e Economia Criativa (SECULT).



























