Mestre Nivaldo Abdias e a travessia cultural do Guerreiro


Nome completo: Nivaldo Abdias Bomfim

Conhecido como: Mestre Nivaldo Abdias

Atividade reconhecida: Mestre de Guerreiro

Nascimento: Palmeira dos Índios – 05/02/1932

Localidade onde atuou: Maceió e interior de Alagoas

Patrimônio Vivo de Alagoas: 13/05/2005

Falecimento: 19/07/2013 (Aos 81 anos)

Foto: Acervo da família

Diferente da maioria das crianças de sua época, o menino Nivaldo Abdias se encantou por outro tipo de brincadeira. Enquanto a meninada jogava bola ou brincava de carrinho, ele não tirava os olhos dos folguedos populares, tão comuns em sua época.

Foi nesse ambiente que conheceu o Reisado da Mestra Zefa Bispo, em Palmeira dos Índios, sua terra natal, onde oficialmente colocou os pés na tradição. Levou a brincadeira tão a sério que, aos 12 anos de idade, já mestrava um Guerreiro, estreando nada menos que no Guerreiro de Joana Gajuru. A partir daí sua trajetória só se ampliou. Passou por grupos igualmente importantes, como o dos renomados mestres Adelmo Vieira, de Branca de Atalaia, e Francisco Jupi, deixando marcas em cada passagem. “Ele passou por 27 mestres de Guerreiro. A família dele é toda daqui de Maceió, mas nós somos de Palmeira dos Índios e nos casamos lá”, conta sua esposa Creuza.

O legado de Nivaldo também se perpetuou pela memória e pela vivência de seus familiares. Em depoimento, sua filha, Mestra Iraci, recorda: “Antes de eu nascer, meu pai já cantava no Reisado da Zefa Bispo em Palmeira dos Índios. Depois foi mestre em outros grupos, como o da Fazenda Porangaba, o de Joana Gajuru e o de Adelmo Vieira, em Branca de Atalaia. Para onde ele ia, eu estava junto. Foi assim que conheci muitos mestres e acompanhei toda a vida dele.”

A esposa Creuza lembra ainda que Nivaldo conciliava o trabalho formal com a paixão pelo Guerreiro. “Ele trabalhava no DER pelo dia, e pela noite era atrás de Guerreiro. Comprou um Reisado e logo o transformou em Guerreiro. Foi nessa época que nos conhecemos, eu ajudava a chamar gente para dançar. Depois fugimos para ficar juntos e só casamos muito tempo depois, já com as três meninas nascidas.”

Foto: Acervo da família

A vida da família foi sempre guiada pelo Guerreiro. “Fomos morar em Cajueiro porque ele achava que o dinheiro do DER era pouco. Trabalhou de tudo, mas em casa o Guerreiro era prioridade. Os filhos cresceram dentro dessa cultura. Mais tarde fomos para Maribondo, depois Branca de Atalaia e, por fim, Bebedouro, em Maceió. O pessoal gostava muito do trabalho dele e ele vivia viajando para cantar.”

Os filhos Salete e Everaldo também trazem suas lembranças. “Cresci nesse meio, sempre dentro do Guerreiro com meu pai e minha mãe. Dancei de caboclinha, depois estrela do norte e cheguei a ser rainha. Depois que meu pai morreu, passei a cantar algumas peças junto com a comadre Iraci. Hoje também sigo a tradição como mestra artesã, fazendo chapéus e broches do Guerreiro Campeão do Trenado”, conta Salete.

“Desde pequeno eu acompanhava meu pai em tudo. Com 7 anos já queria estar nos Guerreiros. Comecei como burrinha, depois virei vassalo, embaixador e, por fim, tamborzeiro, função que segui até hoje. Toda a família sempre esteve envolvida, e quem chegava ia sendo integrado à cultura”, relembra Everaldo.

Jéssica, esposa de Ailton Bonfim, neto do Mestre Abdias, é prova de como a tradição acolhia quem chegava à família. “Comecei a dançar quando o grupo do mestre Nivaldo se apresentou em Lagoa da Canoa, minha cidade. Foi ali que conheci meu esposo e segui no Guerreiro com eles. Ele era muito querido e sempre dizia aos filhos, netos e bisnetos para não deixar essa cultura morrer. Hoje todos seguimos esse caminho, tentando trazer gente mais jovem para que o Guerreiro continue.”

Ailton Bomfim ao lado da esposa Jessica e da filha Julia. Foto: Iranei Barreto

A tradição já alcança a nova geração. Julia, filha de Jéssica e Ailton, cresceu no Guerreiro. “Já dançava na barriga da minha mãe. Quando comecei a andar, ganhei minha primeira roupinha. Gosto de estar nas apresentações, principalmente das danças e das figuras como o boi e o lobisomem. Fico geralmente na parte de trás, mas já estou acostumada e adoro participar.”

Mestre Nivaldo tinha orgulho em dizer que, dos seus nove filhos, oito participavam ativamente da brincadeira. “Meu filho Cícero (falecido) faz os chapéus e os adereços e brinca na figura do Índio Peri; minha filha Quitéria, que tem um bonito trupé, costura e borda toda a indumentária; minha neta Nadja, com apenas onze anos, já sabe toda a parte da Estrela de Ouro; e a Creuza, minha mulher, é a rainha dentro de casa e do Guerreiro”, declarou orgulhoso em depoimento à pesquisadora Josefina Novaes.

Mestre Nivaldo Abdias Bomfim e sua esposa Creuza, rainha do Guerreiro Campeão do Trenado. Foto: Acervo da família

Os Guerreiros da família

Depois de anos brincando em grupos de outros mestres, Nivaldo Abdias e sua família passaram a construir seus próprios Guerreiros. O primeiro foi o Guerreiro Barreira Pesada, coordenado por sua filha Iraci, no bairro da Chã da Jaqueira. “Ele foi um grande pai, um grande mestre, um grande esposo, e até hoje sinto sua falta. Ele mestrou meu Guerreiro Barreira Pesada, e aprendi muita coisa tanto com madrinha Joana Gajuru quanto com papai. Para mim, ele nunca se foi, porque continua vivo no meu coração”, relembra emocionada Iraci.

Com o tempo, a tradição se expandiu ainda mais. “Quando fui morar em Girau do Ponciano, levei o Barreira Pesada comigo. Papai, então, criou o Guerreiro Campeão do Trenado, para continuar brincando. Casei, tive filhos e todos cresceram dentro dessa cultura, que agora também alcança meus netos e bisnetos. O que aprendi vou passando adiante. Fiquei com o Campeão do Trenado, que era de papai, e entreguei a documentação do Barreira Pesada ao meu filho Ailton, que hoje é responsável por ele”, conta Iraci.

Foto: Acervo da família
Foto: Acervo da família
Foto: Acervo da família

A herança se espalhou entre filhos e netos. Ailton Bonfim, por exemplo, recorda que começou no Guerreiro ainda criança, acompanhando o avô. “Aprendi partes com meu pai, outras com ele. Uma vez, faltou tamborzeiro numa apresentação e meu avô me colocou para tocar. Eu adorava tocar tambor para meu avô, ele era um dos mestres que cantava parcelado, que você vê o começo e o fim. Fora ele, eu gostava e já toquei também com José Laurentino, que tinha uma voz muito bonita, até hoje nós cantamos peças dele. E também o mestre Jaime”.

Atualmente, além do Barreira Pesada e do Campeão do Trenado, que ficam na capital, a família mantém outros grupos no interior do estado, como o Treme Terra Mundial, da filha Margarida (que era do mestre Oséas e antes dele era do Adelmo) e o Campeão de Alagoas, liderado por Maria Cícera filha de Iraci. Uma prova de que o Guerreiro seguiu firme como marca da família Bomfim. Como afirmou o próprio Mestre Abdias em depoimento à pesquisadora Josefina Novaes:

Não tenho medo da minha brincadeira acabar. O Guerreiro está no sangue da minha família e, com a minha morte, meus filhos e netos vão continuar.”

Apresentações no interior

Mestre Nivaldo iniciou sua trajetória em grupos de Guerreiro formados no interior do estado e nunca se acostumou com as apresentações curtas da cidade grande. O que ele gostava mesmo era das longas jornadas culturais, possíveis apenas no interior. Todos os anos, no mês de dezembro, deixava trabalho e compromissos para seguir a tradição. Durante cerca de três meses, viajava em caravana com seu grupo, apresentando-se em cidades, sítios e povoados. Muitas vezes partiam sem uma rota definida, sem saber onde ficariam hospedados, se seriam contratados, se teriam dinheiro suficiente para a alimentação ou até mesmo quando e como voltariam para casa.

Poucos mestres mantinham essa prática. “É uma verdadeira aventura. Saímos sem destino certo, muitas vezes sem nenhum acerto de apresentação, arranchados em lugares cedidos pelas autoridades ou embaixo de um pé de pau. Às vezes passamos de dois a três meses nessa peregrinação, tem gente que até troca de mulher”, contou o Mestre Abdias em depoimento à pesquisadora Josefina Novaes.

Mestra Iraci. Foto: Iranei Barreto

Iraci recorda como a rotina era desafiadora: “Para se apresentar e voltar pra casa é bom, mas sair pelo mundo do jeito que a gente saía era sofrimento. Papai e eu íamos de cidade em cidade, de sítio em sítio, de prefeitura em prefeitura, recebendo muitos ‘nãos’. A gente fazia uma lista, pegava um caderno e saía de porta em porta pra conseguir apoio. Segurar 26 ou 27 pessoas no grupo não era brincadeira. Ele trabalhava de oleiro, empeleiteiro, no DER, mas quando chegava dezembro, largava o emprego. Dizia: ‘Quando eu voltar eu consigo outro, meu divertimento é o Guerreiro’. Além disso, nunca perdia a viagem a Juazeiro do Norte, todo 10 de setembro estava na romaria.”

Na época era muito difícil, porque não tinha transporte fácil”, lembra Everaldo. “Já nos deslocamos até a pé. Eu trabalhava durante a semana, mas na sexta-feira pegava o carro e ia dar uma força. Era todo final de semana. Nós dançávamos em qualquer canto. Chegávamos às cidades, procurávamos o prefeito e, dali, seguíamos para os sítios e povoados que se interessavam. E assim íamos em frente.”

A tradição permanece com os descendentes. “Até hoje fazemos, é a tradição da família Bonfim. Levamos a cultura até onde ela pode chegar. Mas hoje a maior dificuldade é a falta de apoio das prefeituras, que muitas vezes não dão o valor que os grupos merecem. A gente sai daqui no dia 24 de dezembro e vai em busca de lugares para ficar e se apresentar. Alguns vereadores e prefeitos ajudam, porque são muitas pessoas, às vezes 30”, conta Ailton Bonfim.

Reconhecimento

Reconhecido como um dos grandes mestres da cultura popular em Alagoas, Nivaldo Abdias recebeu, em 2005, o título de Mestre do Patrimônio Vivo de Alagoas, integrando a primeira turma de homenageados. Anos depois, seus filhos Cícero e Iraci também seriam reconhecidos como Mestres da cultura alagoana, ampliando a força da tradição na família.

Foto: Mestre Nivaldo Abdias. Foto: Vitor Sarmento/ cortesia

“Não lembro o ano exato em que ele recebeu o título, mas lembro da alegria dele. Dizia: ‘Agora eu posso investir no meu Guerreiro’. Ele era aposentado pelo Loas, mas o dinheiro não dava. Com a bolsa do Patrimônio Vivo, pôde colocar o Guerreiro pra frente”, recorda Iraci.

O reconhecimento trouxe orgulho a todos os descendentes. “Quando meu avô foi Patrimônio Vivo, eu morava em Girau do Ponciano com minha mãe. Foi muito gratificante, porque no interior ele já era respeitado, mas na capital ainda não tinha esse reconhecimento. Hoje tenho muito orgulho de ser neto dele e fazer parte dessa família”, afirma Ailton.

Everaldo também relembra esse período. “Ele morava na Chã de Jaqueira e mestrava um dos melhores guerreiros que já vi em Maceió. Para ele, Guerreiro era tudo. Se tirassem o Guerreiro dele, era como se o matassem. Muitas vezes tirava do próprio bolso para ajeitar o grupo, só pelo prazer de viajar cantando e dançando, para não deixar a cultura acabar. Hoje existe mais incentivo das prefeituras, mas o interesse do público nas festas já não é como antes.”

Em 2007, o Guerreiro Campeão do Trenado também foi contemplado com o Prêmio Culturas Populares “Mestre Duda, Cem Anos de Frevo”, do Ministério da Cultura.

Pouco depois do falecimento de Mestre Nivaldo, em 2014, a cineasta alagoana Arilene de Castro dirigiu o documentário Guerreiros, retratando a tradição no interior do estado. Na época, apenas dois grupos, ambos dos descendentes de Mestre Nivaldo Abdias, ainda mantinham a tradição. O filme mostra a família peregrinando pelo Sertão, honrando o último pedido do mestre: não deixar o Campeão do Trenado acabar.

O fim de uma jornada

Papai nunca deixou de cantar, até no dia em que morreu ele cantou. Ele fazia as peças do Guerreiro, e eu até tenho algumas guardadas”, lembra Iraci. “Lembro que ele desmaiou durante uma feira em Bebedouro, e foi isso que acabou levando ele à cova, lamenta Creuza. Ele teve acompanhamento do Dr. Gustavo Quintella, foi a vários médicos, tomou muitos remédios e chegou a ficar internado quase um mês na Santa Casa. Mesmo assim, dizia que quando melhorasse queria ir pra casa, porque tinha uma viagem que queria fazer”.

“Ele voltou e ficou mais ou menos duas semanas em casa. Depois que ele morreu, muita gente da família parou de ir no Guerreiro. Ninguém queria mais dançar. Depois que meu marido morreu, parece que o mundo acabou pra mim. Não faltava nada em casa”, lamenta Creuza.

Salete lembra que antes de morrer, ele pediu que tivesse um cortejo. “Minha filha conseguiu realizar o último desejo dele. Arrumou um carro de som com Galba Novaes, fizemos o cortejo até o cemitério, e todo mundo ia se despedindo. Foi lindo, do jeitinho que ele queria”.

O mestre Nivaldo Abdias Bomfim faleceu no dia 19 de julho de 2013, aos 81 anos, em casa, encerrando uma vida dedicada à tradição da cultura popular em Alagoas. Antes de morrer, deixou um recado:

“O Guerreiro Campeão do Trenado não é pra dar, nem vender, nem emprestar.”

O que vou me lembrar sempre é ele botando a gente pra dançar e dando bronca pra gente aprender direito”, comenta Everaldo. “Depois que ele se foi, meu irmão Cicinho ficou cuidando do Guerreiro junto com a Iraci. Quando Cicinho também faleceu, a Iraci continuou. Hoje o filho dela está com o Barreira Pesada, então agora a família tem dois grupos, e a gente sempre dá apoio aos dois.


Galeria de Imagens – Entrevista

Arquivo Audiovisual

Mestre Nivaldo Abdias Bomfim

Publicações encontradas

NOVAES, Josefina Maria Medeiros. ASFOPAL – Associação de Folguedos Populares de Alagoas – 25 Anos Brincando Sério. Maceió: Gráfica do Estado/CEPAL, 2010. Pag. 66
Nivaldo Abdias (falecido)
https://secult.al.gov.br/politicas-e-acoes/registro-do-patrimonio-vivo/mestres-do-rpv-al-por-ano-de-premiacao/ano-2005/586-nivaldo-abdias-falecido
Falecimento: morre Mestre Nivaldo do grupo de Guerreiro Campeão
https://www.alagoas24horas.com.br/483429/falecimento-morre-mestre-nivaldo-do-grupo-de-guerreiro-campeao/
Mestre de Guerreiro Nivaldo Abdias morre aos 81 anos, deixando legado à cultura local
https://tribunadosertao.com.br/noticias/2013/07/23/2011-mestre-guerreiro-nivaldo-abdias-morre-aos-81-anos-deixando-legado-a-cultura-local
CineClube Théo exibe filme sobre grupos de Guerreiro
https://noticias.ufal.br/ufal/noticias/2018/8/cineclube-theo-exibe-filme-sobre-grupos-de-guerreiro
Mestre Nivaldo
https://www.facebook.com/photo.php?fbid=3593436720740242&id=266685673415380&set=a.266700646747216&locale=pt_BR
Guerreiros
https://alagoar.com.br/guerreiros/
 Rádio homenageia Dominguinhos e Mestre Nivaldo Abdias
https://www.cadaminuto.com.br/noticia/2013/07/26/radio-homenageia-dominguinhos-e-mestre-nivaldo-abdias
Falece em Maceió o mestre de guerreiro Nivaldo Abdias Bomfim
https://quintacre.webnode.page/products/falece-em-maceio-o-mestre-de-guerreiro-nivaldo-abdias-bomfim/
 
‘Engenho de Folguedos’ encerra temporada de apresentações
https://www.alagoas24horas.com.br/676675/engenho-de-folguedos-encerra-temporada-de-apresentacoes/

Créditos da reportagem

Equipe de pesquisa:  Iranei Barreto, Nicollas Serafim, Givaldo Kleber

Transcrição das entrevistas: Nicollas Serafim

Texto: Iranei Barreto

Identidade Visual: Joenne Mesquita

Créditos das imagens: Iranei Barreto, Vitor Sarmento, Acervo da família


*Texto em constante atualização. A proposta do projeto Entorno dos Mestres é criar um arquivo com o maior número de informações possíveis sobre os Mestres do Patrimônio Vivo de Alagoas já falecidos.

 *PNAB ALAGOAS – O projeto “Entorno dos Mestres” é realizado com recursos da Política Nacional Aldir Blanc, do Governo Federal, operacionalizado pelo Governo de Alagoas, através da Secretaria de Estado da Cultura e Economia Criativa (SECULT). 

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