A pintora Naïf e colecionadora de arte popular Tânia de Maya Pedrosa está simultaneamente em cartaz no Rio de Janeiro e em Brasília. No CRAB – Centro de Referência do Artesanato Brasileiro, no Centro do Rio, ela apresenta a 3ª edição da mostra comemorativa “Das Lagoas ao Imaginário Popular”. Já na capital federal, suas obras integram a mostra coletiva “Raízes – Reflexos da Natureza”, no Espaço Cultural da Escola Superior do Ministério Público da União (ESMPU).

Em 2023, Tânia Pedrosa celebrou seus 90 anos cercada por familiares, amigos e admiradores de sua arte, com a exposição “Das Lagoas ao Imaginário Popular”. A mostra teve sua primeira edição entre julho e agosto na Galeria André Cunha – Minimuseu de Arte Naïf, na histórica cidade de Paraty, no Rio de Janeiro. Ainda no mesmo ano, a exposição ganhou uma segunda edição em Maceió, sua terra natal, na Galeria do Complexo Cultural Teatro Deodoro.
A montagem em Paraty reuniu obras de mais de sessenta artistas que, por meio de telas e bordados, prestaram homenagem à trajetória e ao legado de Tânia. Já em Maceió, o curador André Cunha ampliou a proposta da mostra, incorporando não apenas as obras desses artistas, mas também peças de Tânia e parte de sua coleção de arte popular. Além disso, 18 artistas alagoanos foram convidados a representar os folguedos do estado em suas criações. Segundo Cunha, a residência de Tânia, repleta de suas obras e coleções, serviu de inspiração para a montagem no Complexo Cultural Teatro Deodoro, proporcionando ao visitante a sensação de imergir no universo particular da artista.
Em dezembro de 2024, a celebração da trajetória de Tânia chegou ao Rio de Janeiro para sua terceira edição, desta vez na capital fluminense. A exposição é fruto de uma parceria entre o Centro Sebrae de Referência do Artesanato Brasileiro, o Sebrae Alagoas e o Sebrae Nacional. Inaugurada em 11 de dezembro, a mostra segue aberta à visitação até este mês na sede do CRAB, na Praça Tiradentes.

Para esta nova montagem, o curador André Cunha enfrentou o desafio de reunir novamente as obras exibidas nas edições anteriores, reafirmando a homenagem a uma a grande dama da arte alagoana. “A cada edição, a exposição passou por adaptações, e desta vez não foi diferente. A seleção das mais de 250 obras foi feita com muito critério, com o objetivo de oferecer ao público um panorama da diversidade de artistas e artesãos alagoanos que integram a coleção de Tânia de Maya Pedrosa. Busquei organizar um conjunto que destacasse a riqueza das técnicas de diferentes regiões, trazendo seus principais artistas e obras”, explica Cunha.
Segundo ele, o maior desafio foi representar de forma equilibrada o artesanato e os artistas alagoanos que Tânia, ao longo de mais de 50 anos, colecionou, incentivou e ajudou a projetar. “Parte fundamental desse processo foi analisar a vasta coleção de peças e selecionar um grupo capaz de traduzir, com fidelidade, a essência de Alagoas no universo da arte”, destaca o curador.
Segundo o curador André Cunha, a exposição está distribuída em quatro salas, proporcionando uma imersão na riqueza da cultura alagoana, especialmente por meio da coleção de Tânia. A primeira sala, “Bem-vindos a Alagoas“, recebe os visitantes com um vídeo que apresenta o estado, sua arte, seus artistas e suas regiões. Já a segunda sala, “Guardiã das Artes“, é dividida em diferentes núcleos temáticos. O espaço inicia com a biografia de Tânia, contada por meio de mais de 50 obras em pequenos formatos, pintadas e bordadas por artistas de diversas partes do país. Essas peças são expostas em fitas, em referência ao Guerreiro Alagoano. Ainda nesta sala, o público conhece a faceta de Tânia como colecionadora, com parte de seu acervo de peças religiosas, além de sua produção como pintora, representada por mais de 30 obras. O ambiente também recria o quarto onde a artista passou quase sete anos pintando em segredo.






A terceira sala, “Sertão Sempre Vivo“, traduz o sertão sonhado por Tânia em um espaço de cores vibrantes, onde elementos como cordas, tecidos de chita, o chão de barro rachado e a representação do sol escaldante compõem a ambientação. A quarta sala, “Alagoas Artesanal: Mãos que Dão Forma“, destaca a produção artesanal do estado, exibindo ferramentas de trabalho dos artesãos e obras organizadas por região, evidenciando a diversidade de técnicas. O espaço ainda conta com um painel que reúne obras de 15 artistas alagoanos retratando a cultura e os folguedos do estado. Ao final do percurso, no corredor da exposição, o público encontra um espaço dedicado a Tânia como artesã têxtil, onde estão expostas sua coleção de bonecas de pano e algumas tapeçarias produzidas por ela mesma.
O superintendente do Sebrae Nacional, Vinícius Lages, destacou a importância do trabalho de Tânia, tanto como artista plástica quanto como defensora da cultura. “Tânia revelou muitos artistas populares e artesãos, não apenas em Alagoas, mas em todo o Brasil, graças ao seu diálogo que transita entre o regional e o nacional”, afirmou. Segundo ele, a artista foi fundamental para dar visibilidade a inúmeros talentos, contribuindo significativamente para a valorização do artesanato e da arte popular.
Lages também ressaltou o impacto da mostra e a relevância do apoio institucional. “Temos que celebrar a oportunidade de apoio do Sebrae Alagoas à exposição, em parceria com o Sebrae Nacional e o CRAB, que é uma verdadeira vitrine da produção artesanal brasileira. Para nós, é um privilégio ter Tânia Pedrosa representando nosso estado e seu artesanato, cuja força ultrapassa o regional, alcançando reconhecimento nacional e até universal, graças à beleza, à estética e às narrativas cuidadosas de sua expressão artística. ”




Para Sergio Malta, dirigente do CRAB e diretor de desenvolvimento do Sebrae Rio de Janeiro, “Alagoas dá ao CRAB a honra de realizar uma das mais belas exposições de sua história. Aqui estão expostas as explosivas cores da pintura Naïf de Tânia e uma seleção de sua valiosa coleção de artesanato e arte popular genuinamente alagoana e nordestina”.
Da nova montagem “Das Lagoas ao Imaginário Popular”, Tânia fala com emoção sobre o reconhecimento e a felicidade de levar não apenas seu trabalho, mas também o de inúmeros artistas alagoanos junto com ela para outras regiões do Brasil.
“Certamente, sinto orgulho, e muitas vezes tenho vontade de chorar por esse reconhecimento. Mas a verdadeira felicidade da minha vida é a glória da minha trajetória cultural como colecionadora, apreciadora e leitora. Sinto uma grande honra quando um artista vem falar comigo e, muitas vezes, se desenvolve a partir desse contato. Eu adoro certos celeiros culturais alagoanos. ”



Tânia também compartilhou, com orgulho e surpresa, que toda a coleção de suas obras pertencente ao seu filho, Sergio Moreira, está sendo exibida como parte da exposição coletiva Raízes – Reflexos da Natureza, no Espaço Cultural da ESMPU, em Brasília-DF. A mostra foi inaugurada em 13 de março e segue aberta à visitação até 11 de abril, das 9h às 18h.
Além dos trabalhos de Tânia, a exposição reúne obras de grandes nomes da arte popular brasileira, como Antônio Poteiro, Inimá de Paula, Aldemir Martins, Dona Tereza e Carlos Bracher. Com cores vibrantes, formas expressivas e temas profundamente enraizados na cultura brasileira, as obras celebram a riqueza da arte popular e sua capacidade de dialogar com o público de maneira acessível e inspiradora.
Trajetória
Tânia Maya Pedrosa é uma das figuras centrais na arte brasileira, reconhecida por sua expressiva pintura Naïf. Suas obras já foram exibidas em importantes salões e bienais, tanto no Brasil quanto na Europa, consolidando-a como uma das grandes representantes do gênero.

Além de sua produção artística, Tânia se destaca como colecionadora e pesquisadora da arte popular, com um olhar especial para a cultura alagoana. Apaixonada pelas manifestações populares, dedicou grande parte da vida a descobrir e valorizar artistas pouco conhecidos—escultores e pintores cujas criações, antes anônimas, hoje são disputadas em grandes galerias no Brasil e no exterior.
Em sua obra, Tânia combina a pintura naïf com a representação da cultura popular e artesanal, criando um trabalho que une materialidade e memória, refletindo com sensibilidade a alma alagoana. “Enquanto artista, Tânia sempre buscou retratar o sertão e as regiões alagoanas com um olhar empoderado e otimista. Isso fica evidente na série de obras em que representa o “Sertão Feliz”, um de seus temas recorrentes. Como curador, procurei dar vida a essas obras, a esse sertão tão vibrante”, comenta André. “Na exposição montada no CRAB, criamos a sala “Sertão Feliz”, onde busquei representar esse universo não apenas com peças da coleção, mas também com uma série de pinturas da própria Tânia. Esse sertão é, ao mesmo tempo, sofrido e dramático, mas também lúdico e cheio de vida. Em suma, procurei traduzir o sertão que sempre se faz presente em suas obras”, conclui.
Aos 91 anos, Tânia mantém seu entusiasmo inabalável pela arte, atuando como colecionadora, sempre em busca de novos talentos para enriquecer sua coleção, e como pintora, anda explorando e apaixonada pela Art Brut. Além disso, tem se dedicado à pintura em acrílico, se aventurando nessa técnica, agora como aluna do artista Persivaldo Figueirôa.
Ainda assim, faz questão de enfatizar: “Eu sou uma legítima artista Naïf. No Naïf, posso contar a história do povo simples, sua cultura, suas religiões, reuniões e plantações. Tenho o Naïf na cabeça. Agora, Dubuffet também entrou na minha cabeça, não tenho culpa. ”

























Texto: Iranei Barreto
Fotos: Rossana Fraga/Sebrae Alagoas
Site de Tânia de Maya Pedrosa:https://www.taniademayapedrosa.com.br/

