
A 8ª edição do Dossiê Fotografia Alagoana conta a trajetória visual dos artistas João Erisson e Flávia Gazzanéo. João é mais experiente, Flávia tem uma carreira mais recente, porém ambos têm como ponto forte em suas fotografias as pessoas e suas relações com os lugares e o mundo ao seu redor, com semelhanças, mas também com particularidades próprias dentro de cada trabalho visual. O Dossiê é realizado com recurso da Lei Paulo Gustavo (LPG) do Governo Federal, operacionalizado pelo Governo de Alagoas através da Secretaria de Estado da Cultura e Economia Criativa.

João Erisson é nativo da Zona da Mata alagoana, mais especificamente da cidade de Murici. “Eu com 8, 9 anos trabalhava esticando couro de boi para ganhar dinheiro do ingresso do cinema”, relembra ele. “Ainda não fotografava, mas as imagens já tomavam a minha cabeça”. Ele recorda que o encantamento começava antes mesmo de entrar na sala de exibição. “Os cartazes, as fotos em preto e branco, depois as coloridas já me despertavam a curiosidade e o interesse”. Já dentro do cinema, as paisagens dos grandes desertos americanos dos filmes de faroeste eram o que lhe agarravam o olhar infantil.
“Já nos anos 70, o que me fascinou muito visualmente foram as capas dos discos de vinis que saíam na época. Eram trabalhos maravilhosos”, afirma. “Lembro que em Murici quando era garoto, tinha um senhor que era fotógrafo e expunha as fotos que tiravam durante a semana na vitrine da sua loja, era como uma espécie de jornal. Todo mundo ia ver os acontecimentos da cidade nessa época”. Com a adolescência, João começou a comprar suas primeiras máquinas e iniciou o processo de desenvolvimento na prática de seu olhar sensível.
“Comecei com máquinas analógicas como a Xereta da Kodak, tirando fotos normais de famílias e tal, como uma espécie de hobbie mesmo”, recorda. “Outra coisa que me marcou muito no interior eram os lambe-lambes. Era doido para saber como funcionava. Depois eu vim descobrir que aqueles profissionais eram os precursores do Photoshop”, brinca.
Com sua vinda para a capital Maceió, a fotografia continuou como um passatempo, desta vez menos presente em razão de que ele começou a trabalhar como técnico de som no Teatro Deodoro. “O que me fez voltar com tudo foi a chegada das câmeras digitais”, revela. “Mas contando tudo, acredito que tenho uns 40 anos de fotografia na minha vida”.










Ele conta que, desde sempre, sua referência no ofício fotográfico vem de dentro de si próprio e de toda a bagagem visual e sensorial que adquiriu ao longo da vida. João destaca a amplitude de possibilidades que a fotografia possibilita, contudo ele se considera mais um fotógrafo de rua. “Gosto muito também das fotos de shows e de teatro”. Através de seu intenso e reconhecido trabalho nos espetáculos teatrais e musicais, João Erisson já compôs duas exposições individuais com essa temática – “Apolo em Cena” e “Revelando o palco”.
Para sua fotografia de rua, ele comenta que o olhar atento vale bem mais do que a técnica empregada na hora do clique. “Se você for pensar muito naquela hora, a cena já se desfez”, diz ele.
“Sou autodidata e aprendi o que sei através do meu olhar inquieto, de sempre estar procurando uma cena favorável à foto. E ando sempre com a câmera na mochila”. Ele conta que deixou de morar em lugares nobres para estar mais perto da periferia. “É lá que eu encontro a minha fotografia, com isso eu consigo mostrar o que a grande maioria das pessoas não vê, o que a sociedade esqueceu”. Sua série Cidadãos do Mundo reflete muito dessa temática.
João também integra o grupo Perambular Fotográfico e destaca sua relevância para o cenário da cidade. “Vejo um movimento muito legal de fotógrafos aqui em Alagoas, sei que todo mundo vive sua labuta diária, mas tem muita gente que tá antenada com o que acontece no mundo”. Ele conta que tem muito material guardado e planeja expô-lo em sua próxima exposição, mas caminhando sem pressa.











Flávia Gazzanéo é natural de Maceió e começou a despertar para a fotografia ainda adolescente ao receber de presente do pai uma câmera Love. De lá pra cá, foi alimentando seu interesse e evoluindo, tanto em equipamentos como em estudos e práticas. Porém, desde a pandemia em 2020 que sua trajetória decolou consideravelmente. “Sou servidora pública e naqueles primeiros meses em casa eu comecei a refletir muito e percebi que ao longo de toda a minha vida eu nunca tinha me dedicado a algo que me despertasse a criatividade, que me ligasse mais à arte que eu sempre amei”, revela ela. “Sempre tive trabalhos burocráticos e naquele momento eu pensei que havia chegado a hora”.
Na mesma hora, a fotografia pulou em sua mente pela imensa possibilidade de criação e de desenvolvimento artísticos. “Fui atrás de cursos, primeiramente na internet e tive a sorte de conhecer o professor Moisés Chaves no instagram, que por coincidência estava vindo para Maceió e me deu os primeiros ensinamentos”, diz ela. “Desde a medição da luz até o próprio manejo de uma máquina profissional, já que eu usava câmeras mais simples antes disso”.
Com câmera nova, pronta para uso e seus novos conhecimentos, Flávia partiu para a prática no final de 2021, quando começou a produzir seus primeiros materiais. Conheceu o fotógrafo alagoano Jorge Vieira e através de um curso com ele, sua transformação profissional deu outra guinada significativa. “Estava me dedicando muito à paisagem e através do Jorge eu coloquei o humano dentro da minha fotografia. Hoje eu sou completamente apaixonada por fotografar pessoas”, diz ela. Além de Jorge Vieira, Flávia também fez cursos com o fotógrafo João Facchinetti.






Ela marca o final do ano de 2022, cerca de um ano depois que entrou em contato com a fotografia alagoana, como ponto de partida de sua carreira profissional. “Já estava mais firme nas minhas ideias e propósitos artísticos, e dos caminhos que eu queria trilhar”, comenta. Já no ano seguinte, Flávia estreou em exposições com a mostra coletiva Óptica na Galeria Gamma e logo em seguida inaugurou, junto com o pintor Paulo Santana, a exposição Jaraguá Paisagem-Miragem, aliando fotografia à pintura, que ficou em cartaz no Museu da Imagem do Som de Alagoas (Misa).
“Ali eu já sabia que eu não ia viver mais sem a fotografia, é uma coisa que faz parte de mim hoje. Foi nela que eu me encontrei e digo que fotografo até sem câmera”, afirma. Hoje, o trabalho de Flávia está mais voltado para o documental-poético, no qual ela busca através de seu olhar sensível a poesia nas imagens do mundo. “Assim aconteceu no Centro Pesqueiro de Jaraguá, um lugar que aparentemente as pessoas acham feio. Mas eu comecei a frequentar lá com o Paulo por cerca de dois anos e nós adquirimos uma intimidade com o lugar, com a paisagem, os pescadores. E eu consegui fazer imagens dali que as pessoas não reconhecem o local quando veem”, relembra. “Isso é que é legal na fotografia, você consegue extrair o melhor de qualquer lugar”.






As inspirações de Flávia passeiam pelos trabalhos dos alagoanos Jorge Vieira, Celso Brandão, Luna Gavazza, além de João Roberto Ripper, Elza Lima, Araquém Alcântara, Walter Firmo e os mais antigos como Henri Cartier-Bresson e Vivian Maier.
Ultimamente, Flávia está desenvolvendo também os recursos para a intervenção artística nas suas imagens através do Photoshop. “E também tenho estudado bastante aquela vertente da fotografia humanista, muito difundida pelo fotógrafo carioca João Roberto Ripper, o Facchinetti também tem muito dessa área. Acredito que ela tem o poder de dar visibilidade a pessoas, lugares, comunidades que estão esquecidos. A fotografia também cumpre essa função social”, diz ela.
Além da série dedicada ao Centro Pesqueiro que compôs a exposição Jaraguá Paisagem-Miragem, ela conta que possui algumas séries desenvolvidas através da mentoria que fez com Jorge Vieira, como a “Democrática Praia” mostrando ambulantes, crianças brincando, famílias, pescadores, esportistas, demonstrando a importância do espaço da praia ser de todas as pessoas. “Estou fazendo uma chamada Habitar Sertanejo, que são as formas de habitação, as fachadas, tudo o que envolve a moradia do sertanejo nordestino”. Já “Somos todos brasileiro” é dedicada à fotografia de pessoas, já com algumas intervenções na pós-produção de Flávia.
Ela reflete que toda a classe artística alagoana sofre com a falta de valorização. “Acho que o melhor caminho é a gente persistir e se unir, parcerias são muito importantes pra gente poder concretizar e realizar os nossos projetos. É acreditar sempre no seu trabalho, acreditar que ele pode chegar às pessoas”. Atualmente, Flávia vem se dedicando a fotografar os currais da praia de Ponta Verde, trabalho que ela pretende se debruçar para desenvolver de maneira ainda mais intensa, com publicação impressa e uma exposição dedicada a esse tema. Além disso, a cultura ribeirinha do Rio São Francisco é outro projeto em pauta em suas produções.








Redes Sociais dos fotógrafas
Flávia Gazzanéo – @flaviagazzaneo/
João Erisson – @joaoerisson
Créditos da reportagem
Direção, pauta, revisão e produção: Iranei Barreto
Texto: Nicollas Serafim
Identidade Visual: Joenne Mesquita
*LPG ALAGOAS – O projeto “Dossiê Fotografia Alagoana” é realizado com recursos da Lei Paulo Gustavo do Governo Federal, operacionalizado pelo Governo de Alagoas, através da Secretaria de Estado da Cultura e Economia Criativa (SECULT). O projeto final resultará em um E-book contendo as 10 edições desta temporada. Também será publicado o livro impresso com a 2ª edição do projeto, realizado com recursos da LPG Maceió, operacionalizado pela Prefeitura Municipal de Maceió, através da Secretaria Municipal de Cultura e Economia Criativa ( SEMCE).
COLUNA AQUI ACOLÁ – REVISTA PAINEL ALAGOAS
EDIÇÃO 81

