Jacque Lima e Lícia Moreira ressaltam olhares femininos de sensibilidade artística na fotografia alagoana

O Dossiê Fotografia Alagoana está de volta. O projeto do Blog Aqui Acolá de esmiuçar e investigar os olhares, obras e artistas da fotografia alagoana retorna para contar a trajetória de sensibilidade visual das fotógrafas Jacque Lima e Lícia Moreira. Após um breve hiato, o Dossiê regressa em sua 7ª edição da rodada de entrevistas com os artistas de Alagoas, dentro da sua 2ª temporada. O projeto é realizado com recurso da Lei Paulo Gustavo (LPG) do Governo Federal, operacionalizado pelo Governo de Alagoas, através da Secretaria de Estado da Cultura e Economia Criativa.

Jacque Lima 

É natural de Olho d’Água das Flores, cidade do sertão alagoano, e recorda que seu interesse pela fotografia se iniciou de forma despretensiosa no dia a dia através das fotos caseiras de família comuns e tradicionais, incluindo todo o processo de fazer as fotos, revelá-las ou imprimi-las e juntá-las nos álbuns de foto familiares. “Já o universo da fotografia mais artística, digamos assim, deu-se depois que eu cheguei em Maceió, quando uma amiga me convidou pra fazer um curso com João Facchinetti, por volta de 2016 ou 2017, e a partir daí eu fui convidada a ingressar no grupo Perambular Fotográfico”, revela.

Através das trocas e convivência com os demais fotógrafos do grupo, assim como por meio das incursões e saídas fotográficas em conjunto, Jacque foi tomando gosto e voltando seu olhar para a fotografia como forma de inclusão social. “Gosto de mostrar a sociedade, os costumes, usar as imagens como forma de denúncia também, por assim dizer”, diz ela. “Mas o certo é que ainda estou me encontrando dentro desse vasto mundo”. Para ela, a fotografia além de um grande hobby e divertimento, é uma boa forma de conhecer pessoas interessantes.

Jacque Lima gosta de focalizar em suas imagens o dia a dia, a rotina e o cotidiano das pessoas.“Fizemos uma exposição muito bacana aqui na praia com umas fotografias que tiramos na comunidade da Muvuca que fica ali no bairro do Vergel do Lago, mostrando os problemas que as pessoas de lá têm com a água, foi um dos últimos trabalhos que fizemos”, lembra. “E agora estamos pensando em um novo projeto, desta vez com idosos, como uma forma de denunciar o etarismo, que ainda é tão presente na nossa sociedade”, comenta.

“Tenho algumas inspirações, incluindo pessoas daqui de Maceió, como o próprio João Facchinetti que eu admiro bastante, assim como o Jorge Vieira e João Erisson”, comenta Jaque. As suas obras também têm forte influência de artistas visuais como Ana Butrym e Solomon Omogboye.

“Tenho ainda como inspiração fotógrafos como Lilian Bardon, Dany Bitencourt, João Ripper, Elza Lima, Guy Veloso e faço também alguns cursos com um artista do Pará chamado Jorge Teixeira, que tem me impressionado muito”.

Segundo ela, a técnica que mais utiliza atualmente é o hibridismo, no qual a fotografia se junta a outra linguagem técnica artística para formar a imagem.

“Já conceitualmente venho focando muito na fotografia comum de rua, destacando a parte social das imagens”, diz. “Mas continuo em busca de outros vieses, continuo fazendo cursos com Jorge Vieira em busca de aflorar outros interesses dentro desse mundo da fotografia. Eu gosto de tudo”, ri.

Em sua trajetória artística, Jacque já produziu algumas séries interessantes. “Tenho algumas que fiz numa saída junto com os amigos João Erisson e Deth Nascimento numa puxada de rede com os pescadores na praia, também tenho algumas séries náuticas que gostei bastante do resultado e dos detalhes que consegui captar”. Além delas, algumas fotos que ela chama de “Amarras” e descontruções feitas com retratos fazem parte de seu portfólio artístico.

Jacque Lima já participou de exposições coletivas junto ao grupo Perambular Fotográfico como “Há 200 Anos de Alagoas no SESC em 2017; “Proteção”, IPHAN-AL, 2018; “Perambularte Popular”, Museu Théo Brandão, 2019. Fez parte do evento “Mosaico”, abertura do Fotosururu com o grupo FRAGMA, 2019; “Fragmentos”, Casa do Patrimônio – IPHAN, 2019, participação na exposição coletiva em 2023 “Que Muvuca é Essa” atentando para questões sociais. Ela ainda teve fotografia classificada para o Catálogo do IMA-AL de 2021, foi selecionada na Mostra Fotográfica SAUDADE, da Casa Foto Arte, 2021 e teve uma obra publicada na revista virtual “A Casa em Revista”, ed.5.

Para ela, a fotografia alagoana já possui uma abertura considerável dentro do campo da arte na cidade. “Tem muita gente nessa área e acho que as portas estão se abrindo”, reflete. “Acho que a fotografia aqui despontou, todo mundo está aflorando pra isso e tem campo pra todos. A fotografia agrega, divulga e é uma forma de voz”.


Lícia Moreira 

É baiana de Salvador, mas cresceu na cidade histórica e ribeirinha alagoana de Penedo e, segundo ela, tropeçando em telas, tintas e pincéis de um pai fotógrafo, escultor e pintor. “Vivia cercada pelas produções e obras do meu pai e a minha veia artística brotou quando fiz um curso de fotografia em 2012”, lembra ela. Além disso, a artista tem licenciatura em Letras, português e inglês. “Antes trabalhava como burocrata, mas depois desse curso, a fotografia tomou conta da minha vida”.

E tomou de um jeito avassalador e irreversível, já que, para Lícia, a expressão contida em sua arte visual através das fotos que produz é a própria expressão de sua vida.

“A minha fotografia sou eu, é ferramenta de minha expressão individual, meu envolvimento com o que fotografo está diretamente relacionado com o meu interesse de vida”, autoanalisa ela. “Minha subjetividade transfigura-se em produção imagética que é transformada aos olhos do expectador que cria seu próprio laço emocional”.

Em seu currículo, Lícia Moreira participou de diversas exposições coletivas, com destaque para uma mostra na Galeria Carioca, no Rio de Janeiro em 2022 e a exposição internacional na HECLECTIK-ART em Portugal no ano de 2021. Também já teve seus trabalhos expostos no Museu Théo Brandão e no Instituto do Meio Ambiente de Alagoas (IMA) em 2019, no IPHAN – Instituto Do Patrimônio Histórico E Artístico Nacional em 2018; no SESC em 2017; no 5º, 4º, 3º e 2º Salão Fotográfico Da Fundação Pierre Chalita em 2016, 2015, 2014 e 2013; no Museu Palácio Floriano Peixoto em 2015 e no MISA – Museu Da Imagem E Do Som De Alagoas em 2014.

Dentre as séries fotográficas que Lícia vem produzindo, ela destaca algumas como As Benzedeiras. “Essas pessoas que carregam consigo uma aura misteriosa que inspira respeito e confiança”, comenta ela. “Uma mistura de dom, solidariedade e ofício. Nessas sessões eu transformei a sala da minha casa em estúdio”. Já o ensaio chamado Poemas Reescritos é, segundo ela, um devaneio poético.

“Um mergulho ao fundo de mim mesma, um poema que gostaria de reescrever. Sonhamos enquanto nos lembramos, tenho medo das deslembranças”. Na elaboração desse trabalho, Lícia se utilizou de elementos perecíveis. “São itens fugidios, que esmaecem com o tempo: fotos antigas, folhas e a própria memória. Ele representa a liberdade da saudade, a liberdade de sonhar.”

Flores Horizontais é outra série da artista, desta vez inspirada no livro de Oswald de Andrade “O Santeiro do Mangue e Outros Poemas”, onde o autor se refere às prostitutas do Mangue, antiga zona de prostituição do Rio de Janeiro, como Flores Horizontais.

“Ensaio onde todas flores são fotos da minha autoria e as imagens dos personagens, apropriações de pinturas renascentistas, pertencentes ao domínio público; a montagem é minha. Esse ensaio foi veiculado em revista especializada e uma das imagens foi a capa da revista”, diz ela.

“Quando a Alma Transcende – É SURREAL” é um ensaio na qual Lícia utiliza colagens para formatar as obras. Todas as paisagens de fundo são fotos feitas por ela no deserto de Atacama e em Colônia Del Sacramento. “As colagens são de imagens da internet e as criações e composições são de minha autoria. Essas imagens compõe um ‘Livro de Artista”. Já Odoyá, que é uma saudação à orixá Iemanjá é composta de fotos feitas na orla de Pajuçara em Maceió. “Escolhi retratar a festa de Iemanjá, como eu a vejo, envolta de algo volátil, numa poética calcada em algo etéreo, intangível que é o campo onde permeia a Fé. As imagens em múltiplas exposições e envoltas em tênues véus refletem um transe”.

Além das produções fotográficas, Lícia atuou como curadora nas exposições do grupo Perambular Fotográfico em Maceió nos anos de 2018 e 2019, e teve uma foto aceita para a “5ª Photo Nature Brasil, em 2021”, promovido pela AJAC. “Também tive a oportunidade de ter ensaios fotográficos publicados na ‘A Casa Revista’, edições de abril e agosto de 2021 e novembro de 2023, sendo a capa da Revista em agosto de 2021, com curadoria de Greice Rosa e Marco Antônio Portela”, destaca. “Meu trabalho foi selecionado para a ‘Mostra Fotográfica Saudade’ da ‘A Casa Foto Arte’ em agosto de 2021, além de um vídeo selecionado para a ‘Mostra VídeoArte’ em agosto de 2021”.

Suas inspirações são diversas. “Muitos fotógrafos têm minha admiração, mas quero destacar Danny Bittencourt, principalmente pela sua obra e seu pensamento”, destaca. “Uso as técnicas que têm relação com a imagem, que somam, mas nunca se sobrepõem à narrativa. Faço duplas exposições, colagens, apropriações, ressignificações, cianotipia, infravermelho, faço também livros de artista e objetos de artista, e muito mais.” Ainda segundo Lícia, para descrever sua arte ela se apropria das palavras de Simone de Beauvoir: “Que nada nos defina, que nada nos sujeite, que a liberdade seja a nossa própria substância, já que viver é ser livre”.


Redes Sociais das fotógrafas

Instagram Lícia Moreira : @liciamoreira1

Instagram Jacque Lima : @fotolembrar


Direção, pauta, revisão e produção: Iranei Barreto

Texto: Nicollas Serafim

Identidade Visual: Joenne Mesquita


 *LPG  ALAGOAS – A partir desta 7ª edição (2ª temporada), o projeto “Dossiê Fotografia Alagoana” passa a ser realizado com recursos da Lei Paulo Gustavo do Governo Federal, operacionalizado pelo Governo de Alagoas, através da Secretaria de Estado da Cultura e Economia Criativa. O projeto final resultará em um E-book contendo as 10 edições desta temporada.


COLUNA AQUI ACOLÁ – REVISTA PAINEL ALAGOAS

EDIÇÃO 79

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