
Nome: Sebastião Amaro dos Santos
Conhecido como: Tião do Samba
Atividade reconhecida: Samba de Matuto
Local e data de nascimento: 10 /03/1934 (Maragogi)
Local de atuação: Maragogi
Patrimônio vivo de Alagoas: 03 /08/ 2012
Falecimento: 28 /07/ 2014 (aos 81 anos)
Sebastião Amaro dos Santos, conhecido como Tião do Samba ou Bastião, nutria desde a infância um profundo amor pelo samba, inspirado por sua avó, que dançou até os 90 anos. Essa paixão foi também herdada pelos seus pais, que transformaram o samba em um legado familiar. Aos 18 anos, Tião abraçou a tradição e iniciou sua jornada no Samba de Matuto, um folguedo quase extinto em Alagoas. Ele enfrentou inúmeros desafios, mas preservou com determinação essa manifestação cultural centenária, carregada de história e resistência, transmitida pelos seus ancestrais escravizados no litoral norte do estado.
Por mais de seis décadas, Tião liderou o Samba de Matuto com seu apito, voz forte e anasalada, cuja sonoridade lembrava influências árabes. Era acompanhado por zabumbeiros, tocadores de ganzá e triângulo, além de baianas que dançavam ao som das melodias e respondiam os refrãos. Seus sambas abordavam temas diversos: religiosidade, cotidiano, notícias e, claro, os famosos improvisos que encantavam a todos. “Tião sabia levar o samba com força. Às vezes, ele criava uns versos na hora, e a gente ficava abismado. Tocamos em Tamandaré, São José, nos povoados daqui de Maragogi”, relembra Benedito Ivanildo, mais conhecido como Biu, zabumbeiro do grupo.

Legenda para #CEGOVER | na imagem, Mestre Tião do Samba aparece segurando um microfone enquanto canta. Ele veste uma camisa de cetim amarela brilhante e um chapéu preto com uma faixa escura. Seu rosto transmite emoção enquanto se apresenta. Ao fundo, há retratos emoldurados de homens de terno pendurados na parede, sugerindo um ambiente formal ou institucional.
“Tião era meu primo legítimo; a mãe dele era tia da minha mãe. A Zezé também é minha prima, por parte de pai, então éramos praticamente uma família dentro do Samba de Matuto. Eu era o zabumbeiro, e Tião, o mestre que fazia os versos e cantava para a turma responder. Nossa convivência era boa. Quando a Zezé quis montar o grupo de samba com ele, estava faltando um zabumbeiro, e eu me ofereci. Faltando uma semana para o carnaval, chegaram as roupas, e eu assumi a zabumba. Fizemos então quatro dias de carnaval com o Samba de Matuto. ”
Maria José da Conceição, conhecida como Mestra Zezé, relembra a influência de Tião em sua trajetória no Samba de Matuto: “Eu comecei dançando com as baianas, mas também já participei de pastoril, guerreiro, canoeiro e Zé Pereira. Quando me casei, me dediquei à criação dos meus sete filhos e, só depois que eles cresceram, me juntei a Tião para montarmos um Samba de Matuto. Arranjamos as baianas, e depois o Biu se juntou a nós. O Bastião me colocava para cantar no samba, mas naquela época eu só queria dançar. Foi com o incentivo dele que comecei a cantar. ”

Relatos de Antônio Amaro, filho de Tião, ressaltam a importância e o legado deixado pelo mestre, que se tornou uma figura respeitada e admirada, frequentemente convidado para liderar as brincadeiras em diversos lugares. “Meu pai era um mestre e um artista, tinha uma mente brilhante. Falar em Samba de Matuto de Maragogi é falar dele. Já faz 11 anos, por aí, que ele morreu e ainda hoje eu sofro, ele tinha 81 anos. Ele era muito amado. Em tempos de eleições, todo mundo o chamava pra cantar nos comícios em todos os povoados de Maragogi. Já veio gente até de São Paulo gravar aqui, da TV Record. Quando eu era pequeno, ele já cantava samba e me levava junto. Ele fazia uma peça (verso) com qualquer um assim na hora.”
Mestre Bié, amigo de longa data, lembra da influência de Tião em sua carreira: “Tião era um grande amigo, mas eu fui pra Maceió muito novo e ele ficou em Maragogi, até que eu voltei já mais velho. Nossa história no Samba de Matuto começou quando eu estava iniciando nessa arte, e ele já estava integrado, também por ser mais velho, já tinha uma prática boa. Quando eu o vi cantando, eu pedi pra ele me ensinar e eu comecei a cantar também. Voltei a morar em Maceió, e quando voltei novamente para Maragogi já estava bem mais habilidoso. A gente se encontrava e cantava, eu adorava a cantoria dele.”

Tião ficou viúvo e se casou pela segunda vez com Maria de Fátima, que, diferente da sua primeira esposa, era integrante do Samba de Matuto. “Quando eu conheci ele, já era mestre de samba, e eu vivia ali pelo meio. Eu era das baianas, dançava. A gente se apresentava muito, até em Maceió, nas praias também. Eu não cantava, só dançava e respondia o refrão das músicas. Depois que o Tião morreu, quem ficou cantando foi a Zezé e o Bié também. Mas eu só sabia responder as peças do meu marido e da Zezé, que eram mais fáceis da gente decorar e responder”, conta Fátima.
O Samba de Matuto Leão da Primavera, desde sua formação, sempre foi composto por homens e mulheres adultos e idosos, que, sob a liderança de seu Mestre, mantinham viva a tradição desse raro folguedo. Com simplicidade e muita dedicação, Tião preservava com cuidado e orgulho essa importante manifestação da cultura popular local. “No grupo do nosso samba, sempre fizeram parte pessoas adultas, mas que gostam de sambar, da diversão e da alegria da brincadeira”, relembrou Tião em entrevista.




Proveniente de um contexto modesto, Mestre Tião se desdobrava para sustentar a família e manter viva a tradição do Samba de Matuto. “Na vida real, como a maioria dos brincantes do folclore alagoano, são pessoas assalariadas, de origem simples, que se esforçam para cuidar da família e têm o Samba de Matuto como sua brincadeira preferida. Mestre Tião, por exemplo, era conhecido como o padeiro preferido da região, com a missão de entregar encomendas da padaria e vender pão na porta das casas. Ele nunca teve a oportunidade de estudar, como muitos moradores do interior, mas acreditava receber mensagens divinas que o inspiravam. Foi essa dedicação e talento que o tornaram Patrimônio Vivo da Cultura Alagoana, um prêmio mais do que merecido por preservar nossas raízes culturais”, destacou Ismélia Tavares em um artigo para a Associação dos Folguedos Populares de Alagoas (Asfopal).
Continuidade
“Para mim, Seu Sebastião faz muita falta. Ele cantava muito bonito, lindo mesmo”, relembra Mestra Zezé com saudade. “Ele dizia que aprendeu o samba com o pai dele, há muito tempo, desde garotinho. E ele ficou conhecido como mestre de samba por todos os lugares. Onde tivesse brincadeira, só chamavam Tião do Samba. Mestre bom, cantava muito bonito.”

O raro folguedo do Samba de Matuto Leão da Primavera tem resistido ao tempo, mantendo-se unido e fiel à essência de sua tradição, agora inspirada pela memória e legado do saudoso Mestre Tião. Suas cantorias e danças, guiadas pelos versos improvisados que marcavam sua liderança, continuam a reverberar na comunidade, perpetuando a força dessa manifestação cultural.
Embora muitas vezes considerada uma “cultura menor” e constantemente ameaçada de extinção, o Samba de Matuto reafirma sua relevância como expressão coletiva do povo. Ele fortalece os laços sociais, promove o desenvolvimento cultural e contribui de forma significativa para a construção da identidade local.
Entre altos e baixos, os integrantes do grupo Leão da Primavera mantêm viva a chama do samba de matuto. Seus relatos expressam um misto de saudade e alegria, sentimentos frequentemente embalados pelos sambas improvisados que refletem a alma dessa tradição.

“Já levamos o samba para Maceió, Água Preta, Tamandaré. E aqui em Maragogi, dançávamos todo sábado e domingo. Hoje temos roupas, sapatos, chapéus… Temos tudo o que precisamos para fazer o Samba acontecer”, conta com entusiasmo Mestra Zezé, que hoje lidera o grupo, mantendo viva a tradição.
Reconhecimento
Mestre Tião recebeu um dos mais altos reconhecimentos culturais de Alagoas ao ser agraciado com o título de Patrimônio Vivo pela Secretaria de Estado da Cultura (Secult), em agosto de 2012. Esse prêmio, fruto de seu esforço incansável para preservar e divulgar o Samba de Matuto, representou uma consagração de sua dedicação à cultura popular.
“Quando ele ganhou o prêmio de Patrimônio Vivo, lembro que ficou muito feliz. Ele era um ótimo mestre de samba”, relembra Amaro, seu filho.

Ao ser diplomado, Tião não guardou para si a honra de um momento tão significativo. Demonstrando sua generosidade e o espírito de coletividade que sempre o caracterizou, ele fez questão de levar o grupo Samba de Matuto Leão da Primavera para a solenidade, celebrando a conquista como um triunfo coletivo. “Nós fomos para Maceió com ele para receber o prêmio. Foi muito bom. Pena que, pouco tempo depois, ele adoeceu e faleceu”, lamenta Biu, zabumbeiro do grupo.
Mestra Zezé também guarda com carinho a lembrança dessa conquista: “Quando ele ganhou o título de mestre de patrimônio, fomos todos juntos para Maceió, no Museu Théo Brandão. Foi uma maravilha. Depois disso, o pessoal chamava muito a gente para brincar. Ele era muito animado e sempre liderava tudo com entusiasmo. ”
O reconhecimento como Patrimônio Vivo não apenas eternizou o nome de Mestre Tião na memória cultural alagoana, mas também reforçou a importância do Samba de Matuto como um tesouro da identidade regional.
Galeria de Imagens – Entrevista






































Arquivo Audiovisual
Publicações encontradas
| Reportagens e postagens sobre o Mestre Tião publicadas na internet |
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| Tião do Samba (falecido) https://secult.al.gov.br/politicas-e-acoes/registro-do-patrimonio-vivo/mestres-do-rpv-al-por-ano-de-premiacao/ano-2012/624-tiao-do-samba-falecido |
| Morre em Maragogi mestre Tião do Samba https://www.alagoas24horas.com.br/438122/morre-em-maragogi-mestre-tiao-do-samba/ |
| Samba de Matuto do Mestre Tião https://nasombradojuazeiro.com.br/2020/11/23/samba-de-matuto-do-mestre-tiao/ |
| Tradicional Samba de Matuto corre o risco de desaparecer https://patativadoassare.wordpress.com/2016/10/12/8969-2/ |
Créditos da reportagem
Equipe de pesquisa: Iranei Barreto, Nicollas Serafim, Givaldo Kleber
Transcrição das entrevistas: Nicollas Serafim
Texto: Iranei Barreto
Identidade Visual: Joenne Mesquita
Créditos das imagens: Iranei Barreto, Divulgação e da internet
*Texto em constante atualização. A proposta do projeto Entorno dos Mestres é criar um arquivo com o maior número de informações possíveis sobre os Mestres do Patrimônio Vivo de Alagoas já falecidos.
*LPG ALAGOAS – O projeto “Entorno dos Mestres” é realizado com recursos da Lei Paulo Gustavo do Governo Federal, operacionalizado pelo Governo de Alagoas, através da Secretaria de Estado da Cultura e Economia Criativa (SECULT).

