Nome: José Sebastião de Oliveira
Conhecido como: Mestre Sebastião da Viçosa
Atividade reconhecida: Mestre de Guerreiro
Nascimento: Viçosa – 30/07/1947
Localidade onde atuou: Viçosa
Patrimônio vivo de Alagoas: 15/03/ 2006
Falecimento: 20/04/2010

Com um pisado que fazia o chão tremer, uma voz marcante e um dom para improvisar, José Sebastião de Oliveira nasceu em Atalaia, mas foi em Viçosa que criou raízes profundas. Adotando o nome da cidade como sobrenome, Sebastião tornou-se conhecido como Sebastião da Viçosa. Em 1977, ele deu vida ao primeiro Guerreiro do município, batizando-o de Guerreiro da Viçosa.
“Cheguei na véspera de São Pedro. Gosto de fazer uma fogueira boa para comemorar o dia do santo e o tempo em que vivo aqui”, relembrou ele em uma entrevista sobre sua chegada à cidade.
Na juventude, o mestre iniciou sua trajetória como cantador de pagode e, mais tarde, descobriu a paixão pela viola. “Sou repentista. Gosto de um bom improviso. Já toquei muito com Elias Procópio”, contou certa vez. No entanto, sua verdadeira paixão sempre foi o Guerreiro. “Sempre achei bonito. Quando era menino, eu não participava, mas adorava assistir aos mestres Adelmo, Juvenal, Venâncio e Benon”, revelou.

Legenda para #CEGOVER | Na imagem, Mestre Sebastião do Guerreiro de Viçosa aparece vestindo um traje tradicional repleto de fitas coloridas e segurando um microfone. Na cabeça, ele usa um grande chapéu enfeitado com miçangas e espelhos. Ao seu lado, há outra pessoa, também vestida com um traje colorido e usando um adorno na cabeça, semelhante a uma coroa. O fundo da imagem mostra um céu azul com algumas folhas de árvore, sugerindo um ambiente ao ar livre.
Mestre Sebastião também fez parte do famoso Reisado do Mestre Osório. A amizade entre eles era tão forte que Sebastião expressou um desejo aos familiares: quando falecesse, queria que fosse cantada a música Viçosa do Nosso Brasil, de autoria de Mestre Osório.
O folguedo passou a fazer parte de sua vida apenas após sua mudança para Viçosa. “Eles já sabiam que eu era cantador de pagode e repentista, por isso me convidaram para formar um grupo de Guerreiro. Consegui reunir o grupo com o apoio e as orientações de Severo Luiz e Luiz Belo, dois moradores da cidade que já faleceram”, relatou.








Sua esposa, Mestra Quitéria Oliveira, relembra a trajetória inicial: “Sebastião era natural de Atalaia, morava em Maceió e chegou aqui em Viçosa em 1975. Naquele tempo, ele cantava pagode, tocava viola, era desses cantadores festeiros que animavam todos os bailes. Veio trabalhar na rede ferroviária e, aos poucos, foi conhecendo o pessoal da cidade. Foi aí que teve a ideia de criar um Guerreiro. ”
Apesar de nunca ter dançado antes, Sebastião demonstrou talento nato. “Ele até compunha músicas. Um poeta como ele, eu procuro e não vejo. Sebastião fazia de tudo: pagode, Guerreiro, repente de viola. Ele mesmo dizia: ‘Só nunca cantei missa, mas o resto… pode botar pra mim’”, recorda Quitéria.
O Guerreiro da Viçosa foi fundado em 1977. Quitéria, então com 17 anos, lembra-se da empolgação: “Ele montou uma palhoça na Rua da Boa Vista, e daí o grupo foi crescendo.”
Mestre Rafael Oliveira, que cresceu convivendo com as cores vibrantes e as festas promovidas por Sebastião, conta: “Além do Guerreiro, tinha o famoso forró do Mestre Sebastião. Ele promovia grandes festas depois das apresentações. ”
Reconhecimento e Legado
Mestre Sebastião ganhou notoriedade em Viçosa e além. Participou de apresentações na UFAL e em outras cidades, levando o Guerreiro a festivais e eventos culturais. “Mesmo quando o grupo local não ensaiava, pessoas de outras regiões vinham procurá-lo”, relembra Quitéria.
Em março de 2006, recebeu o título de Patrimônio Vivo de Alagoas, uma conquista que encheu de orgulho tanto ele quanto a comunidade. Sua imagem chegou a integrar uma série de selos comemorativos dos Correios, um marco de reconhecimento ao seu trabalho.

“Depois que ele saiu da rede ferroviária, o prefeito Flaubert o colocou para trabalhar na prefeitura. Ele dedicou sua vida ao Guerreiro e ficou muito feliz com essa conquista”, contou Quitéria.
“A história de Mestre Sebastião ainda pulsa entre os brincantes e a comunidade. Apesar disso, sua trajetória ainda não foi eternizada em livros, embora sua importância esteja marcada na memória coletiva“, lamenta Rafael. “Aqui na comunidade Frei Damião, a rua principal leva o nome dele: Avenida Mestre Sebastião do Guerreiro”.





Em 20 de abril de 2010, aos 62 anos, Mestre Sebastião encerrou uma trajetória de mais de 30 anos como mestre do Guerreiro, deixando uma lacuna profunda na cultura popular de Viçosa e do estado de Alagoas.
Sua morte foi amplamente lamentada. “Mestre Sebastião era um dos grandes nomes do Guerreiro em Alagoas. Um exímio tocador de viola, compositor talentoso, dominava o pandeiro como poucos. Era, de fato, um mestre”,
declarou Osvaldo Viégas, então secretário de Estado da Cultura.
A secretária de Cultura de Viçosa, Karina Padilha, também destacou: “Sua capacidade de improvisar era única. Sua voz, inesquecível. Seu bailado, inigualável. ”



A Continuidade do Guerreiro
Após a morte de Sebastião, Mestra Quitéria e Mestre Rafael assumiram a responsabilidade de manter viva a tradição do Guerreiro da Viçosa. Rafael, que praticamente cresceu sob a orientação de Sebastião, tornou-se não apenas brincante, mas também artesão, confeccionando os chapéus do Guerreiro, peças que demandam enorme dedicação e criatividade. “Eu busco na imaginação e nas lembranças as formas e cores para criar essas peças. Um chapéu menor leva, no mínimo, um mês para ser concluído. Também os faço para vender, mas raramente as pessoas compram. Parece que a população está mais interessada nas coisas atuais, tecnológicas, enquanto a cultura popular vai ficando com as pessoas do passado. E essas pessoas precisam de sucessores; caso contrário, a arte morre”, desabafa.

A continuidade do Guerreiro foi um desafio ainda maior após a morte de Mestre Sebastião. “Depois que ele faleceu, eu não queria mais continuar. É muito complicado assumir a liderança de uma brincadeira como essa. Sempre dancei desde nova, mas ser responsável é outra coisa. Mesmo sem querer, segui em frente, incentivada pelas pessoas que me apoiavam e, principalmente, pelo Rafael, que sempre gostou e me motivou”, relembra Quitéria. Agora, Rafael não só assumiu a confecção dos chapéus, como também superou as expectativas. “Ele passou a fazer os chapéus do Guerreiro até melhor do que Sebastião fazia”, destaca Quitéria.

Para Rafael, manter viva a tradição é mais do que uma responsabilidade: é sua missão de vida. “O trabalho de Mestre Sebastião e Mestra Quitéria está dentro de mim. Se eu não passar isso adiante, ninguém mais vai. Quem pode transmitir essas histórias é quem viveu, quem sentiu, quem aprendeu. Eu não vou deixar isso acabar”, afirma com determinação.
Rafael desempenha um papel indispensável na preservação do Guerreiro. Além de brincante, é o principal articulador do grupo e o braço direito de Mestra Quitéria. Praticamente adotado pelo casal, herdou não apenas o legado artístico, mas também as histórias e os ensinamentos de dois dos maiores mestres da cultura popular de Viçosa.
Embora jovem, Rafael compreende o peso da responsabilidade que carrega. Ele sabe que a continuidade do Guerreiro depende de sua dedicação e do compromisso de transmitir a tradição para as futuras gerações. No entanto, os desafios são muitos. “Às vezes, eu desanimo, fico irritado e acabo irritando os outros. Mas desistir? Isso nunca passou pela minha cabeça. Essa é a nossa história, e é nossa obrigação continuar e transmiti-la. Não é algo recente; vem de muito tempo. É a história do nosso estado, da nossa cultura. O conhecimento do Guerreiro é passado no dia a dia; foi assim com Sebastião e está sendo assim comigo”, reflete.

A relação com Mestre Sebastião transformou a vida de Rafael desde cedo. “Eu tinha apenas 6 ou 7 anos quando comecei a frequentar a sede, brincando e ensaiando, até pegar gosto pela tradição. Quando ele faleceu, eu tinha só 13 anos, mas seu legado nunca saiu de mim. ”
Hoje, o Guerreiro de Viçosa segue ativo, ainda que com dificuldades. “Estamos lutando com 15 componentes. Inclusive, precisamos terminar alguns chapéus para o grupo voltar a se apresentar. Antigamente, éramos cerca de 20 pessoas”, comenta Quitéria, ressaltando os desafios enfrentados.
Além da redução no número de brincantes, a estrutura física também é uma preocupação.
“Nossa sede caiu, e estamos tentando levantar uma nova para ensaios e apresentações. Tenho o sonho de transformar a antiga casa de Mestre Sebastião em um memorial do Guerreiro de Viçosa, para contar a história dessa comunidade. Temos muitos registros em fotos do nosso Guerreiro que precisam ser preservados”,
relata Rafael.
Embora os desafios sejam grandes, o compromisso com a continuidade do Guerreiro segue firme. “Essa é a nossa história, e é nossa obrigação transmiti-la adiante. O conhecimento do Guerreiro é passado no dia a dia; foi assim com Sebastião e está sendo assim comigo”, reflete Rafael.
Galeria de Imagens – Entrevista
























Arquivo Audiovisual
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Créditos da reportagem
Equipe de pesquisa: Iranei Barreto, Nicollas Serafim, Givaldo Kleber
Transcrição das entrevistas: Nicollas Serafim
Texto: Iranei Barreto
Identidade Visual: Joenne Mesquita
Créditos das imagens: Iranei Barreto, Divulgação e da internet, Acervo do Guerreiro de Viçosa
*Texto em constante atualização. A proposta do projeto Entorno dos Mestres é criar um arquivo com o maior número de informações possíveis sobre os Mestres do Patrimônio Vivo de Alagoas já falecidos.
*LPG ALAGOAS – O projeto “Entorno dos Mestres” é realizado com recursos da Lei Paulo Gustavo do Governo Federal, operacionalizado pelo Governo de Alagoas, através da Secretaria de Estado da Cultura e Economia Criativa (SECULT).

