Nome: Nelson Vicente Rosa
Conhecido como: Mestre Nelson Rosa
Atividade reconhecida: Mestre de Coco de Roda
Local e Data de Nascimento: 18 /12/1933 (Arapiraca)
Local onde atuou: Arapiraca
Patrimônio vivo de Alagoas:13 /05/ 2005
Falecimento: 15 /08/ 2017 (Aos 83 anos)

Nelson Rosa tinha apenas cinco anos quando, acompanhado pelos pais no Sítio Cacimba Doce, viveu uma experiência inesquecível. Ele ficou fascinado ao ouvir a velha Maria Proteciano cantar o coco “Araúna“, enquanto uma grande roda se formava ao redor dela, dançando o coco de roda na tapagem de uma casa – construções que, na época, eram feitas de barro. Aquele momento marcaria para sempre a vida do menino, que cresceria para se tornar um dos maiores mestres de coco de roda de Alagoas, influenciando profundamente a história do Povoado Fernandes, em Arapiraca, e de todo o estado.

Naquele tempo, a solidariedade comunitária era a essência das vivências no campo: os vizinhos uniam forças para erguer uma casa, enquanto o anfitrião retribuía com comida e bebida. A celebração de encerramento incluía a tapagem, momento em que todos se reuniam para compactar o chão de barro batido ao som do coco de roda. Foi nessa ocasião que Nelson Rosa foi apresentado, de maneira inconsciente, ao autêntico coco de roda, uma expressão que o acompanharia por toda a vida. “Ele dizia que, naquele dia, uma mulher bastante diferente das mulheres da roça pediu para cantar uma música. Ele internalizou aquele canto. Daquele momento em diante, sempre participava das rodas de coco, até que formou o próprio grupo”, relata sua filha, Regineide Rosa.

Legenda para #CEGOVER |Na imagem, Mestre Nelson Rosa, um senhor idoso de pele clara, veste um chapéu de palha com uma faixa escura e uma camisa branca. Ele segura um microfone e canta ou fala com emoção. O fundo é escuro, destacando sua presença.
Antes de fundar o Coco de Roda Nelson Rosa, o mestre deu início à sua trajetória ainda na adolescência, inspirado pelo coco liderado por seu padrinho, Gervásio Lima. Gervásio organizava animados pagodes, nos quais toda a família e os vizinhos se reuniam para dançar e celebrar. Após o falecimento de Gervásio, Nelson Rosa, em 1976, de forma tímida, começou a cantar emboladas no terreiro de sua casa, acompanhado pelo coro de seus familiares. Assim, ele deu novo fôlego a um coco de roça, marcado pela autenticidade e pela força de uma tradição folclórica genuína.
Nos primeiros anos, as apresentações do coco aconteciam exclusivamente em círculos familiares, envolvendo filhos, sobrinhos, primos, cunhados e amigos, que mantinham viva a tradição por meio da música e da dança. Com o tempo, os vizinhos começaram a se juntar ao grupo.
“Ele foi ficando conhecido na redondeza porque era um homem comum, mas gostava de reunir a comunidade e incentivar a participação de todos”, comenta Regineide. “Meu pai sempre esteve ligado às pessoas daqui. Seja no carnaval, nas festas juninas, ou no mês de agosto, durante a Semana do Folclore, ele fazia questão de juntar as pessoas. No final do ano, o nosso Réveillon era especial, porque o padroeiro da nossa comunidade é São Silvestre, celebrado no dia 31 de dezembro. Existe uma promessa que vem desde antes dos meus avós, e meus pais assumiram a responsabilidade por esses festejos.”




Regineide também relembra os detalhes dessas celebrações: “Meu pai criou uma comida típica de fim de ano chamada xililique, uma mistura de pescada, ovos e muitas verduras, que era usada como recheio de pão. Os ingredientes eram doados pelos moradores. Ele também inventou uma bebida chamada Três no Talo, feita com uma mistura de vinhos e outras bebidas, que virou tradição. Além disso, havia um jogo chamado Peru do Ano, realizado com os homens da comunidade. À meia-noite, servíamos a comida e a bebida, e depois começava o coco de roda, que durava até o amanhecer.”
Com o passar dos anos, a chegada dos paredões de som na praça acabou enfraquecendo a tradição. No entanto, a família de Nelson Rosa continuou a preservar o costume. “Mesmo que não aconteça mais na praça, no final de ano ainda fazemos a roda de coco aqui em casa. Quase toda a família mora por perto, e assim mantemos viva essa cultura e tradição. ”
Além de embolador, Nelson Rosa também se destacou como poeta popular. Embora tenha estudado apenas até a 4ª série, ele aprendeu a ler por meio dos cordéis e se tornou um grande amante da leitura. “Aqui ao lado de nossa casa tem um pé de umbuzeiro que chamamos de umbuzeiro cultural, porque era lá, sob sua sombra, que ele recebia as pessoas. Ele era um contador de histórias e causos”, relembra Regineide.

“Meu pai começou a escrever cordéis e também os cantos do coco de roda. Esse umbuzeiro acabou se tornando um símbolo, uma marca registrada. Quem passasse por aqui sempre o encontrava sentado em sua cadeira, pronto para compartilhar suas palavras e histórias”, completa.
O Coco de Roda Nelson Rosa conquistou grande reconhecimento além das fronteiras da comunidade rural do povoado Fernandes, levando a história e a cultura de Alagoas para todo o Brasil. O grupo viajou pelo país apresentando esse tradicional folguedo em diversos projetos culturais, mas Nelson Rosa sempre mantinha suas raízes no ambiente rural que tanto inspirava sua arte.
O grupo se destacou em festivais de folclore, feiras de artesanato e, em 1988, foi convidado para a abertura dos festejos juninos de Campina Grande, na Paraíba, um dos maiores eventos do gênero no país. O folguedo também ganhou projeção nacional ao ser tema de uma reportagem especial no programa Fantástico, da Rede Globo, conduzida pela jornalista Glória Maria.
“Nosso coco de roda participou de festivais importantes, tanto aqui no estado quanto fora, como em Pernambuco e Campina Grande, na Paraíba. Até hoje mantemos o grupo de coco de roda Mestre Nelson Rosa. Ele não tinha ideia do quanto era importante para nossa comunidade, nossa cidade, nosso estado e até para o país, ” comenta Regineide Rosa.
Além do Coco de Roda, Nelson Rosa assumiu, a partir de 1990, a liderança do grupo Destaladeiras de Fumo de Arapiraca, composto por mulheres. Durante mais de cinco décadas, o cultivo do fumo foi a principal atividade econômica de Arapiraca, e as mulheres desempenhavam um papel central nesse processo. Passavam longas horas sentadas no chão dos “salões de fumo“, destalando e selecionando as folhas enquanto entoavam cantigas para espantar o sono nas madrugadas. Os cantos das destaladeiras, marcados por múltiplas vozes e versos improvisados geralmente puxados pelas líderes do salão, tem um estilo característico: trovas rimadas, arrastadas e sem acompanhamento instrumental.


Nelson Rosa desempenhou um papel fundamental ao levar as Destaladeiras de Fumo para os palcos de diversas capitais brasileiras. O grupo chegou a realizar turnês pelo país, difundindo a autêntica cultura popular de Arapiraca. Um dos destaques foi a participação na 18ª edição do projeto Sonora Brasil, realizada no biênio 2015-2016. Com o tema “Sonoros Ofícios — Cantos de Trabalho e Violas Brasileiras”, a turnê contou com a presença de outros três grupos além do liderado pelo Mestre Nelson Rosa.
Foi durante uma das apresentações do Sonora Brasil que Mestre Nelson Rosa começou a manifestar os primeiros sintomas da doença que, pouco tempo depois, o levaria à morte. “Já no final de 2016, bem no finalzinho do circuito mesmo, só faltava nos apresentarmos em Santa Catarina, se não me engano. Meu pai começou a reclamar de uma dor de dente. Voltamos para Arapiraca, ele extraiu o dente, mas a dor não passou, e o rosto dele começou a inchar. Foi aí que fomos ao médico, e ele constatou que meu pai estava com um tumor na face. Esse foi o momento mais difícil, a descoberta desse tumor. Ainda faltavam 16 apresentações em Santa Catarina. Eu falei com meu pai que precisávamos cuidar dele e que eu entraria em contato com o pessoal do Sesc para informar que não conseguiríamos terminar as datas”, recorda emocionada Regineide.



Mesmo enfrentando a doença, Mestre Nelson Rosa incentivou o grupo a continuar a turnê. “Mas ele insistiu que tínhamos condições de seguir sem ele. Ficamos muito relutantes, porque ele era o mestre, a alma do grupo, e conduzia tudo. A apresentação era ‘Mestre Nelson Rosa e as Destaladeiras de Fumo de Arapiraca’. Ele então propôs: ‘Vamos fazer o seguinte: nos reunimos todos os dias para ensaiar’. E assim fizemos. A primeira apresentação foi em Chapecó, e foi a mais difícil, porque tudo remetia a ele. Foi extremamente emocionante. Desde a saída da van aqui de casa até o aeroporto, passamos o caminho todo chorando. Essa primeira apresentação sem ele foi tímida, e como ele sempre fazia a abertura, precisei explicar ao público por que o mestre não estava ali”, relembra Regineide.
Mesmo à distância, Mestre Nelson acompanhava o grupo. “Todas as noites, ele ligava para saber como tinha sido. Apesar de tudo, conseguimos executar todas as músicas, exceto um trava-língua que era exclusivo dele e que só ele sabia fazer. Honramos o nome dele e cumprimos nossa palavra, como ele desejava e sempre fez. ”
Exímio representante do coco de roda, dos cânticos de trabalho das destaladeiras de fumo e excelente poeta e contador de história, Nelson Rosa faleceu em 2017, aos 83 anos, deixando para a cultura nordestina um legado de ritmo, alegria e respeito às tradições de um povo que, como ele, transforma os desafios da vida em motivos para lutar, viver, cantar e dançar.
“Mestre Nelson Rosa foi um homem simples, da roça, um agricultor que cultivava milho, batata, mandioca e também trabalhava no plantio de fumo. Desde muito cedo, ele se apaixonou pela cultura popular. Meu pai faleceu em 15 de setembro de 2017, mas deixou um legado muito forte. Até hoje, seguimos com o grupo de coco de roda Mestre Nelson Rosa. Ele não tinha ideia da dimensão de sua importância. Após seu falecimento, foram feitas inúmeras homenagens, e houve uma ampla divulgação em rádios e jornais“,
declarou Regineide.
Reconhecimento e legado
A dedicação de Nelson Rosa ao coco de roda lhe rendeu diversos títulos e homenagens ao longo da vida. Em 2005, ele foi agraciado com o título de Mestre Patrimônio Vivo de Alagoas, concedido pela Secretaria Estadual de Cultura (Secult) no primeiro edital da Lei do Registro do Patrimônio Vivo. Posteriormente, em 2013, recebeu o reconhecimento de Mestre da Cultura Popular Tradicional pela Prefeitura de Arapiraca.
Entre as muitas homenagens recebidas em vida, destaca-se a Comenda da Ordem do Mérito dos Palmares, concedida pelo Governo de Alagoas em reconhecimento à sua contribuição cultural no estado. Além disso, Nelson Rosa foi homenageado pelos Correios com um selo personalizado em duas ocasiões, sendo a última delas in memoriam, durante as comemorações dos 93 anos de Emancipação Política de Arapiraca.


Mestre Nelson Rosa participou do CD Cantos de Trabalho, da Cia. Cabelo de Maria, e gravou ainda um CD com as cantigas das destaladeiras de fumo. Ele contou sua história no documentário “Caminhos do Coco“, do Coletivo Ganzá, de 2016.
Com os recursos da bolsa do Patrimônio Vivo e do Prêmio de Culturas Populares, conquistado em 2008, além do apoio de uma cooperativa médica de Arapiraca, Mestre Nelson inaugurou um centro de cultura popular em sua comunidade. “Para nós e para ele, foi uma grande honra. Ele usava a bolsa inteiramente para o grupo, seja para melhorar as vestimentas ou proporcionar confraternizações”, relembra Regineide.

Na Vila Fernandes, onde viveu desde o nascimento, em 1933, até seus últimos dias, seu nome foi eternizado em um loteamento e em uma pequena praça. Também foi homenageado no Centro de Referência em Saúde do Trabalhador (CEREST), que leva seu nome. No bairro Massaranduba, planejado com ruas que homenageiam artistas de Arapiraca, uma das vias foi batizada de Rua Mestre Nelson Rosa. Também foi inaugurada a Avenida Mestre Nelson Rosa, que liga o bairro Nilo Coelho, na região do Conjunto Habitacional Jardim das Paineiras, a Vila Fernandes, perpetuando a memória de um dos maiores expoentes da cultura popular alagoana.
Continuidade
Desde sua criação, o Coco de Roda Nelson Rosa sempre foi formado por familiares do Mestre. Após seu falecimento, em 2017, a tradição continuou na família. “Foi uma perda enorme para todos nós, mas ele deixou um legado e um reconhecimento que perduram até hoje. O nome de Mestre Nelson Rosa é amplamente conhecido. No início, fomos muito tímidos em assumir a liderança. Wesley, mesmo com a voz ainda não tão preparada, começou a se moldar e a se preparar. Hoje, é ele quem está à frente do Coco de Roda do Mestre Nelson Rosa”, explica Regineide.
Wesley Nedson, neto e sucessor do Mestre Nelson Rosa, lembra de sua infância no grupo: “Desde os meus 8 anos eu já brincava no coco, sempre junto com meus pais e tios. Quando ele faleceu, ficamos um mês de luto. No mesmo ano, em outubro, recebemos o convite para desfilar durante a festa de emancipação política de Arapiraca. Apesar de ainda estarmos abalados, reunimos a família e alguns brincantes próximos e decidimos aceitar. Não foi fácil, mas, como seria apenas um desfile, sem canto, conseguimos participar. Já em novembro, fizemos uma reunião com mais de 40 integrantes na sala de casa para decidir se o grupo continuaria. Todos concordaram que sim. Mas quem assumiria a liderança? Quem cantaria? Eu nunca havia cantado com ele, mas fui aprendendo. Com esforço e a ajuda de Deus, começamos a ensaiar e seguimos dando continuidade ao legado”, conta Wesley.






Sobre a primeira apresentação oficial sem o Mestre, Wesley relembra: “Foi em janeiro de 2018, durante as festividades da paróquia Nossa Senhora das Graças. Ainda foi muito difícil. Perder um mestre tão importante, uma referência tão grande, não é algo fácil. Sei que não tenho a mesma voz bonita ou o dom que ele tinha, mas sigo firme e forte, assim como ele sempre foi.”
Ao ser questionado sobre possíveis modernizações no grupo, Wesley explica:
“Faço questão de ressaltar que o nosso grupo é autêntico por manter as tradições das casas de taipa, da pisada. Só utilizamos o pandeiro, o canto e a pisada do pé. Em todas as apresentações, quando começamos a pisada, a plateia reage de forma diferente. A pisada é o diferencial do nosso grupo. Nosso maior compromisso é preservar nossas raízes e não deixar que o legado se perca. ”
Regineide conclui: “E nisso a gente vai mantendo a nossa tradição de 48 anos de um grupo autêntico, exatamente como ele era lá atrás, nas nossas raízes. Nosso mestre foi um homem muito forte, muito guerreiro e nunca desistiu. Ele conseguiu levar o nome dele, da nossa comunidade, do nosso estado, pra todo o Brasil. Esse final de trajetória dele foi o seu auge.”
Como próximo passo, os familiares do Mestre planejam a criação de um memorial em homenagem ao Mestre Nelson Rosa, para preservar sua história e eternizar sua contribuição à cultura popular alagoana.

Discografia

Galeria de Imagens – Entrevista



















Arquivo Audiovisual
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Créditos da reportagem
Equipe de pesquisa: Iranei Barreto, Nicollas Serafim, Givaldo Kleber
Transcrição das entrevistas: Nicollas Serafim
Texto: Iranei Barreto
Identidade Visual: Joenne Mesquita
Créditos das imagens: Iranei Barreto, Divulgação e da internet, Acervo da família
*Texto em constante atualização. A proposta do projeto Entorno dos Mestres é criar um arquivo com o maior número de informações possíveis sobre os Mestres do Patrimônio Vivo de Alagoas já falecidos.
*LPG ALAGOAS – O projeto “Entorno dos Mestres” é realizado com recursos da Lei Paulo Gustavo do Governo Federal, operacionalizado pelo Governo de Alagoas, através da Secretaria de Estado da Cultura e Economia Criativa (SECULT).

