
Nome: Marinalva Bezerra da Silva
Atividade reconhecida: Artesanato em barro, ceramista
Nascimento: 06 /10/ 1938 (União dos Palmares)
Atividade reconhecida: Ceramista, artesanato do Barro
Onde atuou: Povoado Muquém (Zona rural de União dos Palmares)
Reconhecida como Mestre do Patrimônio Vivo de Alagoas: 22 /08/ 2019
Falecimento: 28 /01/ 2021 (Aos 83 anos)
Trabalhar com o barro é uma tradição ancestral que atravessou gerações na família de Mestra Marinalva, última remanescente do Quilombo dos Palmares a produzir utilitários de barro. “Começou com a minha bisavó e chegou até mim. Meu sustento veio das panelas; criei cinco filhos e oito sobrinhos assim”, dizia orgulhosa a ceramista, cujo legado transcende o aspecto funcional de suas peças e reflete uma história de resistência e criatividade.
Moradora da Comunidade Quilombola do Muquém, em União dos Palmares, Marinalva cresceu em uma família humilde e adquiriu desde cedo o conhecimento passado por gerações sobre o manuseio do barro. Da terra vermelha retirada das margens do Rio Mundaú, combinada ao talento de suas mãos habilidosas, ela não apenas sustentou sua família, mas também moldou um legado que perdurou por mais de 70 anos.
A ceramista imprimiu sua marca singular em cada peça, produzida manualmente em um movimento contínuo, sem o auxílio de torno. Esse método artesanal conquistou a admiração de entusiastas e especialistas, não apenas em Alagoas, mas também em outros cantos do mundo. Suas peças, assinadas com a letra “M” para destacar sua autoria, carregam uma estética única que transcende o uso tradicional.





Entre suas criações estão panelas, potes, moringas, chaleiras e cuscuzeiras – estas últimas especialmente celebradas por estudiosos da arte pela técnica peculiar e execução inteiramente manual. As cuscuzeiras, em particular, tornaram-se um símbolo de sua habilidade, sendo apreciadas não apenas como objetos utilitários, mas também como obras de arte. “O chef Wanderson sempre comprava as panelas de minha mãe e até hoje compra as cabeças que meu pai fez”, conta Maria Rosimeire, filha caçula de Marinalva.
Mestra Marinalva não apenas preservou a tradição do barro em sua comunidade, mas também foi testemunha e protagonista da continuidade de um saber ancestral. Enquanto as mulheres moldavam peças utilitárias para o cotidiano, os homens transformavam o mesmo barro em telhas e tijolos, numa simbiose que unia trabalho e cultura de forma intrínseca. Nascida e criada no Quilombo, ela carregava na memória as canções que embalavam o ofício de sua mãe. “Minha mãe cantava muito Luiz Gonzaga enquanto fazia as panelas, e eu dançava muito naquela época”, recordou certa vez.

Legenda para #CEGOVER | Na imagem, Mestra Marinalva, uma mulher idosa de pele escura e cabelos brancos curtos, está de pé segurando um pote de barro em uma das mãos. Usa uma blusa estampada preta e branca e uma saia longa azul com detalhes verdes. Está de chinelos e tem uma expressão serena no rosto. Ao seu redor, há várias peças de cerâmica, como potes e panelas de barro. O ambiente é simples, com paredes claras, quadros e medalhas pendurados, e móveis cobertos com panos verdes.
O legado de Marinalva transcende o barro e está imortalizado em suas obras, espalhadas pelo mundo. Cada peça é um testemunho de sua dedicação, habilidade e resistência, resgatando a memória do Quilombo dos Palmares e de sua gente.
“Eu sou a caçula de cinco filhos – três mulheres e dois homens – e o que sei da minha mãe é que ela foi uma mulher extremamente batalhadora. Trabalhou incansavelmente com o barro para sustentar não apenas os cinco filhos, mas também os netos, bisnetos e os oito sobrinhos que ela criou como filhos. Só tenho histórias boas para contar dela”, relembra Maria Rosimeire, emocionada ao falar sobre a mãe.
Ela destaca a parceria entre os pais como um dos pilares da família. “Meu pai saía às quatro da manhã para buscar o barro, depois o pisava para que ela pudesse moldar as panelas. Minha mãe fazia potes, panelas, cuscuzeiras – tudo isso desde criança, porque esse saber já vinha dos pais dela. Eles sempre trabalharam juntos: ela criava as peças e ele as rapava e queimava no forno a lenha. ”
Reconhecimento e legado
Em 2019, Marinalva recebeu o maior reconhecimento de sua trajetória: o título de Mestra Patrimônio Vivo de Alagoas. A conquista foi amplamente celebrada por ela e por sua família. “Foi tanto abraço que eu ganhei com isso”, comentou a artesã em uma de suas últimas entrevistas.
Infelizmente, Marinalva não teve muito tempo para aproveitar essa honraria. Em 2020, menos de um ano após receber o título, faleceu aos 82 anos. Ela deu entrada em um hospital com dores na região dos rins e, após uma cirurgia de emergência, não resistiu. Sua filha Rosimeire lamenta a partida repentina: “Depois que ela recebeu esse título, infelizmente não chegou a completar um ano recebendo a bolsa. Sua partida foi muito rápida. ”
Rosimeire relembra o cuidado e a dedicação da mãe até seus últimos dias. “Antes de fazer a cirurgia, ela trabalhou muito, quase como se estivesse adivinhando. Fez louça até às oito horas da noite e encheu a casa de peças. No dia seguinte ao velório, não havia mais nenhuma – conseguimos vender todas”, recorda emocionada.









A morte de Marinalva evidenciou a importância de sua arte para a cultura alagoana. “Uma mulher forte e inspiradora, de olhar profundo, marcada por muita luta e resistência. Suas peças ganharam destaque nacional pela técnica única de moldar o barro manualmente”, lamentou Mãe Neide em uma rede social.
O legado da mestra foi igualmente destacado por seus filhos. “Não é só a perda de uma artesã, é a perda de uma amiga e de uma guerreira. Minha mãe sempre foi uma guerreira. Ela se foi, mas o legado dela continua. Apesar da idade, ela ainda trabalhava. Criou cinco filhos com a panela de barro”, declarou Aparecido, um de seus filhos.
Rosimeire também destacou o impacto que Marinalva teve em sua grande família: “Ela teve 25 netos, e os bisnetos eu nem faço conta, nem dos sobrinhos – a família dela era enorme. Ela cuidava de quase todos nós. Tudo passava por ela – e através do barro. ”
Ainda em vida, Mestra Marinalva foi reconhecida por suas contribuições à cultura popular. Em 2019, além do título de Patrimônio Vivo, foi homenageada com a Comenda Ranilson França, da Asfopal (Associação dos Folguedos Populares de Alagoas). Anos antes, em 2013, recebeu o Prêmio Culturas Populares – Edição 100 Anos de Mazzaropi – A Cultura Popular no Cinema, promovido pelo Ministério da Cultura.



Também em 2019, ela deixou sua marca ao ser escolhida para moldar o troféu entregue no Prêmio Tia Marcelina, uma honraria que celebra personalidades alagoanas que trabalham pelo empoderamento negro. A cerimônia, organizada pela Secretaria de Estado da Mulher e dos Direitos Humanos (Semudh) em parceria com o Conselho Estadual de Promoção da Igualdade Racial (Conepir-AL), destacou o simbolismo da escolha de Marinalva. “Ter dona Marinalva como uma das pessoas que darão vida ao Prêmio Tia Marcelina é, para nós, motivo de grande alegria. O Muquém, em União dos Palmares, é uma comunidade com uma história de resistência tão forte e bela quanto a de Tia Marcelina e das pessoas que estarão conosco, como a própria Marinalva”, declarou Maria Silva, então secretária da Semudh.
Continuidade
Por enquanto, a tradição do barro parece ter sido interrompida na família de Mestra Marinalva. “Nenhum de nós, os filhos, aprendeu. Ela tentava ensinar, mas o que a gente fazia era só tirar as lenhas para enfornar a louça e carregar o barro, tudo para ajudar o meu pai. A gente sempre sentava ao lado dela, mas nunca conseguimos aprender de verdade”, relata Rosimeire, com um misto de pesar e saudade.



Após o falecimento de Marinalva, o Mestre Aurélio, seu companheiro de vida e ofício, continuou a trabalhar enquanto sua visão permitiu. “Ele só fazia as cabeças de barro, não as panelas. Quando enxergava bem, fazia cabeças muito bonitinhas”, relembra Rosimeire. “A irmã dele também fazia panelas, mas já faleceu.”
Em vida, Mestra Marinalva já percebia as transformações que comprometiam a continuidade de sua arte. A queda nas vendas de peças utilitárias, como panelas e cabaças, era um desafio constante. “As coisas ficaram mais difíceis depois da chegada das panelas de alumínio”, comentou certa vez. “Antes, se eu levasse 20 cabaças para a feira, voltava sem nenhuma. Agora, todo mundo só quer garrafa térmica. Antes, a gente só bebia água do pote; agora, todo mundo só quer água gelada.” Mesmo assim, mantinha seu amor pelas tradições: “Eu não troco minha água do pote por nada.”
Possivelmente, Marinalva já sabia que a perpetuação da tradição dentro da família estava ameaçada. Seu bisneto Carlos lembra com carinho e emoção das tentativas da avó de ensiná-lo. “Ela pegava um pedaço de barro e dava pra gente trabalhar. Fazia isso logo cedo, umas 7 horas da manhã, e eu ia ajudar. Gostava mais de quando minha avó e meu avô faziam juntos. Agora, não tem como continuar. Às vezes, a gente lembra de quando trabalhava com ela e acaba chorando”, conta, com lágrimas nos olhos.


Apesar da ausência da mestra e das dificuldades em manter viva a prática, seu legado permanece em múltiplas formas. Em sua residência, a família transformou a sala onde Marinalva criava suas peças em um pequeno memorial. O espaço exibe certificados, fotografias e outras homenagens que celebram sua trajetória. Na comunidade do Muquém, um espaço cultural com um banner conta sua história, perpetuando sua memória entre os moradores. Além disso, sua importância foi destacada em uma homenagem no novo terminal rodoviário de União dos Palmares.
O legado de Mestra Marinalva transcende o barro e ecoa na memória de sua família, na comunidade do Muquém e em todos aqueles que reconhecem o valor de sua arte na preservação da cultura e da ancestralidade alagoana. A tradição pode ter sofrido interrupções, mas o impacto de sua vida e obra continua a inspirar e a ressoar como um símbolo de resistência e identidade cultural.
Galeria de Imagens – Entrevista























Arquivo Audiovisual
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Créditos da reportagem
Equipe de pesquisa: Iranei Barreto, Nicollas Serafim, Givaldo Kleber
Transcrição das entrevistas: Nicollas Serafim
Texto: Iranei Barreto
Identidade Visual: Joenne Mesquita
Créditos das imagens: Iranei Barreto, Divulgação e da internet, Acervo da família
*Texto em constante atualização. A proposta do projeto Entorno dos Mestres é criar um arquivo com o maior número de informações possíveis sobre os Mestres do Patrimônio Vivo de Alagoas já falecidos.
*LPG ALAGOAS – O projeto “Entorno dos Mestres” é realizado com recursos da Lei Paulo Gustavo do Governo Federal, operacionalizado pelo Governo de Alagoas, através da Secretaria de Estado da Cultura e Economia Criativa (SECULT).

