
Nome completo: Luzia Simões da Silva
Nascimento: 13 /12/1933 (Coqueiro Seco/AL)
Atividade reconhecida: Mestre de Chegança e Pastoril
Patrimônio vivo de Alagoas: 13 /05/2005
Falecimento: 03 d/02/ 2010 (aos 77 anos de idade)
Ainda menina, com apenas 13 anos, Luzia Simões se encantou pelos folguedos, contrariando a vontade de seus pais, que não aprovavam sua participação. Mal sabiam eles que aquela garota estava destinada a transformar a história de Coqueiro Seco com muita coragem, determinação e um amor incondicional pela cultura do seu estado. “Meus pais não gostavam de brincadeira. Eu fui contra a vontade deles”, relembrou ela em uma entrevista.
Persistente, Luzia seguiu seu sonho, aprendendo as tradições com mestres como o Sr. Orlando, o Sr. Pedro da Empresa e a Mestra Dulce. Ainda adolescente, ingressou em seu primeiro grupo de cultura popular. “Comecei na chegança da Mestra Lila. Eu era contramestra e mouro. Até hoje, é o meu folguedo preferido”, disse.
Coqueiro Seco, situado às margens da Lagoa Mundaú, foi o palco onde a menina cresceu e virou uma mulher notável. Pequena em estatura, mas gigante em atitudes. Dedicou-se por mais de 40 anos a liderar o pastoril, as baianas e a chegança, mobilizando sua comunidade e conectando gerações através da cultura. “Quando eu estou na brincadeira, parece que tudo que tem de ruim em mim sai. Fico tão feliz, mais ainda quando nos apresentamos em outras cidades”, contou certa vez.
“Eu amo a cultura popular e estou nela por causa da mestra Luzia. Éramos vizinhos e todos os dias eu ia ouvir as suas histórias. Ela foi um dos nossos maiores exemplos de dedicação, assim como a mestra Lucimar. Sempre juntas, nunca separadas. Mesmo após a sua morte, nós ainda sentimos muito a presença da mestra Luzia em cada apresentação, em cada dança, em cada decisão que tomamos,” conta emocionado o diretor cultural de Coqueiro Seco”,
Nayran Lima
Mestra Luzia liderou o grupo “Chegança Silva Jardim” e o “Pastoril Nossa Senhora Mãe dos Homens” por décadas, além de fundar o grupo de Baianas “Voltam a Sorrir”. Junto com sua fiel seguidora Lucimar e a folclorista Carmen Omena, conquistou importantes apoios para o lançamento do CD “Baianas de Santa Luzia”.
O grupo da “Chegança Silva Jardim” tem raízes antigas, mas foi Luzia quem o revitalizou, após uma gincana folclórica em escolas municipais. Ela reuniu estudantes e moradores locais, formando novas gerações de chegança e pastoril, resgatando o antigo nome e ampliando o grupo, que passou a contar com 40 a 45 figurantes de diferentes idades e gêneros.
Em 2003, o grupo ganhou destaque ao participar da gravação de um DVD com o músico e compositor Antônio Nóbrega, em Recife (PE). Já em 2007, foi agraciado com o Prêmio Culturas Populares – Mestre Duda, do Ministério da Cultura. Com o prêmio, gravaram o CD “Chegança Silva Jardim”, em parceria com instituições como o SESC Alagoas e a Prefeitura de Coqueiro Seco. “Comecei a dançar Chegança, pastoril e quadrilha com a mestra Luzia, quando a gente começou a ensaiar para o lançamento desse CD que demorou alguns anos para ser gravado. A apresentação foi em Maceió, no SESC Centro. Lembro do dia quando telefonaram para ela avisando que os CDs estavam chegando e ela ficou muito feliz e emocionada, era um sonho da vida dela que estava sendo realizado, ela queria muito esse registro”, lembra Nayran

Legenda para #CEGOVER | Na imagem, Mestra Luzia Simões, está em destaque, participando de uma apresentação da Chegança Silva Jardim. Ela veste uma camisa branca simples e canta com expressão intensa. Ao fundo, estão outros integrantes da Chegança, duas mulheres com uniformes brancos decorados com detalhes dourados nos ombros e chapéus de marinheiro, além de um homem segurando um instrumento de percussão. A apresentação ocorre em um ambiente próximo ao mar, com uma leve brisa perceptível no movimento das roupas.
As apresentações do grupo não se limitaram a Alagoas: participaram de eventos em outros estados, como no Ceará. “Eu nunca pensei em chegar ao Juazeiro e consegui, graças ao folclore”, dizia Mestra Luzia. “Por nossa região aqui em Alagoas já fomos em quase todos os lugares. Aqui em Coqueiro Seco, os grupos sempre se apresentam nas festas da padroeira. Mestra Luzia faleceu em 2010, mas a presença dela ainda é muito forte nos nossos folguedos. É emocionante e muito forte,” reforça Nayran.
Mestra Luzia Simões, guardiã das tradições de Coqueiro Seco, faleceu em 3 de fevereiro de 2010, aos 77 anos. Deixou um legado inestimável, perpetuado por Lucimar, que também recebeu o título de Mestre do Patrimônio Vivo de Alagoas. “A mestra Lucimar conheceu a mestra Luzia através dos folguedos. Como ela tinha essa parte da educação por ser professora, uma das alternativas que mestra Luzia encontrou para perpetuar os folguedos foi colocar essa parte cultural nas escolas”, explica Nayran Lima. “A convivência com mestra Luzia era do jeito de uma mãe mesmo, não gosto nem de falar muito porque me emociono. Eu tinha ela como minha mãe, o respeito que eu tinha à minha mãe, eu tinha a ela. Uma pessoa que eu nunca esqueci, a gente se dava muito bem, tudo a gente combinava, ” completa a Mestra.

“Tudo o que eu sei hoje eu aprendi com ela. Ela começou a participar da dança de Chegança na época do sr. Orlando, um senhor que existia aqui em Coqueiro Seco e ensaiava Chegança e Baiana… e eu sempre era louca para dançar desde criança, mas meu pai não deixava. Muitas vezes eu saía escondida, esperava meu pai dormir e ia tentar olhar os ensaios que eram feitos na casa do sr. Orlando”, conta Lucimar.
Reconhecimento
Reconhecida como Patrimônio Vivo de Alagoas em 2005, Mestra Luzia continua sendo uma inspiração. “Lembro quando ela recebeu o título de Patrimônio Vivo de Alagoas, a gente comemorou muito, choramos e nos abraçamos. Eu fui com ela quando ela recebeu. Eu ia com ela para todo canto”, recorda Lucimar. “Mestra Luzia foi uma das primeiras a receber o título, lá em 2005 e é um dos maiores orgulhos da gente aqui em Coqueiro. Ela foi quem resgatou a cultura popular aqui na cidade, se hoje a gente tem uma cultura viva foi porque ela, juntamente com os outros mestres da cidade, agarrou com unhas e dentes essa tradição”, reforça Nayran. Em 2020, como homenagem póstuma, foi instituído o Prêmio Mestra Luzia Simões, através da Lei Aldir Blanc, celebrando sua contribuição inestimável à cultura popular do município de Coqueiro Seco.


“Ela ensaiava o pastoril em uma pequena sede que mandou construir de palha; depois passou a realizá-los na própria casa. Ela organizava o pastoril tanto com adultos quanto com crianças. Inclusive, houve uma ocasião em que fui mestra do pastoril, ” recorda sua filha, Lúcia Simões. “Minha mãe sempre apoiou os folguedos do município, muitas vezes tirando dinheiro do próprio bolso, inclusive do que recebia como Patrimônio Vivo, para confeccionar as vestes e os calçados. Era muito amor e devoção.“
Continuidade
De acordo com a Mestra Lucimar, o legado da Mestra Luzia permanece vivo através de grupos como a Chegança e o Pastoril das Idosas “Mensageiro de Fátima”. “O Pastoril, a Chegança e as Baianas costumavam se apresentar durante o Natal, enquanto as quadrilhas e o coco de roda animam as festividades juninas”, explica. Para Nayran, o projeto Agosto Cultural é uma forma importante de manter viva essa herança. “Nós desenvolvemos esse projeto nas escolas, onde a Mestra Lucimar transmite seus conhecimentos às crianças. Cada escola tem seu próprio grupo folclórico, uma iniciativa iniciada pela Mestra Lucimar em parceria com a Associação Musical. Mestra Luzia sempre dizia que sonhava em levar a cultura para as escolas, e desde 2017 temos promovido isso no ambiente escolar”, relata Nayran.
A Mestra Luzia teve três filhas e um filho, mas nenhum deles assumiu a liderança dos grupos deixados por ela. “A Lúcia ainda participou um pouco, mas depois se afastou. A Ana continua até hoje, enquanto Vera não quis se envolver, ” explica Nayran. “Tentei deixar o pastoril com elas, mas recebi um não. Hoje, sinceramente, só vejo alguém com real interesse em dar continuidade à tradição: a Lena da Ribeira, ” comenta Lucimar.

“Falar da minha mãe é difícil, porque ela foi muito especial para mim. Na minha visão, como mestra de folguedos em Coqueiro Seco, só ela. Ela sabia como liderar, acompanhava tudo de perto. Mesmo aos 77 anos, idade em que faleceu, ainda dançava. No dia de sua morte, mestreou uma apresentação da Chegança até às 22h45. Quando chegou em casa, tomou banho, tomou um chá e acabou sofrendo um infarto no sofá,” recorda emocionada Lúcia Simões.
“Quando criança, participei do pastoril e da chegança, acompanhando minha mãe até a adolescência. Depois dos 18 anos, precisei parar para trabalhar e ajudar minha família, já que meu pai ficou deficiente e dependia de mim para se locomover pela cidade. Aos 55 anos, ele faleceu,” completa Lúcia, que era a filha mais próxima do pai.
Após a morte do pai, Lúcia precisou deixar o município para trabalhar, mas continuou admirando o trabalho de sua mãe à distância. “Mesmo assim, eu acompanhava o que ela fazia e a admirava profundamente, embora ela não fosse reconhecida em Coqueiro Seco. Foi reconhecida como Patrimônio Vivo do Estado e resgatou o folguedo, que estava praticamente extinto no município. Ela tirou a cidade das páginas policiais e a colocou no mapa da cultura popular,” conta Lúcia.
Sobre assumir as atividades dos grupos folclóricos deixados por sua mãe, Lúcia admite que não tem interesse. “Tentei junto com minha irmã dar continuidade, mas trabalhar com pessoas é muito difícil. Algumas músicas me emocionavam porque lembravam minha mãe, mas fui me afastando aos poucos. Só Deus sabe a falta que ela me faz. Minha mãe foi uma guerreira, resgatou um folguedo abandonado na cidade, ” diz emocionada.

Quanto à continuidade da tradição na família, Lúcia acredita que sua neta Lavínia, de 9 anos, pode seguir os passos da bisavó, já que demonstra grande interesse pela dança. “Ela tem uma tendência natural para amar o folclore. Minha filha sempre conta a história da Mestra Luzia para ela, dizendo que sua bisavó foi uma mestra de folguedos, dançava pastoril e chegança, e era uma referência na área. Lavínia diz: ‘Quando eu crescer, mamãe, vou dançar como a minha bisavó. ’ Não sei se ela seguirá, mas a semente está plantada. Só espero que, no tempo dela, tudo seja mais fácil e leve. Minha mãe enfrentou muitas dificuldades, ” reflete Lúcia.
Lúcia também lembra dos sonhos de sua mãe. “Antes de falecer, ela tinha planos de ensaiar um grupo de Guerreiro, mas não conseguiu concretizar esse desejo. Outro sonho dela era viajar de avião, e esse ela realizou: voou seis vezes, sempre levando os folguedos,” conta com orgulho.
Discografia
CD Chegança Silva Jardim (2009)



CD Baianas de Coqueiro Seco, Baianas Voltam a Sorrir, (2007)



Galeria de Imagens – Entrevista













Arquivo Audiovisual
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Créditos da reportagem
Equipe de pesquisa: Iranei Barreto, Nicollas Serafim, Givaldo Kleber
Transcrição das entrevistas: Nicollas Serafim
Texto: Iranei Barreto
Identidade Visual: Joenne Mesquita
Créditos das imagens: Iranei Barreto, Divulgação e da internet, Acervo da família, Acervo de Mestra Lucimar
*Texto em constante atualização. A proposta do projeto Entorno dos Mestres é criar um arquivo com o maior número de informações possíveis sobre os Mestres do Patrimônio Vivo de Alagoas já falecidos.
*LPG ALAGOAS – O projeto “Entorno dos Mestres” é realizado com recursos da Lei Paulo Gustavo do Governo Federal, operacionalizado pelo Governo de Alagoas, através da Secretaria de Estado da Cultura e Economia Criativa (SECULT).






