
Nome: Maria José dos Santos
Conhecida como: Maria do Padeiro
Atividade reconhecida: Mestra das Baianas
Local e data de nascimento: 16 de janeiro de 1946 (Povoado das Barreiras em Coruripe)
Local onde atuou: Coruripe
Patrimônio vivo de Alagoas: 18 de agosto de 2009
Data do falecimento: 11 de julho de 2022 (Aos 76 anos)
Maria do Padeiro, uma mulher incansável e apaixonada pela cultura popular, tornou-se uma das maiores referências folclóricas de Alagoas. Reconhecida como a maior Baiana que Coruripe já conheceu, ela deixou um legado cultural inestimável. No povoado de Barreiras, onde nasceu e viveu até o fim de sua vida, a Mestra liderou por mais de três décadas o grupo Baianas Praieiras das Barreiras, dedicando-se a celebrar e preservar as tradições culturais de sua comunidade.
Seu amor pela cultura tinha raízes profundas na família, herdado de seu pai, Dionísio Faustino dos Santos, que dançava coco de roda e encantava a todos com histórias contadas em versos. Esse legado foi absorvido por Maria José dos Santos, seu nome de batismo, e transmitido às gerações seguintes, fortalecendo a identidade cultural tanto da família quanto da comunidade de Coruripe.

Legenda para #CEGOVER |Na imagem, Maria do Padeiro, uma mulher idosa de pele clara, expressão séria e olhar firme, está sentada em um degrau. Usa um vestido longo e rodado vermelho, com estampa florida e detalhes de renda branca. Na cabeça, um lenço vermelho com enfeites coloridos. Está adornada com colares de contas coloridas e pulseiras. Uma bengala branca e preta está apoiada ao seu lado. Ao fundo, uma parede clara.
Maria do Padeiro não limitou seu talento e dedicação apenas às baianas. Inspirada por Maricô, uma referência do Guerreiro e das Baianas, ela começou sua trajetória cultural no pastoril, passando pelas caboclinhas e pelo guerreiro. Na década de 1960, fundou o grupo Baianas Praieiras das Barreiras, reunindo mulheres que, vestidas com trajes tradicionais, realizavam danças e evoluções ao som de instrumentos de percussão. As apresentações mais emblemáticas ocorriam em janeiro, durante as celebrações de São Sebastião, padroeiro do povoado de Barreiras, mas o grupo também levou sua arte a diversas regiões de Alagoas, promovendo a cultura popular do estado.





Em 1997, foi oficialmente consagrada como Mestra das Baianas, consolidando sua posição como guardiã dessa tradição. “Minha mãe foi uma mulher guerreira. Ela dançava pastoril, caboclinhos, guerreiro, reisado e, por fim, se destacou como mestra de Baianas. Nosso grupo começou com ela há mais de 30 anos”, relata emocionada sua filha, Maria Betânia.
Reconhecimento e Legado
Reconhecida como Patrimônio Vivo de Alagoas em 2009, Maria José dos Santos, ou Mestra Maria do Padeiro, tornou-se uma referência cultural no estado, especialmente para o grupo Baianas das Barreiras, do qual era líder. Sua filha Betânia recorda com emoção o impacto desse reconhecimento: “Quando ela recebeu o título, fui com ela até a Secretaria de Cultura, em Maceió. Ela ficou muito emocionada, chorou de felicidade. Afinal, não é todo mundo que recebe um título como esse. Lembro que ela chegou até a ser homenageada como selo dos Correios. ”


Mestra Maria do Padeiro compartilhou momentos marcantes com Mestra Traíra, outra grande figura do folclore alagoano e líder do folguedo Mané do Rosário. Juntas, dividiram palcos, rodas de dança e uma amizade que se tornou parte da história cultural de Coruripe. “Conheci Maria do Padeiro, ou Maria da Barreira, em um salão de xangô. Dançamos juntas, e dali em diante nos tornamos amigas-irmãs. Onde uma ia, a outra ia também. Até o título de Patrimônio Vivo recebemos na mesma época. Nós duas sempre trabalhamos para manter vivos nossos folguedos”, relembra Mestra Traíra.
O falecimento de Maria do Padeiro, em 11 de julho de 2022, deixou uma lacuna na cultura de Coruripe, mas seu legado segue em expansão. Antes de sua partida, ela preparou Betânia para assumir a liderança do grupo Baianas Praieiras.




“Antes de falecer, minha mãe pediu que eu não deixasse o grupo acabar, e assim eu fiz. Hoje somos 14 mulheres, mantendo viva a tradição como ela deixou. Mudamos poucas coisas, mas preservamos a essência da dança original, com o apito, o zabumba e o canto. Acompanhei minha mãe a vida toda nas Baianas, e hoje é uma honra dar continuidade ao que ela começou”, explica Betânia.
Um ano após a perda da mãe, Betânia foi reconhecida como Mestra do Patrimônio Vivo de Alagoas, reforçando ainda mais sua responsabilidade em preservar e promover a cultura local. Além de liderar as Baianas Praieiras, ela está à frente de outros projetos culturais importantes, como a quadrilha junina Os Pestinhas, que tem 27 anos de história, e o grupo de xaxado Asa Branca, fundado em 2006. Mais recentemente, Betânia criou o grupo das Baianas Mirins, chamado As Marias, uma homenagem à sua mãe.

Foto: Iranei Barreto
“Quando recebi o Patrimônio Vivo, chorei muito porque estava assumindo literalmente o trabalho da minha mãe, que tinha falecido um ano antes. Aqui em Coruripe, só tinha ela como mestra de Baianas, e eu fui considerada mestra também no lugar dela. Foi um misto de emoções, tristeza e alegria ao mesmo tempo. Mas eu estou feliz, porque sei que onde ela está, ela está feliz porque eu continuei o trabalho dela”,
declara Betânia, emocionada.
A continuidade da tradição na família está garantida. Juliana, filha de Betânia, dança nas Baianas Praieiras e também ajuda a liderar As Marias. “Minha filha herdou o amor pela cultura da avó, e minha neta, bisneta de Maria do Padeiro, também faz parte do grupo das Baianas Mirins. Estamos passando o legado de geração em geração”, celebra Betânia.
O trabalho iniciado por Maria do Padeiro continua a inspirar e preservar as tradições culturais de Coruripe. “Faço questão de manter vivo o legado da minha mãe e a cultura do nosso município. É a nossa família dando continuidade e renovando as tradições. Isso é motivo de muito orgulho para nós”, conclui Betânia.
Homenagem póstuma
Em maio de 2023, a Prefeitura de Coruripe prestou uma significativa homenagem à Mestra Maria do Padeiro, dando seu nome à nova Orla da Barreiras. A cerimônia ocorreu durante as comemorações dos 131 anos de Emancipação Política de Coruripe, na foz do Rio Coruripe com o Oceano Atlântico. O prefeito Marcelo Beltrão entregou à comunidade a requalificada Orla da Barreiras Maria José dos Santos, celebrando o legado da Mestra, reconhecida como Patrimônio Vivo de Alagoas.

“Para todos nós, é um sonho ver o nome da minha mãe batizando a Orla do Povoado Barreiras, lugar onde ela viveu, se dedicou e carregou com tanto carinho o nome da comunidade através do folguedo Baianas Praieiras. A orla agora reflete o espírito alegre e vibrante da minha mãe, que sempre esbanjou vida e alegria. Tenho certeza de que, onde quer que ela esteja, está muito feliz com esta homenagem. Um viva aos folguedos populares e à Dona Maria do Padeiro!”, declarou emocionada Betânia, filha da homenageada, durante a solenidade de inauguração.
Betânia destacou ainda outra homenagem recente: “Na abertura dos jogos da escola aqui do bairro, também foi realizada uma celebração muito bonita à memória dela. Esses gestos mostram como o legado de minha mãe permanece vivo e inspirador. ”
Galeria de Imagens – Entrevista
















Arquivo Audiovisual
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Créditos da reportagem
Equipe de pesquisa: Iranei Barreto, Nicollas Serafim, Givaldo Kleber
Transcrição das entrevistas: Nicollas Serafim
Texto: Iranei Barreto
Identidade Visual: Joenne Mesquita
Créditos das imagens: Iranei Barreto, Divulgação e da internet, Acervo da família
*Texto em constante atualização. A proposta do projeto Entorno dos Mestres é criar um arquivo com o maior número de informações possíveis sobre os Mestres do Patrimônio Vivo de Alagoas já falecidos.
*LPG ALAGOAS – O projeto “Entorno dos Mestres” é realizado com recursos da Lei Paulo Gustavo do Governo Federal, operacionalizado pelo Governo de Alagoas, através da Secretaria de Estado da Cultura e Economia Criativa (SECULT).

