
Nome: Juvêncio Joaquim dos Santos
Conhecido como: Mestre Juvêncio
Atividade reconhecida: Mestre de Chegança
Local e data de nascimento: 31/05/1920 (São Miguel dos Campos)
Local onde atuou: Rio Largo
Patrimônio vivo de Alagoas: 03 /08/ 2012
Falecimento: 15/01/2023 (Aos 102 anos)
“A população fazia questão de prestigiar as apresentações. Eu me sentia muito realizado, empreguei todo o meu tempo em conservar a Chegança da forma que sempre foi, seguindo toda sua tradição”, destacou Mestre Juvêncio em entrevista.
No entanto, sua dedicação foi além da Chegança. Mestre Juvêncio lutou incansavelmente pela valorização da cultura popular, com especial atenção aos folguedos alagoanos. Na década de 1980, ao perceber as dificuldades enfrentadas pelos grupos de folguedos, procurou a Secretaria de Estado da Cultura (Secult), onde conheceu o professor Ranilson França. Dessa parceria nasceu, em 1985, a Associação dos Folguedos Alagoanos (Asfopal), instituição que Mestre Juvêncio ajudou a fundar e onde assumiu o título de presidente de honra, consolidando seu papel como um defensor incansável na preservação das nossas autênticas manifestações populares.
“A Chegança era o amor da vida dele, mas ele também se dedicava a outros folguedos, porque entendia a importância de preservar, ensinar e valorizar essas tradições, além de levá-las para escolas, colégios e faculdades”, relata Cícero Farias, amigo e ex-presidente da Asfopal. “Ele sempre buscava fazer o bem, ajudar o próximo, fortalecer a cultura, valorizar os mestres e suas famílias, garantindo que fossem respeitados e reconhecidos.”




A trajetória de Mestre Juvêncio, no entanto, começa muito antes desse episódio. Nascido em 30 de maio de 1920, em São Miguel dos Campos, o jovem Juvêncio Joaquim dos Santos teve sua vida transformada em 1937, quando seus pais se mudaram para Rio Largo, uma cidade em expansão na época. Aos 17 anos, ele se encantou pela Chegança, mergulhando no universo rico e simbólico dessa manifestação cultural sob a orientação de mestres renomados como Benedito Guedes e Antônio Feitosa. Nesse período, os folguedos eram financiados pela Companhia Alagoana de Tecidos, proporcionando momentos de esplendor e fortalecendo as tradições locais.
Em 1940, Juvêncio assumiu o posto de Capitão de Mar e Guerra na Chegança liderada por Mestre Antônio Feitosa. Cinco anos depois, em 1945, com o afastamento de seu mestre, Juvêncio assumiu a liderança da Chegança em Rio Largo. Fundou a Chegança Cruzador São Paulo, uma homenagem à cidade de São Paulo e ao apóstolo Paulo, cujo dia é comemorado em janeiro pelos fiéis católicos. “Quis fazer uma homenagem à cidade São Paulo e ao santo, fazendo uma comparação com a grandeza e importância da Chegança”, explicou certa vez. Sua liderança marcou profundamente a história cultural do município, deixando um legado de devoção e trabalho incansável em prol da tradição.

Legenda para #CEGOVER |Na imagem, Mestre Juvêncio da Chegança, participa de um desfile cultural em uma rua. Ele veste um uniforme de gala azul-marinho com detalhes dourados nos ombros e nos punhos, uma faixa verde e amarela cruzada no peito, e um chapéu branco com insígnias. Em sua mão direita, segura uma espada. Ao fundo, há pessoas assistindo e participando do desfile, incluindo crianças, uma delas segurando balões vermelhos e brancos. A rua é ladeada por casas de arquitetura simples.
Sob sua liderança, a Chegança Cruzador São Paulo se tornou um símbolo da tradição em Rio Largo, especialmente durante o período natalino, quando era um dos folguedos mais apreciados. Esse folguedo, originado no século XVIII, recria uma expedição naval, com participantes representando marujos que dançam e cantam, narrando a vida dos homens do mar.
“Meu pai ia para São Paulo, Recife, com a Chegança, que era como uma marinha”, conta Maria de Fátima, filha caçula de Mestre Juvêncio. “Tanto que a Marinha mandava dois ônibus para levar o grupo, e meu pai era o mestre, que ficava no meio, cantando enquanto eles respondiam.”
Maria de Fátima relembra, com carinho, as apresentações em Gustavo Paiva: “Era muito bonito quando a Chegança ia se apresentar lá. A zabumba e os pratos seguiam na frente, e eles desfilavam, marchando pelas ruas até chegarem em Gustavo Paiva. Lá, já estava montado um grande navio que o Dr. Gustavo Paiva preparava todos os anos para que eles dançassem dentro, enquanto todo mundo assistia embaixo. Tinha pastoril de um lado, guerreiro do outro; era uma grande festa de Natal, que acontecia todo ano.”






Além das memórias das apresentações, Fátima destaca o carinho da comunidade: “Meu pai foi muito bem recebido pela população rio-larguense, nunca faltava nada para ele. Quando precisavam de fardamento, o Governo mandava tudo: sapatos, uniformes, o que fosse necessário. Ainda enviavam dinheiro e ônibus para levá-los a apresentações em cidades distantes, onde às vezes passavam até uma semana. Eu era criança, adolescente na época, mas lembro de tudo. Depois, fui crescendo e me acostumando com a vida que ele levava.”
Reconhecido por sua dedicação inabalável à Chegança Cruzador São Paulo e sua preocupação com outros folguedos, Mestre Juvêncio também se destacou por sua educação e pela elegância de seu modo de vestir. Suas vestes, cuidadosamente confeccionadas por sua esposa, chamavam atenção pela beleza e detalhamento. Antes das apresentações, ele costumava andar pelas ruas da cidade, e aqueles que não o conheciam poderiam facilmente confundi-lo com um oficial da Marinha, tamanha a imponência de sua figura.

Os trajes elaborados e o porte altivo de Mestre Juvêncio e de sua equipe sempre renderam elogios ao folguedo por onde passava. “Minha mãe, enquanto viva, consertava as roupas dele, colocava aqueles adereços de marinheiro. Ele e o grupo estavam sempre bem arrumados para as apresentações”, relembra Fátima.
A relação de Mestre Juvêncio com a Chegança era íntima e apaixonada. “Era muito bonito ver como ele gostava da chegança. Estava sempre cantarolando pelos cantos, criando e cuidando dos uniformes com muito zelo. Lembro-me dele sentado com minha avó, pensando nas roupas de cada integrante. A Chegança Cruzador era o ar que meu pai-avô respirava”, contou em entrevista o neto Edson Santos.
Mesmo com o avanço da idade e os desafios impostos pela saúde, Mestre Juvêncio nunca abandonou seu papel de líder do grupo. Fátima recorda os diálogos frequentes entre seus pais: “Minha mãe dizia: ‘Mas, homem, você já brincou muito, já está em tempo de descansar’. E ele respondia: ‘Não, essa brincadeira eu só deixo quando morrer’. ”
As memórias deixadas por Mestre Juvêncio permanecem vivas na família e cultura que ele tanto amou. Niedja Balbino, sua primeira neta, compartilha: “As lembranças que tenho dele são sempre relacionadas à Chegança. Ele passava a vida falando sobre isso, cantando as canções do folguedo para nós. Me lembro dele dizendo: ‘O São Paulo é minha vida’. Mesmo com a idade avançada, admirávamos sua disposição em resgatar e preservar a tradição.”

A dedicação de Mestre Juvêncio foi apoiada por figuras como o professor Ranilson França, que o incentivou a gravar as músicas da Chegança, assegurando seu registro para futuras gerações. Niedja também relembra: “Com o incentivo de muitas pessoas, como o professor Ranilson, meu avô tentou ensinar as músicas para os jovens e gravou o que cantava para que ficasse registrado. Ele saía de Rio Largo de trem para ir às reuniões da Asfopal.” Além disso, em 2004, Mestre Juvêncio foi contratado como Agente Cultural pela Secretaria Estadual de Educação, no âmbito do projeto “Mestre na Escola”. Por meio dessa iniciativa, ele teve a oportunidade de formar grupos de Chegança nas escolas estaduais, transmitindo seus conhecimentos e divulgando o folclore alagoano entre jovens estudantes.
Apesar das dificuldades, como o acidente que sofreu em Maceió enquanto ia a uma dessas reuniões, Mestre Juvêncio não se deixou abater. Niedja detalha: “Foi numa dessas idas a Maceió que ele teve o primeiro acidente. Ele já estava começando a ter problemas auditivos por conta da idade e foi atropelado por um motoboy. Mas isso ainda não o impediu. Assim que se recuperou, ele já estava indo novamente para as reuniões da Associação. Às vezes tentávamos convencê-lo a marcar um dia em que alguém pudesse ir com ele, mas ele não queria nem saber. O dia marcado era o dia que ele estava lá.”
Legado e Memória
O compromisso de Mestre Juvêncio com a cultura do estado era absoluto. Ele viveu e respirou o Cruzador São Paulo até seus últimos dias, deixando um legado inestimável para a cultura alagoana e servindo como exemplo de paixão e dedicação à preservação das tradições culturais. Mestre Juvêncio faleceu em 15 de janeiro de 2023, de causas naturais, aos 102 anos de idade.
“Faço questão de dizer que sou a primeira neta do Mestre Juvêncio, porque era assim que ele me apresentava, e é com muita emoção que eu falo sobre ele, que nos deixou há tão pouco tempo que ainda sentimos sua presença”, lamenta Niedja. “A lembrança que eu tenho é que ele foi um lutador até o fim da vida. Mesmo quando não podia mais sair da cama, fazia de tudo para que a memória do folguedo não se perdesse. Era um motivo de muito orgulho para ele. Quando vestia a roupa da Chegança, era como se ele fosse realmente da Marinha. Ele tinha muito amor por isso. ”

A história de Mestre Juvêncio também deixou marcas profundas em seus amigos e admiradores. Cicero, grande amigo da família, recorda com carinho: “Ele viveu e foi um homem feliz aqui na terra: amigo, respeitador, um homem ético de uma família maravilhosa. Tive o maior prazer de ser amigo de Seu Juvêncio e de sua família, como a Fátima, os netos e netas. Quando eu chegava à residência dele, em Rio Largo, era uma festa. Eu só conseguia sair de lá depois que almoçasse ou tomasse café, porque ele fazia questão disso. ”
O falecimento de Mestre Juvêncio também foi marcado por homenagens de representantes da cultura alagoana. A secretária de Cultura, Mellina Freitas, ressaltou sua contribuição: “A cultura alagoana perde mais um grande mestre. Com muita tristeza, recebemos a notícia do falecimento do mestre Juvêncio, uma figura sempre presente nas atividades realizadas pela Secult e um homem que honrou seu título, sempre difundindo a Chegança e a cultura popular alagoana. Ele deixa um legado importantíssimo e uma grande lacuna dentre os Patrimônios Vivos de Alagoas”.
Mestre Juvêncio não apenas personificou a Chegança Cruzador São Paulo, mas também inspirou gerações com seu amor pela tradição, seu espírito de luta e sua dedicação à cultura alagoana. Ele viveu intensamente o folguedo, que comandou com paixão por mais de oito décadas. Seu legado permanece vivo na memória de quem teve o privilégio de conhecê-lo e na história de Alagoas, como símbolo de resistência cultural.
Sobre a continuidade da Chegança Cruzador São Paulo, Fátima, filha do mestre, relata os desafios enfrentados ao longo do tempo. “Os membros do grupo foram falecendo, e meu pai foi o último a partir. Infelizmente, os familiares não se envolveram na tradição, e os jovens não demonstravam interesse. Tenho um livro só com cânticos da Chegança, mas nunca participei, eram só os amigos dele. Depois que me casei e tive meus filhos, a Chegança já foi decaindo um pouco”, explica.






Ela recorda ainda o esforço do professor Júlio, do Colégio Judith Paiva, para manter a tradição viva: “Ele buscava meu pai em casa para ensinar os jovens da escola, mas eles só brincavam naquela hora e depois não queriam mais. Meu pai dizia ao professor que a mocidade de hoje não quer mais saber dessas coisas.”
Apesar das dificuldades, o amor de Mestre Juvêncio pela Chegança transcendeu o tempo. Curiosamente, dois de seus familiares seguiram carreira militar na Marinha do Brasil, uma ligação que reforça a simbologia da tradição que ele tanto cultivou.
Reconhecimento e Homenagens
A contribuição de Mestre Juvêncio ao folclore alagoano foi amplamente reconhecida ao longo de sua vida. Entre as maiores honrarias recebidas está o Prêmio de Cultura Popular “Dona Isabel”, concedido pelo Ministério da Cultura em 2009. Em 2012, ele foi consagrado como Mestre do Patrimônio Vivo de Alagoas pela Secretaria de Cultura do Estado, um reconhecimento ao seu trabalho incansável em prol da valorização e preservação das tradições folclóricas.
Cícero, ex-presidente da Asfopal, ressalta a relevância de Mestre Juvêncio: “Ele foi o primeiro mestre a receber o certificado da Asfopal, além de ter sido o primeiro presidente de honra da associação. ”A devoção de Mestre Juvêncio à Chegança era evidente em todos os aspectos de sua vida. Mesmo com a idade avançada, ele continuava lutando para manter viva a memória do folguedo. Como relembra Fátima: “Ele sempre dizia que a Chegança era o ar que ele respirava. Até quando não podia mais sair da cama, ele se preocupava em preservar essa tradição. ”








A força de sua paixão era tão marcante que ele fazia questão de se apresentar impecavelmente vestido, com os trajes da Chegança, sempre que era convidado para um evento. Seu esforço em perpetuar a tradição, mesmo em meio às dificuldades, é um testemunho de seu amor incondicional pela cultura popular alagoana.
Mestre Juvêncio deixou um legado que transcende gerações, como exemplo de compromisso com as raízes culturais e de uma vida dedicada à arte e à memória coletiva de Alagoas. Sua partida, aos 102 anos, encerra um capítulo importante da história do folclore alagoano, mas também fortalece a missão de preservar e valorizar esse patrimônio único.
Galeria de Imagens – Entrevista

























Arquivo Audiovisual
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Créditos da reportagem
Equipe de pesquisa: Iranei Barreto, Nicollas Serafim, Givaldo Kleber
Transcrição das entrevistas: Nicollas Serafim
Texto: Iranei Barreto
Identidade Visual: Joenne Mesquita
Créditos das imagens: Iranei Barreto, Divulgação e da internet, Acervo da família
*Texto em constante atualização. A proposta do projeto Entorno dos Mestres é criar um arquivo com o maior número de informações possíveis sobre os Mestres do Patrimônio Vivo de Alagoas já falecidos.
*LPG ALAGOAS – O projeto “Entorno dos Mestres” é realizado com recursos da Lei Paulo Gustavo do Governo Federal, operacionalizado pelo Governo de Alagoas, através da Secretaria de Estado da Cultura e Economia Criativa (SECULT).

