Mestre Jayme: um dos mais brilhantes e atuantes mestres do guerreiro alagoano

Foto: Da internet

Nome: Djalma José de Oliveira
Conhecido como: Mestre Jayme
Atividade reconhecida: Mestre de Guerreiro
Local e data de nascimento: 02 /05/ 1939 (Belo Jardim/PE)
Localidade: Coruripe
Patrimônio vivo de Alagoas: 13 0/05/ 2005
Falecido: 21/08/ 2010 (Aos 71 anos)

Não tenho preguiça de nada, muito menos de cantar. Sou bom na rima, no improviso e na memória. Não tem uma peça que eu já tenha cantado que tenha esquecido”, declarou Mestre Jayme em uma entrevista à pesquisadora Josefina Novaes.

Enérgico, vaidoso e profundamente apaixonado pelas tradições culturais populares, Mestre Jayme, nascido Djalma José de Oliveira, era pernambucano de origem e alagoano de coração. Natural de Belo Jardim, Pernambuco, era filho de José Germano de Oliveira e Angélica da Conceição.

Sua trajetória no Guerreiro começou cedo, aos 13 anos de idade, sob a orientação de grandes mestres como Francisco Jupi e João Inácio de Atalaia, além de Ismerita, de Murici. Antes de se dedicar exclusivamente ao Guerreiro, explorou outras expressões culturais: cantou com baianas, fez emboladas, pagodes e tocou viola. Porém, foi no Guerreiro que encontrou sua verdadeira paixão. “É do Guerreiro que eu gosto mais, e foi com ele que fiquei”, declarava com frequência. Seu sorriso largo refletia a alegria dessa escolha, e ele costumava dizer: “Quem dança Guerreiro não pode ser triste”.

Foto: Acervo da família
Mestre Jayme e Mestra Vitória. Foto: Acervo da família

Para Josefina, Mestre Jayme era um poeta do cotidiano, um narrador das pequenas e grandes histórias que permeavam a vida ao seu redor. Ele próprio explicava que sua inspiração nasceu ao ouvir vaqueiros tangendo bois enquanto cantavam boiada. “Aí abriu a veia da poesia, a chave da minha cabeça, e nunca mais fechou”, relatou em uma ocasião. Entre suas peças mais marcantes, destacam-se temas como a queda de um avião em Chã Preta, a enchente em Viçosa, a morte dos xangozeiros e o episódio em Juazeiro do Norte, quando o prefeito cortou uma árvore plantada por Padre Cícero.

Além de seu talento nato para a rima e o improviso, Mestre Jayme era reconhecido por sua vaidade. Josefina descreve no livro “ASFOPAL – Associação de Folguedos Populares de Alagoas – 25 Anos Brincando Sério”, que ele cuidava meticulosamente da aparência.

Sempre elegante, vestindo camisas de mangas compridas de cambraia de linho e calças sociais. Nunca de chinelos, sempre com sapatos muito bem polidos. E, quando em cena, impecável em sua indumentária de Mestre de Guerreiro, adornado por seu belíssimo chapéu em forma de igreja, confeccionado por ele mesmo.”

Josefina

De acordo com Josefina, Mestre Jayme tinha um “ranking” pessoal dos mestres que admirava. Para ele, a grande rainha de Guerreiro era Maria Delmira, seguida por Maria Pinheiro, ambas de Rio Largo. Entre os palhaços, destacava Hilton da Capela como o mais interessante; Verdelinho, como o melhor mateu; Maria das Dores, como a melhor lira; e Zé Índio, como o melhor índio de Guerreiro. Mestre Jayme também costumava dizer: “Um mestre para ser bom precisa conhecer as 25 partes do Guerreiro e, igual a mim, bom como eu, só Mestre Adelmo de Atalaia.”

A Vida e a Arte de Mestre Jayme entre Coruripe e Maceió

Mestre Jayme escolheu Coruripe para viver, onde dançou por muitos anos no Guerreiro “Águia Negra”, liderado pelo Mestre Eduardo. Foi lá também que conheceu Dolores Gomes, que viria a ser sua esposa. Eram inseparáveis na vida e na arte. Dolores, fazia questão de acompanha-lo nas andanças e se apresentava no Guerreiro como sereia. Rosenildo Gomes, filho de Dolores, conta que quando Jayme se juntou com sua a mãe, ele tinha apenas oito meses de nascido, mas só passou a morar com o casal aos 8 anos. Desde então, começou a se apresentar junto com o padrasto e a mãe.

Mestre Jayme e sua esposa Dolores. Foto: Acervo da família

 “A gente brincava com o mestre Eduardo, aqui de Coruripe. Quando ele faleceu, seus filhos, que eram os donos do Guerreiro, não quiseram dar continuidade. Depois da morte dele, o Guerreiro em Coruripe praticamente acabou. Meu pai não tinha seu próprio Guerreiro, mas brincava onde houvesse um grupo”, explica Rosenildo.

Após o adoecimento de Mestre Eduardo, Mestre Jayme seguiu para Maceió, onde ajudou a amiga e comadre, Mestra Vitória, na criação do renomado Guerreiro Leão Devorador, de Chã da Jaqueira. Durante um bom tempo, apresentou-se ao lado de Mestra Vitória, sua filha Anadeje e José Laurentino, outro grande mestre de Guerreiro.

Rosenildo recorda as viagens constantes em busca de apresentações:

“Às vezes a gente saía no dia 23 de dezembro e só voltava para casa depois do Carnaval, em fevereiro. Praticamente em todas as cidades de Alagoas a gente já brincou. Não teve prefeitura no estado onde a gente não se apresentou. Eu tocava tambor, minha mãe fazia o papel da sereia, e Mestre Jayme liderava. Ele era um grande mestre de Guerreiro. ”

Essas jornadas eram longas e animadas, mas desafiadoras. “Ficávamos meses fora, dormindo em colégios, salões ou outros lugares improvisados. Sinto falta dessa época, era muito bom, mas mais fácil quando eu era solteiro. Depois de casado, essa vida ficou mais complicada”, relembra com saudade.

Comitiva alagoana no encontro Sul Americano de Mestres de cultura popular de 2006. Foto: Acervo da família

Mesmo doente, Mestre Jayme continuou participando do Guerreiro. Desde a infância, em Pernambuco, onde nasceu, ele já brincava. Atuou como Mateus (palhaço do Guerreiro) antes de se tornar mestre. Ele mesmo confeccionava seus chapéus e enfeitava as roupas. Após sua morte, Rosenildo não conseguiu dar continuidade à tradição, devido às responsabilidades familiares e profissionais. “Levei meu filho para algumas apresentações, mas ele também não deu continuidade. ”

Rosenildo Gomes e seu filho Wellington Farias seguram o último chapéu de guerreiro confeccionado pelo Mestre Jayme
Foto Iranei Barreto

Wellington Farias, neto afetivo de Mestre Jayme, compartilha sua admiração:

“Eu era pequeno quando andava com meu avô, mas lembro que amava o Guerreiro. Para mim, ele foi o único avô que conheci e uma pessoa maravilhosa. Tenho muito orgulho de sua história. Quando vejo alguma manifestação popular como o Guerreiro, sinto muita saudade. ”

Além de suas apresentações, Mestre Jayme realizava trabalhos esporádicos, como limpar sítios de coqueiros, cortar cana e madeira. No entanto, sua maior paixão e dedicação sempre foi o Guerreiro. “Brincávamos mais fora de Coruripe do que aqui. Em todo lugar, ele era muito bem recebido, conhecido como o Guerreiro do Mestre Jayme, mesmo sem ter um grupo próprio”, relembra Rosenildo.

Reconhecimento

Mestre Jayme deixou um legado inestimável para a cultura alagoana. Em 2005, foi reconhecido como Mestre do Patrimônio Vivo de Alagoas pela Lei do Registro do Patrimônio Vivo, e, posteriormente, recebeu o Prêmio de Cultura Popular “Humberto Maracanã” do Ministério da Cultura, pelo brilhantismo e dedicação ao folclore alagoano. “Ele recebeu o título de Mestre do Patrimônio Vivo e viveu uns cinco ou seis anos após isso, até falecer em 21 de agosto de 2010, por problemas respiratórios”, recorda Rosenildo.

Nêgo Jayme, como gostava de ser chamado, foi uma figura emblemática na história do Guerreiro Alagoano, carregando nas danças e cantorias a essência de uma cultura vibrante e ancestral. Mesmo que nunca tenha tido seu próprio guerreiro ou que seus descendentes não tenham seguido diretamente seus passos, o legado de Mestre Jayme ecoa em cada brincante que mantém viva a chama do Guerreiro. Sua memória transcende gerações, inspirando aqueles que, como ele, acreditam na força da tradição como um elo indestrutível com nossas raízes culturais.


Galeria de Imagens – Entrevista


Discografia


Publicações encontradas

Reportagens e publicação sobre o Mestre  Hilton de Capela publicadas na internet
Mestre Jaime Oliveira, do Guerreiro Alagoano
https://nasombradojuazeiro.com.br/2020/08/23/mestre-jaime-oliveira-do-guerreiro-alagoano/
Essa Terra É Um Planeta -Mestre Djalma (Djalma José de Oliveira)
https://discografia.discosdobrasil.com.br/compositor/mestre-djalma-djalma-jose-de-oliveira
Mestre Jayme (falecido)
https://secult.al.gov.br/politicas-e-acoes/registro-do-patrimonio-vivo/mestres-do-rpv-al-por-ano-de-premiacao/ano-2005/583-mestre-jayme-falecido
Música de mestre Jaime
https://www.historiadealagoas.com.br/folclore-alagoano-folguedos-e-dancas.html
https://discografia.discosdobrasil.com.br/discos/musica-do-brasil-cd-02-musica-dos-mares-e-das-terras
NOVAES, Josefina Maria Medeiros. ASFOPAL – Associação de Folguedos Populares de Alagoas – 25 Anos Brincando Sério. Maceió: Gráfica do Estado/CEPAL
 
18. Guerreiro Alagoano – Chamada da Lyra – Mestre Djalma de Oliveira. Coordenação: Gustavo Quintella (2002).
https://www.historiadealagoas.com.br/folclore-alagoano-folguedos-e-dancas.html

Créditos da reportagem

Equipe de pesquisa:  Iranei Barreto, Nicollas Serafim, Givaldo Kleber

Transcrição das entrevistas: Nicollas Serafim

Texto: Iranei Barreto

Identidade Visual: Joenne Mesquita

Créditos das imagens: Iranei Barreto, Divulgação e da internet, acervo da família


*Texto em constante atualização. A proposta do projeto Entorno dos Mestres é criar um arquivo com o maior número de informações possíveis sobre os Mestres do Patrimônio Vivo de Alagoas já falecidos.

 *LPG  ALAGOAS – O projeto “Entorno dos Mestres” é realizado com recursos da Lei Paulo Gustavo do Governo Federal, operacionalizado pelo Governo de Alagoas, através da Secretaria de Estado da Cultura e Economia Criativa (SECULT). 

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