Hilton da Capela: Mestre do Repente e da Arte do Improviso

Nome: José Gonçalves dos Santos
Conhecido como: Hilton da Capela Hilton do Pandeiro
Atividade reconhecida: Pandeirista e Cantador
Local e Data de Nascimento: 19/12/1932 (Cajueiro)
Local onde atuou: Capela
Patrimônio vivo de Alagoas: 19 /08/ 2010
Falecido: 27 /09/ 2011. (Aos 79 anos)

Hilton Gonçalves dos Santos deu seus primeiros passos na música ainda menino, criando sons improvisados com latas e peneiras que encontrava em casa. Autodidata, aprendeu sozinho a criar e tocar, até que, em um gesto que mudaria sua vida, ganhou um pandeiro de presente de seu patrão. O menino barulhento tornou-se Hilton do Pandeiro, adotando também o nome da cidade onde viveu toda a sua vida, Capela, embora tenha nascido em Cajueiro. Esse jovem talentoso cresceria para se tornar um dos maiores pandeiristas e cantadores de seu tempo.

Aos doze anos, Hilton começou a cantar e tocar profissionalmente, se apresentando em localidades como Cajueiro, Serra do Mamão, Usina Capricho e Usina Boa Sorte. Sua fama cresceu rapidamente, graças ao talento inigualável na arte do repente e do improviso, sempre acompanhado pela inconfundível batida do pandeiro, que se tornou sua marca registrada e o consagrou como mestre.

Mestre Hilton de Capela. Foto: Acervo da família

“Quando eu o conheci, ele já era artista. Hilton sempre dizia que começou ainda criança, aos 12 anos, a tocar pandeiro. Foi um dom natural, algo que ele aprendeu sozinho. Não havia ninguém na família dele que tocasse; ele desenvolveu tudo por conta própria”, conta Maria Aparecida, sua esposa. “Ele começou batendo numa latinha porque não tinha pandeiro. A viola ele já começou adulto, mas o pandeiro foi o que ele se dedicou mesmo. O pandeiro ele não abandonava por nada. Eu guardei até pouco tempo, mas outra irmã minha me pediu para tocar com ele num samba de roda. E a viola dele ainda está comigo”.

Mestre Hilton era muito mais do que um exímio mestre no pandeiro, na viola e no improviso; ele também se destacava como brincante do Guerreiro. Atuou como palhaço em grupos de renome, como o Guerreiro do Mestre Adelmo, da Mestra Joana Gajuru e participou do Guerreiro “Treme Terra”, do Centro de Tradição Folclórica “Nossa Senhora da Conceição”, em Capela, entre outros. Seu talento foi reconhecido e aplaudido em diversas localidades de Alagoas e em outras regiões do Brasil. “Ele passou todo o tempo dançando no guerreiro do mestre Adelmo, foi o que ele mais dançou. Hilton também participou do grupo da finada Joana Gajuru e depois que mestre Adelmo morreu, ele ficou com desgosto e parou por uns tempos”, relembra sua esposa.

Mestre Hilton de Capela. Foto: Acervo da família

 “Quando começamos nossa história, ele já participava de Guerreiro, tocava viola e pandeiro. Eu era adolescente naquela época. Ele era primo do meu pai, e acabamos nos casando quando ele tinha 47 anos e eu, 17. Durante toda a nossa convivência, a vida dele sempre girou em torno do pandeiro, da viola e do Guerreiro. Eu também venho de uma família ligada ao Guerreiro, pois meus pais eram brincantes. Foi nesse universo que nos conhecemos. Tivemos três filhos, que também seguiram no Guerreiro. Até hoje, continuamos a nos apresentar”, comenta Maria Aparecida.

Sobre a luta diária para sustentar a família numerosa, Aparecida relata: “Quando nós nos casamos ele não tinha emprego, era um trabalhador rural. E quando aparecia a oportunidade para ele sair para uma cantoria, passava a noite, 2 ou 3 dias fora de casa. Viajou pra São Paulo com o guerreiro, passou quase um mês. Essa vida de trabalhador rural ele levava junto com 4 filhos da primeira mulher. Saía de madrugada para buscar o sustento. ”

Maria segurando a última viola de Mestre Hilton. Foto: Iranei Barreto
Maria aparecida e seus sobrinho Victor e os netos. Foto: Iranei Barreto

Mestre Hilton faleceu no dia 27 de outubro de 2011, aos 78 anos de idade, causando grande comoção na família, na cidade de Capela e região.  Na época, Jailda Moraes, então diretora de Cultura de Capela, destacou: “O município perde um grande ícone da cultura popular. Mestre Hilton deixou uma lacuna na cultura de Capela, pois ainda não existe substituto que reúna os saberes notórios que ele possuía. ”

Reconhecimento

Pelo reconhecimento à sua significativa contribuição para a cultura popular, o Governo do Estado, por meio da Secretaria de Estado da Cultura (Secult), em 2010, concedeu ao mestre o título de Patrimônio Vivo da Cultura Alagoana. “Quando ele recebeu o título de Patrimônio Vivo de Alagoas a gente foi para o Palácio do Governador para receber o diploma. A secretária de cultura daqui que ajeitou tudo”, recorda Fátima. “Depois que recebeu o Patrimônio Vivo, acho que só passou um ano e pouco recebendo”, lamenta. “Hilton foi o primeiro capelense a receber esse título. Aqui tinha o mestre Cícero, mas só cantava Guerreiro. Já ele, cantava guerreiro, cantava com viola e com pandeiro e isso desde pequenininho”.

 Maria Aparecida, sua esposa, lamenta a falta de reconhecimento mais amplo pelo legado de Mestre Hilton: “Aqui em Capela, se há alguma homenagem a ele, deve estar nas escolas. Eu visitei a Escola Cícero Cabral Toledo e vi uma foto bem grande dele com um pandeiro. Depois que ele faleceu, me pediram muitas coisas dele e nunca devolveram. Perdi praticamente tudo. Ele estava em contato com um rapaz para gravar um CD, mas acabou partindo antes, e o projeto não se concretizou.”

Continuidade
O pandeiro, a viola e o repente ganharam novos significados na vida da família de Hilton, enquanto a tradição do Guerreiro permanece viva entre os seus. Victor, artesão e brincante de Guerreiro, explica: “Meu tio-avô Hilton era palhaço de Guerreiro e repentista, fazia embolada. Essa tradição está na minha família desde os meus avós, que a transmitiram para nossa geração. Hoje, danço no grupo com minhas primas e irmãs. Quando viajo com o Guerreiro, observo as cantigas, as roupas e os personagens, e levo essas inspirações para minha arte no barro, ” revela.

A convivência com ele me influenciou muito. Apesar de o instrumento que eu toco ser a flauta, essa ligação com a tradição e a cultura da família fortaleceu minha relação com o Guerreiro. Quando passei para a arte do barro, isso me deu uma nova forma de ver o Guerreiro. Também danço e sei o quanto é cansativo. Hoje, as pessoas estão acostumadas com música moderna, mas o Guerreiro tem dança, tem rima. Era a cultura do povo antigo, e não podemos deixar morrer. O Guerreiro é o símbolo de Alagoas, nosso patrimônio cultural. As roupas, as danças… Tudo o que vejo no Guerreiro tento incorporar na minha arte: o carisma, as pessoas rindo, dançando, os mínimos detalhes nos bonecos. ”

Victor Guerreiro
Victor Guerreiro, exímio artesão na arte do barro, se inspira no tio-avô nas confecção suas esculturas. Foto: Iranei Barreto

Aparecida relembra como a perda dos pais abalou a família, levando-os a interromper as atividades do Guerreiro, inclusive Hilton, que já estava desanimado pelas perdas de amigos. Recentemente, no entanto, a família decidiu resgatar essa tradição.

Faz uns quatro anos que uma irmã minha disse: ‘Vou fazer um Guerreiro.’ Eu não quis, mas ela falou que não podíamos deixar a cultura morrer. Isso foi no velório de um irmão nosso, lá em Maceió. Achei que ela estava brincando, mas ela levou a sério. Começou a comprar as coisas aos poucos, sem ajuda. Depois conseguiu um dinheirinho com um edital e comprou tudo”, conta Aparecida.


Galeria de Imagens – Entrevista


Arquivo Audiovisual


Discografia


Publicações encontradas

Reportagens e postagens sobre o Mestre  Hilton de Capela publicadas na internet
Hilton da Capela (falecido)
https://secult.al.gov.br/politicas-e-acoes/registro-do-patrimonio-vivo/mestres-do-rpv-al-por-ano-de-premiacao/ano-2010/600-hilton-da-capela-falecido
Capela perde ícone da cultura popular
https://painelnoticias.com.br/geral/9803/capela-perde-icone-da-cultura-popular
Hilton de Capela (José Gonçalves dos Santos)
https://discografia.discosdobrasil.com.br/musico/22413
Morre em Capela, Mestre “Hilton do Pandeiro”
https://www.cadaminuto.com.br/noticia/2011/10/27/morreu-o-mestre-hilton-do-pandeiro-de-capela8207
VOCÊ CONHECEU O NOSSO SAUDOSO JOSÉ GONÇALVES DOS SANTOS (Hilton do Pandeiro) DE NOSSA PRINCESA CAPELA?
https://www.facebook.com/watch/?v=427500118898599
Hilton De Capela
https://www.discogs.com/artist/6410888-Hilton-De-Capela?srsltid=AfmBOorXZBqYqHQrR58_ran-WAuuE80W0L7AQ1cHpVCRJzD6aMTlIruo
Hilton de Capela Alagoas
https://www.youtube.com/watch?v=u4PBIiXePfU

Créditos da reportagem

Equipe de pesquisa:  Iranei Barreto, Nicollas Serafim, Givaldo Kleber

Transcrição das entrevistas: Nicollas Serafim

Texto: Iranei Barreto

Identidade Visual: Joenne Mesquita

Créditos das imagens: Iranei Barreto, Divulgação e da internet, acervo da família


*Texto em constante atualização. A proposta do projeto Entorno dos Mestres é criar um arquivo com o maior número de informações possíveis sobre os Mestres do Patrimônio Vivo de Alagoas já falecidos.

 *LPG  ALAGOAS – O projeto “Entorno dos Mestres” é realizado com recursos da Lei Paulo Gustavo do Governo Federal, operacionalizado pelo Governo de Alagoas, através da Secretaria de Estado da Cultura e Economia Criativa (SECULT). 

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