Mestre Dedeca: A Tradição do Reisado no Sertão Alagoano


Nome completo: José Pereira Lima
Conhecido como: Mestre Dedeca
Atividade reconhecida: Mestre do Reisado
Local e Data de Nascimento: 19/03/1930 (Água Branca)
Local onde atuou: Povoado Serra do Cavalo em Água Branca
Patrimônio vivo de Alagoas: 18 /08/ 2008
Falecimento: 10 /11/ 2023

Foto: Léo Villanova

José Pereira Lima, conhecido como Mestre Dedeca, viveu até os 93 anos e dedicou impressionantes 80 anos de sua vida ao Reisado, uma manifestação cultural profundamente enraizada no sertão alagoano.

Sua trajetória na folia teve início ainda na infância, no grupo liderado pelo mestre paraibano Porfírio, em Água Branca, onde aprendeu suas primeiras peças e cantorias. Mais tarde, enriqueceu seus conhecimentos ao participar ativamente das brincadeiras populares, sob a orientação do saudoso Mestre Oséas.

Mestre Dedeca viveu toda a sua vida no Povoado Serra do Cavalo. Foi lá que, na fase adulta, criou o Reisado Nossa Senhora Aparecida, em homenagem à padroeira da comunidade. Por meio desse grupo, ele se tornou um pilar na preservação e no fortalecimento dessa tradição, mantendo viva a chama do Reisado no sertão alagoano.

Foto: Da internet
Foto: Léo Villanova

A professora Antônia Alves, filha de Manoel Batista, outro ícone da comunidade conhecido por dançar Reisado, compartilha memórias dessa época: “As brincadeiras eram muito boas. Começavam às 7 da noite e iam até 1 ou 2 horas da manhã. Era todo sábado, e já se marcava antecipadamente a casa onde seria a festa. Era uma verdadeira missão do Reisado, com uma casa diferente a cada sábado. Após a morte do Mestre Oséas, meu pai assumiu junto com Dedeca. Meu pai era o Rei, e seu Dedeca, o Mestre. Mais tarde, quando meu pai ficou debilitado por conta de AVCs, Dedeca assumiu tudo e fez o Reisado prosperar.”

Antônia também relembra com alegria sua própria participação no Reisado Nossa Senhora Aparecida: “E eu era uma das figurinas do cordão azul e a gente saía muito para apresentar o Reisado em outros estados. Íamos pra Pernambuco em festas de igreja. O interessante do Reisado era que nós tínhamos que ter em mente uma rima. As músicas eram cantadas improvisadas e os passos eram diferenciados também, ” lembra.

Mestre Dedeca teve dois casamentos e um total de 29 filhos. Apesar de sua dedicação ao Reisado, nenhum de seus filhos seguiu seus passos na tradição.

“Eu sou o mais velho do segundo casamento. Meus irmãos também não se interessaram muito em continuar com o folguedo. Eu sei pouca coisa do meu pai, convivi muito longe dele, mas lembro que ele contava que viu um pessoal da Paraíba e se interessou. Foi assim que começou esse trabalho com o Reisado aqui na região e conseguiu deixar um grande legado”, comenta Paulo Lima, um de seus filhos.

Ele também relembra um momento especial de convivência com o pai: “Quando eu voltei de São Paulo, eu o vi passando o que aprendeu para as crianças e os jovens. Ainda cheguei a brincar um pouquinho com ele, mas foi coisa pouca. ”

Antônio Lima, o filho mais velho do primeiro casamento de Mestre Dedeca, relembra como a fama do pai no folguedo impactou a família:

“Eu assisti algumas vezes meu pai dançar Reisado, ensaiando na verdade. A turma era muito animada e eu achava importante o que ele fazia, principalmente depois que ele ganhou esse título de mestre. O pessoal me conhecia muito através do meu pai, ele era muito conhecido aqui, a gente era até mais bem tratado pelo povo por conta da história dele”,

lembra orgulhoso, Antônio Lima

“Das recordações que eu tenho é que ele era muito lutador. Até os 90 anos, ele queria brincar no Reisado e ainda trabalhava na roça. Ele era feliz; até nas festinhas aqui de casa ele era o mais animado. ”

Enquanto os filhos de Mestre Dedeca não seguiram diretamente a tradição, a segunda geração da família teve uma relação mais próxima com o Reisado, aprendendo desde pequenos com o avô. Daniele, uma de suas netas, compartilha suas memórias:

Minha relação com o Reisado começou desde que eu me entendo por gente. Desde os 5 anos eu já dançava com meu avô Dedeca, então eu cresci no meio dessa cultura. Sempre ficava muito animada quando tinha apresentação, principalmente fora. A gente ensaiava e as pessoas gostavam porque era bonito. Eu sempre gostei muito. ”

Daniele reflete sobre o incentivo que recebeu de Mestre Dedeca e sobre o impacto do tempo que passou com ele: “A gente sempre teve incentivo, ele sempre falava pra gente continuar, mas a gente foi meio que se perdendo e deixando também. Tanto que hoje eu acho que poderia ter aproveitado mais esse período quando ele ainda estava aqui. Hoje em dia, eu estou estudando mais essa cultura do Reisado justamente pra não esquecer, nem deixá-la ser esquecida, e nem o legado que era do meu avô. ”

Juliana Santos, sobrinha de Mestre Dedeca, mas criada como neta, foi apresentada ao Reisado desde muito jovem e acompanhou de perto a dedicação do Mestre para manter viva a tradição na Serra do Cavalo. “Dedeca brincou até quase os 90 anos. Lembro que a gente se apresentava muito nos Festivais de Inverno; era a melhor época pra gente. Tinha um tempo em que as pessoas fechavam a rua pra ver você dançar, ” recorda Juliana com entusiasmo. No entanto, ela também relembra os desafios enfrentados pelo grupo: “As gerações foram se passando e, com a falta de incentivo, o grupo foi se fragmentando. Mas ele ainda tentou muito manter o Reisado vivo. Tirava dinheiro do próprio bolso pra pagar as meninas pra dançar.

Após uma vida dedicada à cultura de sua comunidade, Mestre Dedeca faleceu aos 93 anos, em novembro de 2023, deixando um legado inestimável, alicerçado na persistência e no amor pela tradição do Reisado. Sua partida foi profundamente sentida pela comunidade, que encontra no incentivo e na paixão que ele transmitiu a força para manter viva essa rica manifestação cultural.

Guiados pela memória de Mestre Dedeca, os moradores agora se empenham em preservar e valorizar o Reisado, garantindo que essa tradição não apenas resista ao tempo, mas continue a inspirar e a florescer para as gerações futuras.

Reconhecimento

Considerado um dos mais importantes mestres de Reisado do estado, Mestre Dedeca viu seu maior sonho se realizar com o reconhecimento de sua vida dedicada à tradição do Reisado no árido sertão alagoano. Em 2008, recebeu o título de Patrimônio Vivo de Alagoas, concedido pela Secretaria de Estado da Cultura e Economia Criativa (Secult). Esse marco coroou décadas de esforço e dedicação para preservar e transmitir essa importante expressão cultural.

“Quando seu Dedeca foi reconhecido e começou a representar a nossa comunidade, foi muito importante e enriqueceu bastante o Reisado. E hoje nós queremos continuar. O Reisado pode ter vindo lá de trás, dos nossos antepassados, mas quem está na história registrada é seu Dedeca. Ele precisa ser homenageado,”

comentou a professora Antônia.

Continuidade

Juliana ao lados dos filhos do Mestre Dedeca, Antônio e Paulo. Foto: Iranei Barreto

Segundo Paulo, ele e seus irmãos não possuem as habilidades necessárias para dar continuidade ao Reisado Nossa Senhora Aparecida, e por isso, depositam suas esperanças em Juliana, que carrega o desejo de revitalizar a tradição na comunidade. “Agora o Reisado está nas mãos da minha sobrinha Juliana, que aprendeu com ele e agora está querendo resgatar essa nossa história, ” explica.

Juliana, determinada, compartilha seu compromisso com o legado de Mestre Dedeca: “O que eu puder fazer para, de certa forma, continuar o legado do meu avô, eu farei – não do jeito que ele fez, mas a minha semente eu pretendo deixar – por mim, por ele e por todos que moram aqui.”

Ela explica que, embora tenha dançado Reisado por muitos anos, precisou se afastar devido aos estudos. “Dancei Reisado durante um bom tempo, mas, como tive que me dedicar aos estudos, eu parei um pouco. Morei em Sergipe por um ano, estudei durante cinco anos na Ufal campus Sertão, então também fiquei um pouco afastada do Reisado. E atualmente, depois que eu retornei de Sergipe, estamos tentando resgatar o Reisado, da forma como eu posso.”

Após o falecimento de Mestre Dedeca, o Reisado Nossa Senhora Aparecida está aos poucos retomando suas atividades, agora com um fôlego renovado. “No mês de agosto, já realizamos uma apresentação aqui na Serra do Cavalo, e conseguimos reunir ex-integrantes do grupo, tanto dançarinos como tocadores. Foi um momento muito marcante para a gente. E esse evento também foi uma homenagem ao meu avô Dedeca, ” relembra Juliana com emoção.

“Foi um momento muito ímpar para mim, porque pude relembrar um pouco do que já tinha dançado, e ainda consegui convidar outras pessoas para participar desse evento. Pude ver as pessoas se emocionando ao nos ver dançando novamente, porque muitos participantes antigos já faleceram, outros não podem mais participar por conta da idade. Então, hoje, tenho tentado chamar as pessoas mais jovens para se integrarem ao nosso Reisado Nossa Senhora Aparecida,”

declarou Juliana

Galeria de Imagens  Entrevista


Arquivo Audiovisual


Publicações encontradas

Reportagens e postagens sobre o Mestre Dedeca publicadas na internet
Morre aos 93 anos Mestre Dedeca, Patrimônio Vivo de Alagoas
https://secult.al.gov.br/noticia/1677-morre-aos-93-anos-mestre-dedeca-patrimonio-vivo-de-alagoas
Dedeca (falecido)
https://secult.al.gov.br/politicas-e-acoes/registro-do-patrimonio-vivo/mestres-do-rpv-al-por-ano-de-premiacao/ano-2008/595-dedeca-falecido
Morre Mestre Dedeca, considerado patrimônio vivo de Alagoas
https://radiosampaio.com.br/morre-mestre-dedeca-considerado-patrimonio-vivo-de-alagoas/
Morre o Mestre Dedeca patrimônio vivo do estado de Alagoas aos 93 anos
https://www.portalalagoasnt.com.br/noticia/41369/morre-o-mestre-dedeca-patrimonio-vivo-do-estado-de-alagoas-aos-93-anos.html#google_vignette
Morre José Pereira Lima, Mestre Patrimônio vivo de Alagoas, aos 93 anos
https://www.alagoas24horas.com.br/1557031/morre-jose-pereira-lima-mestre-patrimonio-vivo-de-alagoas-aos-93-anos/
DEDECA – MESTRE DE REISADO
https://www.youtube.com/watch?v=1SnBBv_1e7w
Mestres são homenageados no Dia do Folclore
https://www.alagoas24horas.com.br/773015/mestres-sao-homenageados-no-dia-do-folclore/
REISADO Água Branca – Alagoas
https://www.youtube.com/watch?v=iGtdmBvaHWw

Créditos da reportagem

Equipe de pesquisa:  Iranei Barreto, Nicollas Serafim, Givaldo Kleber

Transcrição das entrevistas: Nicollas Serafim

Texto: Iranei Barreto

Identidade Visual: Joenne Mesquita

Créditos das imagens: Iranei Barreto, Léo Villanova e da internet


*Texto em constante atualização. A proposta do projeto Entorno dos Mestres é criar um arquivo com o maior número de informações possíveis sobre os Mestres do Patrimônio Vivo de Alagoas já falecidos.

 *LPG  ALAGOAS – O projeto “Entorno dos Mestres” é realizado com recursos da Lei Paulo Gustavo do Governo Federal, operacionalizado pelo Governo de Alagoas, através da Secretaria de Estado da Cultura e Economia Criativa (SECULT). 

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