
Nome completo: Antônio Salvador de Souza
Conhecido como: Canarinho de Alagoas
Atividade reconhecida: Trovador, repentista e embolador.
Local e data de nascimento: 26 / 02/ 1946 (Limoeiro de Anadia)
Local onde atuou: Taquarana
Patrimônio vivo de Alagoas: 03 / 08/ 2012
Falecimento: 13 / 07/ 2024 (Aos 87 anos)
Antônio Salvador de Souza, eternizado como Canarinho de Alagoas, começou sua trajetória artística ainda jovem, conquistando praças e feiras livres com sua arte. Por mais de cinquenta anos, encantou o público com sua habilidade como embolador, trovador e repentista, consolidando-se como um ícone da oralidade nordestina.
Sua versatilidade artística ia além das rimas improvisadas. Durante mais de duas décadas, Canarinho participou como palhaço em grupos de guerreiros alagoanos, uma das manifestações folclóricas mais ricas do estado. Atuou ao lado de figuras lendárias como Joana Gajuru (Maribondo), João Inácio (Boca da Mata), Zé Pequeno (Capela), Zé Anjo (Pilar) e Mestre Eduardo (Coruripe). Posteriormente, fundou seu próprio grupo, o Guerreiro Leão do Norte, ampliando sua contribuição à cultura popular.
Além do palco e da praça, Canarinho também transitou pelas telas. Ele teve uma breve, mas significativa participação no filme A Hora e a Vez de Augusto Matraga (2015), dirigido por Vinícius Coimbra, demonstrando que sua arte transcendia os limites regionais e dialogava com outras linguagens.

As Raízes de um Mestre
Suas raízes artísticas têm origem no convívio familiar e nas tradições locais. Canarinho deu os primeiros passos embalado pelo som do pandeiro, instrumento que aprendeu a tocar com incentivo do pai, que também o presenteou com um cavaquinho. Entretanto, foi com a viola que encontrou sua verdadeira essência artística.
Desde criança, Canarinho desenvolveu seu talento observando outros cantadores e aperfeiçoando sua habilidade natural para improvisar. Sua voz marcante e presença de espírito logo o destacaram nos desafios, martelos, galopes à beira-mar e outras formas de cantoria de viola.
Um grande poeta e animador nato, ele conquistava as feiras com suas composições sempre autorais e repletas de criatividade. Iniciou sua carreira cantando emboladas em feiras de cidades como Anadia, Maribondo, Taquarana e Arapiraca. Com o tempo, expandiu seu público, levando sua arte ao centro de Maceió e, posteriormente, a São Paulo, onde encantou a colônia nordestina.



Legenda para #CEGOVER | Na imagem, Canarinho de Alagoas, um homem idoso, de pele morena e cabelos grisalhos, está sentado e tocando seu pandeiro. Ele veste uma camisa azul. O fundo é de uma parede verde clara.
Com sua simplicidade característica, ele dominava tanto o dedilhar da viola quanto o ritmo do pandeiro, sempre acompanhado de sabedoria em suas rimas e versos. Na poesia do repente ou na embolada improvisada, Canarinho cantava a vida do homem do interior de Alagoas, retratando com autenticidade as tradições e desafios do sertanejo.
“Eu nasci para cantar”, afirmava o mestre. Em suas apresentações, Canarinho gostava de desafiar: “Não tem cantador que canta no meu rojão” e “Faço de cabeça, qualquer tema”, revelando seu entusiasmo e domínio do improviso.
João de Lima, também Mestre do Patrimônio Vivo, resumiu a grandiosidade de Canarinho: “Ele era um verdadeiro mestre, criativo e dono de um talento imenso. Tudo o que cantava era de sua autoria, fruto de uma genialidade rara. Nas feiras, com o pandeiro em mãos, arrancava risadas e aplausos. Era impressionante!”
Reconhecimento e Legado
Em agosto de 2012, Canarinho foi oficialmente declarado Patrimônio Vivo de Alagoas, uma honraria que reconheceu sua contribuição inestimável à cultura popular do estado. O Mestre da embolada faleceu no dia 13 de julho de 2024, aos 78 anos, de forma inesperada, deixando um vazio profundo na cultura popular alagoana. Apesar de sua ausência física, o legado que ele construiu segue firme através de sua família, amigos e admiradores.

Seu legado segue vivo, mantido pela nova geração. Os filhos de Canarinho, assim como sua nora Quitéria, assumiram a responsabilidade de continuar essa tradição, adaptando-a aos novos tempos, mas sempre respeitando a essência deixada pelo mestre. Como Brás, seu filho mais velho, disse: “Ele se foi de repente, ainda estava muito seguro para cantar e improvisar. Mas o pai pediu para não deixar nossa cultura se acabar. É o que estamos fazendo, mantendo o Guerreiro Leão do Norte e a arte que ele tanto amava. ”
Três de seus filhos herdaram o talento do pai e continuam a tradição da cantoria. “Fico orgulhoso de ver que meus filhos seguem essa arte. Espero que isso ajude a nunca se acabar”, declarou o mestre em uma de suas entrevistas.

Erisvânio, filho do mestre e conhecido artisticamente como Eri da Embolada, relembra emocionado:
“Meu pai sempre ajudou a gente com tudo, era deficiente visual a vida toda, desde que nasceu. Fazia suas coisas, andava uma légua a pé, cantando com o pandeirinho dele como cantador repentista. Graças a Deus nós puxamos a ele também. Canarinho sempre foi um grande pai, um grande poeta, todo mundo sabe disso, conhecido em toda Alagoas. Meus irmãos Baratanha, Brá e a Silvana também fazem repente e embolada. Meu velhinho está com Deus e com nós todos também, porque para a gente ele nunca morreu. ”
Eri também destaca a generosidade de Canarinho e sua receptividade por onde passava: “Em todo lugar que ia, ele era bem recebido. Mesmo sendo deficiente visual, sempre deu para nós o nosso pão de cada dia e deixou para a gente uma profissão legal e essa cultura bacana que é a de cantador de embolada, viola, guerreiro que ele também cantava. Ele não foi bom só para mim, foi para todo mundo: neto, sobrinho, filho. Ainda guardamos a viola dele, o tambor de guerreiro que ele usava. ”
Brás, também compartilha suas lembranças: “A gente como filho seguiu a mesma profissão dele. Quando eu comecei em Guerreiro tinha uma faixa de uns 12 anos de idade, comecei como tamborzeiro. Cantamos com mestre Jayme, lá em Coruripe no Guerreiro do Mestre Eduardo, depois passamos para o Guerreiro do João Inácio, e eu sempre como tamborzeiro, depois que fui aprendendo a bater pandeiro e seguir a arte. Tornei-me repentista de viola, de pandeiro, toco teclado, faço de tudo um pouquinho da nossa cultura. ”

Ele destaca a importância de preservar o legado do pai: “Meu pai passou todo o conhecimento que ele teve para quem se interessou em aprender. Eu sempre seguia os passos dele, porque tinha interesse e achava bonito e eu nasci com o dom, graças a Deus. Eu estou ensaiando aqui com 25 meninas para o Guerreiro Leão do Norte não parar, porque era o que ele queria. Ele se foi de repente, ele ainda estava muito seguro para cantar e improvisar. Eu fiquei uns 3 ou 4 meses assim sem querer mexer em nada, mas tive muita força de Quitéria. A prefeitura ajudou também, o secretário conhece e gosta muito do trabalho da gente. O pai pediu para não deixar nossa cultura se acabar. Trabalho com minha esposa Quitéria que faz as decorações dos chapéus, a gente está trabalhando mais com papelão industrial porque o chapéu fica mais leve. ”

Quitéria, esposa de Braz, também reforça sua dedicação à preservação da cultura:
“Conhecia a família do Canarinho da rádio que eles cantavam. Daí eu peguei o telefone deles e comecei a ajudar no que eu podia. Saímos muito com o mestre Canarinho, ainda cheguei a cuidar dele também durante uns tempos. E depois comecei a dar força e a ajudar a montar os chapéus do Guerreiro. É complicado, mas eu consegui aprender essa arte. É uma arte muito boa. Não sei tocar, mas canto com ele (Brás). ”
Com a força e união familiar, a tradição deixada por Canarinho de Alagoas continua a florescer, garantindo que a cultura popular alagoana permaneça viva para as próximas gerações. Como afirmou certa vez o próprio Mestre Canarinho sobre a eternidade da poesia popular: “O povo gosta de poesia, e ela sempre há de existir, na voz e nos versos de um Canário das Alagoas. ”
Galeria de Imagens – Entrevista










Arquivo Audiovisual
Publicações encontradas
Créditos da reportagem
Equipe de pesquisa: Iranei Barreto, Nicollas Serafim, Givaldo Kleber
Transcrição das entrevistas: Nicollas Serafim
Texto: Iranei Barreto
Identidade Visual: Joenne Mesquita
Créditos das imagens: Iranei Barreto e da internet
*Texto em constante atualização. A proposta do projeto Entorno dos Mestres é criar um arquivo com o maior número de informações possíveis sobre os Mestres do Patrimônio Vivo de Alagoas já falecidos.
*LPG ALAGOAS – O projeto “Entorno dos Mestres” é realizado com recursos da Lei Paulo Gustavo do Governo Federal, operacionalizado pelo Governo de Alagoas, através da Secretaria de Estado da Cultura e Economia Criativa (SECULT).

